285. 285. Lázaro oferece um refúgiopara João de Endor e Síntique.Viagem alegre para Jericó, sem Iscariotes.


24 de setembro de 1945.

285.1 Lázaro, meu amigo, Eu te peço que venhas comigo –diz Jesus, aparecendo à soleira da sala, onde Lázaro está meio deitado sobre uma pequena cama lendo um pergaminho.

Já estou indo, Mestre. Para onde vamos? –pergunta Lázaro, levantando-se logo.

Vamos pela campina. Preciso estar completamente sozinho contigo.

Lázaro, perturbado, olha para Jesus, e lhe pergunta:

Terás notícias tristes para dar-me em segredo? Ou então… Não, nem quero pensar nisso…

Não tenho mais do que tomar um conselho contigo, e nem o ar deve ficar sabendo do que vamos falar. Prepara o carro, porque não quero que fiques cansado. Quando estivermos no campo aberto, Eu te falarei.

Então, eu mesmo guio o carro, porque assim nem o servo fica sabendo do que tivermos falado.

Sim. Isto mesmo.

Eu vou logo, Mestre, Daqui a pouco estarei pronto.

E sai. Também Jesus sai, depois de ter permanecido um tanto pensativo dentro da rica mansão. Enquanto Ele estava pensando, moveu involuntariamente do lugar dois ou três objetos, apanhou o pergaminho, que estava no chão, e, finalmente, ao colocá-lo em seu lugar em uma estante, por um instinto inato de pôr tudo em ordem, já tão costumeiro em Jesus, Ele fica com o braço levantado, observando estranhos objetos de arte, quando não por outros motivos, por serem diferentes dos que se viam na Palestina, e que estavam alinhados numa prateleira da estante. São ânforas e copas antiquíssimas, pelo que parece, com relevos e desenhos imitando os frisos da antiga Grécia, e umas urnas funerárias. Que Ele esteja vendo, para lá daqueles objetos, eu não sei… Mas Ele sai dali, e vai para o pátio interno, onde estão os apóstolos.

Para onde vamos, Mestre? –perguntam-lhe eles, ao verem que Jesus está colocando o manto.

A nenhum lugar. Eu vou sair com Lázaro. Vós ficareis aqui a esperar-me, todos juntos. Daqui a pouco, estarei de volta.

Os doze olham uns para os outros… não estão muito contentes… Pedro diz:

Vais sozinho? Toma cuidado…

Não tenhais medo de nada. Enquanto ficais esperando, não fiqueis à toa. Instruí mais Hermasteu, para que ele conheça sempre melhor a Lei, e sede bons companheiros sem discussões, nem grosserias. Sede compassivos uns com os outros. Amai-vos.

Dirige-se para o jardim, e todos o acompanham. Logo chega um carro veloz, coberto, no qual está Lázaro.

Vais de carro?

Sim, para que Lázaro não se afadigue nas pernas. Adeus Marziam, sê bom. A paz esteja com todos vós.

Jesus sobe para o carro que, fazendo ranger o cascalho do caminho, sai do jardim para pegar a estrada mestra.

Vais às Águas Belas, Mestre? –grita-lhe lá atrás Tomé.

Não. Digo-vos de novo: sede bons.

285.2O cavalo parte com um trote firme. O caminho, que é o que de Betânia vai para Jericó, passa pela campina, que agora está perdendo a folhagem. E cada vez mais pode-se notar que o verde vai desaparecendo, tanto mais, quanto mais se desce para a planície.

Jesus fica pensando. Lázaro se cala, ocupando-se somente em guiar o cavalo. Quando já chegaram à planície, uma planície fértil, já toda preparada para nutrir a semente, que dará o futuro trigo, e que agora está dormindo por entre os vinhedos, como uma mulher que há pouco deu à luz o seu fruto, e agora está descansando do leve cansaço, Jesus faz um sinal de parar. E Lázaro, obediente, para, levando o cavalo para uma estradinha secundária, que se dirige para umas casas distantes… e explica:

Aqui estaremos mais tranquilos do que na estrada larga. Estas árvores nos abrigam da vista de muitos.

De fato, é um capão de árvores baixas e com muita folhagem, que servem de para-vento contra a curiosidade dos que passam. E Lázaro fica de pé, diante de Jesus, esperando.

Lázaro, Eu estou precisando afastar João de Endor e Síntique. Tu estás vendo que a prudência assim aconselha e a caridade também. Para ele e para ela seria uma prova perigosa, uma dor inútil, se eles tivessem conhecimento da perseguição que se lhes faz… e que poderia, pelo menos para um, provocar surpresas muito desagradáveis.

Em minha casa…

Não. Nem em tua casa. Talvez não seriam materialmente tocados. Mas seriam moralmente aviltados. O mundo é cruel. Ele tritura as suas vítimas. Eu não quero que se percam assim estas duas belas forças. Porque, assim como Eu uni um dia o velho Ismael com Sara, agora unirei o meu pobre João com Síntique. Quero que ele morra em paz, e não fique sozinho, e com a convicção de ter ido mandado para outro lugar, não porque é um “ex-galeote”, mas porque é o discípulo prosélito, que pode ser transferido para outro lugar, a fim de pregar o Mestre. E Síntique o ajudará. Síntique é uma bela alma, e será uma grande força na e para Igreja futura. 285.3Podes tu aconselhar-me aonde enviá-los? Não para a Judeia, nem para a Galileia e, muito menos para a Decápole, para onde Eu e os apóstolos estamos indo, não. E, então, para onde? Para qual lugar, onde sejam úteis e estejam seguros?

Mestre… eu… Mas, eu te aconselhar?

Não, não. Fala, Tu me queres bem, tu não me trais, tu amas a quem Eu amo, tu não és de mente estreita, como os outros.

Eu … Sim. Eu te aconselharia a mandá-los para onde eu tenho amigos. Para Chipre, ou para a Síria. Escolhe Tu. Em Chipre tenho pessoas de confiança. Na Síria… Tenho lá ainda algumas pequenas casas, zeladas por um intendente mais fiel do que uma ovelhinha. É o nosso velho Filipe! Para mim ele fará qualquer coisa que eu mandar. E, se me permites, esses a quem Israel persegue, e que te são caros, poderão dizer-se meus hóspedes desde agora, e na casa estarão em segurança. Oh! Ela não é um palácio real! É uma casa, na qual mora somente Filipe com seu neto, que toma cuidado dos jardins de Antigônio. Os jardins de que tanto gostava a minha mãe. Nós os temos conservado para lembrança dela. Ela havia levado para eles as plantas dos seus grandes jardins na Judeia, de essências raras… A minha mãe!… Com aquelas essências quanto bem ela fazia aos pobres… Lá estava o seu feudo secreto… A minha mãe… Mestre, eu estou para ir logo a ela: “Alegra-te, minha boa mãe. O Salvador está na terra.” Ela te esperava…

Duas fileiras de lágrimas estão sobre o rosto sofredor do Lázaro. Jesus olha para ele, e sorri.

285.4Lázaro retoma o assunto:

Mas, vamos falar de Ti. Parece-te bom esse lugar?

Parece-me. E, mais uma vez, Eu te agradeço, por Mim e por eles. Alivias-me de um grande peso…

Quando eles partirão? Eu o pergunto, a fim de preparar uma carta para Filipe. Eu direi que são dois meus amigos daqui, necessitados de paz. E isso bastará.

Sim. Isso bastará. Mas, Eu te peço, nem o ar precisa saber de tudo isso. Tu estás vendo. Eu estou sendo espionado…

Eu estou vendo. Não falarei nem mesmo com minhas irmãs. Mas, como farás para conduzi-los até lá? Tu tens contigo os apóstolos…

Agora, Eu tornarei a subir até Aera, sem Judas de Simão, Tomé, Filipe e Bartolomeu. Nesse meio tempo, Eu irei instruir a fundo Síntique e João, para que eles partam, levando uma grande provisão de Verdade. Depois, Eu descerei até Meron e de lá a Cafarnaum. E os… mandarei embora os quatro, com outras missões e, então, farei que os dois partam para Antioquia. A isso Eu sou constrangido…

Deves temer pelos teus… Tens razão. Mestre, eu sofro, por ver-te magoado…

Mas a tua boa amizade me conforta muito. Lázaro, Eu te agradeço… Depois de amanhã, Eu parto, e te tiro as irmãs. Tenho necessidade de muitas discípulas, para Síntique desaparecer no meio delas. Joana de Cusa virá de Meron e irá para Tiberíades, porque passará lá o inverno. Assim quer o seu marido, para tê-la mais perto de si, visto que Herodes volta a ficar por algum tempo em Tiberíades.

Será feito como Tu desejas. As minhas irmãs são tuas, como o sou também eu, e o são as minhas casas, os meus servos, os meus haveres. Tudo é teu, Mestre. Usa de tudo para o Bem. Eu vou preparar-te a carta para Filipe. É melhor que Tu a recebas de mim diretamente.

Obrigado, Lázaro.

Isto é tudo o que eu posso fazer… Se eu estivesse são, eu iria. Cura-me, meu Mestre e irei.

Não, amigo. Eu preciso de ti, assim como estás.

Ainda que eu não faça nada?

Assim mesmo. Oh! Meu Lázaro!

Jesus o abraça e o beija.

285.5Sobem de novo para o carro, e voltam. Agora é Lázaro que está meio silencioso e pensativo, e Jesus lhe pergunta porque está assim.

Estou pensando que vou perder Síntique. Eu admiro a ciência e a bondade dela…

Jesus a está adquirindo…

É verdade. É verdade. Quando te tornarei a ver, Mestre?

Na primavera.

Até a primavera ainda? No ano passado estavas na minha casa nas Encênias…

Neste ano Eu quero contentar os apóstolos. Mas no ano que vem estarei muito tempo contigo. Eu te prometo.

Betânia já vem aparecendo, por baixo de um sol de outubro. Já estão quase chegando, quando Lázaro faz parar o cavalo, para dizer:

Mestre, fazes bem em afastar o homem de Keriot. Eu desconfio dele. Ele não te ama. Ele me desagrada. Nunca me agradou. É um sensual e um ambicioso. Por isso pode chegar a cometer qualquer pecado. Mestre, foi ele quem te denunciou…

Tens provas disso?

Não.

Então, não julgues. Não és muito perito para julgar. Lembra-te que tu julgavas inexoravelmente Maria… Não vás dizer que o merecimento é meu. Pois foi ela quem me procurou primeiro.

Também isso é verdade. Mas, em todo caso, desconfia de Judas.

Pouco tempo depois, já estão entrando de novo no jardim, onde os apóstolos, cheios de curiosidade, os estão esperando.

285.6A ausência de quatro apóstolos, e especialmente do Judas, torna mais íntimo e feliz o grupo dos que ficaram. Fica até parecendo uma família, cujos chefes são Jesus e Maria, ela que, virando as costas para Betânia, em uma serena manhã de outubro, se dirige para Jericó, a fim de atravessar para o lado oposto do rio Jordão. Tendo-se reunido de novo as mulheres ao redor de Maria, e não faltando senão Anália no grupo feminino das discípulas, isto é, as três Marias, Joana, Susana, Elisa, Marcela, Sara e Síntique. Também reunidos ao redor de Jesus estão Pedro, André, Tiago e Judas de Alfeu, Mateus, João e Tiago de Zebedeu, Simão Zelotes, João de Endor, Hermasteu e Timoneu, enquanto que Marziam, saltando como um cabrito, vai de um grupo para o outro, pois os grupos estão separados por poucos metros de distância. Arcando com pesados sacos, lá se vão eles, alegres, pela estrada docemente ensolarada, através da campina, majestosa em seu descanso.

285.7João de Endor vai andando com dificuldade, por causa do peso que está levando nas costas. Pedro percebe isso, e diz:

-mo aqui, já que quiseste sobrecarregar-te com todo esse enchimento. Estavas com saudade dele?

Foi o Mestre que me mandou levá-lo.

Sim? Esta é boa! Para que será?

Isso eu não sei. Ele me disse ontem de tarde: “Pega de novo os teus livros, e vem atrás de Mim com eles.”

Oh! Esta é mesmo boa!… Mas, se Ele te disse isso, certamente se trata de coisa boa, talvez vá fazer o mesmo com aquela mulher. Quantas coisas ela sabe, não? Tu as sabes também?

Quase tanto como ela. Ela é muito douta.

Mas, não irás continuar a vir atrás de nós com esse peso, não é mesmo?

Oh! Eu acho que não. Mas não sei. Mas eu também posso levá-lo…

Não, amigo. Eu fico preocupado, porque podes ficar doente. Estás mal vestido, sabes?

Eu sei. Acho que vou morrer.

Não fiques brincando! Deixa que cheguemos a Cafarnaum. Estamos tão bem! Agora estamos sem aquele… Maldita língua! Faltei de novo com a promessa que fiz ao Mestre!… 285.8Mestre? Mestre?

Que queres, Simão?

Murmurei contra Judas, e te havia prometido não fazê-lo mais. Perdoa-me.

Sim. Procura não fazê-lo mais.

Tenho ainda 489 vezes para ter o teu perdão…

Mas, que é que estás dizendo, meu irmão, pergunta, espantado, André.

E Pedro, com um brilho de esperteza em seu rosto bondoso, encurva o pescoço por baixo do pesado saco que vai sendo levado por João de Endor, e diz:

E não te lembras de que Ele disse que perdoemos setenta vezes sete vezes? Portanto, eu tenho ainda em haver 489 perdões. E vou trazer a conta bem feita…

Todos se riem, e até Jesus é obrigado a sorrir, mas lhe diz:

Farias melhor em fazer a conta de todas as vezes que sabes ser bom, grande menino que tu és.

Pedro se aproxima de Jesus e, com o braço direito abraça Jesus pela cintura, dizendo:

Meu caro Mestre! Como estou feliz por estar contigo sem… Deixa para lá! Tu também estás contente… E Tu entendes o que eu quero dizer. Estamos entre nós. Também aí está a tua Mãe. Aí está este menino. Vamos indo para Cafarnaum. A estação é bela… Aí estão cinco razões para estarmos alegres. Oh! é realmente belo estar contigo! Onde é que vamos ficar esta tarde?

Em Jericó.

No ano passado foi aí que vimos a mulher velada. Mas, quem sabe o que aconteceu com ela?… Eu estaria curioso para saber… E encontramos também aquele das vinhas…

A risada de Pedro é contagiosa, de tão sonora que é. Todos se riem, lembrando-se da cena do encontro com Judas de Keriot.

Mas tu és incorrigível, Simão –censura-o Jesus.

Eu não disse nada, Mestre. Mas deu-me vontade de rir, ao lembrar-me da cara dele, quando nos encontrou lá… nas vinhas dele…

Pedro está rindo com tanto prazer, que tem que parar, enquanto os outros vão indo para a frente, ainda sob o frouxo do riso…

285.9Pedro é alcançado pelas mulheres. Maria pergunta com doçura:

Que tens, Simão?

Ah! Eu não posso dizer, porque cometeria uma outra falta de caridade. Mas… aí está, Mãe, dize-me uma coisa, tu que és sábia. Se eu faço uma insinuação, ou pior, digo uma calúnia, eu peco, com certeza. Mas, se eu me rio de uma coisa conhecida por todos, ou de um fato, também conhecido por todos, um fato que faz rir, como, por exemplo, a surpresa de um mentiroso e o seu embaraço, as suas desculpas, e tornar a rir, como nós já rimos, é também um mal?

É uma imperfeição na caridade. Não chega a ser um pecado como a maledicência e a calúnia, e nem mesmo como a insinuação, mas é sempre uma falta de caridade. É como um fio puxado para fora de um tecido. Não chega propriamente a fazer um rasgo, nem a estragar o pano. Mas é sempre uma coisa que desfaz a integridade dele e sua beleza, tornando fácil nele a formação de rasgões e buracos. Não te parece?

Pedro esfrega a própria fronte, e diz, um pouco humilhado:

Parece-me que sim. Nunca havia pensado nisso.

Pensa nisso agora, e não o faças mais. Há risadas que ofendem mais à caridade do que bofetadas. Alguém errou? E nós o pegamos em culpa de mentira, ou de outra coisa? E, então? Para que ficar relembrando aquilo? Ou fazer que daquilo ele se lembre? Baixemos um véu sobre as culpas do irmão, pensando sempre assim: “Se fosse eu o culpado, gostaria que outra pessoa ficasse lembrando minha culpa, e fizesse que ela fosse lembrada?” Existem vergonhas íntimas, Simão, que fazem sofrer muito. Não fiques sacudindo a cabeça. Eu sei o que queres dizer… Mas também os culpados as têm, podes crer. Parte, parte sempre deste pensamento “Gostaria eu disso?” E verás que nunca mais pecarás contra a caridade. E terás sempre muita paz em ti. Olha lá Marziam, como está pulando feliz, e cantando. É porque ele não tem em seu coração nenhum pensamento contra a caridade. Ele não tem que pensar nos lugares para onde iremos, nem nas despesas, nem nas palavras que há de dizer. Ele sabe que outros estão pensando em todas essas coisas por ele. Faze assim também. Deixa tudo para Deus. Também o julgamento das pessoas. Enquanto podes ser como um menino, que o bom Deus conduz, por que hás de querer carregar-te com o peso de ter que decidir e julgar? Virá o momento em que deveras ser juiz e árbitro, e, então, dirás: “Ah! Como a vida era mais fácil antes, e menos perigosa!”, e te chamarás de estulto, por teres querido carregar-te antes de tão grande responsabilidade. Julgar! Que coisa difícil! Ouviste o que disse Síntique, há dias? “As pesquisas por meio dos sentidos são sempre imperfeitas.” Ela falou muito bem. Muitas vezes nós julgamos pelas reações dos sentidos, e, por isso, com grande imperfeição. Deixa de julgar…

Sim, Maria. Eu te prometo mesmo. 285.10Mas eu não sei todas as belas coisas que Síntique sabe!

E ficas preocupado por isso, homem? Não sabes que eu quero me livrar dessas coisas, para fazer uso somente daquelas que sabes?

É verdade? Por quê?

Porque com a ciência podes governar-te na terra, mas é com a sabedoria que conquistas o Céu. Eu tenho a ciência, e tu tens a sabedoria.

Mas, com a tua ciência, soubeste ir a Jesus. Logo, ela é coisa boa.

Misturada com tantos erros, por causa dos quais eu quereria despojar-me dela, para revestir-me apenas da sabedoria. Fora as vestes adornadas e fúteis. Que seja a minha uma veste severa e sem aparência externa de sabedoria, que não é uma coisa corruptível, mas é uma veste imortal, uma veste que não se acaba nunca. A luz da ciência estremece e vacila. Mas a da sabedoria brilha firme e invariavelmente constante, como o atributo divino pelo qual ela é gerada.

Jesus vem, mais devagar, para poder ouvir. Ele se vira, e diz à grega:

Não deves desejar despojar-te de tudo o que sabes. Mas deves saber escolher no meio do que sabes quais são os átomos da Inteligência eterna, que algumas mentes de inegável valor conseguiram conquistar.

Terão, então, aquelas mentes repetido em si mesmas o mito do fogo que foi roubado dos deuses?

Sim, mulher. Só que aqui não foi roubado. Mas foi ensinado como pode ser recebido, quando a Divindade estava despetalando como flores seus fogos, acariciando-os como a modelos que iam sendo espargidos por entre a humanidade decaída, espargia sobre o homem aquilo que faz dele um ser dotado de razão.

Mestre, Tu deverias mostrar-me o que devo conservar e o que devo deixar. Eu não seria um bom juiz. Para depois eu poder encher os espaços vazios com as luzes da tua Sabedoria.

É isso que eu desejo fazer. Eu te mostrarei até que ponto é sábio o conhecimento que tens, e o continuarei, a partir daquele ponto, até o fim da ideia verdadeira. Para que tu fiques sabendo. Isso fará bem até àqueles que estão destinados a ter muitos futuros contatos com os pagãos.

Não entenderemos nada disso, Senhor –geme Tiago de Zebedeu.

Um pouco, por enquanto. Mas um dia compreendereis. Tanto as lições de agora, como a necessidade delas. E tu, Síntique, dize-me quais são os pontos que achas obscuros. Em nossas paradas, Eu os esclarecerei.

Sim, meu Senhor. É o desejo de minha alma, que se une ao teu desejo. Eu, discípula da Verdade, e Tu o Mestre. O sonho de toda a minha vida: ter a posse da Verdade.