563. 563. Falsos discípulos em Siquém. É curadoem Efraim o escravo mudo de Cláudia Prócula.
7 de fevereiro de 1947.
563.1Estamos na praça principal de Siquém. Nela a folhagem nova das árvores, em dupla fileira, ao longo do quadrado formado pelas paredes das casas, contornando-o, já mostra um sinal da primavera. O sol brinca com as folhas tenras dos plátanos, fazendo um bordado de luzes e sombras sobre o terreno. No centro da praça, um tanque parece uma laje de prata exposta ao sol. Aqui e ali as pessoas estão conversando em grupos e discutindo sobre os seus trabalhos.
Alguns, aparentemente forasteiros, pois todos de lá estão perguntando quem são eles, entram pela praça, ficam observando e se aproximam do primeiro que encontram. Saúdam e são saudados. E com estupor. Quando, porém, eles dizem: “Somos discípulos do Mestre de Nazaré”, toda desconfiança desaparece, e há até quem vai avisar aos outros grupos, enquanto os que ficaram dizem:
– Foi Ele que vos mandou?
– Foi Ele. É uma missão muito secreta. O Rabi está em grande perigo. Ninguém mais o ama em Israel, e Ele, que é tão bom, espera que, pelo menos vós, lhe permaneçais fiéis.
– Mas é isso que queremos! O que devemos fazer? O que quereis de nós?
– Oh! Ele só quer amor. Porque confia demais na proteção de Deus. Pois não é bom o que se diz dele em Israel. Sabeis que Ele é acusado até de satanismo e de insurreição? E sabeis o que quer dizer isso? São represálias dos romanos, atingindo a todos. Nós, que já éramos tão infelizes, continuamos ainda a ser atacados! E se fala que Ele vai ser condenado pelos santos do nosso Templo. E é certo que os romanos… 563.2Mesmo para o vosso bem, deveríeis agitar-vos, persuadi-lo a defender-se, defendê-lo, colocá-lo quase, e até mesmo sem quase, na impossibilidade de ser preso e de causar prejuízo assim, mesmo sem ter vontade disso. Persuadi-o a retirar-se para o alto do Garizim. Lá, onde Ele está ainda, está exposto demais; e não aplaca as iras do Sinédrio nem as suspeitas dos romanos. Bem que o Garizim tem direito de asilo. Isto é inútil dizer a Ele. Se nós lhe disséssemos, Ele nos diria que somos malditos, porque o aconselhamos a praticar uma vileza. Mas não é assim. É amor. É prudência nossa. Nós não podemos falar. Mas vós, sim. Organizai-vos, pois, para acolhê-lo. Porque pelo menos sabereis com certeza se Ele vos ama ou não. Se Ele quisesse recusar o vosso socorro, seria um sinal de que não vos ama e, por isso, seria bom que Ele se dirigisse a algum outro lugar. Porque, podeis crer — a com dor é que o dizemos porque o amamos — a sua presença representa um perigo para quem o hospeda. Mas vós sois os melhores de todos e não vos preocupais com os perigos. Mas é justo que, se vos expondes às represálias romanas, pelo menos o façais por uma retribuição de amor. Nós vos aconselhamos para o bem de todos.
– Dizeis bem. E faremos o que vós dizeis. Iremos a Ele…
– Oh! Tomai cuidado para que Ele não perceba que nós é que o sugerimos!
– Não temais! Não temais! Saberemos agir. E garantimos! Nós faremos ver que os desprezados samaritanos valem por cem, por mil judeus e galileus, quando se trata de defender o Cristo. 563.3Vinde. Entrai em nossas casas, vós, enviados do Senhor. Será como se Ele entrasse! É bem assim que Samaria espera ser amada pelos servos de Deus!
Eles se afastam, como em triunfo, estes que eu creio não errar se disser que são emissários do Sinédrio, e dizem:
– Estamos vendo que nos ama, porque em poucos dias já é o segundo grupo de discípulos que nos manda. E fizemos bem ao tratar com amor os primeiros. E bem em sermos bons com Ele, que foi bom com os filhos pequenos da nossa mulher que morreu! Ele já nos conhece…
E se afastam felizes.
563.4Toda a cidade de Efraim sai para as estradas, a fim de ver um cortejo de carros romanos que estão passando. São muitos os carros e as liteiras cobertas, com escravos de cada lado, precedidos e acompanhados por legionários. As pessoas foram ver e estão cochichando umas com as outras, fazendo sinais de compreensão. O cortejo, ao chegar à estrada que vai para Betel e Ramá, parte-se em dois. Ficam ali parados um carro e uma liteira com uma escolta de soldados armados, e os outros prosseguem.
Os toldos da liteira são afastados um pouco e uma mão branca de mulher faz sinal ao chefe dos escravos para que se aproxime. O homem obedece sem dizer nada. E fica escutando. Aproxima-se de um grupo de mulheres curiosas, e pergunta:
– Onde está o Rabi de Nazaré?
– Naquela casa. Mas a esta hora, como de costume, deve estar perto da torrente. Lá há uma ilhazinha, lá perto daquele choupo. Ele fica lá rezando durante dias inteiros.
O homem volta e dá a resposta. A liteira põe-se de novo em movimento. Mas o carro fica onde está. Os soldados acompanham a liteira até às margens da torrente e põem barreiras no caminho. Somente a liteira vai para frente, ao longo do curso d’água, até à altura da pequena ilha que, com o correr dos dias desta estação, virou uma mata: é uma grande moita impenetrável, toda verde, atravessada pelo tronco e pela copa prateada do choupo. Ouve-se uma ordem e a liteira transpõe o pequeno curso de água, na qual entram os transportadores com suas roupas arregaçadas. Da liteira desce Cláudia Prócula com uma liberta, e Cláudia faz sinal a um escravo negro, que faz parte da escolta da liteira, para que a acompanhe.
563.5Cláudia, acompanhada pelos dois, vai entrando na ilhazinha e tomando o rumo do choupo sobranceiro, que está lá no centro. As ervas altas encobrem o rumor dos passos. Com isso, ela chega até onde Jesus está absorto, sentado aos pés da árvore. Ela o chama, enquanto vai entrando sozinha, depois de parar, com um gesto imperioso, os seus dois servos no lugar em que eles ficaram.
Jesus levanta a cabeça e logo se põe em pé, ao ver a mulher. Ele a saúda, estando ainda encostado ao tronco do choupo. Não demonstra nem espanto, nem aborrecimento ou ira, com aquele intrometimento.
Cláudia, depois da saudação, entra diretamente no assunto:
– Mestre. Vieram a mim, ou melhor, a Pôncio, alguns… Eu não quero fazer longos discursos. Mas visto que te admiro, te digo, como eu teria dito a Sócrates se tivesse vivido nos dias dele, ou a qualquer outro injustamente perseguido: eu não posso muito, mas o que eu puder, farei. E, por enquanto, escreverei onde eu puder para que sejas protegido e também… poderoso. Vivem sentados nos tronos e nos altos postos muitos que não o merecem.
– Mulher, Eu não te pedi honras e proteção. Mas o verdadeiro Deus te recompense pelo teu pensamento. Contudo, dá as tuas honras e tuas proteções a quem as deseja como coisa cobiçada. Eu não as desejo.
– Ah! Isto, sim! Isto é o que eu queria! Portanto, Tu és mesmo o Justo que eu pressentia! E os outros são uns desprezíveis teus caluniadores! Eles vieram até nós e…
– Não é preciso que tu fales, mulher. Eu sei.
– Sabes também que estão dizendo que, pelos teus pecados, perdeste todo o poder e que por isso é que vives por aqui rejeitado?
– Estou sabendo disso também. E sei que esta última coisa de que falaste foi para ti mais fácil de crer do que a primeira. Porque a tua mente pagã tem capacidade para discernir o que é o poder humano ou a baixeza humana de um homem, mas não podes ainda compreender o que é o poder do espírito. Tu estás… desiludida dos teus deuses, que nas vossas religiões aparecem em contínuas brigas e com um poder tão fraco, que está sujeito a fáceis impedimentos por contrastes entre eles. E crês que também com o verdadeiro Deus seja assim. Mas não é. Assim Eu era, quando me vistes pela primeira vez curar um leproso, e o mesmo Eu sou agora. E assim serei quando Eu estiver parecendo estar completamente destruído. 563.6Aquele é o teu escravo mudo, não é verdade?
– Sim, Mestre.
– Manda que ele venha para frente.
Cláudia dá um grito e o homem vem para frente e se prostra no chão, entre Jesus e sua patroa. O seu pobre coração de selvagem não sabe a qual dos dois ele deve prestar maior veneração. Ele tem medo de que, se venerar mais o Cristo do que a patroa, possa ser punido. Mas, não obstante isso, dirigindo um olhar suplicante a Cláudia, repete depois o mesmo gesto que ele fez em Cesaréia1: pegou o pé nu de Jesus em suas mãos grossas e pretas e, jogando-se com o rosto no chão, pôs o pé de Jesus sobre sua cabeça.
– Mulher, escuta. Conforme o teu pensar, é mais fácil conquistar sozinho um reino ou fazer renascer uma parte do corpo que não existe mais?
– Um reino, Mestre. A fortuna ajuda aos audazes. Mas ninguém, a não ser Tu, pode fazer renascer um morto ou dar de novo olhos a quem é cego.
– E por quê?
– Porque… Porque Deus pode fazer tudo.
– Então, para ti Eu sou Deus?
– Sim… Ou, pelo menos, Deus está contigo.
– Pode Deus estar com um homem mau? Eu falo do Deus verdadeiro, não dos vossos deuses, que são delírios de quem procura o que sabe que existe, mas sem saber o que é, e cria para si mesmo fantasmas a fim de contentar sua alma.
– Não… eu diria. Não. Não diria. Os nossos próprios sacerdotes perdem o poder quando caem em culpas.
– Que poder?
– Ora… aquele de ler nos sinais do céu e nas respostas das vítimas, no voo e no canto dos pássaros. Tu sabes… Os áugures, os arúspices…
– Eu sei. Eu sei. E então? Olha. E tu, levanta a cabeça e abre a boca, ó homem, que um cruel poder humano privou de um dom de Deus. E pela vontade de do Deus verdadeiro e único, Criador dos corpos perfeitos, recebe o que o homem tirou de ti.
E colocou o seu dedo branco na boca aberta do mudo.
A liberta, cheia de curiosidade, não se conteve lá onde estava e foi para frente, a fim de olhar. E Jesus levanta o dedo, gritando:
– Fala e usa da parte que renasceu, para louvares o Deus verdadeiro.
– E repentino, como o som de uma trompa, de um instrumento que até agora estava mudo, um grito gutural, mas bem nítido, responde: “Jesus!”, e o negro cai por terra, chorando de alegria e lambendo, verdadeiramente lambendo os pés nus de Jesus, como poderia fazer um cão reconhecido ao seu dono.
– Será que Eu perdi o meu poder, mulher? Se alguém te insinuar isso, dá-lhe esta resposta. E tu, levanta-te e sê bom, pensando em quanto te amei. Eu te trouxe no coração desde aquele dia lá em Cesaréia. E contigo, todos os teus companheiros. Considerados animais, considerados menos do que os brutos, mas sois homens e iguais a César em vossa concepção, e talvez melhores pelas vontades de vossos corações… 563.7Podes retirar-te, mulher. Não há mais nada a dizer.
– Sim. Há outra coisa. O que há é que eu havia duvidado… o que há é que, com dor, quase que eu ia acreditando no que de Ti se dizia. E não era eu somente. Perdoa a todos, menos a Valéria, que sempre teve um pensamento, ou melhor, que sempre procedeu conforme aquele pensamento. E tem que aceitar o meu presente: o homem. Não me poderia mais servir, agora que ele tem a palavra e o meu dinheiro.
– Não. Nem isto nem aquilo.
– Não me perdoas, então?
– Perdoo também àqueles do meu povo, duplamente culpados por não me conhecerem por aquiloque sou. E não deveria Eu perdoar a vós, vazios como sois de todo conhecimento divino? Eis! Eu disse que não aceitava nem o dinheiro nem o homem. Agora eu pego este e aquele, e com aquele eu liberto este. Eu te restituo o teu dinheiro, porque compro este homem. E o compro para dar-lhe liberdade. Para que vá até às terras dele, e diga que existe na Terra aquele que ama todos os homens, e tanto mais os ama quanto mais os vê infelizes… Segura a tua bolsa.
– Não, Mestre. Ela é tua. O homem está livre do mesmo modo. Era meu. Mas eu o doei a Ti. Que tu o libertes. Não é preciso dinheiro para isso.
– E então… Tens um nome? –pergunta ao homem.
– Eles o chamavam, por escárnio, de Calisto. Mas quando foi apanhado…
– Não importa. Conserva aquele nome. E faze que ele seja verdadeiro tornando-se belíssimo em teu espírito. Vai. Sê feliz, porque Deus te salvou.
Sair? O negro não se cansa de beijar e de dizer: “Jesus! Jesus!”, e põe de novo o pé de Jesus sobre sua cabeça, dizendo:
– Tu és o meu patrão.
– Eu. Teu verdadeiro Pai. Mulher. Te encarregarás dele para que volte às suas terras. Usa do dinheiro para isso e o resto seja dado a ele. Adeus, mulher. E não dês mais atenção às vozes das trevas. Sê justa. E saibas conhecer-me. Adeus, Calisto. Adeus, mulher.
E Jesus põe fim ao colóquio, pulando, com um só salto, para o outro lado da torrente, para a parte oposta daquela onde está parada a liteira, e se embrenha por entre as moitas dos salgueiros e caniços.
563.8Cláudia chama de novo os liteireiros e, pensativa, sobe outra vez para a liteira. Mas ela se cala, enquanto a liberta e o escravo falam por dez, e até os legionários perdem aquela sua disciplina de estátuas diante do prodígio de uma língua que renasceu. Cláudia está pensativa demais para ordenar que façam silêncio. Meio deitada na liteira, com o cotovelo apoiado sobre as almofadas, a cabeça sustentada pela mão, ela não ouve nada. Está absorta. Nem mesmo percebe que a liberta não está com ela, mas está falando como uma matraca com os liteireiros que, se respeitam o alinhamento, não respietam o silêncio. É emoção demais para fazer isso!
Voltando pelo mesmo caminho da ida, chegaram à encruzilhada, de onde partem os caminhos para Betel e Ramá. Lá a liteira deixa Efraim para ir unir-se ao resto do cortejo.
1 o mesmo gesto que ele fez em Cesaréia, em 426.9.
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