614. 614. O dia do Sábado Santo.


30 de março de 1945.

614.1O primeiro alvor da manhã vem chegando com muita dificuldade, a muito custo. De sorte que a plena aurora está tardando estranhamente neste dia, mesmo se não há nuvens no céu. Até parece que os astros perderam todo o seu vigor. E do mesmo modo que à noite a Lua estava pálida, também o sol, que acaba de aparecer, está pálido. Estão opacos… Talvez eles também tenham chorado, para terem agora esse aspecto de embaçados, como ficaram os olhos dos bons que choraram ou estão chorando pela morte do Senhor?

Logo que João percebe que as portas já foram abertas, ele sai, surdo às súplicas maternas. As mulheres se fecham em casa ainda mais atemorizadas, agora que até o apóstolo saiu.

Maria, sempre em seu quarto, com as mãos soltas no colo, olha fixamente através da janela, que está aberta sobre um jardim não muito vasto, mas bem amplo e cheio de roseiras em flor ao longo das altas muralhas e dos canteiros muito bem cuidados. As moitas dos lírios, por sua vez, estão ainda sem o caule da futura flor: são numerosos, bonitos, mas só têm folhas. Ela olha, olha, mas eu acho que não esteja vendo nada. Mas que esteja vendo somente o que está em seu pobre cérebro cansado: a agonia de seu Filho.

As mulheres vão e vem. Dela se aproximam, acariciam-na, convidam-na a comer alguma coisa… e cada vez que entra alguém delas, vem uma onda de um perfume pesado, heterogêneo, estonteante.

Maria sente um arrepio toda vez. Mas não sente mais nada. Nada de palavras. Nem de atos. Nada. Ela está exausta. E espera. É somente uma espera. É Aquela que espera.

614.2Ouve-se uma batida na porta… As mulheres correm para abrir. Maria, sem levantar-se, vira-se sobre sua cadeira e fica fixando o olhar sobre a porta semiaberta.

Quem entra é Madalena.

– Aí está Manaém. E gostaria de ajudar em alguma coisa.

– Manaém… Faze-o entrar. Ele foi sempre bom. Eu não pensava que fosse ele…

– Quem pensavas que fosse, Mãe?

– Depois… Depois. Faze que ele entre.

Manaém entra. Não está todo pomposo, como de costume. Está com uma roupa muito comum, de um marrom quase preto e um manto igual. Não traz nenhuma joia nem espada. Nada. Parece um homem rico, mas do povo.

Ele se inclina para saudar, primeiro com as mãos cruzadas sobre o peito, e depois se ajoelha como diante de um altar.

– Levanta-te. E perdoa se não correspondo à tua inclinação. Eu não consigo…

– Não deves fazê-lo. E eu não o permitiria. Quem sou eu, tu sabes. Por isso eu te peço que me contes como um dos teus servos. Tens necessidade de mim? Eu estou vendo que não há nenhum homem aqui por perto. Fiquei sabendo por Nicodemos que todos fugiram. Não havia nada que fazer. É verdade. Mas pelo menos dar-lhe o conforto de nos ver. Eu… eu saudei Sixto. E depois não o pude fazer mais porque… Afinal, é inútil dizê-lo. Também isso foi querido por Satanás. Agora eu estou livre e venho pôr-me a teu serviço. Dá as tuas ordens, Mulher.

– Eu gostaria de saber e fazer saber a Lázaro… As irmãs dele estão preocupadas, e minha cunhada e a outra Maria também. Quereríamos saber se Lázaro, Tiago, Judas e o outro Tiago estão salvos.

– Judas Iscariotes? Mas ele o traiu.

– Judas, filho do irmão do meu esposo.

– Ah! Eu já vou.

E se levanta. 614.3Mas, ao levantar-se, fez o movimento de quem sente dor.

– Mas tu estás ferido?

– Hum!… Sim. Mas não é nada. É meu braço que está doendo um pouco.

– Será por nossa causa? Será por isso que não estavas lá em cima?

– Sim. Era por isso. E é só por isso que eu lamento. Não por causa da ferida. Aquele resto de farisaísmo, de hebraísmo, de satanismo que havia em mim — pois que em satanismo é que se transformou o culto de Israel — acabou de sair com aquele sangue. Eu sou como um menino que, depois do corte do sagrado umbigo, já não tem contactos com o sangue materno, e as poucas gotas que restam no cordão que foi cortado não ficam nele, apertadas como estão pelo laço de linho. E caem… inúteis. O recém-nascido vive agora com o seu coração e com o seu sangue. Assim sou eu. Até agora, eu era ainda não completamente formado. Agora cheguei ao fim e vim, pois fui dado à Luz. Foi ontem que eu nasci. Minha Mãe é Jesus de Nazaré. Ele me deu à Luz quando deu aquele último grito. Eu sei… Porque fugi para a casa de Nicodemos esta noite. Eu só quereria vê-lo. Oh! Quando fordes ao sepulcro, dizei-o a mim… E eu irei… o seu Rosto de Redentor eu ainda não conheço!

– Ele está te olhando, Manaém. Vira-te.

O homem que havia entrado, todo inclinado, e que depois ficou olhando só para Maria, vira-se, espantado, ao ver o Sudário. E se joga de bruços em sinal de adoração… Ele chora. Depois se levanta. Inclina-se para Maria, e diz:

– Eu vou.

– Mas hoje é sábado. E tu sabes. Já nos acusam de violar a Lei, instigados por Ele…

– Iguais nós somos, pois eles violam a Lei do Amor. E esta é a primeira e a maior. Assim Ele dizia. O Senhor te conforte.

E sai.

614.4As horas vão passando. Como parecem vagarosas para quem está esperando!…

Maria se levanta e, apoiando-se nos móveis, vai até a porta. Procura atravessar o largo vestíbulo de entrada. Mas, quando já não tem mais onde apoiar-se, fica vacilando como uma ébria.

Marta, que está vendo lá do pátio que fica para lá da saída aberta junto à extremidade do vestíbulo, vai para lá a fim de acudi-la.

– Para onde queres ir?

– Lá para dentro. Vós me prometestes.

– Espera João.

– Basta de esperar. Vede como eu estou calma. Ide, pois vós o fechastes por dentro, fazei abrir. Eu fico aqui esperando.

Susana, depois que todos lá se foram correndo, sai de lá para ir chamar o patrão com as chaves. Enquanto isso, Maria se apoia na portinha, como se estivesse querendo abri-la com a força de sua vontade.

O homem chegou. Amedrontado e humilhado, ele abre e se retira. E Maria, abraçada com Marta e Maria de Alfeu, entra no Cenáculo.

Tudo está ainda como estava no fim da Ceia. A sucessão dos acontecimentos, a ordem dada por Jesus evitaram que alguém lançasse mão dos objetos que lá estavam. Somente foram levadas as cadeiras para os lugares onde estavam antes. E Maria, que também não tinha estado no Cenáculo, vai diretamente para onde Jesus se tinha assentado. Parece haver uma mão que a guia. E parece que Ela é uma sonâmbula, pelo modo rígido com que se esforça para andar… E Ela vai indo. Dá a volta ao redor do leito-cadeira, coloca-se entre ele e a mesa… fica de pé por um momento e depois tem uma nova crise de choro. Depois se acalma. Ajoelha-se e reza com a cabeça encostada à beira da mesa. Ela acaricia a toalha, a cadeira, as vasilhas de louça, a beirada da grande vasilha onde estava o cordeiro, a grande faca usada para trinchar, a ânfora colocada na frente daquele lugar. Ela não sabe que está tocando naquilo que foi tocado pelo próprio Iscariotes. Depois Ela fica como uma desmemoriada, com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados e postos sobre a mesa.

Todos se calam. Até que a cunhada diz:

– Vem, Maria. Nós temos medo dos judeus. Gostarias que eles entrassem aqui?

– Não. Não. Aqui é um lugar santo. Vamos. Ajudai-me… Fizestes bem em dizê-lo a mim. Eu quereria também ter um cofre: bem bonito, grande e fechado. Para guardar dentro dele todos os meus tesouros.

– Amanhã eu o farei trazer do palácio. É o mais belo da casa. É forte e seguro. Eu to dou com alegria –promete Madalena.

Todos saem. Maria está exausta mesmo. Ela fica vacilante ao descer os poucos degraus. E, se é menos dramática a sua dor, é porque Ela não tem mais força. Mas, em sua lentidão, a dor é ainda mais trágica.

Tornam a entrar no quarto de antes. E antes de voltar para o seu lugar, Maria acaricia, como se fosse um rosto de carne, o santo Rosto do Sudário.

614.5Ouve-se nova batida no portão. As mulheres se apressam em sair e entreabrir a saída. Com sua voz cansada, Maria diz:

– Se forem os discípulos, especialmente Simão Pedro e Judas, que venham logo a mim.

Mas é o pastor Isaque. Ele entra chorando depois de uns minutos e se prostra imediatamente diante do Sudário, e depois diante da Mãe, sem saber o que dizer. Mas é Ela que fala:

– Obrigada! Ele te viu e eu te vi. Eu sei. Ele olhava para vós enquanto pôde fazê-lo.

Isaque chora ainda mais forte. E só consegue falar quando choro cessa.

– Nós não queríamos ir embora. Mas Jônatas no-lo pediu. Os judeus estavam ameaçando as mulheres… e depois não pudemos mais vir. Estava… estava tudo acabado… Para onde devíamos ir então? Nós nos espalhamos pelo campo e, chegando a noite, nos reunimos na metade do caminho entre Jerusalém e Belém. Parecia-nos estar afastando a sua Morte ao irmos para a sua Gruta… Mas depois percebemos que não era justo irmos para lá… Era egoísmo, e voltamos para a Cidade… E, sem sabermos como, encontramo-nos em Betânia…

– Os meus filhos!

– Lázaro!

– Tiago!

– Todos estão lá. Pela aurora, pelos campos de Lázaro, já estavam espalhados homens que por lá vagavam, chorando…Os seus amigos inúteis e os discípulos! Eu… fui à casa de Lázaro, e pensava ser o primeiro. Mas, pelo contrário, já estavam lá os teus dois filhos, ó mulher, e o teu, com André, Bartolomeu e Mateus. Simão Zelotes os havia persuadido a irem para lá. Maximino, tendo saído para o campo desde manhã cedo, por lá já havia encontrado outros. E Lázaro socorreu a todos. E continua a fazer isso. Diz ele que o Mestre lhe havia dado esta ordem. E Zelotes diz o mesmo.

– Mas Simão e José, meus outros filhos, onde estão?

– Eu não sei, mulher. Tínhamos ficado juntos, até o terremoto. Depois dele… não sei mais nada de certo… No meio das trevas, dos raios e de mortos ressuscitados, do tremor da terra e do turbilhão nos ares, eu perdi a razão. E fui parar no Templo. E eu ainda me pergunto como foi que eu pude estar lá dentro, além do limite sagrado. Pensa que entre mim e o altar dos perfumes, só havia um côvado… Pensa só! Estar lá onde só põem os pés os sacerdotes de plantão!… E… eu vi o Santo dos Santos!… Sim. Porque o véu do santo está rasgado de alto a baixo, como se tivesse sido arrancado pela força de um gigante… Se me vissem lá dentro, me apedrejariam. Mas ninguém via mais nada. Somente encontrei espectros de mortos e espectros de vivos. Pois os espectros eles pareciam à luz dos raios, ao clarão dos incêndios e com terror em seus rostos…

– Oh! E o meu Simão? O meu José!

– E Simão Pedro? E Judas de Keriot? E Tomé, e Filipe?

– Eu não sei, Mãe… Lázaro me mandou verificar, pois lhe haviam dito… que vos haviam matado.

– Então, vai logo tranquilizá-lo. Eu já mandei Manaém. Vai tu também… e dize-lhe que só Ele é o Morto. E eu com Ele. E se vires outros discípulos, leva-os contigo para lá. Mas Iscariotes e Simão Pedro eu os quero comigo.

– Mãe, perdoa-nos se não fizemos mais.

– Eu perdoo tudo… Vai.

Isaque sai. E Marta e Maria, Salomé e a mulher de Alfeu o sufocam com pedidos, recomendações e ordens. Susana está chorando silenciosamente, porque ninguém lhe fala do esposo. E então Salomé se lembra do seu… Ela também se põe a chorar.

614.6Faz-se silêncio de novo, até que de novo batem no portão.

Como a cidade está tranquila, as mulheres estão menos medrosas. Mas quando pela porta de entrada semiaberta elas veem aparecer o rosto sem barba de Longino, fogem todas como se tivessem visto um morto sobre um lençol fúnebre, ou o próprio demônio em pessoa. O dono da casa que, para variar, está vagando pelo vestíbulo, é o primeiro a dar o fora.

Quem acode às pressas é Madalena, que estava com Maria. Longino, com um involuntário sorriso zombeteiro nos lábios, entrou, e ele mesmo fechou o pesado portão. Não está uniformizado, mas com uma veste cinzenta e curta por baixo de um manto também escuro.

Maria Madalena olha para ele, e ele olha para ela. Depois, continuando encostado à porta, Longino pergunta:

– Será que eu posso entrar sem contaminar ninguém? E sem causar medo a ninguém? Eu vi esta manhã o cidadão José, e ele me falou do desejo da Mãe. Eu peço perdão se não consegui por mim mesmo pensar no caso. Aqui está a lança. Eu a tinha guardado como lembrança de um… do Santo dos Santos. Oh! Ele é isso mesmo. Mas é justo que a Mãe fique com ela. Quanto às vestes… é mais difícil. Não digais isso a ela… mas a estas horas talvez já tenham sido vendidas por uns poucos denários… É direito dos soldados. Mas eu procurarei encontrá-las.

– Vem. Ela está lá.

– Mas eu sou pagão!

– Não importa. Vou dizer-lhe. Se é que o desejas.

– Oh! Não… eu nem pensava em merecer isso.

614.7Maria Madalena vai à Virgem.

– Mãe, Longino está aí fora… Veio te oferecer a lança.

– Faze-o entrar.

O dono da casa, que está na saída, resmunga:

– Mas ele é um pagão.

– Eu sou Mãe de todos, homem. Como Jesus é o Redentor de todos.

Longino entra e, sobre a soleira da porta, saúda à moda romana com um gesto feito com o braço, (tendo levantado o manto), e depois com sua voz:

– Ave, Senhora. Um romano te saúda, ó Mãe do gênero humano. A verdadeira Mãe. Eu não teria querido ser eu a… a… a fazer aquilo. Mas era uma ordem. Mas se eu servir para dar-te o que desejas, eu perdoo ao destino por ter-me escolhido para aquela horrenda ação. É isso.

E ele lhe entrega a lança enrolada em um pano vermelho. Somente a lâmina. A haste, não.

Maria a segura, ficando ainda mais pálida. E, com a palidez, até os seus lábios quase desaparecem. Fica parecendo que a lança a faça desmaiar. E Ela treme até nos lábios, enquanto diz:

– Que Ele te conduza a Si. Pela tua bondade.

– Foi o único Justo que eu encontrei no vasto Império Romano. Eu me arrependo de não tê-lo conhecido a não ser pelas palavras dos companheiros. Agora… é tarde!

– Não, meu filho. Ele parou de evangelizar. Mas o seu Evangelho continua. Em sua Igreja.

– Onde é a sua Igreja?

Longino está levemente irônico.

– É aqui. Hoje ela está fustigada e dispersa. Mas amanhã se reunirá, como uma árvore que ajeita a folhagem depois da tempestade. E ainda que não houvesse mais ninguém, eu aqui estou. E o Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus e Meu, está todo escrito em meu coração. É só olhar em meu coração para podê-lo repetir.

– Eu virei. Uma religião que tem por chefe um herói assim só pode ser divina. Ave, Senhora!

E também Longino vai-se embora.

Maria beija a lança, onde ainda está o sangue de seu Filho… E Ela não quer tirar aquele sangue. Mas o deixa “como um rubi de Deus sobre a lança cruel,” como Ela diz…

614.8O dia, por entre nuvens claras e escuridões de temporal, assim foi passando.

João só volta, quando o sol, que já está a pino, diz que o meio-dia já chegou.

– Mãe. Eu não encontrei ninguém, a não ser… Judas de Keriot.

– Onde ele está?

– Oh! Mãe! Que horror! Ele está pendurado em uma oliveira, todo inchado e escuro, como se tivesse morrido há semanas. Está podre. Horrível… Sobre ele os abutres, os corvos, que sei eu, gritam em brigas ferozes… Foi o barulho que eles faziam que me fez ir até lá. Eu estava indo a caminho do Monte das Oliveiras e, sobre uma colina, vi muitos grupos de aves pretas. Fui até lá…Para quê? Nem eu sei. E, então, eu vi. Que horror!…

– Que horror! Dizes bem. Acima da Bondade está a Justiça. De fato, agora a Bondade está ausente… Mas Pedro! Mas Pedro!… João, eu estou com a lança. Mas das vestes… Longino não falou.

– Mãe, eu quero ir ao Getsêmani. Ele foi preso sem o manto. E talvez ele esteja ainda lá. Depois eu irei a Betânia.

– Vai. E procura o manto, vai… Os outros já estão na casa de Lázaro. Por isso, não vás para lá. Não é preciso. Vai, então, e volta para cá.

João sai correndo. Sem ter tomado nenhum alimento. Como Maria. As mulheres comeram de pé pão e azeitonas, à medida que iam trabalhando no preparo dos bálsamos.

614.9E chega, com Jônatas, Joana, mulher de Cusa. Ela parece mais uma máscara, de tanto chorar. E, logo que vê Maria, diz:

– Ele me salvou! Ele me salvou e agora morreu. E eu não quereria mais ter sido salva!

É a Mãe Dolorosa quem deve consolar essa criatura curada, mas que ficou com uma sensibilidade doentia. E a consola e dá coragem, dizendo-lhe:

– Não O terias conhecido e amado, e não O poderias servir agora. Quantas coisas teremos que fazer no futuro! E somos nós que o deveremos fazer, porque, como estás vendo… Nós ainda ficamos, mas os homens fugiram. É sempre a mulher que verdadeiramente gera. No Bem. No Mal. E a nós é que toca gerar a nova Fé. Pois dela nós estamos repletas, já que foi colocada em nós pelo Esposo: Deus. É essa que geraremos para a terra. Para o bem do mundo. Olha como Ele está bonito! Com está sorrindo e mendigando esse nosso santo trabalho! Joana, eu te amo. Tu sabes disso. Não chores mais.

– Mas Ele morreu. Sim. Ali está ainda semelhante a um vivo. Mas Ele não está mais vivo. Que é este mundo sem Ele?

– Mas Ele voltará. Vai. Reza. Espera. Quanto mais tu creres, mais depressa Ele ressurgirá. Crer nisto é a minha força… E somente eu, Deus e Satanás sabemos quantos ataques foram feitos contra esta minha Fé em sua Ressurreição.

Também Joana vai-se embora, fraca e encurvada como um lírio saturado demais de água.

Tendo saído Joana, Maria torna a cair em seu tormento.

– A todos! A todos devo dar força. E a mim, quem a dá?

E chora, acariciando o rosto da efígie, porque agora está sentada perto da arca sobre a qual o Sudário está estendido.

614.10Acabam de chegar José e Nicodemos. Eles evitam que as mulheres precisem sair para comprar mirra e aloés, porque estão trazendo consigo alguns saquinhos disso. Mas a força deles desaparece diante do Rosto impresso no linho e do rosto arrasado da Mãe. Eles vão sentar-se num canto, depois de a terem saudado, e ficam calados, sérios, fúnebres… E depois se vão.

Nem Ela tem mais força para falar. Mas, à medida que a noite vai chegando, que hoje está precoce por causa da grande quantidade de nuvens abafadoras, tanto mais Ela se vai tornando uma criatura aflita. As sombras da tarde são, também para Ela, como para todos os que estão sofrendo, uma fonte de maior dor.

Também as outras ficam mais tristes. Especialmente Salomé, Maria de Alfeu e Susana. Mas para elas chega, enfim, o alívio, porque em grupo chegam Zebedeu, o esposo de Susana, Simão e José de Alfeu. Os dois primeiros ficam no vestíbulo, enquanto explicam que João os encontrou enquanto ia passando pelo subúrbio de Ofel. Os outros dois foram encontrados por Isaque, quando iam errantes pelos campos, na incerteza de voltarem para a cidade ou irem para junto dos seus irmãos, que eles supunham estarem em Betânia.

614.11Simão diz:

– Onde está Maria? Eu a quero ver.

E precedido por sua mãe, ele entra e beija sua parenta, que está muito desolada.

– Estás sozinho? Por que José não está contigo? Por que é que vos afastastes um do outro? Ainda há desentendimento entre vós? Não deve haver. Pois não estais vendo? A razão dos atritos está morta!

E faz um sinal, mostrando o Rosto no Sudário.

Simão olha para ele e chora, dizendo:

– Não nos deixamos mais. E não nos afastaremos um do outro. Sim: a razão dos atritos morreu. Mas não como tu achas. Morreu porque José agora compreendeu. José está ali fora… mas sem coragem de vir…

– Oh! Não. Eu nunca causo medo. Não sou só piedade. Eu teria perdoado até ao Traidor. Mas não posso mais. Ele se matou.

Ela se levanta. Sai caminhando encurvada e chamando:

– José! José!

Mas José, sufocado pelo pranto, não responde.

Ela, então, se apresenta à porta como fazia para falar a Judas e, apoiando-se no umbral, estende a outra mão e a pousa sobre a cabeça do mais velho e teimoso dos seus sobrinhos. Ela o acaricia e diz:

– Deixa que eu me apoie em um José! Tudo era paz e serenidade enquanto aquele nome era o rei em minha casa. Depois o meu santo morreu… E todos os bens humanos da pobre Maria também morreram. Ficaram os bens sobrenaturais do meu Deus e Filho… Agora eu é que sou a Abandonada. Mas se posso estar entre os braços de um José que amo, e tu sabes que te amo, eu me sentirei menos abandonada. Terei a impressão de voltar para trás. De poder dizer: “Jesus está ausente. Mas não morto. Ele está em Caná, em Naim, trabalhando por lá, mas Ele voltará…” Vem, José. Vamos entrar juntos para onde Ele te está esperando para sorrir-te. Ele quis deixar-nos o seu sorriso, a fim de dizer-nos que não leva rancor.

José entra, seguro pela mão Dela e, quando a vê sentar-se, ajoelha-se diante dela pondo a cabeça em seu colo, soluçando e dizendo:

– Perdão! Perdão!

– Não é a mim. É a Ele que o deves pedir.

– Ele não pode mais me perdoar. Lá no Calvário eu procurei atrair o seu olhar. Para todos ele olhou, menos para mim… Tem razão… Eu o conheci e amei como Mestre tarde demais. Agora tudo se acabou.

Agora começa. Tu irás a Nazaré e dirás: “Eu creio”. E a tua fé terá um valor infinito. Tu o amarás com a perfeição dos apóstolos futuros, que terão o merecimento de amar a Jesus que eles conhecem apenas pelo espírito… Tu farás isso?

– Sim! Sim! Como reparação. Mas eu quereria ouvir dele uma Palavra. Mas não a ouvirei nunca mais…

– No terceiro dia Ele ressurgirá e falará com aqueles que Ele ama. Todo o mundo está esperando a sua Voz.

– Bendita és tu que podes crer…

– José. José. O meu esposo era o teu tio. E ele acreditava numa coisa ainda mais difícil de crer-se do que esta. Ele soube crer que a pobre Maria de Nazaré fosse Esposa e Mãe de Deus. Por que já que tu, sobrinho daquele justo portador do seu nome, não podes crer que Deus possa dizer à Morte: “Basta!” e à Vida: “Volta?”

– Eu não mereço ter essa fé, porque tenho sido mau. Fui injusto com Ele. Mas tu… Tu és a Mãe. Abençoa-me. Perdoa-me… Dá-me paz…

– Sim… Paz… Perdão… Oh! Deus! Uma vez eu disse1: “Como é difícil sermos ‘os redentores’.” E agora eu digo: “Com o é difícil ser a Mãe do Redentor!” Piedade, meu Deus! Piedade!… 614.12Vai, José. Tua mãe tem sofrido tanto nestas horas. Conforta-a… Eu fico aqui… Com tudo o que tenho do meu Menino… E as minhas lágrimas solitárias te obterão a Fé. Adeus, meu sobrinho. Dize a todos que eu quero ficar calada… pensar… rezar… Eu sou… Sou uma pobre mulher que está suspensa sobre um abismo por um fio… E o fio é a minha fé… E a vossa falta de fé — porque ninguém sabe crer totalmente e santamente — choca continuamente neste meu fio… E vós não sabeis que fadiga me impondes… Não sabeis que estais ajudando Satanás a atormentar-me. Vai…

E Maria fica sozinha… Ela se ajoelha diante do Sudário. Beija a fronte, os olhos, a boca de seu Filho, e diz:

– Assim! Assim! Para ter força… Eu devo crer. Devo crer. Por todos.

A noite chegou. E sem estrelas. Escura. Sufocante. Maria fica sozinha com sua dor.

O dia de sábado terminou.

1 eu disse, textualmente em 168.9. Ser “a Mãe do Redentor” é “doce” (como em 157.7) e é “difícil” (como em 157.7 e 262.7).


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