409. 409. O drama familiar do Sinedrita João.
2 de abril de 1946.
409.1 José de Arimateia está descansando em um quarto meio escuro, pois todos os toldos estão descidos, como um abrigo contra o sol. Há um silêncio completo em toda a casa. José está cochilando em uma cadeira baixa, coberta com umas esteiras… Entra um dos servos e se dirige ao patrão, e toca nele para despertá-lo. José abre os olhos cheios de sono, e olha para o servo de um modo interrogativo.
– Patrão, aí está o teu amigo João…
– O meu amigo João?! Como é que ele pode estar aqui, se ainda não terminou o sábado?
José acordou no mesmo instante, por causa da surpresa por aquela visita de um sinedrita em dia de sábado. E dá ordem:
– Faze que ele entre logo.
O servo sai, e José, enquanto fica esperando, dá uns passos, pensativo, pelo quarto meio escuro e fresco.
– Deus esteja contigo, José –diz o sinedrita João, aquele que vimos1 já no primeiro banquete dado em Arimateia a Jesus, e também na casa de Lázaro, na última Páscoa, sempre se comportando se não como discípulo, pelo menos como quem não tem ódio a Jesus.
– E contigo também, João! Mas… sabendo que és justo, admiro- me por ver-te antes do pôr-do-sol…
– É verdade. Eu infringi a lei sabática. E pequei, sabendo que estava pecando. E grande há de ser o sacrifício, que eu terei que fazer para ser perdoado. Mas também muito grande é o motivo, que me levou a esse pecado… Javé, que é justo, perdoará ao seu servo culpado, por causa do grande motivo que me fez ficar culpado…
– Antes, não falavas assim. Para ti, o Altíssimo era somente rigor, inflexibilidade. E eras perfeito, porque o temias como a um Deus inexorável…
– Oh! Muito bem!… José, a ti eu nunca confessei as minhas culpas secretas… Mas é verdade. Eu julgava que Deus fosse inexorável. Como muitos em Israel. Nós fomos ensinados a crer que era assim: o Deus das vinganças.
– E tu continuaste a crer assim, até depois que o Rabi veio para fazer seu povo conhecer a verdadeira Face de Deus, o seu verdadeiro coração… Uma Face, um coração de Pai…
– É verdade. É verdade. Mas eu ainda não o tinha ouvido falar por mais tempo… Contudo, tu te lembrarás, desde a primeira vez que eu vim ao banquete em tua casa, assumi uma atitude de… respeito, se não de Amor para com o Rabi.
– É verdade. No entanto, pelo bem que te quero, gostaria que tu passasses a ter uma atitude de amor para com Ele. O respeito ainda é pouco demais…
– Tu o amas, não é, José?
– Sim. E eu to digo, ainda que eu saiba que os Príncipes dos Sacerdotes odeiam aos que amam ao Rabi, mas tu não és capaz de delação…
– Não. Não sou capaz disso. E gostaria de ser como tu. Mas será que o conseguirei um dia?
– Eu rezarei para que tu o consigas. Seria a tua eterna salvação, meu amigo…
409.2 Um silêncio cheio de reflexões… Depois, José pergunta:
– Tu me disseste que um grande motivo te levou a violar o sábado. Posso perguntar-te qual é ele, sem ser indiscreto demais? Eu penso que tu vieste para obter alguma ajuda do teu amigo… E, para ajudar-te, preciso saber…
João passa a mão por sobre a fronte, fecha um pouco a fronte ampla e levemente calva de um homem em sua plena virilidade, acaricia maquinalmente os cabelos, que mal começam a ficar grisalhos, uma barba fechada e quadrada… Depois, levanta a cabeça e fixa os olhos em José, dizendo:
– Sim. Um grande motivo e penoso. E… uma grande esperança…
– Quais?
– José, pensa só que minha casa é um inferno, e que logo deixará de ser uma casa… para ser uma coisa devastada, espalhada, destruída e acabada!
– Que é que estás dizendo? Estás delirando?
– Não. Não estou delirando… Minha mulher quer ir-se embora… Estás espantado?
– Sim… porque… eu sempre a conheci como uma boa mulher e… porque a vossa família me parecia exemplar… tu, todo bondade… e ela, toda virtude…
João se assenta, com a cabeça entre as mãos…
E José continua:
– Agora… esta decisão… Eu, é o seguinte… não posso crer que Ana tenha caído em falta… ou que tu tenhas caído… Mas, menos ainda eu o creio a respeito dela… toda para a casa, toda para os filhos… Não!… Nela não pode haver culpa!…
– Estás certo disso? Certo mesmo?
– Oh! Meu pobre amigo! Eu não tenho os olhos de Deus. Mas, pelo tanto que eu posso julgar, assim julgo…
– Não achas que Ana tenha sido… infiel… ?
– Ana? Mas, meu amigo! O sol do verão não te terá feito mal à cabeça? Infiel com quem? Ela não sai nunca de casa, gosta mais da campina do que da cidade. Ela trabalha como a primeira das servas, e se mostra sempre humilde, esquiva, trabalhadeira, amorosa para contigo e com os meninos. A mulher leviana não gosta destas coisas. Podes acreditar. Oh! João, mas sobre que é que fundas as tuas suspeitas? E desde quando?
– Desde sempre.
– Desde sempre? Mas, então o que tens é uma doença!
– Sim. E… José, eu tenho muitos defeitos. Mas eu não tos quero confessar somente a ti. Anteontem passaram uns discípulos pela minha casa, e uns pobres. E diziam que o Rabi estava indo para a tua casa. E ontem… ontem foi um dia de grande tempestade em minha casa… a tal ponto que a Ana tomou a decisão de que eu te falei… Pela noite, e que noites, fiquei pensando muito… e cheguei à conclusão de que somente Ele, o Rabi perfeito...
– Ótimo, João, ótimo!
– Como quiseres… Pois somente Ele pode curar-me e reparar… reconstruir a minha casa, dar-me de novo a minha Ana… os meus filhos… tudo…
O homem chora e, por entre lágrimas, continua:
– Porque só Ele vê, e diz a verdade… e nele eu crerei… 409.3José, meu amigo, deixa-me ficar aqui para esperá-lo…
– O Mestre está aqui. Partirá depois do pôr-do-sol. Vou chamá-lo para ti.
E José sai.
Poucos minutos de espera, e depois o toldo se afasta novamente, para deixar passar Jesus… João se põe em pé, e se inclina em respeitosa saudação.
– A paz esteja contigo, João. Por qual motivo me procuraste?
– Para que Tu me ajudes a ver… e para que Tu me salves. Eu estou muito infeliz. Pequei contra Deus e contra minha carne gêmea. E, de pecado em pecado, cheguei a violar a Lei do sábado. Absolve-me, Mestre.
– A Lei do sábado! Grande e santa Lei! E, longe de Mim o pensamento de julgá-la pequena e superada. Mas, por que a pões antes do primeiro dos mandamentos? Por quê? Tu pedes absolvição por teres violado o sábado, e não a pedes por teres faltado com o amor, e torturado um inocente, e teres levado ao desespero e ao limiar do pecado a alma de tua esposa? Mas disto é que te deves arrepender, mais do que de qualquer outra coisa! Da calúnia que disseste contra ela…
– Senhor, estando sozinho com o José, há pouco, falei-lhe disso. E com ninguém mais, podes crer. E eu conservava tão oculta a minha dor, que José, como bom amigo meu, não percebeu nada, e ficou admirado. Agora ele to disse. Mas para me vires em ajuda. Com nenhuma outra pessoa o justo José falará.
– Comigo ele não falou. Ele somente me disse que tu me estavas procurando.
– Ah! E, então, como é que sabes?
– Como é que eu sei? Como Deus sabe os segredos dos corações. Queres que Eu te diga o estado do teu?
José procura retirar-se discretamente. Mas o próprio João o faz parar, e lhe diz:
– Oh! Fica. Tu és meu amigo! Tu podes ajudar-me, perto do Rabi, tu, que foste paraninfo do meu casamento!…
E José volta para perto dos dois.
– Queres que Eu te diga? Queres que Eu te ajude a conhecer-te? Oh! Não tenhas medo. Eu não tenho mão cruel. Eu sei descobrir as feridas, mas para curá-las, não as faço sangrar. Eu sei compreender e ter compaixão. Eu sei cuidar e curar, uma vez que a pessoa queira ficar curada. E este desejo tu tens. Tanto assim é, que tu me vieste procurar. Senta-te aqui, ao meu lado, entre Mim e José. Ele foi o paraninfo do teu casamento terrestre. Eu quereria ser ele o paraninfo de tuas bodas espirituais… Oh! Se o quereria!… Façamos assim. 409.4Presta bem atenção. E responde-me com franqueza a tudo. Que pensas tu que Deus quis com o ato de criar o homem e a mulher para que ficassem unidos? Foi um ato bom ou um ato mau?
– Um ato bom, Senhor. Como todas as coisas feitas por Deus.
– Respondeste bem. Agora, dize-me: se aquele ato foi bom, quais deveriam ser as suas consequências?
– Boas, igualmente, ó Senhor. E foram boas, apesar de Satanás ter começado a perturbá-las, uma vez que Adão teve sempre o conforto de Eva, e Eva o de Adão. E até ainda foi mais sensível o conforto, quando eles se viram sozinhos, exilados sobre a Terra, e foram um para a outra um apoio. E foram boas as consequências materiais, isto é, os filhos, pelos quais o homem se propagou e, por meio dos quais, brilhou o poder e a bondade de Deus.
– Por quê? Que poder e que bondade?
– Ora, o poder e a bondade exercidos por Ele em favor dos homens. Se olharmos para trás… sim… há muitas punições justas, mas, em muito maior número, as manifestações de sua bondade. E uma bondade infinita foi o pacto feito com Abraão, e depois repetido com Jacó, e assim por diante, até o dia de hoje. E, repetido por bocas que não mentem, as dos profetas… até o João…
– E pelo Rabi, João –interrompe José.
– A dele não é boca de profeta… Ela não é boca de Mestre… É… mais do que isso.
Jesus tem um sorriso, que apenas se esboçou, diante daquela… profissão de fé, ainda meio atada, do sinedrita, pois ele não chega a dizer: “É uma boca divina”, mas já está pensando que é isso.
– Portanto, Deus fez bem em unir o homem e a mulher. Isso foi dito. Mas, como é que Ele quis que fossem o homem e a mulher?
–pergunta Jesus.
– Uma só carne.
– Está bem. E, então, poderá a carne odiar-se a si mesma?
– Não.
– Pode um membro odiar a outro membro?
– Não.
– Pode um membro separar-se do outro membro?
– Não. Somente por uma gangrena, ou pela lepra, ou por algum acidente é que se pode separar um membro do resto do corpo.
– Muito bem. Portanto, só uma coisa dolorosa, ou malvada é que pode separar o que, por vontade de Deus não é mais do que uma unidade?
– Assim é, Mestre.
409.5 – E, então, por que tu, convicto dessas coisas, não amas a tua carne, e tanto a odeias, a ponto de fazer crescer uma gangrena entre um membro e outro, pela qual, sentindo-se humilhado, o membro mais fraco se separa e te deixa sozinho?
João inclina a cabeça, e se cala, e fica desfiando as franjas de sua veste.
– Eu te direi o porquê. Porque Satanás entrou, perturbador como sempre, entre ti e tua mulher. Ou melhor, ele entrou em ti, com um amor desordenado por tua mulher. O amor, quando é desordenado, se transforma em ódio, João. Satanás trabalhou sobre a tua sensualidade de macho, até chegar a fazer-te pecar. Porque desse ponto é que começou o teu pecado. De uma desordem, que gerou sempre novas e grandes desordens. Em tua mulher tu não tens visto somente a boa companheira e a mãe de teus filhos. Mas também um objeto de prazer. E isto fez que tuas pupilas ficassem como as do boi, que tudo vê alterado. Já viste como tu vias. Assim foi que viste tua mulher: um objeto de prazer para ti, e a julgaste assim também para os outros, daí é que nasceram os febris ciúmes, o teu medo sem motivo, a tua prepotência pecaminosa, que dela fez uma amedrontada, uma encarcerada, uma torturada, uma caluniada! Tu a calunias, julgando-a capaz de chegar a trair. Que importa que tu não batas nela, e que tu não a injuries publicamente? As tuas suspeitas são umas vergastadas. E a tua dúvida já é uma calúnia! Tu a calunias, e a julgas capaz de chegar a trair. Que importa que tu a trates como achas que deve ser tratada? Mas no interior de tua casa ela é pior do que uma escrava, pela tua bestialidade em tua luxúria, que a rebaixa além de toda medida, o que ela vem suportando sempre em silêncio, e com docilidade esperando chegar a persuadir-te, acalmar-te, fazer que te tornes bom, mas isso só tem servido para te exasperar cada vez mais, a ponto de fazer de tua casa um inferno, no qual rugem os demônios da luxúria e do ciúme. O ciúme! Mas que queres que haja de mais calunioso do que o ciúme por uma mulher? E que há de mais claramente indicador do estado real de um coração do que o ciúme? E podes crer que onde ele se aninha, tão estulto e irracional, infundado, ofensivo, não, aí não há mais amor ao próximo, nem a Deus. O que há é o egoísmo. Por isso, e não pela violação do sábado é que deves ficar angustiado! E, para seres perdoados, deves fazer uma reparação pela devastação que tu provocaste…
409.6 – Mas Ana já quer ir-se embora… Vem Tu, persuadi-la… Só Tu é que podes, ouvindo-a falar, se realmente ela é inocente e…
– João! Queres ficar curado, e não crês no que Eu digo?
– Tens razão, Senhor. Muda o meu coração. É verdade. Eu não tenho motivo para uma suspeita bem fundada. Mas eu a amo tanto… luxuriosamente, é verdade… Tu viste bem… Para mim, tudo é sombra…
– Entra, então na Luz. Sai da confusão ardente de uma sensualidade tão feroz. A princípio, ser-te-á difícil. Mas muito mais te custaria, se perdesses uma boa mulher, e ganhasses o Inferno para descontar o teu pecado de desamor, de calúnia e adultério, pois quero fazer-te recordar que quem empurra a mulher para o divórcio, coloca-se, e a coloca no caminho do adultério. Se souberes resistir por um mês, pelo menos por um mês, ao teu demônio, Eu te prometo que o íncubo terá acabado. Tu me prometes?
– Oh! Senhor! Senhor! Eu quereria… Mas é um fogo… Apaga-o Tu em mim. Tu és poderoso!…
O sinedrita João caiu de joelhos diante de Jesus, e está chorando, com as mãos apoiadas no chão.
– Eu o farei sossegar para contigo. Eu o cercarei para ti. Porei freios e limites a esse demônio. Mas, tu pecaste muito, João, e terás que trabalhar por ti mesmo para o teu ressurgir. Os convertidos por Mim, vieram a Mim com toda a vontade de se tornarem novos, livres. Eles já haviam realizado, somente com suas forças, o princípio de sua redenção. Assim foi o Mateus, Maria de Lázaro, e outros ainda. Tu vieste até aqui somente para saber se ela era culpada e para que Eu te ajudasse a não perder a fonte, na qual se abebera o teu prazer. Eu ponho uma cerca ao redor do poder do teu demônio, não por um, mas por três meses. Durante esse tempo, medita, tu, e eleva-te. Toma o propósito de levar uma nova vida de esposo. Uma vida de um homem dotado de uma alma. E não a vida de um bruto, vivida até agora. E, fortalecido pela oração e pela meditação, pela paz que Eu te concedo por três meses, aprende a lutar e a conquistar de novo o amor e a paz da esposa e da casa. Vai.
409.7 – Mas, que é que eu vou dizer à Ana? Talvez eu já a encontre pronta para ir-se embora… Com que palavras, depois de tantos anos de… ofensas, para persuadi-la de que eu a amo, e que não quero perde-la? Vem, Tu…
– Eu não posso. Mas é tão simples… Sê humilde. Chama-a em particular, e confessa-lhe o teu tormento. Dize-lhe que tu vieste a Mim, porque queres ser perdoado por Deus. E dize-lhe que te perdoe, porque o perdão de Deus te será dado, somente se ela o invoca para ti, e seja a primeira a te perdoar. Oh! infeliz! Quanto bem, quanta paz tu desfizeste com a tua febre!Quanto mal cria a indisciplina dos sentidos, a desordem nos afetos! Vamos, levanta-te! E vai tranquilo. Mas ainda não entendes que ela, porque é boa e te é fiel, está mais dilacerada do que tu, pelo pensamento de deixar-te, e não espera senão uma palavra tua, para dizer-te: “Tudo está perdoado?” Vamos, vai. O pôr-do-sol já terminou. Por isso não fazes pecado por voltares para a tua casa… Nem por tê-lo feito para vires ao teu Salvador. O teu Salvador te absolve. Vai em paz, e não peques mais.
– Oh Mestre! Mestre!… Eu não mereço estas palavras!… Mestre… eu… Eu quereria amar-te de agora em diante…
– Sim, sim. Vai. Não fiques tardando. E lembra-te desta hora, na hora em que Eu serei o Inocente caluniado.
– Que queres dizer?
– Nada. Vai. Adeus.
E Jesus se retira, deixando os dois sinedritas comovidos e cheios de fervor, ao julgarem-no verdadeiramente santo e sábio, como só Deus pode ser.
1 vimos, em 114.4/6 e 375.5.
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