132. 132. Discurso conclusivo em Águas Belas,antes da festa da Purificação.
17 de março de 1945.
132.1 – Meus filhos no Senhor, a festa da Purificação é iminente e a ela Eu, Luz do mundo, vos mando preparados com o mínimo necessário para bem realizá-la. A primeira lâmpada da festa, da qual emitireis a chama a todas as outras. Porque bem tolo seria aquele que pretendesse acender muitas luzes, não tendo como acender nem a primeira. E ainda mais tolo seria aquele que pretendesse começar a sua santificação pelas coisas mais difíceis, descuidando-se daquilo que é base do edifício imutável da perfeição: o Decálogo.
132.2 Lê-se1 nos Macabeus que Judas e os seus, tendo retomado o Templo e a Cidade, com a proteção de Deus, destruíram os altares erguidos aos deuses estrangeiros — e também os pequenos templos — e purificaram o Templo. Depois ergueram um outro altar e com pederneiras acenderam o fogo, ofereceram os sacrifícios, queimaram incenso, colocaram as lâmpadas e os pães da proposição e depois, prostrados todos por terra, suplicaram ao Senhor que não permitisse mais que eles pecassem, ou que, se por fraqueza, voltassem a pecar de novo, que os tratasse com divina Misericórdia. Isto aconteceu no dia vinte e cinco do mês de Casleu.
Consideremos e apliquemos a história a nós mesmos, porque cada palavra da história de Israel, sendo do povo eleito, tem um significado espiritual. A vida é sempre um ensinamento. A vida de Israel é ensinamento não só para os dias terrenos, mas para a conquista dos dias eternos.
“Destruíram os altares e os pequenos templos pagãos.”
Eis a primeira operação. Aquela que Eu vos mandei fazer, ao dar-vos os nomes dos deuses individuais, que substituem ao Deus verdadeiro: as idolatrias da sensualidade, do ouro, do orgulho, os vícios capitais que levam à profanação e morte da alma e do corpo e ao castigo de Deus.
Eu não vos esmaguei sob as inumeráveis fórmulas que agora oprimem os fiéis, e servem de baluarte à verdadeira Lei, oprimida, escondida por cúmulo de proibições, todas exteriores, que com sua opressão, conduzem os fiéis a perder de vista a voz reta, clara e santa do Senhor, que diz: “Não blasfemar. Não idolatrar. Não profanar as festas. Não desonrar os pais. Não matar. Não fornicar. Não roubar. Não mentir. Não invejar as coisas dos outros. Não desejar a mulher do próximo.” São dez “não.” E nem um a mais. São as dez colunas do templo da alma. Por cima brilha o ouro do preceito mais santo de todos: “Ama a teu Deus. Ama o teu próximo.” É o coroamento do templo. É a proteção dos fundamentos. É a glória do construtor. Sem amor ninguém poderia obedecer às dez regras e cairiam as colunas, todas ou alguma, e o templo se arruinaria, total ou parcialmente. Mas, de qualquer modo, ficaria arruinado e não mais apto para acolher o Santíssimo.
Fazei o que Eu vos disse, abatendo as três concupiscências. Dai um nome claro ao vosso vício, assim como claro é Deus ao dizer-vos: “Não façais isto nem aquilo.” É inútil buscar sutilezas nas formas. Quem nutrir algum amor mais forte do que o amor que dá a Deus, seja qual for esse amor, é um idólatra. Quem fala o nome de Deus, professando-se servo Dele e depois lhe desobedece, é um rebelde. Quem por avidez trabalha aos sábados é um profanador, um desconfiado, um presunçoso. Quem nega um socorro aos pais, aduzindo pretextos, ainda que diga que são serviços prestados a Deus, é alguém que está sendo abominado por Deus, pois Este colocou os pais e as mães como seus representantes nesta terra. Quem mata, sempre é assassino. Quem comete fornicação é sempre um luxurioso. Quem rouba é sempre ladrão. Quem mente é sempre abjeto. Quem quer o que não é seu, é sempre um guloso, com a mais execrável das fomes. Quem profana um tálamo é sempre um imundo.
Assim é. E Eu vos lembro2 que, depois que ergueram o bezerro de ouro, veio a ira do Senhor; depois a idolatria de Salomão, o cisma que dividiu e enfraqueceu Israel; depois que o helenismo foi aceito, e aliás bem acolhido e introduzido pelos judeus indignos, no tempo de Antíoco Epifânio, vieram as nossas atuais desventuras espirituais, econômicas e de nacionalidade. Eu vos lembro Nadab e Abiud, falsos servos de Deus, que foram feridos por Javé. Eu vos lembro que não era santo o maná colhido ao sábado. Eu vos lembro Cam e Absalão. Eu vos lembro o pecado de Davi contra Urias e o de Absalão contra Amnon. Eu vos lembro o fim de Absalão e o de Amnon. Eu vos lembro a sorte do ladrão Heliodoro e Simão e Menelau. Eu vos lembro o fim ignóbil dos dois falsos reitores que deram testemunho mentiroso contra Susana. E Eu poderia continuar sem encontrar fim aos exemplos. 132.3Mas voltemos aos Macabeus.
“E purificaram o Templo.”
Não basta dizer: “Destruo.” É preciso dizer: “Purifico.” Eu vos disse como se purifica o homem: com um arrependimento humilde e sincero. Não há pecado que Deus não perdoe, se o pecador estiver realmente arrependido. Tende fé na Bondade divina. Se vós pudésseis chegar a compreender o que é esta Bondade, ainda que estivessem sobre vós todos os pecados do mundo, não fugiríeis de Deus, ao contrário, iríeis prostrar-vos a seus pés, porque só o que é sumamente Bom pode perdoar o que o homem não perdoa.
“E ergueram um outro altar.”
Oh! Não tenteis enganar o Senhor. Não sejais falsos em vosso modo de agir. Não mistureis Deus e Mamon. Teríeis um altar vazio: o de Deus. Porque é inútil erguer um altar novo, se ainda permanecem os restos do outro: Ou Deus, ou o ídolo. Escolhei.
“E acenderam o fogo com a pedra e a isca.”
Pedra é a vontade firme de ser de Deus. Isca é o desejo de anular do coração de Deus, com todo o resto da vida, até a lembrança do vosso pecado. Eis então que se suscita o fogo: o amor. Porque o filho que procura reconfortar o pai ofendido, com uma vida toda honrada, o que é que tem de fazer, a não ser amar ao pai, querendo vê-lo alegre com seu filho, que causou suas lágrimas, e que agora lhe causa alegrias?
Agora, chegados a este ponto, podeis oferecer sacrifícios, queimar os incensos, colocar as lâmpadas e os pães. Não serão malvistos por Deus os vossos sacrifícios, e agradáveis lhe serão vossas orações, verdadeiramente iluminado estará o altar, rico do alimento da vossa oferta diária. Podereis rezar, dizendo: “Sê para nós protetor”, porque Ele será vosso amigo.
Mas a sua Misericórdia não ficou esperando que vós pedísseis piedade. Ela antecipou-se ao vosso desejo. E vos mandou a Misericórdia para dizer-vos: “Esperai. Eu vo-lo digo: Deus vos perdoa. Vinde ao Senhor.” Um altar já está entre vós: o novo altar. Dele brotam rios de luz e de perdão. Como um óleo eles se espalham, medicam, fortalecem. Crede na Palavra que dele vem. Chorai Comigo sobre os vossos pecados. Como o levita que dirige o coro, Eu dirijo as vossas vozes a Deus, e não será repelido o vosso gemido, se estiver unido à minha voz. Convosco me aniquilo, Irmão dos homens pela carne, Filho do Pai pelo espírito, e digo3 por vós e convosco: “Deste profundo abismo onde Eu-Humanidade caí, grito a Ti, Senhor. Escuta a voz de quem olha para si e suspira, e não feches os teus ouvidos às minhas palavras. Ver-me é um horror, ó Deus. Eu sou um horror também aos meus olhos! E que é que serei aos teus olhos? Não olhes para as minhas culpas, ó Senhor, porque senão eu não poderei resistir diante de Ti, mas usa para comigo de tua Misericórdia. Tu o disseste: ‘Eu sou Misericórdia’. E eu creio em tua palavra. Minha alma, ferida e abatida, confia em Ti e em tua promessa, e da aurora à noite, da juventude à velhice eu esperarei em Ti.”
132.4 Culpado de homicídio e de adultério, reprovado por Deus, Davi obtém perdão, depois de ter gritado ao Senhor: “Tem piedade, não por consideração a mim, mas para honra de tua Misericórdia, que é infinita. E por ela cancela o meu pecado. Não existe água que possa lavar o meu coração, se não for apanhada nas águas profundas da tua santa bondade. Lava-me com ela da minha iniquidade e purifica-me da minha sujeira. Não nego que pequei. Ao contrário, eu confesso o meu delito e, como um testemunho de acusação, minha culpa está sempre diante de mim. Ofendi o homem no próximo e em mim mesmo, mas eu me arrependo, particularmente, por haver pecado contra Ti. E que isto te diga que reconheço que Tu és justo em tuas palavras e temo o teu juízo, que triunfa sobre todos os poderes humanos. Mas considera, ó Eterno, que na culpa eu nasci, e que era uma pecadora a que me concebeu e que, no entanto, Tu tanto me amaste, que chegaste a revelar-me a tua sabedoria e a dá-la a mim, por mestra para compreender os mistérios das tuas sublimes verdades. E se tanto fizeste, deverei temer a Ti? Não. Não temo. Asperge-me com o amargor da dor e ficarei purificado. Lava-me com o pranto e tornar-me-ei como a neve dos Alpes. Faz- me ouvir a tua voz e o teu servo humilhado exultará, porque a tua voz é alegria e regozijo, mesmo quando censura. Volta o teu rosto para os meus pecados. Teu olhar cancelará as minhas iniquidades. O coração que me deste foi-me profanado por satanás e pela minha fraca humanidade. Cria-me um coração novo, que seja puro, destrói o que é corrupção nas entranhas do teu servo, para que reine nele só um espírito reto. Mas não me expulses da tua presença e não me negues a tua amizade, porque só a salvação que de Ti vem, é que é alegria para a minha alma, e o teu espírito soberano é um conforto para o humilhado. Faz que eu me transforme naquele que vá entre os homens, dizendo: ‘Vede quanto é bom o Senhor. Andai pelos seus caminhos e sereis abençoados como eu sou, eu, um aborto de homem e que agora me torno filho de Deus, pela graça que renasce em mim’. E a Ti se converterão os ímpios. O sangue e a carne fervem e gritam em mim. Livra-me deles, ó Senhor, salvação da minha alma, e eu cantarei os teus louvores. Eu não sabia. Mas agora compreendo. Não é um sacrifício de carneiros o que Tu queres, mas o holocausto de um coração contrito. Um coração contrito e humilhado te é mais agradável do que carneiros, porque Tu para Ti nos criaste, e queres que disto nos lembremos e demos a Ti o que é teu. Sê benigno para comigo, pela tua grande bondade e reedifica a minha e tua Jerusalém: aquela de um espírito purificado e perdoado, sobre o qual possa ser oferecido o sacrifício, a oblação e o holocausto pelo pecado, para ação de graças e para o louvor. E que cada meu novo dia seja uma hóstia de santidade consumada sobre o teu altar, para subir com o odor do meu amor até Ti.”
132.5 Vinde! Vamos ao Senhor. Eu adiante, vós atrás. Vamos às águas da salvação, vamos às santas pastagens, vamos às terras de Deus. Esquecei-vos do passado. Sorride para o futuro. Não penseis na lama, mas olhai para as estrelas. Não digais: “Eu sou escuridão”; dizei: “Deus é Luz.” Eu vim para anunciar-vos a paz, para dizer aos mansos a Boa Nova, para curar os que têm o coração quebrantado por tantas coisas, para pregar a liberdade a todos os escravos, primeiros entre todos, os de Mamon, para libertar os prisioneiros de suas concupiscências.
Eu vos digo: o ano da graça chegou. Não choreis, vós tristes, com a tristeza de quem se sente pecador, não derrameis lágrimas, como exilados do Reino de Deus. Eu substituo as cinzas pelo ouro, as lágrimas pelo óleo. Eu vos visto para a festa, a fim de apresentar-vos ao Senhor e dizer: “Eis as ovelhazinhas que Tu me mandaste procurar. Eu as visitei e reuni, as contei, procurei as dispersas, e trouxe-as a Ti, afastando-as das nuvens e da escuridão. Eu as apanhei por entre todos os povos e as reuni de todas as regiões, para conduzi-las à Terra, não mais a terra que para elas Tu preparaste, ó Pai santo, para levá-las aos cumes paradisíacos dos teus montes férteis, onde tudo é luz e beleza, ao longo dos rios das beatitudes celestes, onde se saciam de Ti os espíritos por Ti amados. Fui à procura também das feridas, curei as machucadas, restaurei as fracas, não me descuidei de uma só delas. E a mais dilacerada pelos ávidos lobos da sensualidade, Eu a coloquei sobre os meus ombros, como um jugo de amor, e a pouso aos teus pés, Pai benigno e santo, porque ela não pode mais caminhar, não sabe as tuas palavras, é uma pobre alma perseguida pelos remorsos e pelos homens, é um espírito que lamenta e treme, é como uma onda empurrada e rechaçada pelo vagalhão da praia. Vem com o desejo, mas sente-se repelida pelo conhecimento de si… Abre-lhe o teu seio, ó Pai, que és todo amor, para que nele encontre paz esta criatura extraviada. Diz-lhe: ‘Vem’. Diz-lhe: ‘És minha’. Ela foi de todo mundo, mas agora tem náusea e medo. Ela diz: ‘Cada patrão é um valentão sujo’. Faz que ela possa dizer: ‘Este meu Rei deu-me a alegria de ser conquistada!’ Não sabe o que é o amor. Mas se Tu a acolhes, saberá o que é este amor celeste, que é o amor nupcial entre Deus e o espírito humano e, como um pássaro livre da gaiola dos malvados, subirá, subirá sempre mais para o alto, até chegar a Ti, ao Céu, à alegria, à glória, cantando: ‘Encontrei Aquele que procurava. Não tem outro desejo o meu coração. Em Ti me pouso e jubilo, Senhor eterno, pelos séculos dos séculos, feliz!’”
Ide. Com um espírito novo, celebrai a festa da Purificação. E que a luz de Deus se acenda em vós.
Jesus tornou-se arrebatador no encerramento do seu discurso. Um rosto luminoso com olhos resplandecentes, um sorriso e uns tons de uma doçura ainda não conhecida.
O povo parece estar fascinado e não se move dali, enquanto Ele não repete:
– Ide. A paz esteja convosco.
Então começa a partida dos peregrinos, que vão conversando baixo entre si.
132.6 A mulher velada se vai, rápida como sempre, com seus passos ágeis e levemente ondulantes. Ela parece ter asas, por causa do vento que lhe estufa o manto nas costas.
– Agora vou ficar sabendo se ela é de Israel –diz Pedro.
– Por quê?
– Porque, se está aqui, é sinal de que…
– … é uma pobre mulher sem casa própria. Nada mais, lembra-te disso, Pedro.
Jesus toma o caminho que vai para a cidade.
– Sim, Mestre. Eu me lembrarei… E nós, que faremos, agora que todos estarão em suas casas para a festa?
– Nossas mulheres acenderão as lâmpadas para nós.
– Isto me desagrada… É o primeiro ano que não as vejo acender em minha casa, ou que eu não as acendo…
– Tu és um velho menino! Nós também acenderemos as lâmpadas. Assim não farás mais essa cara amuada. E tu mesmo é quem as acenderá.
– Eu? Eu não, Senhor. Tu és o Chefe da nossa família. Compete a Ti.
– Eu sou sempre uma lâmpada acesa… e gostaria que vós também o fôsseis. Eu sou a Encênia sempiterna, Pedro. 132.7Sabes tu que Eu nasci exatamente a vinte e cinco de Casleu?
– Quem sabe quantas lâmpadas, heim? –pergunta Pedro, admirado.
– Nem se podiam contar… Eram todas as estrelas do céu…
– Não! Não te fizeram festa em Nazaré?
– Eu não nasci em Nazaré. Mas no meio de uns escombros em Belém. Vejo que João soube ficar calado. É muito obediente João.
– E não é curioso. Mas eu… eu sou tanto! Queres contar-me? Conta ao teu pobre Simão. Senão, como faço para falar de Ti? Algumas vezes o povo pergunta e eu nunca sei o que dizer… Os outros sabem se sair, quero dizer, os teus irmãos e Simão, Bartolomeu e Judas de Simão. E… sim, até Tomé sabe falar… parece um leiloeiro da feira… e que está vendendo uma mercadoria. Mas consegue falar… Mateus… ah! ele vai bem! Usa a antiga sabedoria, com que depenava os fregueses em sua banca de impostos, para forçar os outros a dizerem: “Tens razão.” Mas eu!! Pobre Simão de Jonas! Que é que os peixes te ensinaram? Que é que o lago te ensinou? Duas coisas… Mas para nada servem: os peixes a te calares e a seres constante. Eles, constantes em escapar da rede, eu constante em colocá-los nela. E o lago a teres coragem e olhos atentos a tudo. E o barco? A esfalfar-me, sem poupar nenhum músculo, e a ficar em pé, mesmo quando as ondas estão agitadas e se corre o risco de cair. Olhos na estrela polar, mão firme no leme, força, coragem, constância, atenção, eis o que me ensinou a minha pobre vida…
Jesus lhe pousa a mão sobre o ombro e o sacode, olhando-o com afeto e admiração, verdadeira admiração, por tanta simplicidade, e diz:
– E parece-te pouco, Simão Pedro? Tens tudo o que é preciso, para seres a minha “pedra.” Nada há a pôr, nada a tirar. Serás o eterno marinheiro, Simão. E a quem vier depois de ti, tu dirás: “Olhos na estrela polar: Jesus. Mão firme no leme, força, coragem, constância, atenção, afadigar-se sem poupar-se, ter os olhos atentos a tudo, e saber estar em pé, mesmo sobre ondas agitadas…” E, quanto ao silêncio… nada disso… os peixes não te ensinaram nada!
– Mas para aquilo que deveria saber dizer, sou mais mudo do que um peixe. As outras palavras?? Até as galinhas sabem tagarelar, como eu faço… 132.8Mas, diz a mim, meu Mestre. Vais dar um filho também a mim? Nós estamos velhos… Mas Tu disseste que o Batista nasceu de uma velha… Agora Tu disseste: “E a quem vier depois de ti, tu dirás…” Quem é que vem depois de um homem, senão quem foi gerado por ele?
Pedro está com um semblante de quem pede e tem esperança.
– Não, Pedro. E não fiques sentido por isso. Estás mesmo te parecendo com o teu lago, quando o sol está escondido por uma nuvem. De sorridente, tornou-se escuro. Não, meu Pedro. Mas não um e sim, mil, dez mil filhos terás, e em todas as nações… Não te lembras de que Eu te disse: “Serás pescador de homens”?
– Oh! Sim… mas… Teria sido tão doce ouvir um menino que me chamasse de “pai”!
– Terás tantos que nem os poderás contar. E a eles darás a vida eterna. E os reencontrarás no Céu, e os levarás a Mim, dizendo: “São os filhos do teu Pedro, e quero que estejam onde eu estou”, e Eu te direi: “Sim, Pedro, seja como tu queres. Porque tudo fizeste por Mim e Eu tudo faço por ti.”
Jesus é muito doce ao dizer estas promessas.
Pedro engole a saliva entre o pranto, por causa de sua esperança que morreu de ter uma paternidade terrena e o outro pranto de um êxtase que se anuncia:
– Oh! Senhor! –diz–. Mas para dar a vida eterna é necessário persuadir as almas para o bem. E… voltamos sempre ao mesmo ponto: eu não sei falar.
– Saberás falar, quando chegar a hora, melhor do que Gamaliel.
– Quero crer… Mas, faz Tu este milagre, porque, se eu tiver que chegar a isso por mim…
Jesus ri, com o seu riso tranquilo e diz:
– Hoje sou todo teu. Vamos para o povoado. Vamos à casa daquela viúva. Tenho um óbolo secreto. É um anel para vender. Sabes como o consegui? Uma pedra veio bater em meus pés, enquanto estava rezando debaixo deste salgueiro. Na pedra estava amarrado um embrulhinho com uma pequena tira de pergaminho. Dentro do pacotinho estava o anel. E no papel estava escrita a palavra ‘caridade’.
– Deixas-me ver? Oh! Que bonito! É de mulher. E que dedo pequeno! Mas quanto metal!!
– Agora tu o venderás. Eu não sei fazer isso. O hospedeiro compra ouro. Estou sabendo. Eu te espero junto ao forno. Vai, Pedro.
– Mas… e se não souber fazer? Eu, lidar com ouro… De ouro eu não entendo!
– Faz de conta que é pão para quem está com fome. E faz o negócio do melhor modo que puderes. Adeus.
E Pedro vai para a direita, enquanto Jesus, mais lentamente, vai para a esquerda, em direção ao povoado, que já está aparecendo a uma certa distância, por detrás de um pequeno bosque, que está além da casa do feitor.
1 Lê-se, em: 1 Macabeus 4,36-61.
2 Eu vos lembro ... de: Êxodo 32,10 (ira); 1 Reis 12,19-20.28-33 (cisma); 1 Macabeus 1; 2 Macabeus 4-7 (helenismo e desventura); Levítico 10,1-2; Números 3,4; 26,61; 1 Samuel 25,3.38 (falsos servos açoitados); Êxodos 16,27-30 (maná); 2 Samuel 11; 13 (pecado); 2 Samuel 18,9-18; 2 Macabeus 3,24-34; 4,1-6; 13,7-8; Daniel 13,61-62 (sorte e ignóbil fim).
3 digo, parafraseando o Salmo 51 de David, como MV anota numa cópia datilografada onde escreve também, mais abaixo, o reenvio a: Isaías 61,1-3; Ezequiel 34,11-16.