178. 178. Três homens que querem seguir Jesus.
3 de junho de l945.
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178.1 Estou vendo Jesus, que se dirige para a beira do lago com seus onze, porque falta sempre João. Muitas pessoas o rodeiam: entre elas se encontram muitas que estavam na montanha, principalmente homens, que foram procurá-lo em Cafarnaum, para ouvirem ainda a sua palavra. Bem que gostariam de detê-lo ali. Mas Ele diz:
– Eu sou de todos. Há muitos que precisam ter-Me consigo. Voltarei. Vós Me encontrareis. Mas agora deixai-me partir.
Ele sente muita dificuldade para caminhar entre a multidão, que se apinha em um caminho estreito. Os apóstolos se esforçam, fazendo jogo de ombros para ver se conseguem abrir caminho. Mas é como que um chocar-se de alguém contra uma substância mole que, logo em seguida, toma a forma que tinha antes. Alguns ali se inquietam, mas não adianta nada.
178.2 A margem já está à vista, quando, depois de muito trabalho, um homem de meia idade e de condição civil consegue aproximar-se do Mestre e, para lhe chamar a atenção, toca em seu ombro.
Jesus se vira e para, dizendo:
– Que queres?
– Eu sou escriba. Mas o que há nas tuas palavras não pode ser comparado a nada de tudo o que há em nossos preceitos. Eu me senti conquistado por elas. Mestre, eu não Te deixo mais. Seguirte-ei para onde fores. Qual é o teu caminho?
– O caminho do Céu.
– Não é desse caminho que eu estou falando. O que estou perguntando é: Para onde vais? Depois destas, quais são as tuas casas, para que eupossa encontrar-Te sempre?
– As raposas têm suas tocas e os pássaros do ar os seus ninhos. Mas o Filho do Homem não tem onde possa pousar a cabeça. A minha casa é o mundo, por toda parte onde houver espíritos necessitados de instrução, ou misérias para aliviar, ou pecadores para redimir.
– Por toda parte, então?
– É como disseste. Poderias tu, doutor de Israel, fazer o que por amor de Mim estão fazendo estes pequeninos? Aqui o que se exige é sacrifício e obediência, caridade para com todos, espírito de adaptação em tudo e com todos. Porque a condescendência atrai. Porque, quem deseja curar, precisa inclinar-se sobre cada ferida. Depois teremos a pureza do Céu. Mas aqui ainda estamos na lama, e é preciso tirar da lama, na qual estamos pisando, as vítimas que estão submersas. Não cinjas as vestes, nem encurte-as porque em algum lugar a lama está mais funda. A pureza deve estar em nós. Estejamos saturados dela, de tal modo que em nós nada mais possa entrar. Podes fazer tudo isso?
– Pelo menos, deixa-me experimentar.
– Experimenta. Eu rezarei para que sejas capaz.
178.3 Jesus põe-se de novo em movimento e, atraído por dois olhos estãovoltados para Ele, diz a um jovem alto e robusto, que tinha parado para deixar passar o cortejo, mas parece estar se dirigindo para outra parte:
– Segue-me.
O jovem leva um susto, muda de cor, pisca os olhos como ofuscado por uma luz e depois abre a boca para falar, não encontrando-o logo resposta para dar. Enfim diz:
– Eu Te seguirei. Mas meu pai morreu em Corozaim, e preciso ir sepultá-lo. Deixa que eu vá fazer isso e depois virei.
– Segue-me. Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu já sentes um forte desejo da Vida. Há tempo que tens esse desejo. Não fiques chorando, por ter a Vida criado um vácuo ao redor de ti, a fim de ter-te como seu discípulo. As mutilações do afeto são raízes das asas que nascem no homem, que se transformou em servo da Verdade. Deixa que a corrupção siga os seus rumos. Levanta-te para o Reino do que é incorrupto. Nele encontrarás também a pérola incorruptível do teu pai. Deus chama e passa. Amanhã não encontrarás mais o coração que tens hoje e o convite de Deus. Vem. Vai anunciar o Reino de Deus.
O homem, encostado a um pequeno muro, está com os braços caídos, e neles estão penduradas algumas bolsas, cheias de unguentos e de tiras; sua cabeça está inclinada, mergulhada na dúvida entre dois amores: o devido a Deus e o devido a seu pai.
Jesus fica esperando e olhando para ele, depois segura uma criança e a aperta ao coração, dizendo:
– Fala comigo: “Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua luz para aqueles que choram nas névoas da vida. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua força para quem é como uma criança, necessitada de ser carregada. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco o teu amor para que se esqueçam de tudo que não sejas Tu, todos aqueles que em Ti encontrariam, todo o seu bem aqui e no Céu, mas não sabem crer.”
E o menino, um inocente de quatro anos, repete com sua vozinha, as palavras santas, com suas mãozinhas juntas e postas em posição de oração pela mão direita de Jesus, que as segura pelo pulso gorducho como talos de flores.
O homem, então se decide. Dá a um companheiro os seus embrulhos e vai até Jesus, que põe no chão o menino, abraça depois o jovem, fazendo isso para animá-lo e ajudá-lo no esforço que está fazendo.
178.4 Um outro homem lhe pergunta:
– Eu também gostaria de ir contigo como ele. Mas, antes de ir, quereria ir despedir-me dos meus parentes. Tu me permites?
Jesus olha fixamente para ele, e responde:
– Muitas raízes estão fincadas no ser humano. Arranca-as e, se não o consegues, corta-as. Para o serviço de Deus deve-se ir com liberdade espiritual. Nada há de servir de armadilha para quem se doa.
– Mas, Senhor, a carne e o sangue são sempre carne e sangue! Pouco a pouco eu chegarei à liberdade de que estás falando…
– Não. Não o farias nunca. Deus é tão exigente, quanto é infinitamente generoso em recompensa. Se queres ser discípulo, precisas abraçar a cruz e vir. Se não for assim, fica-se no número dos simples fiéis. Não é um caminho cheio de pétalas de rosas o caminho do servo de Deus. Mas é um caminho intransigente em suas exigências. Ninguém, que tiver posto as mãos ao arado para arar os campos dos corações e semear a semente da doutrina de Deus, pode mais voltar atrás, para ir olhar o que deixou e o que perdeu, ou aquelas coisas que podia possuir, seguindo um caminho comum. Trabalha em ti mesmo. Torna-te mais viril contigo mesmo, e depois vem. Por enquanto, não.
Chegaram à beira do lago. Jesus sobe para a barca de Pedro, ao qual, em voz baixa, diz algumas palavras. Vejo que Jesus está sorrindo e Pedro fica muito admirado. Mas não diz nada. Sobe também para a barca o homem que deixou de ir sepultar o seu pai para acompanhar a Jesus.