373. 373. Dia da Parasceve. No Templo.


31 de janeiro de 1946.

373.1 Jesus entra no Templo. E, desde os primeiros passos que Ele dá dentro dele, é fácil perceber qual é a aceitação dos espíritos para com o Nazareno. Olhares ameaçadores. Ordens aos guardas do Templo para vigiarem o “perturbador”, e essas ordens dadas patentemente, a fim de que todos vejam e ouçam as palavras de desprezo para quem está com Ele, e também os desaforos dirigidos diretamente aos discípulos… Em suma, o ódio é tal, que os garbosos fariseus, os escribas e doutores assumem posturas e atos próprios dos carregadores, ou pior ainda, e não pensam, visto que estão obcecados pela ira, que eles se rebaixam muito, mesmo como simples homens, ao procederem assim.

Jesus vai passando tranquilamente, como se aqueles atos não fossem dirigidos contra Ele. Ele é o primeiro a saudar, logo que vê qualquer personagem que, pelo grau sagrado, ou pelo poder, é um “superior”, no mundo hebraico. E, se aquela pessoa não corresponde à respeitosa saudação que Jesus lhe dirige, nem por isso Jesus muda o seu comportamento. É certo que o seu rosto se enche de um encantador sorriso, quando se vira de um desses soberbos para um ou mais dos muitos humildes, e em grande número estão lá os mendigos e os doentes pobres, que ontem Ele acolheu e que, por uma sorte inesperada, estão podendo fazer uma Páscoa, que talvez há anos não faziam, e que, reunidos em grupos, em pequenas sociedades, que se formaram espontaneamente, vão comprar seus cordeirinhos para os imolar, felizes por serem, eles, os abandonados, iguais aos outros nas vestes e nas possibilidades. E Ele para, cheio de benevolência, a fim de ouvi-los em seus propósitos, em suas narrações espantosas, em suas bênçãos… Velhos, meninos, viúvos e enfermos ontem. Mas agora curados. Miseráveis, ontem, andrajosos, esfaimados, abandonados, e hoje vestidos, e sentindo a felicidade de serem homens como os outros nos dias da grande Festa dos Ázimos!

As vozes, tão diferentes, desde as vozes de prata dos pequenos, até as vozes trêmulas dos velhos, e, entre esses dois extremos, as vozes trepidantes das mulheres saúdam, acompanham a Jesus. Os beijos chovem sobre suas vestes, sobre suas mãos. E Jesus sorri e abençoa, enquanto os seus inimigos, lívidos de raiva, ao verem-no luminoso em sua paz, roem-se em sua ira impotente.

373.2 Consigo apanhar algumas passagens do que eles estão dizendo…

– Tu dizes bem! Se fizéssemos um gesto, eles (e um fariseu mostra o povo que está ao redor de Jesus), nos reduziriam a pedaços.

– Pensai bem! Há recolhidos, esfaimados, curados, e muitos conseguiram trabalho e assistência, por meio dos discípulos ricos. Mas, em verdade, tudo nos veio por Ele, e que Deus o salve sempre! –diz um homem, que talvez ontem fosse um dos enfermos ou mendigos.

– Não haja dúvida! Ele compra as classes mais pobres, ele, o sedicioso, para jogá-las contra nós –diz, com rompante, por entre dentes, um escriba falando a um seu colega.

– Uma discípula dele perguntou o meu nome, e me disse que fosse à casa dela depois da Páscoa, que ela me leva às suas campinas em Beter. Estás entendendo, mulher? A mim e aos meus filhos. Irei trabalhar. Mas, sabes o que é trabalhar com proteção e segurança? É uma beleza! E o meu Levi não vai se matar no trabalho dos trigais. Porque a discípula, que nos contrata, vai pô-lo nos roseirais… É um passatempo, podes crer! Ah! Que o Eterno dê glória e bem ao seu Messias! –diz a viúva da planície de Saron a uma israelita que está bem, e que lhe fez algumas perguntas.

– Oh! e eu não poderia? Já estais todos empregados, vós que Ele escolheu ontem? –diz a rica mulher israelita.

– Não, mulher. Ainda há outras viúvas com filhos, e outros homens.

– Eu gostaria de perguntar-lhe se Ele me dá a graça de ajudá-lo.

– Chama-o!

– Não tenho coragem.

– Vai, tu, meu Levi, dizer-lhe que uma mulher lhe quer falar…

O menino vai logo dizê-lo a Jesus.

373.3 Enquanto isso, um saduceu está maltratando a um velho, que está falando no meio de uma multidão, que veio do Além-Jordão, e que tece elogios ao Mestre da Galileia.

O velho se defende, dizendo:

– Que é que eu estou fazendo de mal? Quererias tu ser louvado? Bastava que fizesses o que Ele faz. Mas tu, que Deus te perdoe, com estes teus cabelos brancos e essa miséria, queres tratar com desprezo e sem amor, tu, um falso israelita, que não respeitas o Deuteronômio, e não tens piedade dos pobres1.

– Estais ouvindo? Aí está o fruto da doutrina do subornador! Ele ensina ao povo a ofender os santos de Israel.

Responde-lhe um sacerdote do Templo:

– Mas a culpa é nossa, se acontece isso! Nós só fazemos ameaças, e mais nada!

Jesus, enquanto isso, está dizendo à mulher de Israel:

– Se te empenhas verdadeiramente em seres mãe para os órfãos e irmã para as viúvas, vai até o palácio do Cusa, no Sisto. Dize à Joana que fui Eu que te mandei. Vai, e que a terra produza frutos para ti, como a Terra do Éden, pela tua piedade. E mais frutos ainda produza o coração, no amor sempre maior para com o teu próximo.

Vê, no entanto, os guardas levarem o velho que havia falado antes:

– Que fazeis ao velho? E que ele fez?

– Ele insultou os guardas, que lhe faziam perguntas.

– Não é verdade. Um saduceu me maltratou, porque eu estava falando de Ti àqueles peregrinos. E, tendo ele levantado sua mão contra mim, porque sou velho e pobre, eu lhe disse que ele é um falso israelita, que pisa nas palavras do Deuteronômio.

– Soltai esse velho. Ele está comigo. A verdade falou por sua boca. Não só a sinceridade: a Verdade. Deus, se fala pelos lábios das crianças, fala também pelos lábios dos velhos. Foi dito: “Não desprezes o homem, em sua velhice, pois os que envelhecem saem do meio de nós.” E ainda: “Não desprezes as palavras dos velhos sábios, mas procura familiarizar-te com as suas máximas, porque delas tu aprenderás a sabedoria e os ensinamentos da inteligência,” e também: “Onde houver velhos, não fales muito.” Lembra-te bem, Israel, isto é, aquela parte de Israel que quer dizer-se perfeita, pois se não o fizer, o Altíssimo sabe como desmenti-lo. Meu pai, vem cá para o meu lado.

O respeitável velho vai até Jesus, enquanto os saduceus, marcados pela reprovação, vão-se embora irados.

373.4 – Eu sou uma hebreia da Diáspora, ó Rei esperado. Poderia eu servir-te como aquela mulher que Tu mandaste à Joana? –diz uma mulher que se parece muito com aquela chamada Nique, que enxugou2 o rosto de Jesus no Gólgota, e ganhou o sudário. Mas as hebreias são muito parecidas umas com as outras, e eu poderia enganar-me, estando à distância de muitos meses daquela visão.

Jesus olha para ela. Vê uma mulher dos seus quarenta anos, bem vestida, de maneiras desembaraçadas. E lhe pergunta:

– És viúva, não é verdade?

– Sim. E sem filhos. Voltei, faz pouco tempo, e adquiri umas terras em Jericó, para ficar perto da Cidade Santa. Mas agora vejo que, maior do que ela és Tu. E te acompanho. E te peço que me tomes por tua serva. O que sei sobre Ti é por meio dos discípulos. Mas Tu és muito mais do que o que eles dizem.

– Está bem. Mas, que é mesmo o que desejas?

– Ajudar-te nos pobres, e, como me for possível, fazer que sejas conhecido e amado. Conheço muitos das colônias da Diáspora, tendo acompanhado o meu marido em seus negócios. Eu tenho meios. Mas eu me contento com pouco. Por isso, posso fazer muito. E muito eu quero fazer por teu amor, e para sufragar a alma daquele que, há agora vinte anos, me recebeu virgem, e que foi para mim um companheiro amável, até o seu último suspiro. Ele dizia isto ao morrer. Parecia estar profetizando: “Quando eu tiver morrido, entrega à tumba a carne que te amou, e vai agora para a nossa Terra. Encontrarás o Prometido. Oh! Tu o verás! Procura-o. Acompanha-o. Ele é o Redentor e o Ressuscitador, e me abrirá as portas da Vida. Sê boa para me ajudares a estar preparado, quando Ele abrir os Céus para aqueles que não têm mais dívidas com a Justiça, e sê boa, para mereceres encontrá-lo logo. Jura que assim farás e que transformarás as lágrimas estéreis de uma viuvez em uma fortaleza ativa. Toma Judite para teu exemplo, ó minha esposa, e todas as nações conhecerão o teu nome.” Pobre do meu esposo! Eu peço somente que Tu me conheças…

– Eu ficarei te conhecendo como uma discípula boa. Vai, tu também, à Joana, e Deus esteja contigo…

373.5 Aborrecidos como umas abelhas, voltam ao assalto os inimigos de Jesus, enquanto Ele, o Cordeiro imolado, tendo esperado que fossem aqueles os que foram levados para poderem ter o número necessário de pessoas, vai voltando para o muro do Templo.

– Quando pensas acabar com isso, com essas tuas poses de rei? Tu não és rei! Tu não és profeta! Até quando irás abusar da nossa bondade, ó homem pecador, rebelde, causador dos males de Israel? Quantas vezes teremos que dizer-te que não tens o direito de fazer como um rabi aqui dentro?

– Eu vim para imolar o cordeiro. Vós não mo podeis impedir. Mas, afinal, eu vos faço lembrar de Adonias e de Salomão3.

– Que temos nós com eles? Que queres dizer? És tu Adonias?

– Não. Adonias fraudulentamente se fez rei, mas a Sabedoria estava vigilante e aconselhava, e somente Salomão é que foi rei. Eu não sou Adonias. Salomão é que Eu sou.

– E Adonias, quem é?

– Vós todos.

– Nós? Como falas isso?

– Com verdade e justiça.

– Nós observamos a Lei em todos os pontos, cremos nos profetas e…

– Não. Vós não credes nos profetas. Eles falam de Mim, e vós não credes em Mim. Não. Vós não observais a Lei. Ela aconselha atos justos. E vós não os fazeis. Nem aquelas ofertas que viestes fazer são retas. Está escrito: “Imunda a oferta de quem sacrifica coisas mal adquiridas.” Está escrito4: “O Altíssimo não aceita os dons dos iníquos, não volta seus olhos para as ofertas deles, e não será propício aos pedidos dos pecadores, só “por causa do grande número dos seus sacrifícios.” Está escrito: “Quem oferece um sacrifício com o que é dos pobres, é como quem estrangula um filho, diante do olhar do pai dele.” Isto está escrito, ó Jocanã!

Está escrito: “O pão dos necessitados é a vida dos pobres, e quem o tira deles é um assassino.” Isto está escrito, ó Ismael!

Está escrito: “Quem tira o pão, conseguido com suor, é como se matasse o pobre.” Isto está escrito, ó Doras, filho de Doras. Está escrito: “Quem derrama o sangue e quem defrauda o salário do operário, são irmãos.” Isso está escrito, ó Jocanã, Ismael, Cananias, Doras, Jônatas. E lembrai-vos de que também está escrito: “Quem quer que feche os seus ouvidos aos gritos do pobre, haverá de gritar também ele, mas não será ouvido.”

E tu, Eleazar ben Anás, lembra-te e faze que o teu pai se lembre de que está escrito: “os meus sacerdotes sejam santos, e não se contaminem por nenhuma razão.”

E tu, Cornélio, fica sabendo que está escrito: “Quem amaldiçoar o pai e a mãe seja punido com a morte”, e morte não é somente aquela dada pelo carrasco. Uma morte maior espera os que pecaram contra os seus pais, e essa é eterna e tremenda.

E tu, Tolmé, lembra-te do que está escrito: “Quem pratica a magia, será exterminado por Mim.”

E tu, Sadoque, escriba de ouro, lembra-te de que entre o adúltero e o seu paraninfo no adultério, não existe diferença aos olhos de Deus, e está escrito que aquele que jura falso será presa das chamas sem fim. E dize àquele que se esqueceu disso, que quem toma uma virgem e, tendo-se saciado, a afasta de si com acusações mentirosas, será condenado. Oh! Não aqui. Na outra vida será condenado pela mentira, pelo falso juramento, pelo dano causado à mulher, e pelo adultério.

E, então? Vós fugis, diante do Inerme, que diz palavras, que não são suas, mas daqueles que vós citais como os santos de Israel, e, por isso, não podeis dizer que o Inerme seja um blasfemador, porque, dizendo isso, diríeis que são blasfemadores os livros sapienciais e os de Moisés, que por Deus foram ditados? Diante do Inerme, vós fugis? Serão, por acaso, pedras as minhas palavras? Ou será que elas vos despertam, batendo sobre o bronze duro do vosso coração, sobre a vossa consciência, e esta percebe que está no dever de purificar-se, não somente em seus membros, nesta Parasceve, a fim de poder consumir sem pecado o cordeiro santo? Oh! Se assim for, louvado seja o Senhor. Porque a verdadeira sabedoria, ó vós que quereis ser louvados como uns sábios, consiste em conhecer-se a si mesmos, em reconhecer os seus próprios erros, e tomar parte nos ritos com ”verdadeira” devoção, o que quer dizer, com um culto e um rito da alma, e não um rito exterior…

Eles lá se foram! E nós também vamos para dar a paz aos que nos estão esperando…

1 piedade dos pobres, como está em Deuteronômio 24,10-22.
2 enxugou, porque se refere a uma visão passada, de 26 de março de 1945; mas se deve considerar enxugará, porque se refere a um fato futuro que encontraremos em 608.9.
3 de Adonias e de Salomão, os quais estão na linha de sucessão do Rei Davi, o pai deles, são narrados em 1 Re 1; 2,1-25. Outras notas referentes a Salomão, exceto as simples citações de seu nome, estão em 69.1 - 142.4 - 166.4 - 245.3 - 269.10 - 302.1 - 336.4 - 348.10 - 389.2 - 516.3.5.
4 Está escrito introduz uma série de citações, não todas textuais, que podemos reagrupar assim: Levítico 20,6.9; 21,6-8; Siraque 34,18-22.


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