74. 74. No albergue de Belém e nos escombros da casa de Ana.
9 de janeiro de 1945.
74.1 As primeiras horas de uma luminosa manhã de verão. O céu tinge-se de cor-de-rosa em algumas tênues nuvenzinhas, que parecem feitas de gaze desfiada sobre um tapete de cetim azul. Por toda parte ouve-se o canto dos pássaros, já embriagados pela luz… pardais, melros, pintarroxos cantam, chilreiam, brigam por um pedacinho de erva seca, por uma lagarta, por um raminho a ser levado ao ninho, a ser enfiado no papinho, a servir de poleiro. As andorinhas se arrojam do céu ao pequeno rio, para lavar seus alvos peitos, tingidos, em cima, de ferrugem, e, alegres pelo frescor da água, apanham algum mosquito ainda dormente sobre o talo da erva, e fendem o ar como uma lâmina brunida, chilreando alegres.
Duas lavandiscas, vestidas de uma seda cinzenta, passeiam graciosas como duas senhoritas, ao longo da beira do riacho, conservando erguida a cauda, ornada com veludinhos negros; vão espelhar-se na água, acham-se bonitas, retomam o passeio, escarnecidas por um melro, verdadeiro gaiato do bosque, que assobia atrás delas, com o seu comprido bico amarelo. Em uma ramosa macieira silvestre, que se ergue solitária junto às ruínas, um rouxinol chama insistentemente sua companheira, e somente se cala quando a vê chegar com uma comprida lagarta, que se torce, no aperto do bico fino. Dois pombos de torre, provavelmente evadidos de algum pombal da cidade, e que escolheram uma morada livre nas fendas de um torreão em ruínas, abandonam-se às suas expansões, ele, sedutor, garganteando, e ela arrulhando pudica.
Jesus, com os braços cruzados sobre o peito, olha para todos estes alegres animaizinhos e sorri.
– Já estás pronto, Mestre? –pergunta Simão às suas costas.
– Já estou pronto. Os outros ainda estão dormindo?
– Ainda estão.
– São jovens… Fui tomar um banho no rio… Uma água fresca que desanuvia a mente…
– Agora eu vou.
Enquanto Simão, vestido apenas com uma curta túnica, toma seu banho e depois põe a roupa, aparecem Judas e João.
– Deus te salve, Mestre. Estamos atrasados?
– Não. A manhã ainda está começando. Mas agora preparai-vos logo e vamos.
Os dois tomam banho, e se vestem com a túnica e o manto.
Jesus, antes de pôr-se a caminho, arranca umas florzinhas nascidas entre as fendas de duas pedras e as coloca em uma caixinha de madeira, na qual já estão outras coisas, que eu não distingo bem. Ele explica:
– Vou levá-las para a mãe. Ela gostará muito… 74.2Vamos.
– Aonde vamos, Mestre?
– A Belém.
– Ainda? Parece-me que por lá não encontraremos bons ares…
– Não importa. Vamos. Quero mostrar-vos o lugar onde os Magos apearam e onde Eu estava.
– Então escuta. Perdoa, sim, Mestre? Mas deixa-me falar. Vamos fazer uma coisa. Em Belém, e no albergue, deixa que eu faça o discurso e as perguntas. Para vós, galileus, não há muito amor na Judéia, e aqui ainda menos do que em outros lugares. Então, vamos fazer assim: Tu e João pareceis galileus até na veste. Tendes uma veste muito simples. E depois… esses cabelos! Por que teimais em conservá-los tão compridos? Eu e Simão daremos a vós os nossos mantos, e usaremos os vossos. Tu, Simão, darás o teu a João. E eu ao Mestre. Eis… assim. Estás vendo? Num momento ficareis parecendo um pouco mais judeus. Agora, isto.
Judas tira o seu capuz — é um pedaço de tela com listras amarelas, marrons, vermelhas, verdes, como o manto, todas alternadas, estando preso em seu lugar por um cordão amarelo — e o coloca na cabeça de Jesus, ajeitando-o ao longo das faces, para esconder os longos cabelos loiros. João fica com o verde bem escuro de Simão:
– Oh! Agora está melhor! Eu tenho um senso prático.
– Sim, Judas. Tu tens o senso prático. É verdade. Toma cuidado, porém, para que ele não supere o outro senso.
– Qual, Mestre?
– O senso espiritual.
– Não! Mas em certos casos é bom sabermos ser mais políticos do que embaixadores. E escuta… Sê bom ainda… é para o teu bem… Não me desmintas se eu disser algumas coisas… algumas coisas… que não são verdade, é isso.
– Que é que estás querendo dizer? Por que mentir? Eu sou a Verdade, e não quero mentira, nem em Mim, nem em torno a Mim.
– Oh! Eu não direi senão meias mentiras. Direi que estamos todos voltando de lugares distantes, do Egito talvez, e que desejamos ter notícias de amigos queridos. Direi que somos judeus que estamos de volta de um exílio… No fundo, em tudo há um pouco de verdade… e depois, quem está falando sou eu… mentira mais, mentira menos…
– Mas, Judas! Para que enganar?
– Deixa para lá, Mestre! O mundo se rege sobre mentiras. E algumas vezes elas são necessárias. Bem, para fazer-te contente, eu direi só que viemos de longe e que somos judeus. Isto é verdade, são três quartos da verdade. E tu, João, não fales nunca, porque te trairias.
– Eu ficarei calado.
– Depois… se as coisas forem andando bem… então diremos o resto. Mas não tenho muitas esperanças. Eu sou astuto, e pego as coisas no ar.
– Eu estou vendo, Judas. Mas, Eu preferiria que fosses simples.
– Pouco adianta. No teu grupo eu serei aquele das missões difíceis. Deixa-me agir.
Jesus está pouco propenso, mas cede.
74.3 Eles vão. Passam ao longo das ruínas, depois vão beirando um paredão sem aberturas, além do qual se ouve o zurrar, o mugir, o relinchar, o balir e aquele rinchar escangalhado dos camelos ou dromedários. O paredão tem um canto. Eles o contornam. Ei-los na praça de Belém. O tanque da fonte está no centro da praça, que tem a forma enviesada de sempre; contudo, é diferente no lado oposto ao albergue. Lá, onde estava a casinha, na qual, quando penso, vejo-a ainda toda de prata pura, sob os raios da Estrela, é um campo aberto, cheio de escombros. Somente a pequena escada está ainda, de pé, com o seu pequeno terraço. Jesus olha e suspira.
A praça está cheia de pessoas em volta dos vendedores de mantimentos, utensílios, tecidos, etc., que estenderam sobre esteiras, ou colocaram em cestas suas mercadorias, todas postas no chão, e estão eles também acocorados no centro de seu… negócio, quando não estão gritando e gesticulando em pé, em altercação com algum comprador seguro.
– É dia de feira –diz Simão.
A porta, ou melhor, o portão do albergue está aberto de par em par, e por ele sai uma fila de burros carregados de mercadorias.
Judas entra primeiro. Olha ao seu redor. Arrogante, ele agarra um pequeno moço de estrebaria, sujo e sem camisa, ou seja, vestido apenas com uma veste de baixo, sem mangas e que chega até os joelhos:
– Rapaz! –grita–. O patrão! Já! Vai rápido, que eu não estou acostumado a esperar.
O rapaz vai correndo, arrastando atrás de si uma vassoura de limpeza.
– Mas Judas! Que modos!
– Silêncio, Mestre. Deixa-me agir. É preciso que acreditem que somos uns ricaços da cidade.
Chega correndo o patrão, que quase quebra as costas, em mesuras diante de Judas, que está todo imponente, no manto vermelho escuro de Jesus, sobre sua rica veste amarelo-ouro, toda cheia de cintas e franjas.
– Homem, nós viemos de longe. Somos judeus das comunidades asiáticas. Este aqui, nascido em Belém, está sendo perseguido e procura os seus amigos daqui. E nós viemos com Ele. Estamos chegando de Jerusalém, onde adoramos o Altíssimo na sua Casa. Pode dar-nos algumas informações?
– Senhor… o teu servo… Tudo por ti. Manda.
– Queremos saber de muitos… e especialmente de Ana, que tinha casa defronte do teu albergue.
– Oh! Coitada! Ana não será mais por vós encontrada, a não ser no seio de Abraão. E, com ela, os seus filhos.
– Foi morta? Por que?
– Não sabeis da matança de Herodes? O mundo todo falou dela, e até César o definiu como “um porco que se nutre de sangue.” Ai! Que foi que eu disse! Não me denuncieis! És mesmo judeu?
– Eis o sinal da minha tribo. E então? Fala.
– Ana foi morta pelos soldados de Herodes, com todos os seus filhos, menos uma.
– Mas, por que? Era tão boa!
– Tu a conheceste?
– Muito.
Judas mente descaradamente.
– Ela foi morta, por ter hospedado aqueles que se diziam pai e mãe do Messias… 74.4Vem cá, neste quarto… As paredes têm ouvidos, e falar de certas coisas… é perigoso.
Entram em um pequeno quarto escuro e baixo. Assentam-se num baixo sofá.
– Pois é… eu tive um bom faro. Não é sem motivo que eu sou albergueiro. Eu nasci aqui, sou filho de filhos de albergueiros. Tenho a malícia no sangue. Por isso, eu não quis recebê-los. Talvez um buraco para eles eu teria encontrado. Mas… galileus, pobres, desconhecidos… ah! não! O Ezequias não cai nessa! E depois… eu sentia… sentia que eram diferentes… aquela mulher… com uns olhos… não, não, ela devia ter o demônio dentro de si, e que lhe falava. E ela o trouxe aqui… a mim não, mas na cidade. Ana era mais inocente do que uma ovelhinha, e os hospedeu poucos dias depois, já com o Menino. Diziam que ele era o Messias… Oh! Quanto dinheiro eu ganhei naqueles dias! Mais do que durante o recenseamento! Vinham também aqueles que não estavam obrigados a vir para o recenseamento. Vinham do mar, e até do Egito, para ver… e isso durante meses! Quanto eu ganhei!… Por último, vieram três reis, três poderosos, três magos… sei lá! Foi um verdadeiro cortejo! Não acabava mais! Ocuparam-se todas as estrebarias, e pagaram em ouro, o feno que dava para um mês, e foram embora no dia seguinte, deixando tudo aí. E, quantos presentes deram aos empregados nas estrebarias, às mulheres, e a mim! Oh!… Eu, do Messias, verdadeiro ou falso, só posso falar bem. Ele me fez ganhar moedas aos montes. Prejuízos eu não tive. Mortos tampouco, porque eu tinha acabado de me casar. Portanto… Mas os outros!
74.5 – Queremos ver os lugares da matança.
– Os lugares? Mas todas as casas foram lugar de matança. Até várias milhas ao redor de Belém, houve mortos. Vinde comigo.
Sobem uma escada até um grande terraço sobre o teto. Do alto se vê um grande campo e toda Belém1 estendida como um leque aberto sobre suas colinas.
– Estais vendo os pontos destruídos? Ali foram queimadas também as casas, porque os pais defenderam os seus filhos, com armas. Estais vendo lá aquela espécie de poço coberto de hera? Aquilo é o que restou da sinagoga. Queimada com o arqui-sinagogo, que havia afirmado ser aquele o Messias. Queimada pelos sobreviventes, enlouquecidos por causa da morte de seus filhos. Quantos aborrecimentos tivemos depois… E lá, e lá, e lá… estais vendo aqueles sepulcros? São das vítimas… Parecem ovelhinhas espalhadas entre o verde, a perder de vista… Todos os inocentes e os pais e as mães dos mesmos… Estais vendo aquele tanque? Era vermelha a sua água depois que nele os sicários limparam suas armas e suas mãos. E aquele rio, lá atrás, vós o vistes? Chegou a ficar cor-de-rosa, por causa da grande quantidade de sangue que ele recebeu das cloacas… E ali, eis, ali… na frente. Aquilo é o que resta de Ana.
Jesus chora.
– Tu a conhecias bem?
Responde Judas:
– Ela era como uma irmã para a sua mãe. Não é verdade, amigo?
Jesus responde somente:
– Sim.
– Compreendo –diz o albergueiro, e fica pensativo.
74.6 Jesus se inclina para falar mais baixo com Judas.
– O meu amigo queria andar sobre aquelas ruínas –diz Judas.
– Pois vá. Elas são de todos!
Eles descem. Saúdam, e vão. O hospedeiro fica decepcionado. Talvez esperasse ganhar alguma coisa.
Atravessam a praça. Sobem pela escadinha que sobrou.
– Daqui –diz Jesus– minha mãe me fez saudar os Magos, e daqui descemos, para irmos ao Egito.
Algumas pessoas estão olhando os quatro sobre as ruínas. Uma delas pergunta:
– Serão parentes da morta?
– Amigos.
Uma mulher grita:
– Não façais mal à morta, ao menos vós, como os outros seus amigos fizeram mal a ela enquanto viva, e depois escaparam salvos.
Jesus está ereto no corredor, junto à parede que o limita, e por isso a uma boa altura, cerca de dois metros, acima da praça, com o vazio atrás de si. Um vazio cheio de sol, que o nimba todo e faz ainda mais cândida a veste de linho alvíssimo, que o cobre sozinho, agora que o manto escorregou-lhe das costas e está aos pés Dele como uma base multicor. Atrás ainda, o fundo verde e desordenado daquilo que foi a horta e o campo de Ana, agora transformado em um matagal coberto de escombros espalhados.
74.7 Jesus estende os braços. Judas, que vê o gesto, diz:
– Não fales! Não é prudente!
Mas Jesus enche a praça com sua voz potente:
– Homens de Judá! Homens de Belém, ouvi! Ouvi, ó vós, mulheres da terra consagrada a Raquel! Ouvi a alguém que vem de Davi que, perseguido, sofreu, e que tornado digno de falar, fala, para dar-vos luz e conforto. Ouvi.
As pessoas param de gritar, discutir, comprar, e se ajuntam.
– É um rabi!
– Certamente vem de Jerusalém.
– Quem é?
– Que belo homem!
– Que voz!
– Que modos!
– E, além disso, se é da descendência de Davi!
– Então é nosso.
– Ouçamos, ouçamos!
Toda a praça está agora perto da escadinha, que parece um púlpito.
– No Gênesis está escrito2: “Eu porei inimizade entre ti e a mulher… esta te esmagará a cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar.” E está escrito ainda: “Eu multiplicarei os teus sofrimentos e as tuas gestações… e a terra produzirá abrolhos e espinhos.” Esta foi a condenação do homem, da mulher e da serpente.
Tendo vindo de longe para venerar o túmulo de Raquel, ouvi no vento da tarde, no orvalho da noite, no lamento do rouxinol pela manhã, repetir-se os soluços da antiga Raquel3, exatamente por ser assim, por ser destinada a ser o tabernáculo sobre o qual pousaria a Glória de Deus, o Fogo de Deus, o seu Amor encarnado, desencadeou o ódio de Satanás.
“Porei inimizade entre ti e a mulher. Ela te manterá sob o seu pé, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar.” Que inimizade há maior do que aquela, que tem em mira os filhos, que são o coração do coração da mulher? E qual é o mais forte pé do que aquele da mãe do Salvador? Eis porque foi natural a vingança de Satanás vencido, o qual, não ao calcanhar, mas ao coração das mães, pela Mãe, ocorreu a sua insídia.
Oh! Multiplicados sofrimentos, ao perderem os filhos, depois de tê-los dado à luz! Oh! Terríveis espinhos de ter semeado e suado pela prole e serem pais sem terem mais a sua prole! Mas jubila, Belém! O teu sangue mais puro, o sangue dos inocentes, fez um caminho de fogo e de púrpura para o Messias…
74.8 A multidão, que vinha sempre mais rumorejando, desde quando Jesus falou no Salvador, e depois na mãe Dele, agora mostra um sinal mais claro de agitação.
– Cala-te, Mestre –diz Judas–. E vamos embora.
Mas Jesus não lhe dá ouvidos, e continua:
– … para o Messias, que a Graça de Deus Pai salvou dos tiranos, a fim de conservá-lo para a salvação do povo e…
Uma voz estridente de mulher grita:
– Cinco, cinco deles eu tinha dado à luz, e mais nenhum está em minha casa! Pobre de mim!
E grita histericamente. É o começo da algazarra.
Uma outra se revolve na poeira, rasga as vestes, mostra uma de suas mamas mutilada no bico, e grita:
– Aqui, aqui sobre esta mama é que degolaram o meu primogênito! A espada cortou-lhe o rosto, juntamente com o bico do meu seio. Oh! O meu Eliseu!
– E eu? E eu? Eis ali o meu palácio! Três túmulos em um, velados pelo pai. Marido e filhos juntos. Eis, eis!… Se aqui está o Salvador, que ele me devolva os filhos, me devolva o esposo, me salve do desespero e de Belzebu, me salve!
Todos gritam.
– Os nossos filhos, os maridos, os pais! Devolva-os, se é que está aqui!
Jesus move os braços, impondo silêncio.
– Irmãos da minha terra, Eu gostaria de devolver-vos vossos filhos em sua própria carne. Mas Eu vos digo: Sede bons, resignados, perdoai, esperai, alegrai-vos em uma esperança, jubilai em uma certeza. Logo reavereis os vossos filhos, anjos no Céu, porque o Messias está para abrir as portas dos Céus e, se fordes justos, a morte será Vida que vem e Amor que volta…
– Ah! És Tu o Messias? Dize-o em nome de Deus!
Jesus abaixa os braços, com aquele seu gesto suave, manso, que parece um abraço, e diz:
– Eu o sou!
– Fora! Fora! Então é por tua culpa!
Passa voando uma pedra, por entre assobios e escárnios.
74.9 Judas dá um belo salto… oh! se ele tivesse sido sempre assim! Coloca-se na frente do Mestre, de pé sobre o muro do terraço, o manto desdobrado, e recebe, destemido, as pedradas, e até uma que lhe sangra, e grita para o João e o Simão:
– Levai Jesus embora. Levai-o para atrás daquelas árvores. Depois eu irei. Ide, em nome do Céu!
E para a multidão:
– Cães hidrófobos! Eu sou do Templo, e ao Templo e a Roma vos denunciarei.
A multidão, por um momento, sente medo. Mas depois recomeça o apedrejamento, por sorte, inábil. E Judas, impassível o recebe, respondendo com afrontas às maldições do povo. Aliás, agarra no ar uma das pedras e a remete sobre a cabeça de um velhote, que grita, como uma pega que está sendo depenada viva. E, como estão tentando subir até o seu pedestal, ele, rápido, pega um galho seco, que está no chão (agora ele desceu do muro), e desce o galho sobre costas, cabeças, mãos, sem piedade.
Chegam as milícias e, com suas lanças, vão abrindo caminho:
– Quem és? Por que essa briga?
– Um judeu está sendo agredido por estes plebeus. Estava comigo um rabino conhecido dos sacerdotes. Ele estava falando a estes cães. E eles escaparam das correntes, e nos atacaram.
– Quem és tu?
– Judas de Keriot, que já fui do Templo, e agora sou discípulo do Rabi Jesus da Galiléia. Sou amigo do fariseu Simão, do saduceu Jocanã, do conselheiro do Sinédrio José de Arimatéia, e, enfim, isto podes conferir, de Eleazar ben Ana, o grande amigo do Procônsul.
– Irei verificar. Para onde vais?
– Vou com meu amigo para Keriot, e depois para Jerusalém.
– Vai. Nós defenderemos tuas costas.
Judas estende a mão com umas moedas para o soldado. Deve ser uma coisa ilícita… mas usual, porque o soldado as pega, rápido e cauteloso, o saúda e sorri. Judas desce do seu pódio e vai aos saltos pelo campo inculto, e alcança os companheiros.
– Estás muito ferido?
– Coisa de nada, Mestre. Depois, foi por Ti… Mas eu também bati. Devo estar todo sujo de sangue…
– Sim, na face. Aqui há um fio de água.
João molha um paninho e lava a face de Judas.
– Lamento Judas… Mas vê… também dizer a eles que éramos judeus, segundo o teu senso prático…
– São uns animais. Creio que terás ficado persuadido disso, Mestre. E que não insistirás.
– Oh! Não. Não por medo. Mas porque é inútil, por enquanto. Quando não nos querem, não os maldizemos, mas nos retiramos, rezando pelos pobres loucos, que estão morrendo de fome, e não enxergam o Pão. Vamos por este caminho remoto. Creio que podemos tomar o caminho para Hebron. Para os pastores, se os encontrarmos.
– Para levarmos mais pedradas?
– Não. Para dizer a eles: “Sou Eu”.
– Ah! Então é certo que vão bater em nós. Há trinta anos que estão sofrendo por tua causa!….
– Veremos.
E lá se vão por um pequeno bosque compacto, sombreado, fresco, e eu os perco de vista.
1 Belém, da qual Maria Valtorta esboçou uma pequena carta num pedaço de papel de linhas, no verso do qual escreveu as duas linhas que pusemos no alto do desenho: Se não me engano na primeira parte (porque não o vi nas visões) vejo Belém assim. As palavras no desenho são, além das dos quatro pontos cardeais: Jerusalém – estrada principal (duas vezes) – estrada secundária percorrida por Jesus – primeira leve ondulação do solo – IIº arco de colinas – perímetro de Belém – fonte – pousada – gruta – sepulcro de Raquel – casa de camponês.
2 está escrito, em: Génesis 3,14-19.
3 diz Miqueias, em : Miqueias 5,1.