90. 90. A chegada dos discípulos e dos pastores a Nazaré
28 de janeiro de 1945.
90.1 Vejo Maria que, descalça e diligente, vai e vem pela sua pequena casa, às primeiras luzes do dia. Em sua veste de um azul claro parece uma graciosa borboleta que, roça, sem ruídos, paredes e objetos. Aproxima-se da porta que dá para a estrada, e a abre com cuidado, para não fazer barulho, deixando-a entreaberta, depois de ter dado uma olhada sobre a estrada ainda deserta. Recoloca em seus lugares as coisas, abre portas e janelas, entra na oficina, onde, agora que foi abandonada pelo Carpinteiro, estão os teares de Maria, e também ali trabalha com afinco. Cobre com cuidado um dos teares, no qual um tecido está começado, e sorri a um pensamento que lhe ocorre, ao olhá-la.
Sai para a horta. Os pombos vão pousar sobre seus ombros e, com voos curtos, de um ombro à outro, para ter o lugar melhor, briguentos e ciumentos pelo amor Dela, a acompanham até um depósito onde estão as provisões de mantimentos. De lá, Ela tira grãos para eles, e diz:
– Aqui, hoje é aqui. Não façais barulho. Ele está muito cansado!
Depois pega farinha e vai a um quartinho perto do forno, e começa a fazer o pão. Prepara a massa e sorri. Oh! Como sorri hoje a Mãe. Parece a jovenzinha Mãe da Natividade, de tanto que está rejuvenescida hoje pela alegria. Da massa do pão tira uma boa porção, a põe à parte, cobrindo-a, e depois retoma o trabalho, acalorando-se, enquanto seus cabelos vão se tornando mais claros, por terem ficado empoados com farinha.
90.2 Em silêncio, entra Maria de Alfeu.
– Já estás trabalhando?
– Sim. Estou fazendo pão, e olha, os pães de mel de que Ele tanto gosta.
– Vai fazê-los, então. A massa de pão é muita. Eu vou aprontá-la para ti.
Maria de Alfeu, robusta e mais afeita ao trabalho braçal, trabalha com vigor na preparação do seu pão, enquanto Maria vai empapando com mel e manteiga os seus doces e os faz ficar bem redondos, colocando-os em seguida sobre uma chapa.
– Não sei como fazer para avisar Judas… Tiago não tem coragem… e os outros…
Maria de Alfeu suspira.
– Hoje virá Simão Pedro. Ele vem sempre no segundo dia depois do sábado, com o peixe. Nós o mandaremos procurar Judas.
– Se ele quiser ir…
– Oh! Simão nunca me diz não.
90.3 – A paz esteja sobre este vosso dia –diz Jesus, aparecendo.
As duas mulheres sobressaltam-se, ao ouvirem a voz Dele.
– Já te levantaste? Por quê? Eu queria que dormisses…
– Dormi um sono, como quando estava no berço, Mãe. Tu é que pareces não ter dormido…
– Fiquei te olhando dormir… Eu fazia sempre assim, quando eras pequenino. No sono, sorrias sempre… e aquele teu sorriso me ficava o dia inteiro no coração, como uma pérola… Mas esta noite não estavas sorrindo, meu Filho. Suspiravas como quem está aflito…
Maria o olha com ansiedade.
– Estava cansado, Mãe. E o mundo não é como esta casa, onde tudo é honestidade e amor. Tu… tu sabes Quem Eu sou, e podes entender o que é para Mim o contato com o mundo. É como caminhar sobre uma estrada fétida e lamacenta. Mesmo estando-se atento, um pouco de lama o salpica, e o fedor penetra, ainda que faças força para não respirar… e, se este é homem que ama o asseio e o ar puro bem podes pensar como isso te causa aborrecimento…
– Sim, Filho. Eu entendo. Mas tenho pena de que estejas sofrendo…
– Agora estou contigo e não sofro. Existe a lembrança… Mas serve para tornar mais bela a alegria de estar contigo.
Jesus se inclina para beijar sua Mãe.
Ele acaricia também a outra Maria, que acabou de entrar, toda vermelha, porque estava acendendo o forno.
– Vai ser preciso avisar Judas –é a preocupação de Maria de Alfeu.
– Não é preciso. Judas estará aqui hoje.
– Como é que sabes disso?
Jesus sorri e se cala.
– Filho, todas as semanas, neste dia, Simão Pedro vem aqui. Ele me quer trazer o peixe pescado nas primeiras vigílias. E chega lá pelo fim da primeira hora. Ele vai ficar feliz hoje. Simão é bom. Nas horas que fica aqui, ele nos ajuda. Não é verdade, Maria?
– Simão Pedro é um homem honesto e bom –diz Jesus–. Mas também o outro Simão, que daqui a pouco irás ver, é um grande coração. Eu vou ao encontro deles. Estão para chegar.
E Jesus sai, enquanto as mulheres, tendo posto o pão no forno, voltam para a casa, onde Maria calça de novo as sandálias, e retorna, com o seu vestido de linho branco.
Passa algum tempo, e, enquanto esperam, Maria de Alfeu diz:
– Não tiveste tempo para acabar aquele trabalho.
– Eu o acabarei logo. E o meu Jesus terá, com a sombra dele, um refrigério, sem precisar ter um peso na cabeça.
90.4 A porta é aberta por fora.
– Mãe, eis os meus amigos. Entrai.
Entram em um grupo os discípulos e os pastores. Jesus segura pelos ombros os dois pastores, e os leva até sua Mãe:
– Aqui estão dois filhos, que procuram uma mãe. Sê tu a alegria deles, Mulher.
– Eu vos saúdo… Tu… o Levi?… E tu? Não sei, mas pela idade, que Ele me disse, deves ser o José. Este nome é doce e sagrado aqui dentro. Vem, vinde. Com alegria, eu vos digo: a minha casa vos acolhe, e uma Mãe vos abraça, lembrando o quanto vós, tu na pessoa de teu pai, tivestes de amor para com o meu Menino.
Os pastores parecem encantados, de tão extáticos que estão.
– Eu sou Maria, sim. Tu viste a Mãe feliz. Sou sempre aquela. Agora também feliz por ver o meu Filho entre corações fiéis.
– E este é o Simão, Mãe.
– Tu mereceste a graça, porque és bom. Eu sei. E a Graça de Deus esteja sempre contigo.
Simão, mais experiente quanto aos modos do mundo, se inclina até o chão, tendo os braços cruzados sobre o peito, e saúda:
– Eu te saúdo, ó Mãe verdadeira da Graça, e nada mais peço ao Eterno, agora que conheço a Luz e a ti, que és mais suave que a lua.
– E este é Judas de Keriot.
– Tenho uma mãe, mas o meu amor por ela desaparece, em relação à veneração que sinto por ti.
– Não. Por mim, não. Por Ele. Eu sou, porque Ele é. E nada quero para mim. Mas só por Ele peço. Sei quanto honraste meu Filho em tua pátria. Mas eu ainda te digo: seja o teu coração o lugar em que Ele receba de ti a mais alta honra. Então eu te abençoarei com coração de Mãe.
– O meu coração está sob o calcanhar do teu Filho. Feliz opressão. Somente a morte desfará a minha fidelidade!!
– E este é o nosso João, Mãe.
– Estava tranquila, desde que soube que estavas perto de Jesus. Eu te conheço, e descanso no espírito, quando sei que estás com meu Filho. Sê bendito, minha tranquilidade!!
E o beija.
90.5 A voz áspera de Pedro se faz ouvir lá do lado de fora:
– Eis o pobre Simão, que traz a sua saudação e….
E, tendo entrado, ficou pasmado. Mas depois joga no chão o cesto redondo que trazia pendurado nas costas, e se lança por terra, também ele, dizendo:
– Ah! Senhor eterno! Mas… não, isto não devias ter feito comigo, Mestre! Estar aqui… e não fazer saber nada ao pobre Simão! Deus te abençoe, Mestre! Ah! Como me sinto feliz! Não podia mais estar sem Ti.
E lhe acaricia a mão, sem prestar atenção no que Jesus lhe diz:
– Levanta-te, Simão. Mas levanta-te logo.
– Eu me levanto, sim. Mas… Ei, tu, rapaz (o rapaz é João)! Tu, pelo menos, podias ter ido correndo, para dizê-lo a mim. Agora, vai depressa! Vai a Cafarnaum dizê-lo aos outros… e primeiro, vai à casa de Judas. Teu filho está para chegar, mulher. Rápido! Faz de conta que és uma lebre, que tem atrás os cães.
João parte rindo.
Pedro, enfim se levantou. Continua a ter, entre as suas mãos curtas e gordas, de veias salientes, a longa mão de Jesus, e o beija sem soltá-lo, não obstante queira dar o seu peixe, que está no chão, dentro do cesto.
– Ah! Não. Não quero que Tu vás embora uma outra vez sem mim. Nunca mais, nunca mais ficarei tanto tempo assim sem te ver! Te seguirei como a sombra segue o corpo e a corda a âncora. Onde estiveste, Mestre? Eu dizia a mim mesmo: “Oh! Onde estará? Que estará fazendo? E aquele menino que é João, saberá cuidar Dele? Estará atento para que não se canse demais? Que Ele não fique sem comida?” Ah! Eu te conheço!… Estás mais magro! Sim. Mais magro. Não tratou bem de Ti! Vou dizer-lhe que… Mas, onde estiveste, Mestre? Não me dizes nada!
– Estou esperando que me deixes falar!
– É verdade. Mas… ah! Ver-te é como um vinho novo. Sobe à cabeça só com o cheiro. Oh! O meu Jesus!
Pedro quase chora, em sua reação de alegria.
– Eu também senti saudade de ti, de todos vós, mesmo quando Eu estava com queridos amigos. 90.6 Eis, Pedro. Estes são dois que me amaram, desde quando Eu tinha poucas horas de nascido. Mais ainda: eles já sofreram por causa de Mim. Aqui há um filho sem pai e sem mãe, por minha causa. Mas ele tem tantos irmãos em todos vós, não é verdade?
– Estás pedindo isso, Mestre? Mas se, por acaso o demônio te amasse, eu o amaria. Vós também sois pobres, pelo que vejo. E, então, somos iguais. Vinde, para que eu vos beije. Sou pescador, mas tenho um coração mais terno que o de um pombinho. E sincero. Não olheis se sou rude. A dureza é por fora. Dentro, eu sou todo mel e manteiga. Mas sou assim com os bons… porque com os maus…
– E este é o novo discípulo.
– Parece-me já tê-lo visto.
– Sim. É Judas de Keriot, e o teu Jesus, por meio dele, teve boa acolhida naquela cidade. Eu vos peço que vos ameis, ainda que sejais de regiões diferentes. Sois todos irmãos no Senhor.
– E como tal o tratarei, se ele for mesmo assim. E… sim… (Pedro olha fixamente para Judas, um olhar aberto e admoestador) e… sim… é melhor que o diga, assim me conheces logo, e bem. E o digo: não tenho muita estima pelos judeus em geral, e pelos cidadãos de Jerusalém, em particular. Mas sou honesto. E sobre minha honestidade, eu te garanto que deixo de lado todas as ideias que tenho sobre vós, e que quero ver em ti, somente o irmão discípulo. Agora, toca a ti não me fazer mudar de pensamento e decisão.
– Também comigo, Simão, tens esses preconceitos? –pergunta o Zelote, sorrindo.
– Oh! Eu não te tinha visto! Contigo? Oh! Contigo, não. Tens a honestidade estampada em teu rosto. A bondade do teu coração transpira como um óleo aromático transpira de um vaso poroso. E és um ancião. Isto nem sempre é um mérito. Às vezes, quanto mais se envelhece, mais se torna falso e mau. Mas tu és daqueles que fazem como os vinhos muito apreciados. Quanto mais velhos ficam, mais se tornam genuínos e bons.
– Julgaste bem, Pedro, diz Jesus. 90.7Agora vinde. Enquanto as mulheres trabalham para nós, paremos sob a pérgula fresca. Como é belo estar com os amigos! Iremos depois todos juntos pela Galileia, e além dela. Isto é, todos não. Levi, agora que ficou contente, voltará a Elias para dizer-lhe que Maria o saúda. Não é mesmo, Mãe?
– E que eu o abençoo, assim como a Isaque e aos outros. Meu Filho me prometeu levar-me Consigo… e eu irei a vós, os primeiros amigos do meu Menino.
– Mestre, gostaria que Levi levasse a Lázaro o escrito de que já tens conhecimento.
– Prepara-o, Simão. Hoje é grande festa. Amanhã à tarde, Levi partirá. A tempo de chegar antes do sábado. Vinde, amigos…
Saem no meio dos canteiros verdes das hortaliças e tudo termina.