387. 387. Em Gálgala. O mendigo Oglae os escribas tentadores. Os apóstolos comparadosàs doze pedras do prodígio de Josué.
18 de fevereiro de 1946.
381.1 Não sei como Gálgala estará agora. No momento em que Jesus nela vai entrar, é como uma das cidades comuns da Palestina, mas muito populosa e situada sobre uma colina de pouca altura, coberta quase toda de vinhedos e olivais. O calor do sol é tão forte aí, que os próprios cereais só podem ter a sua vez quando tiverem sido semeados aos lances, por baixo das árvores ou por baixo das fileiras das plantas. E eles amadurecem, apesar das copas frondosas, porque elas já estão bem torradas pelo Sol, o que também já nos lembra que a presença do deserto está perto.
Poeira, vozearia, sujeira, é a confusão de dia de feira. E, inexoráveis como o destino estão os zeladores de costume e os nunca convictos fariseus e escribas, que estão discutindo e fazendo largos gestos, querendo assim passar por muito sábios. Eles estão no melhor canto da praça e fingindo não terem visto Jesus que passa, ou não o conhecerem.
Jesus continua indo para a frente, a fim de ir tomar uma refeição em alguma pequena praça de segunda classe, já na periferia da cidade, que está toda ensombreada pelo entrelaçamento dos ramos de árvores de várias espécies. Tenho a impressão de que seja aqui uma parte do morro que, há pouco tempo teria sido incluída dentro dos limites da cidade, e que por isso conserva ainda aquela lembrança do seu estado nativo.
387.2 O primeiro a aproximar-se de Jesus, que está comendo pão com azeitonas, é um pobre homem andrajoso. Ele lhe pede um pouco de pão. E Jesus lhe dá o seu, junto com todas as azeitonas que tem na mão.
– E Tu? Estamos sem dinheiro, e Tu sabes disso –observa Pedro–. Deixamos tudo com Ananias…
– Não importa. Eu não estou com fome. Com sede, sim…
O mendigo diz:
– Aqui atrás há um poço. Mas, porque me deste o pão todo? Podias ter-me dado a metade dele… Se não tiveres nojo de recebê-lo de volta…
– Come, come. Eu posso ficar sem ele. Mas, para que não fiques pensando que Eu tenha nojo de ti, dá-me com as tuas mãos, somente um pedaço, e Eu o comerei para ser teu amigo…
O homem, com um rosto triste e sombrio, procura mostrar um sorriso mais pasmado, e diz:
– Oh! é esta a primeira vez, desde que eu me tornei o pobre Ogla, que alguém me diz querer ser meu amigo!
E dá o pedaço de pão a Jesus. E lhe pergunta:
– Quem és Tu? Como te chamas?
– Sou Jesus de Nazaré, o Rabi da Galileia.
– Ah! Já ouvi outros falarem de Ti… Mas… não és Tu o Messias?
– Eu o sou.
– E Tu, Messias, és tão bom assim com os mendigos? O Tetrarca faz que seus servos batam em nós, se nos vir andando pelo caminho…
– Eu sou o Salvador. Não bato, mas amo.
O homem olha para Ele com um olhar parado. Depois começa a chorar.
– Por que estás chorando?
387.3 – Porque eu quereria ser salvo… Não estás mais com sede, Senhor? Eu te levaria ao poço, e lá te falaria…
Jesus percebe que o homem lhe quer confidenciar alguma coisa, e se levanta, dizendo:
– Vamos.
– Eu também vou! –deixa escapar Pedro.
– Não. Eu volto logo, por outro lado… É preciso que se tenha amor a quem se arrepende.
Vai com o homem para trás de uma casa, depois da qual se estende a campina.
– Ali está o poço… Bebe, e depois me escuta.
– Não, homem. Desabafa-te antes comigo da tua ansiedade, e depois… Eu beberei. E talvez ficarei tendo uma fonte até mais doce do que a da água da terra, para matar a minha sede.
– Que fonte é, Mestre?
– O teu arrependimento. Vamos lá para debaixo daquelas árvores. Aqui as mulheres nos ficam observando. Vem –e lhe põe a mão sobre o ombro, e o faz andar para a frente, para debaixo de umas viçosas oliveiras.
– Como sabes que eu sou culpado e que estou arrependido?
– Oh! Podes falar. E não fiques com medo de Mim.
387.4 – Senhor, nós éramos sete irmãos, filhos de um mesmo pai, mas eu tinha nascido da mulher que meu pai havia desposado, quando ele ficou viúvo. E eu era odiado pelos outros seis. Meu pai, ao morrer, fez a partilha dos bens entre todos, com uma medida igual. Mas, depois que ele morreu, os seis corromperam os juízes, tiraram-me todos os bens, e me expulsaram, a mim e à minha mãe, fazendo acusações infames contra nós. Minha mãe morreu quando eu estava com dezesseis anos… e morreu de tanto sofrer… E, desde aquele tempo, não tive mais ninguém que me amasse… –e chora com muito sentimento.
Depois, ele se controla, e continua:
– Os seis, ricos e felizes, prosperavam com o que era meu também, e eu ia morrendo de fome porque havia ficado doente, ao ter que dar assistência a minha mãe consumida… Mas Deus os feriu um por um. Eu os amaldiçoei tanto, e tanto os odiei, que as minhas pragas caíram sobre eles… Estava eu fazendo mal? Com certeza. Eu sei disso. E o estava sabendo. Mas, como poderia eu deixar de odiá-los e de amaldiçoá-los? O último deles, que na realidade era o terceiro nascido, resistia a todas as maldições, e até vivia na prosperidade, com os bens dos outros cinco, e dos quais ele se havia apropriado legitimamente para os três menores, que morreram sem mulher, pois a mulher do primogênito morreu sem deixar filhos, mas fraudulentamente quanto ao segundo, a cuja mulher e aos filhos ele havia, por meio de enganos e empréstimos, tomado grande parte do que era do pai. E, quando ele, por acaso, se encontrava comigo em alguma das feiras a que eu ia como servo de um homem rico, para vender alguma mercadoria, ele me insultava e me dava bordoadas… Certa tarde eu me encontrei com ele… Ele estava sozinho. Estava sozinho e um pouco embriagado pelo vinho. E eu já estava embriagado por recordações e pelo ódio. Fazia dez anos que minha mãe havia morrido. E ele me insultou, ao insultar a falecida… Ele a chamou de “cadela imunda”, e me chamou de “filho da hiena…” Senhor, se ele não tivesse tocado em minha mãe… eu o teria tolerado. Mas ele a insultou… Eu o peguei pelo pescoço. E lutamos. Eu queria somente dar-lhe uma surra… Mas ele escorregou no chão, e o chão estava coberto de uma erva escorregadia, e em declive… Abaixo daquele ponto havia um despenhadeiro e uma torrente.. E ele rolou, embriagado como estava, e caiu lá embaixo. E, depois de tantos anos, ainda o procuram…. Mas ele ficou certamente sepultado por entre as grandes pedras e as areias de alguma das torrentes que vêm do Líbano. Ele não voltou mais a Cesareia de Panéades. E eu saí de onde estava já sem paz… Ah! A maldição de Caim! Medo de viver… e medo de morrer… Diziam que Tu vias por dentro o coração do homem. Mas, são tão maus os rabinos de Israel!… Não sabem o que é ter piedade. Tu, que és o Rabi dos rabis, eras o meu terror… E, ao ver-me diante de Ti, eu procurava fugir. Contudo, eu gostaria de ser perdoado…
E chora agachado no chão…
387.5 Jesus olha para ele, e murmura:
– Vamos pôr sobre Mim também estes pecados!… Meu filho! Escuta: Eu sou a Piedade, não o terror. Também por ti é que Eu vim. Não te envergonhes por causa de Mim… Eu sou o Redentor. Queres ser perdoado. De quê?
– Do meu delito. Queres saber qual? Matei o meu irmão.
– Tu disseste: “Eu queria somente dar-lhe uma surra,” porque naquele momento estavas ofendido e irado. Mas, quando tinhas ódio e amaldiçoavas não a um, mas aos seis irmãos, não estavas sendo ofendido, nem irado. Tu o fazias como quem respira. Era uma coisa espontânea. o ódio e a maldição, e a alegria por vê-los castigados era o teu pão espiritual, não é verdade?
– Sim, Senhor. Durante dez anos, esse foi o meu pão.
– Pois bem, na realidade, o maior delito tu o começaste, desde o momento em que odiaste e amaldiçoaste. És homicida de teus irmãos seis vezes.
– Mas, Senhor, eles me haviam arruinado e odiado… E minha mãe morreu de fome…
– Queres dizer que tinhas razão, ao tirares vingança.
– Sim. Quero dizer isso.
– Não tens razão. Deus é que devia punir. Tu devias amar. E Deus te teria abençoado na Terra e no Céu.
– E, então? Ele não me abençoará nunca mais?
– O arrependimento traz consigo de volta a bênção. Mas, que dor, que aflição procuraste para ti mesmo. Muito mais do que as que te davam os teus irmãos foram as que deste a ti mesmo com o teu ódio!
– É verdade! É verdade! É um horror que já vem durando vinte e seis anos. Oh! Perdoa-me em nome de Deus. Tu estás vendo como eu sinto em mim a dor pela culpa! Eu nada peço para a minha vida. Eu sou mendigo e doente. Mas assim eu quero ficar, para sofrer e expiar. Dá-me, pois, a paz de Deus! Tenho feito sacrifícios no templo, sofrendo até fome, para ajuntar algum dinheiro para o holocausto. Mas eu não podia falar em meu delito, e não sei se terá sido aceito o sacrifício.
– Foi nulo. Ainda que cada dia tivesses oferecido um, que te adiantaria isso, se o imolavas com mentira? Rito supersticioso e inútil é o que não é precedido por uma sincera confissão da culpa. Uma culpa se ajuntava a outra e, por isso era mais do que inútil. Era uma oferta sacrílega. Que dizias tu ao sacerdote?
– Eu dizia: “Pequei por ignorância, fazendo coisas proibidas pelo Senhor, e quero fazer expiação por elas. Eu pensava: Eu sei em que foi que eu pequei, e Deus também o sabe. Mas a um homem eu não posso falar com clareza. Deus, que tudo vê, sabe que eu estou pensando é no meu pecado.”
– Estas são restrições mentais, umas escapatórias indignas. O Altíssimo odeia tais coisas. Quando se peca, procura-se fazer expiação. Não faças mais assim.
– Não, Senhor. E estarei perdoado? Ou deverei ir confessar todas as coisas uma por uma? Ou pagar com a vida a vida que eu tirei? A mim me basta morrer com o perdão de Deus.
– Estás vivo para expiar. Não poderias dar de novo o marido à viúva, nem o pai aos filhos… Antes de matar, antes de deixar que o ódio se torne dono de nós, teria sido preciso pensar! Mas, levanta-te, e caminha pelo novo caminho. Ao ires andando, encontrarás os meus discípulos. Os montes da Judeia, se fores de Tecué até Belém, certamente estão sendo percorridos por eles. Dize-lhes que Jesus te mandou, e diz que, antes de Pentecostes, Ele subirá de novo para Jerusalém, passando por Betsur e Beter. Procura Elias, José, Levi, Matias, João, Benjamim, Daniel, Isaque. Será que te lembrarás destes nomes? Dirige-te a eles em particular. E agora vamos.
– E Tu, não bebes?
– Eu bebi o teu pranto. Uma alma que volta para Deus! Nada existe de mais remunerador para Mim.
– Então, eu estou perdoado? Pois Tu disseste “Volta para Deus…”
– Sim. Estás perdoado. E não odeies mais.
O homem se inclina de novo, pois ele se havia posto de pé, e beija os pés de Jesus.
387.6 Voltam aos apóstolos, e os encontram discutindo com os escribas.
– Aí está o Mestre. Ele pode responder, e dizer que vós sois uns pecadores.
– Que há? –pergunta Jesus, cuja saudação afetuosa não teve resposta.
– Mestre, eles nos enchem de perguntas e de zombarias.
– Suportar os maus tratos é obra de misericórdia.
– Mas eles te ofendem. Fazem de Ti objeto de escárnio… e nós ficamos sem saber o que fazer. Estás vendo? Tínhamos conseguido reunir muitas pessoas… E agora, quantas ficaram? Duas ou três mulheres.
– Oh! Não! Tendes também um homem, um homem nojento! E para vós ele já é demais. Mas, ó Mestre, não te parece que te estás contaminando demais, Tu, que vives dizendo que as coisas impuras te causam asco? –diz-lhe zombeteiramente um jovem escriba, mostrando o mendigo, que está ao lado de Jesus.
– Isto não é impureza. Não é esta a impureza que me repugna. Este é “o pobre.” O pobre não causa nojo. Sua miséria até serve para abrir as almas a sentimentos de piedade fraterna. Eu tenho nojo é das misérias morais, dos corações fedorentos, das almas reduzidas a farrapos, dos espíritos feridos.
– E sabes se este não é um deles?
– Sei que ele crê e espera em Deus e em sua misericórdia, agora que ele a conheceu.
– Ele a conheceu? Onde ela mora? Dize-o, a fim de que nós também vamos até lá para vermos o rosto dela. Ah! Ah! O Deus terrível, para o qual Moisés nem ousava olhar, deve ter uma bem terrível face, mesmo quando usa de misericórdia, a não ser que, depois de tantos séculos, o seu rigor se tiver abrandado! –replica o jovem escriba, e se ri, com um riso mais hostil do que uma blasfêmia.
– Eu, que te estou falando, sou a misericórdia de Deus! –grita Jesus, que se ergueu, irradiando poder em seus olhos e gestos.
Não sei como é que o outro não sente medo… Mas se ele não chega a fugir dali, também já não sabe mais dizer sarcasmos, e fica calado, enquanto um outro está vindo para substituí-lo, dizendo:
– Oh! Quantas palavras inúteis. Nós quereríamos somente poder crer. Não pediríamos mais nada. Mas para crer precisamos ter provas. 387.7Mestre, sabes Tu o que é Gálgala para nós?
– E crês que Eu sou algum tolo? –diz Jesus.
E, tomando o tom de um salmo, lentamente e um pouco arrastado, começa assim1:
– “E Josué, tendo-se levantado antes do clarear do dia, levantou o acampamento. Partiram de Setim ele e todos os filhos de Israel e chegaram ao Jordão, onde ficaram três dias, no fim dos quais os arautos percorreram o acampamento, gritando: ‘Quando virdes a Arca da Aliança do Senhor vosso Deus, levada pelos sacerdotes da estirpe de Levi, parti vós também, e acompanhai-os, mas entre vós e a Arca haja um espaço de dois mil côvados, a fim de que possais ver de longe e enxergar o caminho pelo qual deveis caminhar, por não terdes nunca passado por ali e’…”
– Basta, basta! A lição Tu sabes. Agora, pois, quereríamos de Ti, para podermos crer, um milagre igual. No Templo, durante a Páscoa, ficamos aturdidos pela notícia levada por um barqueiro de que Tu havias feito parar um rio na cheia2. Agora, então, se por um homem qualquer fizeste aquilo, para nós que somos muito mais do que um homem, faze então aquele milagre de descer até o rio Jordão com os teus e atravessá-lo a pés enxutos, como Moisés no Mar Vermelho e Josué em Gálgala. Vamos! Os sortilégios só impressionam aos ignorantes, mas nós não seremos seduzidos pela tua necromancia, ainda que Tu, como é sabido, conheças os segredos do Egito e as fórmulas mágicas.
– Eu não preciso disso.
– Vamos descer até o rio, e creremos em Ti.
– Está escrito3: “Não tentarás ao Senhor teu Deus!”
– Tu não és Deus. És um pobre louco. És alguém que subverte as turbas ignorantes. Com elas é fácil, pois Belzebu está contigo. Mas conosco, dotados que somos dos poderes de exorcizar, Tu és menos do que nada –arrota orgulhoso, um escriba.
– Não o ofendas. Pede-lhe que faça o que desejamos. Assim como estás fazendo, Ele se intimida, e perde o poder. Eia, vamos, Rabi de Nazaré! Dá-nos uma prova, e nós te adoraremos –diz fingidamente um velho escriba, e assim, com sua falsa brandura, ele investe contra Jesus mais do que os outros, com sua visível ferocidade.
Jesus olha para ele. Depois vira-se para o sudoeste, e abre os braços, estendendo-os para a frente. E diz:
– Lá está o deserto de Judá, e lá me foi dito pelo Espírito do Mal que tentasse ao Senhor meu Deus. E Eu respondi: “Vai-te embora, Satanás. Está escrito que só a Deus se adora, e que a Deus não se tenta. E que se lhe deve obediência, mais do que à carne e ao sangue.” A mesma coisa Eu digo a vós.
– A nós Tu dás o nome de Satanás? A nós? Ah! Maldito!
E mais parecidos com uns molecões do que com doutores da Lei, eles apanham no chão algumas pedras para alvejá-lo com elas, e gritam:
– Vai-te embora! Vai-te embora! Que Tu sejas maldito para sempre!
Jesus olha para eles sem medo. Paralisa-os em seu gesto sacrílego, recolhe o manto, e diz:
– Vamos! Homem, vai à minha frente.
E volta rumo ao poço, perto do olival da confissão, e vai penetrando por ele adentro… Inclina a cabeça, agacha-se, e duas lágrimas incontidas brotam dos seus cílios, e escorrem pelo rosto pálido.
387.8 Chegam a uma estrada. Jesus para e diz ao mendigo:
– Dar-te dinheiro, Eu não posso. Eu não tenho. Eu te abençoo. Adeus. Faze o que Eu te disse.
Os dois se separam…
Os apóstolos estão aflitos. Não falam. Olham-se de soslaio uns aos outros…
Jesus rompe o silêncio, e começa de novo o tom do salmo, que foi interrompido pelo escriba:
– “E o Senhor disse a Josué: ‘Pega doze homens, um de cada tribo, e faze que eles apanhem no leito do Jordão, onde ficaram parados os pés dos sacerdotes, doze pedras bem duras, que colocareis a prumo no lugar dos acampamentos, onde armareis vossas tendas esta noite.’ E Josué, tendo chamado a si os doze escolhidos entre os filhos de Israel, tirando um de cada tribo, lhe disse: ‘Ide à frente da Arca do Senhor vosso Deus, até o meio do Jordão, e de lá trazei em vossas costas cada um uma pedra, segundo o número dos filhos de Israel, para fazerdes com elas um monumento entre vós. E, quando no futuro os vossos filhos vos perguntarem: que significam estas pedras? vós lhes respondereis: As águas do Jordão desapareceram diante da Arca da Aliança do Senhor, que as ia atravessando, e estas pedras foram postas como um monumento eterno dos filhos de Israel’.”
Jesus levanta a cabeça, que Ele conservava inclinada. Gira os olhos sobre os doze, que estão olhando, para Ele. E lhes diz, com uma outra voz, a voz dos seus momentos de maior tristeza:
– E a Arca ficou no rio. E não foram as águas, mas os Céus é que se abriram4 em sinal de respeito para com o Verbo, que nelas estava para santificá-las mais, se santas já não fossem por causa da Arca que estava parada no leito do rio. E o Verbo escolheu para si doze pedras. Muito duras. Porque elas terão que durar até o fim do mundo. E porque elas haverão de ser o fundamento do Templo novo e da Jerusalém eterna. Doze. Lembrai-vos disso. Este há de ser o número. E depois outras doze, as escolhidas para o segundo testemunho, os primeiros discípulos pastores, juntos com Abel, o leproso, e com Samuel, o aleijado e os primeiros curados… Duríssimas também, porque terão que resistir aos golpes de Israel, que odeia a Deus!… Que odeia a Deus!…
Com uma voz cheia de mágoa, debilitada, quase afônica, está Jesus, enquanto chora por causa da dureza de Israel.
E Ele continua:
– No rio, os séculos e o homem espalharam as pedras-monumento… As primeiras e as segundas pedras serviram para todos os usos, e para fazer raiva aos demônios, que não estão somente no inferno, mas também dentro dos homens, e não podem mais ser reconhecidas. Algumas delas serviram até para matar. E quem é que me diz que as pedras jogadas contra Mim não são fragmentos das pedras duríssimas separadas por Josué? Duríssimas! Inimigas! Mas duríssimas! Também entre os meus haverá os dispersos, que servirão de calçada para os demônios que pisam sobre mim… e se tornarão pedras para atingir-me… e não serão mais as pedras escolhidas… mas Satanás… Oh! Tiago, meu irmão. Duríssimo é Israel para com o Senhor!
E, coisa nunca vista, Jesus, oprimido por não sei qual desconforto, inclina-se sobre o ombro do Tiago, e o abraça chorando…
1 começa assim, recitando quanto se lê em Josué 3,1-4. Citações e acenos sucessivos compreendem Josué 3-4.
2 parar um rio na cheia, em 361.11/12.
3 Está escrito, em Deuteronômio 6,16.
4 os Céus é que se abriram: Refere ao seu Batismo; doze pedras: Os Apóstolos. São duas anotações de MV em uma cópia datilografada.
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