307. 307. Na casa de Nazaré, se discute as culpas dos nazarenos. Lições sobre a tendência ao pecado. Malgrado a redenção.


19 de outubro de 1945.

307.1 O tear está parado, porque Maria e Síntique estão cosendo, quase sem parar, os tecidos trazidos pelo Zelotes. Os pedaços das vestes já cortadas estão dobrados em uns montes, separados sobre a mesa, cor por cor e, de vez em quando, as mulheres vão apanhar um daqueles pedaços e o alinhavam sobre a mesa, e assim os homens vão sendo empurrados para o canto do inativo tear ficando eles perto do trabalho das mulheres, mas não interessados nele. Estão presentes também os dois apóstolos Judas e Tiago de Alfeu que, por sua vez, estão observando a labuta das mulheres, sem fazer-lhes perguntas, mas creio que não sem curiosidade.

Os dois primos estão falando de seus irmãos e especialmente de Simão, que os acompanhou até à porta de Jesus, e depois foi-se embora “porque ele está com um dos seus meninos sofrendo”, diz Tiago, para amenizar a notícia e desculpar o irmão.

Judas é mais severo, e diz:

– Justamente por isso é que ele devia ter vindo. Mas parece que ele também virou um idiota. Como todos os nazarenos, aliás, com exceção de Alfeu e dos dois discípulos, que agora sabe-se lá onde estão. 307.2Compreende-se que Nazaré não tem mais nada de bom, pois o que tinha ela o cuspiu todo fora, como se Ele fosse de um sabor desagradável para esta nossa cidade…

– Não fales assim –pede Jesus–. Não intoxiques o teu coração… Não é culpa deles…

– De quem é, então?

– De tantas circunstâncias… Não vale a pena indagar. Pois Nazaré é toda inimiga. As crianças…

– Porque são crianças.

– As mulheres…

– Porque são mulheres. Mas não são as crianças, nem as mulheres que darão firmeza ao teu Reino.

– Por que, Judas? Estás enganado. Os meninos de hoje serão justamente os discípulos de amanhã, os que propagarão o Reino por sobre toda a terra. E as mulheres… Por que não o poderão fazer?

– Certamente não poderás fazer das mulheres apóstolas mas, no máximo, discípulas, como Tu disseste1, para ajudarem aos discípulos.

– Tu mudarás de opinião em muitas coisas, meu irmão. Mas Eu nem tento fazer-te mudar de opinião. Eu iria chocar-me contra uma mentalidade, que chegou até a ti, vinda de séculos com os seus conceitos e preconceitos errados a respeito da mulher. Eu somente te peço que observes e anotes, para o teu uso, as diferenças que descobres entre as discípulas e discípulos, e que prestes atenção, desapaixonadamente, à correspondência delas aos meus ensinamentos. Verás, então, começando por tua mãe, que, se o quisermos ver, tem sido a primeira das discípulas, por ordem de tempo e de heroísmo, e o é, mesmo agora, estando corajosamente à frente de toda uma cidade que zomba dela por Me ser fiel, por resistir até às vozes do seu sangue, e que não lhe poupam censuras, porque ela Me é fiel, e então verás que as discípulas são melhores do que vós.

– Eu o reconheço. É verdade. Mas em Nazaré também as mulheres discípulas onde estão? As filhas do Alfeu, as mães do Ismael e do Aser e as irmãs delas. E basta. É pouco demais. Eu gostaria de nem vir mais a Nazaré para não ver tudo isso.

– Pobre mãe! Tu lhe causarias uma grande tristeza –diz Maria, intervindo na conversação.

– É verdade –diz Tiago–. Ela tem tanta esperança de conseguir conciliar nossos irmãos com Jesus e conosco. Eu acho que este é o único desejo dela. Mas não é certo que o consigamos, ficando de longe. Até agora, eu te tenho prestado atenção, ficando de lado neste assunto. Mas, de amanhã em diante, eu quero sair, quero aproximar-me deste e daquele… Porque, se nós temos que evangelizar também os pagãos, por que não vamos evangelizar a nossa cidade? Eu me recuso a crer que ela seja toda má e inconvertível.

Judas Tadeu não replica. Mas está visivelmente inquieto.

307.3 Simão Zelotes, que permanecera o tempo todo calado, também intervém:

– Eu não desejaria insinuar suspeitas. Mas, deixai que, para aliviar-vos o espírito, eu vos faça uma pergunta. É esta: estais bem certos de que nessa posição orgulhosa, tomada por Nazaré, não haja forças estranhas, vindas de fora, e que aqui trabalham bem na base de um elemento que deveria, se se raciocinasse com justiça, dar as melhores garantias para convencer a todos que o Mestre é o Santo de Deus? O conhecimento da vida santa de Jesus, cidadão de Nazaré, seria um motivo para tornar mais fácil aos nazarenos a aceitação dele como o Messias prometido. Eu, mais do que vós, e comigo muitos outros da minha idade em Nazaré, temos conhecido pelo menos pela fama, os pretensos Messias. E eu vos garanto que a vida íntima deles arrasava de uma vez a mais obstinada das afirmações da messianidade deles. Roma os perseguia ferozmente, como a rebeldes. Mas, deixando de lado o aspecto político, pois Roma não podia permitir que existissem, onde ela reina, esses falsos Messias que, por muitos motivos particulares, eram passíveis de punição. Nós os agitávamos e os sustentávamos, porque eles nos serviam para fomentar o nosso espírito de rebelião contra Roma. Nós os ajudávamos porque, obtusos como somos, passamos a acreditar, — até que enfim o Mestre veio esclarecer a verdade, e infelizmente, não tendo em conta isso, ainda não cremos, como devíamos, isto é, com uma fé total, — e passamos a ver em cada um deles o “rei” prometido. Eles acariciavam nosso espírito aflito, com esperanças de uma independência nacional e de uma reconstrução do reino de Israel. Mas, oh! que miséria! Que reino caduco e corrupto teria sido aquele?! Não. Porque, na verdade, chamar aqueles falsos Messias de reis de Israel, de fundadores do Reino prometido, era aviltar profundamente a idéia messianica. No Mestre, à profundidade se une a Santidade de Vida. E Nazaré, como nenhuma outra cidade, a conhece. Eu nem penso em fazer acusação da incredulidade dos nazarenos sobre o sobrenatural davida dele, que eles, os nazarenos, ignoram. Mas a vida! Mas a vida dele! Agora, tanto ódio, tão grande e impenetrável resistência… Mas, o que estou dizendo? Tão grande e aumentada resistência não poderia ter origem em manobras inimigas? Nós os conhecemos, os inimigos de Jesus. Sabemos o que valem. Credes vós que eles só aqui tenham ficado inertes ou ausentes se, por toda parte, ou eles foram à nossa frente ou a nosso lado ou atrás de nós, para destruírem a obra de Cristo? Não acuseis Nazaré, como se fosse a única culpada. Mas chorai sobre ela, extraviada pelos inimigos de Jesus.

– Falaste muito bem, Simão. Chorai sobre ela… –diz Jesus. E Ele está triste.

João de Endor observa:

– Falaste ainda muito bem, quando disseste que o elemento favorável se transforma em desfavorável, porque o homem raramente usa de justiça ao pensar. Aqui o primeiro obstáculo é o nascimento humilde, a infância humilde, a adolescência humilde, a juventude humilde de nosso Jesus. O homem se esquece de que os valores se ocultam sob aparências modestas, enquanto que as nulidades ficam camufladas como grandes seres, para se imporem às turbas.

– Assim será. Mas nada modifica o meu pensamento acerca dos meus concidadãos. Seja o que for que lhes possa ter sido dito, eles deviam saber julgar pelas obras reais do Mestre e não pelas palavras de desconhecidos.

307.4 Houve um longo silêncio, rompido apenas pelo rumor dos tecidos que a Virgem está dividindo em tiras, para com elas fazer orlas. Síntique não falou nunca, mas permaneceu sempre muito atenta. Ela conserva sempre uma atitude de profundo respeito, de uma reserva que somente com Maria e o menino se torna menos rígida. Mas agora o menino adormeceu, sentado em um banquinho, precisamente aos pés de Síntique, e com a cabeça apoiada nos joelhos dela, sobre o braço dobrado. Por isso ela não se move e fica esperando que Maria lhe passe as tiras.

– Que sono inocente… Ele sorri… –observa Maria, inclinando-se sobre o rostinho adormecido.

– Quem sabe com que ele estará sonhando –diz, sorrindo, Simão.

– É um menino muito inteligente. Aprende com facilidade e quer ouvir explicações claras. Faz perguntas muito sutis, e quer respostas exatas. Pergunta sobre tudo. Confesso que às vezes me vejo embaraçado para responder. Tem argumentos superiores aos próprios de sua idade e, às vezes, até à minha capacidade de explicar-lhe –diz João.

– Sim! Como naquele dia… Estás lembrado, João? Tiveste dois alunos bem incômodos naquele dia! E muito ignorantes –diz Síntique, sorrindo levemente e fitando o discípulo com seu olhar profundo.

João sorri, por sua vez, e diz:

– E vós tivestes um mestre muito incapaz, que teve que chamar em sua ajuda a verdadeira Mestra… porque em nenhum dos livros que ele havia lido, este estulto pedagogo havia encontrado a resposta a ser dada a um menino. É sinal de que eu sou ainda um pedagogo ignorante.

– A ciência humana é ignorante ainda, João. Não é o pedagogo, mas sim o que lhe haviam dado para que ele o fosse, e que era insuficiente. A pobre ciência humana! Oh! Como me parece mutilada! Faz-me pensar em uma das deidades que era honrada na Grécia.Era mesmo necessária a materialidade pagã para poder crer que, porque era privada de asas, a Vitória fosse para sempre uma posse dos gregos. Não só tiraram as asas à Vitória, mas também a liberdade… Melhor seria que tivesse tido asas, com a nossa fé. Teríamos podido pensar que ela fosse capaz de voar para roubar os raios do céu, e fulminar os inimigos. Mas, assim como ela estava, não dava esperança, mas sim um desconforto e uma palavra de tristeza. Eu não podia vê-la, sem sofrer com isso… Parecia-me que ela estava sofrendo, aviltada por aquela mutilação. Era um símbolo de dor, não de alegria… E o foi. Mas, o que faz com a Vitória, o mesmo faz o homem com a Ciência. Ele lhes mutila as asas, que poderiam impregnar o saber de sobrenatural, dando a chave para abrir tantos segredos sobre o que se pode saber da criação. Creram e crêem que a têm como prisioneira por lhe terem cortado as asas. Fizeram dela uma deficiente… A ciência, com asas, seria Sabedoria. Mas, assim como está, é apenas um conhecimento parcial.

307.5 – E minha Mãe vos respondeu naquele dia?

– Com uma perfeita clareza e com uma palavra casta, capaz de poder ser ouvida por um menino e por dois adultos de sexo diferente, sem que ninguém precisasse enrubescer.

– Sobre qual palavra?

– Sobre a culpa original, Mestre. Eu anotei a explicação de tua Mãe, para lembrar-me dela –dizia Síntique.

E João de Endor também diz:

– Eu também: Creio que será uma coisa muito indagada, se um dia formos para o meio dos pagãos. Eu não penso em ir, porque…

– Por que não, João?

– Porque ainda terei pouco tempo de vida.

– E tu irias com gosto?

– Mais do que muitos outros em Israel, porque eu não tenho prevenções. E também… Sim, também por isto. Eu dei um mau exemplo entre os pagãos em Cintium e na Anatólia. Eu gostaria de poder fazer chegar a tua palavra até lá, onde eu fiz o mal. O bem a ser feito: levar a tua palavra até lá, fazer-te conhecido… Mas isto seria honra demais. Eu não mereço isto.

Jesus olha para ele sorrindo, mas não diz nada sobre o assunto. 307.6Ele pergunta:

– Não tendes outras perguntas a fazer?

– Eu tenho uma. Ela surgiu-me na outra tarde, quando estavas falando sobre a ociosidade com o menino. Procurei eu mesma dar-me uma resposta. Mas não consegui. Fiquei esperando o sábado, para te apresentar, quando as mãos não estão trabalhando e nossa alma, em tuas mãos, se eleva para Deus –diz Síntique.

– Faze, então a tua pergunta, enquanto esperamos a hora de ir descansar.

– Ei-la, Mestre. Tu disseste que, se alguém se entorpece no trabalho espiritual, se enfraquece e se predispõe para as enfermidades do espírito. Não é verdade?

– Sim, mulher.

– Ora, isso me parece um contraste com tudo o que eu ouvi de Ti e de tua Mãe sobre a culpa original, os seus em nós, a libertação dela por Ti. Ensinaste-me que com a Redenção será anulada a culpa original. Eu creio não errar, se eu disser que será anulada, não para todos, mas somente para aqueles que crerem em Ti.

– É verdade!

– Deixo, pois, de lado os outros, e tomo um destes salvos. Eu o contemplo, depois dos efeitos da Redenção. Sua alma não tem mais a culpa de origem. Ele torna a possuir a Graça, como a possuíam os progenitores. Isto não lhe confere, então, uma saúde inatacável por toda sorte de enfermidades? Tu dirás: “O homem faz também os seus pecados pessoais.” Está bem. Mas eu penso que eles também serão cancelados com a tua Redenção. Não te pergunto como. Mas suponho que, como um testemunho de que ela existiu realmente, — e eu não sei como isso sucederá, porque tudo o que a Ti se refere no Livro Sagrado me faz tremer, desejo que seja um sofrimento simbólico, restrito a um âmbito moral, embora não seja ilusão a dor moral, mas espasmo talvez até muito mais atroz do que o físico, — Tu deixarás como meios, símbolos. Todas as religiões os têm, e às vezes são chamados de mistérios… O batismo atual, praticado em Israel, é um deles, não é?

– É. E haverá, com um nome diferente desse que lhes dás, haverá também na minha religião alguns sinais desta minha Redenção, que serão aplicados às almas para purificá-las, fortificá-las, nutri-las e absolvê-las.

– E, então, se elas são absolvidas também dos seus pecados pessoais, sempre estarão na graça… E então, como é que serão ainda fracas, e predispostas a enfermidades espirituais?

307.7 – Eu vou te apresentar uma comparação. Tomemos um menino que acabou de nascer, filho de pais muito sãos, sendo ele também são e robusto. Nele não se nota nenhuma tara física e hereditária. Seu corpo é perfeito, tanto na ossatura, como em seus órgãos, e ele tem sangue sadio. Portanto, ele tem todos os requisitos para crescer forte e são, também porque sua mãe tem leite abundante e substancioso. Mas, no primeiro instante de sua vida, ele foi atacado por uma enfermidade muito grave, que ninguém sabe pelo que foi causada. É uma doença mortal, sem dúvida. Se ele se salva dela com dificuldade, é pela piedade de Deus, que lhe conserva a vida, que já está prestes a sair daquele corpinho. Pois bem. Crês tu que aquele vai ser um menino robusto, como se não tivesse tido aquela doença? Não. Ele vai ter um enfraquecimento para o resto de sua vida. Ainda que ele não esteja visível, estará nele e o predisporá com mais facilidade para as enfermidades do que se nunca tivesse ficado doente. Nenhum dos seus órgãos estará mais inteiramente são como antes. Seu sangue já não será sadio e puro como antes. Todas essas razões serão causas pelas quais ele contrairá doenças com facilidade. E essas doenças o atacarão, e o deixarão sempre predisposto a recaídas.

A mesma coisa acontece no campo espiritual. A culpa original será cancelada naqueles que crêem em Mim. Mas o espírito conservará uma tendência para o pecado que, se não houvesse acontecido a culpa original, não teria existido. Por isso é preciso vigiar, e continuamente cuidar do seu próprio espírito, assim como faz uma mãe cuidadosa com o seu filhinho que ficou enfraquecido por alguma doença infantil. Por isso, é necessário não ficar ocioso, mas estar sempre atento para fortalecer-se na virtude. Se alguém cai em grande abatimento ou tibieza, mais facilmente poderá ser seduzido por Satanás. E todo pecado grave, sendo semelhante a uma grave recaída, sempre irá predispondo mais para as enfermidades e para a morte do espírito. Ao passo que, se a Graça, restituída pela Redenção, for coadjuvada por um vontade ativa e incansável, aí então ela se conserva. Não somente isso. Mas ela aumenta, porque estará unida às virtudes conseguidas pelo homem. Santidade e Graça! Que asas seguras para voar até Deus! Compreendeste?

– Sim, meu Senhor. Tu, ou seja, a Trindade Santíssima, dais o Meio que serve de base para o homem. O homem, com o seu trabalho e sua atenção, não o deve destruir. Eu compreendi. Todo pecado grave é uma destruição da Graça, isto é, da saúde da alma. Os sinais, que nos serão deixados, darão a saúde, é verdade. Mas o pecador obstinado, que não luta para não pecar, ficará cada vez mais fraco, ainda que cada vez seja perdoado. Por isso é preciso vigiar para não perecer. Obrigada, Senhor… 307.8Marziam está acordando. Já é tarde…

– Sim. Rezemos todos juntos, depois iremos descansar.

Jesus se levanta, e todos fazem o mesmo, até o menino, ainda meio com sono. E o Pai-nosso ressoa, forte e harmonioso, na pequena sala.

1 Tu disseste, por exemplo, 153.3, 157.2, 262.9.


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