106. 106. Expulsão de Nazaré e conforto à Mãe.Reflexões sobre quatro contemplações.


Tarde de 13 de fevereiro de 1944.

106.1 Vejo um sala grande e quadrada. Digo sala grande, ainda que eu saiba que é a sinagoga de Nazaré (como me diz o monitor interior), porque nada mais há do que as paredes nuas, pintadas de uma cor amarelada, e uma espécie de cátedra num dos lados. Há também uma estante alta, com uns rolos. Estante, ou atril, diga como quiser. É, em suma, uma espécie de mesa inclinada, sustentada por um pé, e sobre a qual estão alinhados os rolos.

Há pessoas que rezam, não como nós rezamos, mas voltadas todas para um lado, não com as mãos juntas, mas, mais ou menos como fica um sacerdote no altar..

Há lâmpadas colocadas assim: sobre a cátedra e a estante.

 

 

 

 

Não vejo o fim desta visão, que não muda, e que se fixa em mim assim por algum tempo. Mas Jesus me manda escrevê-la, e eu a faço1.

[…].

106.2 Encontro-me novamente na sinagoga de Nazaré. Agora o rabino está lendo. Ouço o canto, em uma voz nasalada, mas não entendo as palavras, ditas em uma língua que me é desconhecida.

Entre o povo está também Jesus, com os seus primos apóstolos e com outros que certamente são seus parentes também, mas que não conheço.

Depois da leitura o rabino corre o olhar sobre a multidão, em uma pergunta muda.

Jesus vai à frente e pede para fazer hoje a reunião.

Ouço sua bela voz ler a passagem2 de Isaías, citada no Evangelho: “O espírito do Senhor está sobre Mim…” E ouço o comentário que Ele faz sobre essa passagem, dizendo-se “o portador da Boa Nova, da lei de amor que substitui o rigor de antes pela Misericórdia, e pela qual todos aqueles que a culpa de Adão torna doentes no espírito e, por reflexo, na carne, porque o pecado sempre suscita vício, e o vício a doença, também física, obterão a salvação. Por ela, todos os que estão prisioneiros do Espírito do mal terão libertação. Eu vim quebrar essas correntes, reabrir o caminho dos Céus, dar luz às almas cegas e ouvido às surdas. Chegou o tempo da Graça do Senhor. Ela está entre vós. É esta que vos fala. Os Patriarcas desejaram ver este dia, cuja existência a voz do Altíssimo proclamou, e cujo tempo os Profetas predisseram. Pelo ministério sobrenatural, conhecem que a aurora deste dia já raiou e que a entrada deles no Paraíso já está próxima. E, por isso, exultam em seus espíritos, esses santos aos quais só falta a minha bênção para serem cidadãos dos Céus. Vós o estais vendo. Vinde à Luz que surgiu. Despojai-vos das vossas paixões, para serdes ágeis em seguir o Cristo. Tende a boa vontade de crer, de melhorar, de querer a salvação, e a salvação vos será dada. Ela está em minha mão. Mas só a dou a quem tem a boa vontade de possuí-la. Porque seria uma ofensa à Graça, dá-la a quem quer continuar a servir a Mamon.”

106.3 Um murmúrio se levanta pela sinagoga.

Jesus corre o seu olhar. Lê nos rostos e corações, e continua:

– Compreendo o vosso pensamento. Vós, visto que Eu sou de Nazaré, quereríeis de Mim um favor, um privilégio. Mas isso é por causa do vosso egoísmo, não pelo poder da fé. Pelo que, Eu vos digo que, em verdade, nenhum profeta é bem aceito em sua terra. Outras cidades me acolheram e me acolherão com maior fé, até mesmo aqueles, cujos nomes para vós são um escândalo. Lá Eu vou escolher os meus seguidores, enquanto que nesta terra nada poderei fazer, porque ela me é fechada e hostil. Mas Eu vos lembro3 Elias e Eliseu. O primeiro, encontrou fé em uma mulher fenícia e o segundo, em um sírio. E àquela e à este, puderam operar o milagre. Os que estavam morrendo de fome em Israel e os leprosos de Israel não tiveram pão nem limpeza, porque os corações deles não tinham a boa vontade, aquela pérola fina, que o Profeta via. Isto sucederá a vós também, que sois hostis e incrédulos à Palavra de Deus.

106.4 A multidão tumultua e impreca e tenta agarrar Jesus. Mas os apóstolos-primos4 — Judas, Tiago e Simão — o defendem e então, os enfurecidos nazarenos expulsam a Jesus para fora da cidade. Seguem-no com ameaças, não somente verbais, até chegarem na beira do monte. Mas Jesus se volta e os imobiliza com o seu olhar magnético, e passa incólume no meio deles, desaparecendo lá em cima, por uma vereda do monte.

106.5 Vejo uma aldeia muito pequena. Um punhado de casas. Agora diríamos que é uma fração. Ela está mais ao alto do que Nazaré, que se vê mais em baixo, e dista da mesma uns poucos quilômetros. É uma aldeia muito pobre.

Jesus fala com Maria, sentado num murinho, junto a um casebre. Talvez é uma casa amiga, ou pelo menos hospitaleira, segundo as leis da hospitalidade oriental. Jesus nela se refugiou, depois de ter sido expulso de Nazaré, para esperar os apóstolos que, certamente, se tinham espalhado pelas redondezas, enquanto Ele estava ao lado da Mãe.

Com Ele estão somente os três apóstolos primos, os quais, nesse momento, estão reunidos no interior da cozinha e falam com uma mulher idosa à qual Tadeu chama de “mãe”. Por isso, compreendo que ela é Maria de Cléofas. É uma mulher já de bastante idade, e eu reconheço nela aquela que estava com Maria Santíssima nas bodas de Caná. Certamente Maria de Cléofas e os filhos se retiraram para lá, a fim de deixarem a Jesus e Maria mais à vontade, que estão conversando.

106.6 Maria está aflita. Soube do que aconteceu na sinagoga, e ficou angustiada. Jesus a consola. Maria suplica ao Filho que fique longe de Nazaré, onde todos estão indispostos contra Ele, até os outros parentes, que o julgam um louco desejoso de suscitar rancores e disputas. Mas Jesus faz um gesto sorrindo. Parece estar dizendo: “Isso não é nada. Deixa para lá!” Mas Maria insiste.

Então Ele responde:

– Mãe, se o Filho do homem tivesse que ir só por onde é amado, deveria mudar de rumo os seus passos, e voltar para o Céu. Por toda parte, Eu tenho inimigos. Porque a Verdade é odiada, e Eu sou a Verdade. Mas Eu não vim para encontrar um amor fácil. Eu vim para fazer a vontade do Pai e redimir o homem. O amor és tu, Mãe, o meu amor, aquele que me compensa de tudo. Tu, e este pequeno rebanho que todos os dias vai crescendo com mais uma ou outra ovelhinha, que Eu arranco das garras dos lobos, que são as paixões, e levo ao ovil de Deus. O resto é o dever. Vim para cumprir esse dever, e devo cumpri-lo, até mesmo esfacelando-me, contra as pedras dos corações que se opõem ao bem. Antes, só quando tiver caído, banhando de sangue aqueles corações, Eu os abrandarei, gravando neles o meu sinal, que anula o do Inimigo. Mãe, desci do Céu para isso. Não posso desejar senão a realização disso.

– Oh! Filho! Meu Filho!

Maria está com uma voz dilacerada. Jesus a acaricia. Noto que Maria tem na cabeça, além do véu, também o manto. E mais que nunca, velada como uma sacerdotisa.

106.7 – Ficarei ausente, por algum tempo, para contentar-te. Quando Eu estiver por perto, mandarei avisar-te.

– Manda João. Parece-me estar te vendo um pouco, quando vejo João. Também a sua mãe é cheia de cuidados para comigo e para Contigo. Ela espera, é verdade, um posto privilegiado para os seus filhos. É mulher e é mãe, Jesus. É preciso compadecer-nos dela. Também Contigo vai falar sobre isto. Mas é devota sinceramente de Ti. E quando ela ficar livre dessa fraqueza humana, que fermenta tanto nela, como nos seus filhos, nos outros, como em todos, então, meu Filho, ela será grande na fé. É doloroso que todos esperam de Ti um bem humano, um bem que, mesmo Não sendo humano, é egoísta. Mas o pecado está neles com a sua concupiscência. Ainda não chegou a hora bendita, e tão, temida, mesmo se o amor a Deus e ao homem faça que eu a deseje, pois nela é que Tu anularás o pecado. Oh! Aquela hora! Como treme o coração de tua Mãe, pela chegada daquela hora! Que é que te farão, Filho? Filho Redentor, do qual os Profetas predizem um tão grande martírio?

– Não fiques pensando nisso, minha Mãe. Naquela hora, Deus te ajudará. Deus ajudará a Mim e a ti. Depois, virá a paz. Eu digo a ti mais uma vez. Agora vai, porque a tarde cai, e o caminho é longo. Eu te abençoo.

106.8 Jesus diz:

– Pequeno João, muito trabalho hoje. Mas estamos com atraso de um dia, e não se pode ir devagar. Eu te dei força para isso, hoje.

As quatro contemplações5 as concedi a ti para poder falar-te sobre as dores de Maria e minhas, preparatórias à Paixão. Teria devido falar delas ontem, sábado, dia dedicado à minha Mãe. Mas tive pena. Hoje vamos recuperar o tempo perdido. Depois as dores que te fiz conhecer, Maria também as teve. E Eu como Ela.

106.9 O meu olhar tinha lido no coração de Judas Iscariotes.

Ninguém deve pensar que a Sabedoria de Deus não tenha sido capaz de compreender aquele coração. Mas, como disse à minha Mãe, ele não podia faltar. Ai dele por ter sido o traidor! Mas um traidor não podia faltar. Fingido, astuto, ávido, luxurioso, ladrão, inteligente e culto acima do comum, ele tinha sabido impor-se a todos. Audaz, ele me aplainava o caminho, até quando era um caminho difícil. Agradava-lhe, mais que tudo, aparecer e sobressair o seu lugar de confiança junto a Mim. Não era serviçal por instinto de caridade, mas unicamente porque era um daqueles que vós chamais “intrigante.” Isto permitia-lhe também tomar conta da bolsa e aproximar-se da mulher. Duas coisas que, unidas à terceira — as dignidades humanas — amava desenfreadamente.

A Pura, a Humilde, a Desapegada das riquezas terrenas não podia deixar de sentir aversão por aquela serpente. Eu também sentia aversão por ele. E só Eu e o Pai e o Espírito é que sabemos que lutas precisei sustentar para poder suportá-lo perto de Mim. Mas as explicarei uma outra vez.

106.10 Igualmente não ignorava a hostilidade dos sacerdotes, fariseus, escribas e saduceus. Eram raposas astutas, que procuravam empurrar-me para a sua toca, a fim de me despedaçarem. Tinham fome do meu sangue. E procuravam colocar armadilhas por toda parte para me apanharem, para terem alguma arma de acusação e tirar-me do meio. Durante três anos, longas foram as insídias, que não se aplacaram, senão quando ficaram sabendo que Eu estava morto. Aquela noite dormiram felizes. A voz do seu acusador se havia calado para sempre. Assim pensavam. Não. Ela ainda não se havia apagado. Nem o será nunca, e troveja, amaldiçoando os seus semelhantes de agora. Quanta dor teve minha Mãe por culpa deles! E daquela dor Eu não me esqueço.

106.11 Que a multidão fôsse volúvel, não era novidade. Ela é a fera, que lambe a mão do domador, enquanto essa mão está armada com um chicote, ou oferece um pedaço de carne à sua fome. Mas, basta que o domador caia, e não possa mais usar o chicote, ou não tenha mais com que matar a sua fome, e esta se lançará sobre ele, e o despedaçará. Basta dizer a verdade e sermos bons, para sermos odiados pela multidão, depois do primeiro momento de entusiasmo. A verdade é uma censura e uma advertência. A bondade se despoja do chicote e faz que os maus não tenham mais medo. Pelo que, dizem agora “crucifica” depois de terem dito “hosana”. A minha vida de Mestre está cheia destas duas palavras. E a última foi “crucifica”. O hosana é como aquele fôlego que o cantor toma para ter forças, antes de dar o agudo. Maria, na tarde da Sexta-Feira Santa, voltou a ouvir em si mesma todos os hosanas mentirosos, transformados em gritos de morte contra o seu Filho, e por eles Ela ficou ferida. Também isso Eu não me esqueço.

106.12 A humanidade dos apóstolos! Quanta! Eu a levava nos braços, para levantá-los até o Céu, eram uns blocos de pedra, cujos pesos os arrastavam para a terra. Até aqueles que não se julgavam ministros de um rei terreno, como Judas Iscariotes, aqueles que não pensavam como ele em subir, apresentando-se a ocasião, estavam, sempre ansiosos pela glória. Chegou o dia em que até o meu João e seu irmão desejaram essa glória, que vos deslumbra como uma miragem, também nas coisas celestes. Não é a santa ânsia pelo Paraíso, que Eu quero que vós tenhais. Isto é um desejo humano de que a vossa santidade se torne conhecida. E não é somente isso, mas uma certa avidez de cambista, de usurário, para o qual, por um pouco de amor dado Àquele ao qual Eu disse que deveis dar-vos inteiramente, pretendeis um lugar à sua direita no Céu.

Não, filhos. Não. Primeiro é preciso saber beber todo o cálice que Eu bebi. Todo: com a sua caridade, dada em compensação pelo ódio, com a sua castidade, contra as vozes da sensualidade, com a sua heroicidade nas provas, com o seu holocausto por amor de Deus e dos irmãos. Depois, quando tiverdes cumprido tudo o que era de vosso dever, deveis dizer ainda: “Somos servos inúteis”, e esperai que o meu e vosso Pai vos conceda, por sua bondade, um lugar no seu Reino. É preciso despojar-se, como me viste despojado no Pretório, de tudo o que é humano, tendo somente o que é indispensável e que se relaciona com o dom de Deus que é a vida e com os irmãos, aos quais podemos ser mais úteis no Céu, do que na terra, e deixar que Deus vos revista com a estola imortal, tornada cândida no sangue do Cordeiro.

106.13 Eu te mostrei as dores preparatórias para a Paixão. E te mostrarei outras. Conquanto sejam sempre dores, contemplá-las foi um repouso para a tua alma. Agora basta. Fica em paz.



1 e eu a faço. Segue imediatamente, no caderno manuscrito, a visão que formou o capítulo 101.
2 a passagem, a de Isaías 61,1-2; citado por Lucas 4,18-19.
3 vos lembro o que se narra em: 1 Reis 17; 2 Reis 5.
4 os apóstolos-primos são Judas e Tiago. O primo Simão, também ele presente, é chamado erroneamente apóstolo pela escritora, corrigido por Jesus em 105.6. O erro se repete mais abaixo: os três apóstolos-primos.
5 As quatro contemplações, das quais inicia aqui o comentário, foram escritas na mesma data uma a seguir à outra: tarde de 13 de Fevereiro de 1944; mas foram colocadas de forma diversa. A primeira corresponde a 106.1; a segunda corresponde a todo o capítulo 101; a terceira corresponde a 106.2/4; a quarta corresponde a 106.5/7 e é seguida do comentário (106.8/13).