531. 531. Em Nobe, doentes e peregrinos de toda região.Valéria e o divórcio. Cura do pequeno Levi.
15 de novembro de 1946.
531.1Jesus está no meio dos doentes ou dos peregrinos que vieram até Ele de muitos lugares da Palestina
Entre eles, há também um navegante de Tiro, que um desastre no mar fez que ficasse paralítico, como ele mesmo conta: foi a queda de um fardo, que tombou por causa do balanço do navio. As mercadorias pesadas foram para cima dele e o atingiram na espinha dorsal. Ele não morreu, mas está pior do que um morto, porque, tendo perdido tudo, quer que os parentes deixem de trabalhar para cuidarem dele. Diz ter ido com eles a Cafarnaum, depois a Nazaré, e ter ficado sabendo que o Senhor estava na Judéia e podia ser encontrado em Jerusalém.
– Deu-me os nomes dos amigos que te poderiam hospedar. E um galileu de Séforis me disse que Tu estás aqui. E eu vim. Fiquei sabendo que Tu não desprezas ninguém, nem mesmo os samaritanos. E espero que me atenderás. Eu tenho muita fé.
A mulher dele não fala. Mas estando acocorada perto do pequeno colchão sobre o qual puseram o doente, fica olhando para Jesus com uns olhos que suplicam mais do que quaisquer palavras.
– Em que ponto é que foste atingido?
– Por baixo do pescoço. Foi nesse ponto o choque mais forte e senti um barulho na cabeça, como o do bronze quando é percutido. Depois se transformou em um mugido contínuo, como o do mar em tempestade, e vi luzes de todas as cores, que começaram a dançar na minha frente… Depois, não senti mais nada, durante muitos dias. Estávamos navegando nas águas de Cintium e eu me dei conta de que estava em minha casa, sem saber como. Tornei a sentir o mugido na cabeça e as luzes na vista, por muitos e muitos dias. Depois tudo passou… mas meus braços ficaram mortos e as pernas também. Eu sou um homem acabado, aos quarenta anos. E tenho sete filhos, Senhor.
– Mulher, soergue o teu marido e descobre o ponto em que ele foi atingido.
A mulher obedece, sem nada falar. Com movimentos bem ajeitados e maternais, ajudada pelos que vieram com ela, não sei se é seu irmão ou cunhado, ela enfia um braço por baixo do ombro do esposo, enquanto com a outra mão, e com aquela delicadeza com que trataria um recém-nascido, ela levanta da pequena cama o pesado corpo. Uma cicatriz, ainda vermelha, mostra o ponto da ferida maior.
Jesus se inclina. Todos espicham o pescoço para olhar. Jesus apoia as pontas dos dedos na cicatriz, dizendo:
– Eu quero!
O homem sente uma sacudidela, como se tivesse sido tocado por uma corrente elétrica, e dá um grito:
– Que fogo!
Jesus tira os dedos de sobre as vértebras lesadas, e diz:
– Levanta-te!
O homem não espera que Jesus o diga duas vezes. Apoiar-se nos braços, que há meses estavam inertes sobre a pequena cama, sacudir-se para ficar livre de que o prendia, jogar as pernas para baixo da baixa padiolinha e pôr-se de pé. Tudo isso foi feito em muito menos tempo do que o que eu usei para descrever as fases do milagre.
A mulher grita, o parente grita, o homem curado levanta os braços para o céu, emudecido pela alegria. É só um instante de uma estonteante alegria e depois ele dá meia volta sobre si mesmo, com a firmeza de um homem bem ágil, e se encontra frente a frente com Jesus. Aí ele adquire de novo a voz e grita:
– Bendito és Tu e quem te mandou! Eu creio no Deus de Israel e em Ti, seu Messias –e se joga no chão, para beijar os pés de Jesus, em meio à gritaria do povo.
531.2Em seguida, os outros milagres sobre as crianças pequenas, as mulheres e os velhos em geral. Depois Jesus fala.
– Vistes o milagre de ossos quebrados que se tornam inteiros de novo e de membros mortos que se tornam vivos. Isto vos foi concedido ver pelo Senhor, para confirmar a fé naqueles que creem e suscitá-la naqueles que não a têm. E o milagre foi concedido a pessoas de todos os lugares, que vieram até aqui em busca de saúde, impelidas pela fé no meu poder de curar.
Aqui há judeus e galileus, libaneses e siro-fenícios, habitantes da longínqua Batanéia e das costas marítimas. E todos vieram sem se preocupar com a estação nem com a distância do percurso, e os parentes os acompanharam sem murmurar, sem se lamentar pelos trabalhos que deixaram interrompidos e pelos negócios deixados por terminar. Porque todo sacrifício era nada em comparação com o que eles iam conseguir. E assim como caíram os egoísmos e as incertezas do homem, assim também caíram as ideias políticas ou religiosas que antes formavam como que uma muralha, colocada para impedir que se considerassem todos irmãos, todos iguais no viver e no sofrer, no desejar e esperar saúde e conforto. Eu, a todos os que souberam unir-se em uma esperança que já é fé, concedi a saúde e o conforto. Porque é justo que assim seja.
531.3Eu sou o Pastor universal e devo acolher todas as ovelhas que querem entrar no meu rebanho. Eu não faço distinção entre as ovelhas sãs e as doentes, entre as fracas e as fortes, entre as que me conhecem, porque já são do rebanho de Deus, e as ovelhas que até agora não conheciam nem a Mim nem ao verdadeiro Deus. Porque Eu sou o Pastor da Humanidade, e recolho as minhas ovelhas de qualquer lugar onde estiverem e se dirigirem a Mim. São ovelhas magras, sujas, maltratadas, ignorantes, feridas por pastores que não as amavam e as rejeitaram, dizendo que eram imundas. Mas não há imundície que não possa ser limpa. E não há imundície que, querendo ficar limpa, e pedindo para sê-lo, possa ser rejeitada com a desculpa de que está suja.
Os bons desejos são suscitados por Deus. Se Ele os suscita, é sinal de que deseja que se tornem realidade. É o próprio Espírito de Deus que pede com orações inefáveis essa assimilação de todos os homens por parte do Amor, porque o Espírito de Deus deseja efundir-se e enriquecer-se. Efundir-se amando um número ilimitado de seres, o suficiente apenas para dar conforto à sua infinitude de Amor e enriquecer-se do amor de um número sem limites de seres que são atraídos por Ele, pela doçura de seus perfumes.
Por isso não é licito a ninguém desprezar ou rejeitar quem quer entrar no rebanho santo.
Isto seja dito para aqueles que entre vós gostam de cultivar nos corações as ideias de muitos em Israel, ideias de distinções e de julgamentos não amados por Deus, porque são contrários aos seus desígnios de fazer de todos os povos um só Povo que leve o Nome do Messias por Ele enviado.
Por enquanto, Eu falo também àqueles que vieram de fora, às ovelhas até agora selvagens, e que sentem o desejo de entrar no único rebanho do único Pastor. E digo: nada os faça desconfiar, nada os envileça. Não existe paganismo nem idolatria, nem vidas diferentes da que eu ensino que não possam ser renegadas e rejeitadas, permitindo ao espírito poder refazer-se e tornar-se livre de todas as plantas más, para poder ficar apto, a fim de receber as novas sementes e revestir-se de novas fardas. E isso, mais ainda do que a saúde para os membros, é que deveria empurrar as pessoas para Mim.
531.4Como — e sirva o que digo tanto para os hebreus da Palestina, como para os hebreus e prosélitos da Diáspora, como para os gentios — como sabeis vir a Mim, para que seja tirado de vossas carnes doentes o jugo das enfermidades, assim sabei vir para que seja tirado do vosso espírito o jugo do pecado e do paganismo. Deveríeis todos pedir-me em primeiro lugar essa libertação, que é querer o Reino de Deus em vós como primeiro milagre. Porque, tendo esse Reino em vós, todas as outras coisas vos serão dadas, e dadas de tal modo que o presente não fique pesado como um castigo na outra vida. Não ficastes pensando nas intempéries, nas canseiras, nas perdas de dinheiro, quando vínheis atrás da saúde para os vossos membros que, mesmo estando hoje cansados, qualquer dia destes perecerão em uma morte física. Com a mesma disposição deveríeis saber enfrentar todas as dificuldades para conseguirdes a saúde para o vosso espírito e a vida eterna, com a posse do Reino de Deus.
Escárnios e ameaças dos parentes, ou dos concidadãos, ou das autoridades, que é que são, em comparação com aquilo que todos vós tendes, de qualquer lugar que tenhais vindo, se souberdes dirigir-vos para a Verdade e a Vida? Quem é que deixaria de ir para um lugar, onde soubesse que o está esperando uma vida feliz, para se entreter durante um dia com uma festa que dura só até o pôr do sol? No entanto, muitos fazem assim. E para se saciarem, por uma fração de tempo, com as insípidas e inúteis alegrias do mundo, deixam de ir ao lugar onde achariam para sempre o verdadeiro alimento, a verdadeira saúde, a verdadeira alegria, e sem o medo de vê-la ser-lhe tirada pelo ódio do inimigo.
No Reino de Deus não há ódio, nem guerra, nem injustiças. Quem entra nele não conhece mais a dor, a aflição, a violência, mas possui a alegria da paz que emana de meu Pai.
Eu me despeço de vós. Ide. Voltai às vossas terras. Os meus discípulos já são numerosos e estão espalhados por todas as regiões da Palestina. Escutai-os, se quereis conhecer a minha Doutrina e estar prontos para o dia da decisão, da qual dependerá a vida eterna de muitos. Eu vos dou a minha paz para que ela vá convosco.
E Jesus, tendo abençoado o povo, volta para a casa…
531.5Os apóstolos ficam ainda lá fora por algum tempo, depois entram para a refeição, porque o sol, no alto do céu, está dizendo que já é meio-dia. Sentados à rústica mesa, depois da bênção da comida, que se compõe de pequenos queijos e raízes cozidas temperadas com óleo, estão falando dos acontecimentos da manhã e se felicitam, porque o número dos discípulos evangelizadores já é tão grande a ponto de aliviar o Mestre do cansaço de ficar falando continuamente, nas condições do cansaço em que se encontra. De fato, Jesus ficou mais magro nestes últimos tempos, e sua cor natural, que é de um branco-marfim firme, com apenas uma sombra de róseo por baixo do amorenado da pele no alto das faces, agora está completamente branco, parecendo uma pétala de magnólia, já emurchecida..
A mim, que vivi em Milão muito tempo e conheço a delicada cor do mármore de Candoglia, com o qual foi construído o magnífico Duomo, o rosto do Senhor, nestes últimos e dolorosos meses de sua vida terrena, me parece justamente da cor daquele mármore, que não é branco, não é róseo, não é amarelo, mas faz lembrar, com suas delicadas nuanças, aquelas três cores. Os olhos estão mais encovados e por isso parecem mais escuros, talvez também porque uma sombra de cansaço lhes ofusque as pálpebras e as olheiras. Seus olhos são os de quem dorme pouco, de quem chora e sofre… E sua mão parece mais longa, porque está descarnada e pálida, a doce mão do meu Senhor, que já mostra o relevo dos tendões e das veias, tem os sinais da magreza, e esta já faz aparecer os santos ossos que estão por baixo, a mão mártir já pronta para o cravo que a transpassará e ficará mais fácil para o carrasco achar o ponto onde deve enfiar o cravo, porque não há nenhuma camada de gordura na mão ascética do meu Senhor.
Agora ela está abandonada, como se estivesse cansada, sobre a madeira escura da mesa, enquanto Ele sacode a cabeça sorrindo com esforço para os seus apóstolos, que percebem o grande cansaço que Ele sente em seus membros, em sua voz e, sobretudo, em seu coração, tão aflito, tão enfraquecido pelo esforço de ter de manter unidos tantos e tão diferentes corações, de ter de suportar e conservar escondida a desonra do discípulo incorrigível…
531.6Pedro observa:
– Tu, até a festa da Dedicação, deves ter um descanso completo. Das pessoas que vierem, nós cuidaremos. Tu irás… Sim! Irás para a casa de Tomé. Estarás perto e estarás em paz.
E Tomé aprova a proposta de Pedro. Mas Jesus sacode a cabeça. Não. Ele não quer ir.
– Está bem, Tu não falarás nestes dias. Nós o poderemos fazer. Não serão palavras excelentes, mas diremos o que sabemos. E Tu somente curas os doentes.
– Nós também podemos fazer isso –diz Iscariotes.
– Hum! Por mim, eu me retiro –diz Pedro.
– No entanto, já o fizeste!
– É verdade. Quando o Mestre não estava conosco e nós devíamos agir como representantes dele e fazer que Ele fosse amado. Mas agora Ele está presente e os milagres Ele os fará. Somente Ele é digno disso. Milagres, nós? Mas se estamos precisando receber o milagre da nossa própria renovação, porque por nós mesmos, eu me lembro bem, não fazemos nunca nada de bom. Nós somos uns miseráveis, pecadores e ignorantes.
– Fala por ti mesmo, eu te peço. Eu não me sinto um miserável, de modo algum! –rebate Judas de Keriot.
– O Mestre está cansado. E seu cansaço é mais moral do que corporal. Se é verdade que o amamos, evitemos discussões. São elas que mais acabam com Ele –diz, sério, Zelotes.
Jesus levanta os olhos, olhando para o apóstolo ancião, sempre tão sábio, e lhe estende uma mão por cima da mesa para acariciá-lo. O Zelotes segura, entre suas mãos escuras, aquela mão branca e a beija.
– Tens razão. Mas eu também, quando digo que Ele deve tomar um repouso total. Ele parece doente!… –insiste Pedro.
Todos estão de acordo, até o velho João e Elisa, que diz:
– Há muito tempo venho dizendo isso. E por isso, gostaria…
531.7Estão batendo à porta. E André, que está mais perto da saída, vai abrir, e sai, fechando a porta atrás de si. Ele torna a entrar e diz:
– Mestre, é uma mulher. Ela faz questão de te ver. E traz consigo uma menininha. Deve ser de alta condição, ainda que esteja vestida modestamente. Eu diria que nem ela nem a menina estejam doentes. Mas, eu não sei por que, ela está completamente velada. A menina traz nos braços umas flores muito bonitas.
– Manda-a embora. Estamos dizendo que Ele deve repousar e tu não o deixas nem acabar de comer! –resmunga Pedro.
– Eu lhe disse. Mas ela me disse que não importunará o Mestre e que Ele certamente se alegrará ao vê-la.
– Dize-lhe que volte amanhã à hora em que todos vêm. Agora o Mestre vai descansar.
– André, acompanha-a até o quarto de cima. Eu vou logo –diz Jesus.
– Aí está. Eu já sabia. É assim que Ele toma cuidado. Justamente como dizíamos para fazer!
Pedro está inquieto.
Jesus se levanta e, antes de sair, passa por detrás de Pedro, põe-lhe as mãos sobre os ombros, inclina-se um pouco para beijá-lo sobre os cabelos e lhe diz:
– Está bem, Simão. Quem me ama alivia o meu cansaço mais do que o repouso em uma cama!
– Como é que sabes se essa é uma que te ama?!
– Oh! Simão! Tua inquietação te faz dizer palavras das quais já te arrependeste, porque percebeste que são tolas! Bem! Bem! Uma mulher que vem com uma criatura inocente e que me traz sua filhinha inocente, com os braços carregados de flores, não pode ser senão uma que me ama e que intui a minha necessidade de achar um pouco de amor e pureza no meio de tanto ódio e sujidade.
E lá se vai, subindo pela escada do terraço, enquanto André, tendo cumprido sua missão, volta para a cozinha.
531.8A mulher está junto à porta do quarto de cima. Ela é alta, esbelta, coberta com um pesado manto cinzento, com o rosto velado com um pano de linho cor de marfim, que lhe desce do capuz que está preso ao redor do rosto. A menina, uma criança ainda, que terá no máximo três anos, tem um vestidinho branco de lã e um pequeno manto com um capuzinho também branco. Mas o capuzinho está muito caído para trás sobre os cabelos de uma delicada cor louro-castanho, porque a pequenina está olhando para a mulher, levantando o rostinho que se destaca das flores que ela segura apertadas entre os dois bracinhos. São flores muito bonitas e que só se podem encontrar nestes lugares no frio mês de dezembro: rosas cor de carne misturadas com delicadas flores brancas, que não sei como se chamam; não sou muito entendida em floricultura.
Jesus logo que põe o pé no terraço é saudado pela voz da pequenina, que corre ao seu encontro estimulada pela mulher, que lhe diz:
– Salve, Senhor Jesus!
Jesus se inclina de sua alta estatura sobre sua pequenina devota e pousando a mão sobre os seus cabelos, lhe diz:
– A paz esteja contigo.
E depois se ergue de novo e acompanha a filhinha que, com uma risadinha, volta para a mulher, que está profundamente inclinada, tendo ido colocar-se ao lado da porta para deixar o Mestre passar.
Jesus a saúda com um sinal de cabeça e entra no quarto, indo sentar-se na primeira das cadeiras que encontra, ficando calado como quem está esperando. Ele tem a majestade de um rei. Sentado em sua cadeira de madeira e sem espaldar, perece estar sentado em um trono, pois tal é a sua austera dignidade. Sem manto, somente a veste de azul muito escuro, sem ornamentos nem frisos, um pouco desbotada nos ombros, onde a água da chuva, o Sol, a poeira e o suor já desbotaram a cor, uma veste limpa e pobre, mas parece estar vestido de púrpura, tamanha é a majestade de sua atitude. Muito rígido, quase hierático no rigor em que sustenta a cabeça sobre o pescoço, as mãos pousadas sobre os joelhos, tendo como fundo a parede nua e somente alvejada com cal, tendo suspenso atrás da cabeça, não um estofo de seda, nem um baldaquino, mas uma peneira para farinha e uma corda da qual estão penduradas cabeças de alho e cebolas, e está mais imponente do que se tivesse um pavimento de ouro sob seus pés, uma parede dourada atrás de suas costas e um véu de púrpura ornado com pedras preciosas sobre sua cabeça.
Ele está esperando. A sua majestade paralisa a mulher e a deixa em um estupor cheio de veneração. Também a menina está calada e imóvel ao lado da mulher, um pouco apavorada talvez. Mas Jesus esboça um sorriso, dizendo:
– Estou aqui por causa de vós. Não temais.
Então cessam todos os temores. A mulher sussurra qualquer coisa ao ouvido da menina e a menina se move, acompanhada pela mulher; vai para perto dos joelhos de Jesus e depõe no colo dele todas as suas flores, dizendo:
– As rosas de Faustina ao seu Salvador.
E diz isso lentamente, como quem pouco sabe de uma língua que não é a sua. Enquanto isso, a mulher foi ajoelhar-se atrás da menina, jogando para trás o véu. É Valéria, a mãe da pequenina, que saúda Jesus com sua saudação romana:
– Salve, ó Mestre.
– Deus venha a ti, mulher. Como é que estás aqui? E assim sozinha? –diz Jesus, enquanto acaricia a pequenina, que não está mais com medo, e que não satisfeita por ter posto as flores no colo de Jesus, procura com suas mãozinhas no ramalhete perfumado, escolhe as que ela acha que são as mais belas, e diz–: Toma! Toma! São tuas, sabes?
E levanta, ora uma rosa, ora uma das grandes umbelíferas brancas com estrelinhas olorosas até perto do rosto de Jesus, que as aceita e depois as recoloca no acérvulo perfumado.
531.9Enquanto isso, Valéria fala:
– Eu estava em Tiberíades, porque minha filha estava um pouco doente e o nosso médico havia aconselhado…
Valéria faz uma longa pausa, muda de cor e depois diz apressadamente:
– E eu estava sofrendo muito em meu coração e desejava ver-te. Porque aquela dor um só médico podia curar: Tu, Mestre, que tens palavras de justiça em todas as coisas… De sorte que eu teria vindo de qualquer maneira. Pelo egoísmo de ser confortada e também para saber o que é que eu devo fazer para… Sim, para praticar ações de reconhecimento a Ti e ao teu Deus, que me concedestes ter esta minha filha… Mas nós sabemos muitas coisas, Mestre. As notícias dos menores acontecimentos da Colônia são colocados cada dia na tabuleta de serviços de Pôncio Pilatos, o qual toma conhecimento delas, mas para tomar decisões sobre os assuntos ele se aconselha muito com Cláudia… Muitas das notícias falam de Ti e dos hebreus, que vêm agitando o país e fazendo de Ti, ao mesmo tempo, um estandarte de libertação nacional e uma causa de ódio civil. Cláudia olha o caso com justiça e diz ao marido que só de um em toda a Palestina ele não precisa temer que seja a causa de sua desgraça: de Ti. E Pilatos a ouve cada dia… Até agora, a mais forte tem sido Cláudia. Mas se amanhã alguma outra força dominasse Pilatos… Soube, portanto, e senti que a minha inocente te teria consolado.
– Tiveste um coração bondoso e inspirado, mulher. Deus te ilumine em tudo e vele sobre esta tua filha, agora e sempre.
– Obrigada, Senhor. Eu tenho necessidade de Deus…
E as lágrimas caem dos olhos da Valéria.
– Sim, tu precisas dele. Em Deus encontrarás todo conforto e saberás encontrar a guia para seres justa em teus julgamentos, em perdoar, amar ainda, e sobretudo educar esta, para que tenha a vida feliz daqueles que são filhos do verdadeiro Deus.
531.10– Tu vês. O Deus que tu não conhecias, que talvez tivesses escarnecido Ele e sua Lei tão diferente dos vossos deuses e das vossas leis e religiões, que tínheis certamente ofendido com um modo de viver no qual a virtude não era respeitada em muitas coisas, leves ainda, se assim achas, mas a caminho de mais graves feridas na virtude e ofensas à Divindade, que criou também a ti, Ele te amou tanto que, por meio de uma dor que tu sentias em tua humanidade de mãe e de mãe que nada sabe de vida futura, e, portanto, de separação temporária da carne de sua carne, Ele te trouxe até Mim. Ele te amou tanto que me conduziu a Cesaréia quando tu estavas quase agonizante sobre as pequenas carnes de tua filha, que já iam ficando frias na agonia. Ele te amou tanto, que a devolveu a ti1, para que tu tivesses sempre presente a lembrança da bondade e do poder do Deus verdadeiro, e tivesses um freio contra toda licenciosidade pagã e um conforto em todas as dores de mulher casada. Ele te amou tanto que, por meio de uma outra dor, reforçou em ti a vontade de vir ao Caminho, à Verdade e à Vida, e de te fixares aí com a tua filha, a fim de que pelo menos ela, desde a sua primeira infância, possua o que é conforto e paz, saúde e luz nos tristes dias desta terra, e tenha tudo isso para ser preservada de tudo o que te faz sofrer em tua parte melhor e na afetiva. A primeira, instintivamente boa, e que não suporta a lama escura em que é obrigada a viver, e a segunda, que é desordenada em sua bondade.
Porque nos teus afetos tu és pagã, ó mulher. Isso não é culpa tua. É culpa do século em que vives. E do gentilismo no qual cresceste. Somente quem está na verdadeira Religião sabe dar aos afetos o valor, a medida e as manifestações justas. Tu, mãe que nada sabias da vida eterna, amavas desordenadamente a tua menina, e vendo-a morrer, te rebelavas desesperadamente com aquela perda e ficavas louca por causa da morte iminente. Como alguém que vê ser arrebatado por um doido o ser que lhe é mais querido, e o vê suspendê-lo sobre um abismo de cujo fundo não poderia sair, se lá caísse, e que de lá nem mesmo poderia ser trazido para fora, nem como despojos já frios para serem beijados por seu amor. Era assim que tu olhavas para a tua Fausta, já suspensa sobre o abismo do nada… Pobre mãe, que não teria tido mais sua filha. Nem mais com sua carne, nem com o seu espírito. Era o nada… O fim de tudo. O miseravelmente perdido, que é a morte, para aqueles que não creem na Vida espiritual.
Tu, uma mulher pagã, amorosa, fiel, amaste no esposo o teu deus terreno, com um amor carnal, o teu belo deus, que se fazia adorar por ti rebaixando a tua qualidade de igual até o nível de um servilismo de escrava. A mulher seja submissa ao marido, humilde, fiel, casta. Sim. O homem é o chefe da família. Mas chefe não quer dizer déspota. Chefe não quer dizer um dono cheio de caprichos, ao qual seja permitido qualquer capricho, não somente quanto à carne, mas sobre a parte melhor da esposa. “Onde estás tu, Caio, aí estou eu, Caia”, como vós dizeis. Pobres das mulheres de um povo cuja licenciosidade está até nas fábulas dos seus deuses, pobres daquelas entre vós, que impudicas e desenfreadas não sois. Como é que podeis estar onde estão os vossos esposos? É inevitável que, quem não é licenciosa e corrompida, se separe com desgosto e com provas de uma dor verdadeiramente atroz, como as de fibras que se dilaceram, um desânimo, um desmoronamento de todo aquele culto prestado ao marido, que sempre havia sido contemplado como um deus, quando descobre que aquele que ela adorava como deus é um miserável ser, dominado pela mais brutal animalidade, licencioso, adúltero, leviano, indiferente, escarnecedor dos sentimentos e da dignidade da esposa.
Não chores. Eu também sei de tudo, sem precisar das notícias dos centuriões. Não chores, mulher. Procura aprender a amar, dentro da ordem, o teu marido.
531.11– Não posso mais amá-lo. Ele não merece mais isso. Eu o desprezo, não me aviltarei a mim mesma, imitando-o, pois não o posso mais amar. Entre nós tudo acabou. Eu o deixei ir-se embora sem procurar detê-lo. Afinal, eu lhe fiquei até agradecida, na última vez, por ter ido embora… Não o irei procurar. Pois, de verdade, quando é que ele foi meu companheiro? Tendo caído a bandagem da minha adoração, agora eu me recordo e julgo as suas ações. Sentia talvez com o meu coração, quando eu chorava, tendo que acompanhá-lo até aqui, deixando minha mãe doente e minha pátria, sendo ainda uma esposa nova e já perto de dar à luz? Ele se ria como um tolo, em companhia de seus amigos, das minhas lágrimas e de minhas náuseas, cuidando somente que não sujasse a veste dele. Estaria ele, por acaso, a meu lado, em minhas saudades de desterrada? Não. Estava em companhia dos amigos nos festins, aos quais o meu estado não me permitia ir… Estava ele, por acaso, junto comigo para balançar o berço de nossa recém-nascida? Ele se riu quando lhe mostraram a filha, e disse: “Por pouco eu a faria pôr no chão. Não foi para ter fêmeas que eu me submeti ao jugo matrimonial.” Ele nem quis estar presente à purificação, dizendo que era uma inútil pantomima. E, tendo a menina começado a chorar, ele disse, ao sair: “Ponde-lhe o nome de Libitina e seja consagrada a essa deusa!” E quando Fausta esteve à morte, por acaso, dividiu ele comigo as aflições? Onde é que ele estava na noite que precedeu a tua chegada? Na casa de Valeriano para um banquete. Mas eu o amava. Ele era, como disseste muito bem, o meu deus. Tudo me parecia bom nele, certo nele. Ele me permitia amá-lo… E eu era a escrava mais escrava dos seus desejos. Sabes por que foi que ele me rejeitou?
– Eu sei. Porque em tua carne havia despertado a alma e já não eras mais uma fêmea, mas uma mulher…
– Isso mesmo. Eu quis fazer de minha casa uma casa virtuosa… E ele tomou providências para ser mandado para Antioquia, ir ficar junto do Cônsul, com a proibição de que eu o acompanhasse, e consigo ele levou as escravas favoritas. Oh! Eu não o seguirei. Eu tenho minha filha. Tenho tudo.
– Não. Não tens tudo. Tens uma parte, uma pequena parte do Tudo, o tanto que te for útil para seres virtuosa. O Tudo é Deus. Tua filha não deve ser motivo de injustiça para com o Tudo, mas sim de justiça. Por ela e com ela tu tens o dever de ser virtuosa.
– Eu vim para consolar-te e tu me consolas. Mas eu vim também para perguntar-te como haverei de educar esta menina, para torná-la digna do seu Salvador. Eu havia pensado em tornar-me prosélita vossa e fazer que ela também se tornasse…
– E o teu marido?
– Oh! Com ele tudo se acabou.
– Não. Tudo está começando. Tu és sempre a mulher dele. O dever da boa mulher é fazer ficar bom o seu consorte.
– Ele diz que quer divorciar-se. E o vai fazer com certeza. Por isso…
– Fará. Mas ainda não o fez. E enquanto ele não o fizer tu és a mulher dele, também segundo a vossa lei. E, como tal, pensa que tu tens o dever de ficar, como sua mulher, em teu lugar. O teu lugar é o de segunda, depois do teu marido, em tua casa. Perto de tua filha, aos olhos dos servos e do mundo. Pensa bem, tu: foi ele quem deu o mau exemplo. É verdade. Mas isso não te exime do dever de dares tu o exemplo de virtude. Ele foi-se embora. É verdade. Tu, ao lado de tua filha e dos servos, toma o lugar dele.
531.12Nem tudo é reprovável em vossos costumes. Quando Roma era menos corrupta, suas mulheres eram castas, laboriosas e serviam à divindade com uma vida de virtude e de fé. Ainda que sua miserável condição as levasse a servir aos falsos deuses, a ideia era boa. Elas ofereciam sua virtude à Ideia da religião, à necessidade do respeito a uma religião, a uma Divindade cujo verdadeiro nome lhes era desconhecido, mas que elas percebiam que existia e que era maior do que o licencioso Olimpo, do que as aviltadas divindades que o povoavam, segundo as lendas da mitologia. Não existia o vosso Olimpo, não existiam os vossos deuses. Mas as vossas virtudes antigas eram fruto da convicção verdadeira de que devíeis ser virtuosos para serdes olhados com amor pelos deuses. Eram frutos do dever que vós sentíeis ter para com as divindades que adoráveis. Aos olhos do mundo, especialmente do nosso mundo judaico, vós parecíeis uns estultos, pois prestáveis vossas honras ao que não existe. Mas para a Justiça eterna e verdadeira, para o Deus Altíssimo, o Único e Onipotente Criador de todas as criaturas e coisas, aquelas virtudes, aquele respeito, aquele dever não eram sem valor. O bem é sempre bem, a fé tem sempre valor de fé, a religião tem sempre valor de religião, se aquele que a segue e pratica e possui, estiver convencido de estar com a verdade.
Eu te exorto a que imites as vossas antigas mulheres castas, laboriosas e fiéis, permanecendo no teu lugar, como coluna e luz em tua casa e de tua casa. Não penses que te seja prestado menos respeito, por parte dos servos, por teres ficado sozinha. Até agora, eles te têm servido com medo e, às vezes, com um sentimento escondido de ódio e revolta. Mas, de agora em diante, te servirão com amor. Os infelizes amam os infelizes. Os teus escravos já sabem o que é a dor. A tua alegria era para eles um aguilhão amargo. Os teus sofrimentos, tendo-te despojado daquele ar frio de patroa no sentido mais odioso desta palavra, te revestirão agora de uma luz que tem um calor de piedade. Tu serás amada, Valéria. E por Deus, por tua filha e por teus servos. E mesmo se já não fores mais a mulher, mas a divorciada, lembra-te (e Jesus se põe de pé) de que a separação legal não destrói o dever da mulher de ser fiel ao seu juramento de esposa.
531.13Tu gostarias de entrar em nossa religião. Um dos preceitos divinos dela é que a mulher é carne da carne do esposo, e que nenhuma coisa ou pessoa pode separar o que Deus fez uma só carne. Entre nós também temos o divórcio. Ele veio como um fruto mau da luxúria humana, do pecado original, da corrupção dos homens. Mas não veio espontaneamente de Deus. Deus não muda sua palavra. E Deus havia dito, ao soprar sobre Adão que ainda era inocente e, por isso, falava, com uma inteligência ainda não ofuscada pela culpa, estas palavras: que os esposos, tendo-se unido, deviam ser uma só carne. Ora, a carne não se separa da carne, a não ser por algum acidente mortal ou por doença. O divórcio mosaico, concedido para evitar pecados atrozes, não concede à mulher mais do que uma liberdade bem escassa. A divorciada é sempre uma rebaixada no conceito dos homens, tanto quando assim fica como quando passa a segundas núpcias. Portanto, no juízo de Deus ela é uma infeliz se se torna divorciada pela aversão que lhe tem o marido, e assim fica divorciada. Mas não passa de uma pecadora, uma adúltera, se assim fica por suas próprias culpas e se casa de novo. Mas tu, querendo entrar em nossa religião, o fazes para me acompanhar. E, então, Eu, o Verbo de Deus, tendo chegado o tempo da verdadeira religião, te digo o que sempre digo a muitos. Não é permitido ao homem separar o que Deus uniu e será sempre adúltero aquele, aquela que, tendo seu consorte vivo, passar a outras núpcias.
O divórcio é uma prostituição legal, para pôr o homem e a mulher em condição de cometer pecados de luxúria. A mulher dificilmente fica viúva de um vivo, e viúva fiel. O homem divorciado não foi nunca fiel ao primeiro casamento. Tanto um como a outra, passando a outras uniões, descem do nível de homens para o dos animais, aos quais é permitido mudar de fêmea a qualquer desejo da sensualidade. A fornicação legal, perigosa para a família e para a Pátria é delituosa para com os inocentes. Os filhos dos divorciados devem julgar o seus progenitores. É um severo juízo, o dos filhos. Os filhos se tornam, pelo egoísmo de seus progenitores, condenados a uma vida ativa mutilada. Porque se, depois das consequências familiares do divórcio, que priva do pai ou da mãe os filhos inocentes, se une em novo matrimônio o cônjuge que ficou com os filhos, vai ficar condenado a uma vida afetiva mutilada em um membro, a uma perda mais ou menos total do afeto do outro membro separado, ou totalmente dominado pelo novo amor e pelos filhos do novo casamento.
Falar de núpcias, de casamento em caso de nova união a um divorciado ou de uma divorciada é profanar o significado e a essência do que é o casamento. Somente a morte de um dos cônjuges e a viuvez consecutiva do outro pode justificar as segundas núpcias; por mais que eu julgue que seria melhor inclinar a cabeça ao veredito sempre justo de quem regula os destinos dos homens e fechar-se na castidade quando a morte pôs um fim ao estado matrimonial, dedicando-se toda aos filhos, e amando o cônjuge, que passou desta para a outra vida, nos filhos que ele lhe deixou. Este é um amor despojado de todo materialismo, amor santo e verdadeiro. Pobres filhos! Conhecer depois da morte ou do desmoronamento do lar, a dureza de um segundo pai ou de uma segunda mãe, e a angústia de ver as carícias divididas com outros filhos, que não são irmãos!
531.14Não. Na minha religião não haverá divórcio. O adúltero, o pecador será aquele que quiser o divórcio civil para contrair uma nova união. A lei humana não mudará o meu decreto. O casamento em minha religião não será mais um contrato civil, uma promessa moral, feita e sancionada na presença de testemunhas para isso chamadas. Mas será um indissolúvel ligame, reforçado, solidificado e santificado pelo poder santificante que a ele Eu darei, fazendo dele um Sacramento. Para fazer-te compreender melhor: será um rito sagrado. Será um poder que servirá de ajuda para praticar santamente todos os deveres matrimoniais, mas que será também uma sentença da indissolubilidade do vínculo. Até agora o matrimônio foi um mútuo contrato natural e moral entre duas pessoas de sexo diferente. Quando chegar a minha lei, ele se estenderá também à alma dos cônjuges. Tornar-se-á por isso também um contrato espiritual sancionado por Deus, através de seus ministros. Agora tu sabes que nada é superior a Deus. Por isso, o que Ele tiver unido nenhuma autoridade ou capricho humano poderá desunir. E aquilo de dizer: “Onde tu estiveres, Caio, eu Caia estarei”, conforme o vosso rito, se perpetua no além no nosso, no meu rito, porque a morte não é o fim, mas uma separação temporária do esposo da esposa, e o dever de amar continua mesmo depois da morte.
Por isso Eu digo que quereria a castidade dos viúvos. Mas o homem não sabe ser casto. E também por isso é que Eu digo que os cônjuges têm o dever recíproco de melhorar o outro cônjuge. Não sacudas a cabeça, este é o dever, e o dever há de ser cumprido, se se quer verdadeiramente acompanhar-me.
531.15– Estás sendo duro hoje, Mestre.
– Não. Eu sou Mestre. E tenho agora na minha frente uma criatura que pode crescer na vida da graça. Se não fosses como és, Eu te imporia menos. Mas tu tens um temperamento bom, e o sofrimento depura e tempera sempre mais o teu metal. Um dia te lembrarás de Mim e me bendirás por ter sido como sou.
– Meu marido não volta atrás.
– Mas tu andarás para frente. Segurando pela mão a inocente, caminharás pelo caminho da Graça. Sem ódio, sem vingança, e também sem aquelas inúteis esperas e saudades daquilo que se perdeu.
– Tu sabes, então, que eu o perdi?
– Eu o sei. Mas tu, não: foi ele quem te perdeu. Ele não te merecia. Então, escuta… É duro, sim. Tu me trouxeste rosas e sorrisos inocentes para me consolar. Eu… não posso nada além de preparar-te para saberes levar a coroa de espinhos das esposas abandonadas… Mas, pensa bem. Se o tempo pudesse voltar atrás e levar-te até naquela manhã na qual Faustina estava morrendo, e o teu coração estivesse em condições de escolher entre a filha e o marido, devendo tu, de qualquer maneira, perder um dos dois, quem é que tu escolherias?…
A mulher reflete, pálida, mas forte em seu sofrimento, depois das poucas lágrimas que derramou no princípio deste diálogo… Depois, ela se inclina sobre a pequenina, que foi sentar-se sobre o piso e se está divertindo em pôr florezinhas brancas ao redor dos pés de Jesus, e a pega, a abraça e grita:
– Esta é que eu escolheria, porque a esta eu posso dar o meu próprio coração e criá-la como eu aprendi que se deve viver. É a minha filha! E estaremos unidas até na outra vida. Serei sempre sua mãe e ela sempre minha filha!
E a cobre de beijos, enquanto a pequenina a aperta sobre o coração, toda amor e sorrisos.
– Dize-me, oh! Dize-me, Mestre, Tu que nos ensinas a viver como heróis, o que e como se haverá de ensinar a esta para podermos estar as duas no teu Reino? Que palavras ensinar-lhe e que ações a praticar?
– Não há necessidade de palavras nem de atos especiais. Sê perfeita, que ela será a imagem da tua perfeição. Ama a Deus e ao próximo, para que ela aprenda a amar. Mais tarde, o meu Pai, que vos tem amado de um modo especial, proverá às vossas necessidades espirituais e vos tornareis sábios na fé que levará o meu Nome. Eis tudo o que se há de fazer. No amor de Deus encontrarás todo freio contra o Mal. E no amor ao próximo terás ajuda contra o abatimento das solidões. E ensina-a a perdoar. A ti mesma… e à tua filha. Compreendes o que Eu quero dizer?
– Compreendo… É justo… 531.16Mestre, eu vou te deixar. Abençoa uma pobre mulher… que está mais pobre do que uma mendiga que tem um companheiro fiel…
– Onde estás agora? Em Jerusalém?
– Não. Em Beter. Joana, que é tão boa, mandou-me ficar no castelo dela… Eu estava sofrendo muito lá em cima… E ficarei lá, enquanto Joana não vem a Jerusalém, isto é, daqui a pouco. Ela descerá para a Judéia com tua Mãe e as outras discípulas nos primeiros dias amenos da primavera. Depois, eu estarei com ela por algum tempo. Mais tarde virão as outras e eu irei estar com elas. O tempo já terá curado a ferida.
– O tempo, mas sobretudo Deus e o sorriso de tua menina. Adeus, Valéria. O Deus verdadeiro, que tu procuras com boa intenção, te conforte e proteja.
Jesus põe a mão sobre a cabeça da pequenina, abençoando-a. Depois se aproxima da porta fechada, perguntando:
– Tu vieste sozinha?
– Não. Vim com uma liberta. O carro me está esperando no bosque que fica antes do povoado. Haveremos de nos ver ainda, Mestre?
– Na festa da Dedicação estarei em Jerusalém, no Templo.
– Lá estarei, Mestre. Eu preciso das tuas palavras para a vida nova…
– Vai tranquila. Deus não deixa sem ajuda quem o procura.
– Eu creio… Oh! É bem triste o nosso mundo pagão!
– A tristeza está por toda parte onde não há verdadeira vida em Deus. Também em Israel se chora… É porque não vive mais na Lei de Deus. Adeus. A paz esteja contigo.
A mulher se inclina profundamente e diz baixinho alguma coisa à menina. E a pequenina levanta o rosto, estende os bracinhos e repete com sua voz de canarinho:
– Salve, Senhor Jesus!
Jesus se inclina, recebendo de sua boquinha o beijo inocente que nela se forma e a abençoa de novo… Depois entra para o pequeno quarto e, pensativo, se assenta perto das flores espalhadas no chão.
531.17Fica assim por algum tempo. Depois ouve alguém batendo na porta.
– Entra!
A porta se abre e aparece pela abertura a face do Pedro.
– És tu? Vem cá…
– Não. Tu é que deverias ter vindo a nós. Está fazendo frio aqui fora. Que belas flores! Valem um bom dinheiro!
Pedro, enquanto está falando, está observando o seu Mestre.
– Sim. Valem muito. Mas o ato e o modo como tudo foi feito vale mais do que as flores. Elas me foram trazidas pela menina de Valéria, aquela romana amiga de Cláudia.
– Ah! Sim! Sim! Já sei! E por quê?
– Para consolar-me… Eles sabem o que eu sofro, e Valeria teve esse pensamento. Pensou que as flores de um inocente poderiam me consolar…
– Uma romana… E nós de Israel somente te fazemos sofrer… Judas teve uma suspeita justa. Disse que tinha visto um carro parado e que certamente era romana a mulher… e… ficou perturbado, Mestre…
Pedro ficou indeciso. Mas Jesus não diz mais do que isto:
– Onde está Judas?
– Está fora. Quero dizer, na entrada, perto do bosque. Ele quer ver quem veio a Ti…
– Vamos descer.
Judas já está na cozinha. Volta-se ao ver Jesus entrar, e diz:
– Mesmo que quisesses negar, não poderias negar que aquela mulher veio para queixar-se de alguma coisa! Terão ainda alguma coisa para dizer? Elas não têm outra ocupação a não ser a de espiar e de ir contar e…
– Não sou obrigado a responder-te. Mas Eu o faço por causa de todos. Simão Pedro já sabe quem é ela, e a todos Eu digo o que foi que ela veio fazer. Até as criaturas aparentemente mais felizes podem ter necessidade de conforto e de conselho… 531.18André, vai apanhar as flores trazidas pela menina e leva-as ao pequeno Levi.
– Para quê?
– Porque ele está morrendo.
– Está morrendo? Mas se à hora terça eu o vi e ele estava são? –diz espantado Bartolomeu.
– Estava são. Antes da tarde, estará morto.
– Se está mal assim, não se alegrará com as flores….
– Não. Mas lá na casa desanimada as flores mandadas pelo Salvador dirão uma palavra luminosa.
Jesus se assenta, enquanto todos estão falando da fragilidade da vida, e Elisa põe seu manto, dizendo:
– Vou eu também com André… Pobre daquela mãe!…
Todos veem que André e Elisa se afastam com as flores nas mãos…
Jesus está calado. Judas está calado. Este está na incerteza. Jesus está em silêncio, mas não com ar austero… Judas dá voltas ao redor dele, inquieto pela vontade de saber e pela angústia atormentadora de quem não está com a consciência em paz. Mas ele acaba puxando Pedro para um lado e fazendo-lhe perguntas. Ele se tranquiliza depois de ter falado com Pedro, e vai sondar Mateus, que está escrevendo calmamente sobre uma das pontas da mesa.
André volta correndo. E fala ofegante:
– Mestre, o menino está morrendo mesmo… De repente… Todos pareciam ter ficado doidos… Mas, quando Elisa disse: “O Senhor as manda para ele” — e eu pensava que eles fossem entender assim: “Para o caixão dele” —, a mãe e o pai… disseram ao mesmo tempo: “Oh! É verdade! Vai correndo chamá-lo. Ele o curará.”
– É a palavra da fé. Vamos.
E Jesus sai quase correndo. Naturalmente todos o acompanham, até o velho João, que vai mancando atrás de todos os outros.
531.19A casa fica no fim do povoado. Mas Jesus logo chega até lá e abre passagem por entre as pessoas que se aglomeraram na frente da porta aberta. Ele vai diretamente para um quarto que está no fundo do corredor, pois a casa é grande, com muitos moradores, talvez irmãos uns dos outros.
No quarto, inclinados sobre o leito preparado às pressas, o pai, a mãe e Elisa. Estes não veem Jesus, a não ser quando Ele diz:
– A paz esteja nesta casa.
Então, afastam-se do leito os infelizes progenitores e se lançam aos pés de Jesus. Somente Elisa fica onde está, ocupada em esfregar os membros, que se vão esfriando, com substâncias aromáticas.
O pequenino está mesmo no fim. Seu corpo já está com aquele peso e abandono que indicam a proximidade da morte, seu rostinho já está cor de cera, as narinas já vão tomando uma cor escura, os lábios estão arroxeados. O pequeno respira com dificuldade, já com espasmo no pequeno peito, e cada respiração parece ser a última, pois cada uma vai ficando sempre mais longe da precedente.
A mãe está chorando, com o rosto sobre os pés de Jesus. O pai, também inclinado sobre a terra, diz:
– Tem piedade! Tem piedade!
E não sabe dizer outra coisa.
Jesus estende os braços e diz:
– Levi, vem a Mim!
O pequeno, um menininho de uns cinco anos, sente como que uma sacudidela, como se alguém o tivesse chamado em voz alta enquanto ele estava dormindo. Ele se assenta sem dificuldade, esfrega os olhos com seus punhozinhos, olha ao redor de si mesmo, como se estivesse espantado. E, vendo Jesus com um sorriso, joga-se para fora de sua caminha e vai, com segurança, vestido com sua pequena túnica, ao seu Salvador.
Os progenitores, inclinados como estão, não viram nada. Mas as exclamações de Elisa, que grita “Bondade eterna!”, e dos apóstolos e dos curiosos que lá do corredor soltam um “oh!” espantado, avisam sobre o que está acontecendo; eles levantam o olhar do chão e veem o filhinho ali, são, como se nunca tivesse estado para morrer…
A alegria os faz rir, chorar, gritar e calar, conforme as reações de cada indivíduo. Uns, pelo espanto, emudecem, e parecem estar dominados pelo medo. É grande demais a diferença entre a condição em que antes estava e a de agora, e os dois pobres progenitores, já estonteados pelo sofrimento, acham difícil aceitar a alegria.
531.20Mas enfim chegam a isso, enquanto o menino está sendo tomado nos braços por Jesus e, então, ao mutismo sucede um dilúvio de palavras e vozes de alegria e bênção, e é difícil acompanhar esse dilúvio de palavras que se cruzam desordenadamente. Por elas eu posso reconstruir o episódio: lá pela hora de sexta, o menino, que estava brincando na horta, tinha voltado para casa, queixando-se de dor na barriga. Seguro no braço pela avó e mantido perto do fogo, parecia melhorar. Mas depois, perto da hora nona, viu-se tomado pelo vômito de matérias intestinais e imediatamente entrou em agonia. Era uma peritonite fulminante2 clássica. O pai tinha ido correndo a Jerusalém, ao primeiro sinal do mal, e havia voltado com um médico que, depois de ver o menino, havia dito: “Não pode viver”, e tinha ido embora… De fato, de minuto a minuto, o menino ia piorando e se esfriando, e eles, naquela angústia por uma desgraça imprevista, nem podiam pensar que logo ele ficaria bom. Somente quando André entrou com as flores, dizendo: “Jesus as mandou para Levi”, é que eles receberam uma iluminação interior e disseram: “Jesus o salvará.”
– E o salvou. Bendito para sempre. As tuas flores! A esperança! A fé! Oh, sim! A fé no teu amor por nós! Mas como foi que soubeste? Bendito! Pede o que quiseres de nós! Manda-nos como a teus escravos! Nós te devemos tudo!…
Jesus os escuta, segurando sempre o menino em seus braços. E os deixa falar até ficarem cansados, até que os seus nervos, submetidos a tão grande tensão, se relaxaram no desabafo. Depois Ele diz, com doçura:
– Eu amo os meninos e os de coração fiel. Todos vós de Nobe sois muitos bons para comigo. Se Eu sou bom para com quem Me odeia, o que não darei a quem me ama? Eu sabia… e sabia também que a dor vos fazia esquecer a Fonte da Vida. E Eu vos quis mostrar o caminho…
– Mas, por que não vieste por Ti mesmo, Senhor? Terias medo de que não te acolhêssemos?
– Não. Eu sabia que me teríeis acolhido com amor. Mas entre estes que aqui estão ao redor havia alguns que precisavam persuadir-se de que Eu não ignoro nada dos homens e do estado dos corações. E Eu quis também que outros compreendessem que Deus responde a quem o invoca com fé. Agora, ficai em paz. E crescei sempre mais na fé na misericórdia de Deus. 531.21A paz esteja com todos vós. Adeus, Levi. Vai para a mamãe, agora. Adeus, mulher. Consagra ao Senhor também aquela que ainda tens no seio, como lembrança da bondade que o Senhor teve para contigo. Adeus, homem. Conserva o teu espírito na justiça.
Ele se volta para passar e vai indo com dificuldade por entre os parentes que estão apinhados no corredor: os avós, os tios, os primos do miraculado, que querem todos falar a Jesus, bendizê-lo, ser por Ele abençoados, beijar suas vestes, suas mãos…
E depois, além da numerosa parentela, estão as pessoas do povoado que querem fazer o mesma, mas elas se movem na estrada, indo atrás de Jesus, deixando em sua alegria os da casa abençoada pelo milagre. E pelas estradas já escuras, com o costumeiro barulho das horas de festa, Nobe inteira vai reconduzindo Jesus para a casinha de João, e é necessário que os apóstolos usem de toda a sua autoridade, a fim de persuadir os cidadãos a voltarem para suas casas, deixando em paz o Mestre; e à autoridade devem ainda unir meios mais enérgicos, como a ameaça de que, se não o deixarem repousar, amanhã irão todos embora dali, a fim de chegarem a conseguir o que desejam.
E, finalmente, o Cansado pode repousar…
1 devolveu a ti, em 155.4/5.
2 peritonite fulminante é a conclusão pessoal da escritora, que faz o seu diagnóstico (foi enfermeira) depois de ter “escutado” e reconstruído a citada história da sintomatologia do mal que atingiu a criança.
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