452. 452. O ex-leproso João torna-se discípulo.Parábola dos dez monumentos.
29 de junho de 1946.
452.1 – O meu Senhor! –grita o ex-leproso, jogando-se de joelhos, logo que vê Jesus aparecer na charneca, que fica perto do rochedo onde viveu durante tantos anos.
Depois, levantando-se, grita de novo:
– Como? Estás voltando a mim?
– Para dar-te uma provisão de palavras, depois de ter-te dado a de saúde.
– A provisão se dá a quem vai viajar e, de fato, vou viajar esta tarde para as purificações… Mas parto, para voltar e unir-me aos discípulos, se Tu me quiseres acolher. Não tenho mais casa nem parentes, Senhor. Já estou velho para exercer qualquer atividade, e assim poder viver. Far-me-ão a reintegração dos bens, mas, como estará a casa, se há quinze anos nela não morou ninguém? O que encontrarei nela? Talvez as paredes derrubadas… Eu sou um passarinho sem ninho. Deixa que eu me ajunte à fileira dos que te seguem. Afinal, eu não pertenço mais a mim mesmo, porque, por aquilo que me deste, eu sou teu, não pertenço mais ao mundo que me separou do seu convívio, justamente por ser eu um impuro, e por tanto tempo. Agora sou eu que acho que o mundo é impuro, depois de ter-te eu conhecido, e fujo do mundo para vir a Ti.
– Eu não te rejeito. Mas Eu te digo que quereria que fizesses uma parada nesta região. Aera e Arbela têm o seu filho discípulo, que está evangelizando… Que tu faças o mesmo em Hipo, Gamala, Afeca e lugares vizinhos. Eu, daqui a pouco desço para a Judeia, e não voltarei mais a estes lugares. Mas quero ter neles meus evangelizadores.
– A tua vontade me torna querida qualquer renúncia. Farei o que Tu queres. E o farei, logo que completar as purificações. Eu tinha pensado que não teria que cuidar mais de minha casa. Agora, ao contrário, eu digo que a reaverei, de tal modo que possa morar nela e acolher nela, durante o inverno, as almas desejosas de ter notícia de Ti, pedirei a alguns dos discípulos que te seguem que venham ficar comigo, porque, se Tu queres que eu seja um pequeno mestre, eu preciso ser instruído por alguém que saiba mais do que eu. E na primavera irei com os outros pregar o teu Nome.
452.2 – Teu pensamento é bom. Deus te ajudará a realizá-lo.
– Eu já comecei a destruir pelo fogo tudo o que me pertencia, isto é, a pobre enxerga e os pobres móveis que eu usava, a veste com que eu estava até ontem, tudo aquilo em que eu havia tocado com meu corpo doente. A gruta em que eu vivia está preta, por causa do fogo que eu nela acendia para incinerar coisas e purificar o ambiente. Ninguém ficará contaminado, se entrar lá para refugiar-se em alguma noite de tempestade. E depois (a voz do homem se enfraquece, parece fracionar-se, emite vagarosamente suas palavras…), e depois, eu tinha um velho baú, já bem velho, todo encarunchado… parecia que a lepra o tivesse corroído também… Mas para mim… ele era mais precioso do que as riquezas do mundo… Dentro dele estavam minhas coisas queridas… lembranças de minha mãe… o véu de núpcias da minha Ana… Ah! quando eu o tirei, todo feliz, naquela tarde das núpcias, contemplei aquele rosto tão belo e puro como um lírio, quem me poderia ter dito que, poucos anos depois, eu o haveria de ver como uma chaga só! E… as roupas dos meus meninos, os seus brinquedos… seguros entre suas pequenas mãos, enquanto eles puderam segurar alguma coisa… e… É uma grande dor… perdoa o meu pranto… A chaga dói fortemente, agora que eu tive que queimá-las com razão… sem podê-las mais beijar… porque eram de leprosos. Eu estou sendo injusto, Senhor… Estou te mostrando lágrimas… Mas Tu te compadeces de mim. Eu destruí as últimas lembranças deles… e agora estou como alguém que se perdeu no deserto…
O homem se agacha, chorando junto ao montão de cinzas que é a lembrança do seu passado…
– Não estás perdido, João, nem estás sozinho. Eu estou contigo. Aqueles restos que te faziam lembrar-te dos que tinham ficado desfigurados pela doença, ou bonitos e cheios de saúde, antes daquela ventura. Tudo são lembranças de dores. Deixa-os entre as cinzas do fogo. Destrói-os com a certeza que Eu te dou de que os reencontrarás belos e felizes na alegria do Céu. O passado morreu, João. Não chores mais por ele. A luz não para a fim de ficar olhando as trevas da noite, mas fica alegre por separar-se dela e poder brilhar, à medida que vão subindo para o céu com o Sol de cada manhã. E o sol não fica parado no oriente, mas se ergue, voa para a frente, até chegar ao alto do firmamento. A tua noite terminou. Não fiques mais pensando nela. Sobe para lá com o teu espírito, para onde Eu, que sou a luz, te levo. Pela doce esperança e pela bela fé, lá sim, encontrarás a alegria, porque a tua caridade poderá encontrar-se com Deus e com os teus queridos, que te estão esperando. Não é mais do que uma rápida subida, logo estarás lá no alto com eles. Esta vida é um sopro… A eternidade é um eterno presente.
– Tens razão, Senhor. Tu me confortas e me ensinas como superar esta hora com justiça… 452.3Mas Tu és o sol para estares perto de mim, enquanto te for concedido. Retira-te, Mestre. Já me deste o suficiente. Poderia fazer-te mal este sol, que já está bem forte.
– Eu vim para estar contigo. Todos nós viemos para isso. Sai de onde estás, vem para o lado das árvores, estaremos juntos sem perigo.
O homem obedece, deixando o penhasco, a cujos pés está o montão de cinzas: o passado, e ele vai na direção do lugar para onde Jesus se dirige, onde estão, comovidos os apóstolos, as mulheres, os moradores do povoado e aqueles que vieram da cidade para ouvirem o Mestre.
– Acendei o fogo para cozinhar o peixe. Repartiremos o alimento em um banquete de amor –ordena Jesus.
Enquanto os apóstolos vão cumprindo a ordem, Ele está dando os seus passos por baixo das árvores, nascidas desordenadamente neste lugar evitado por todos, devido à vizinhança do leproso. Um emaranhamento cerrado e selvagem de árvores que nunca conheceram foices nem machados, desde que nasceram. Muitas pessoas sofredoras ou aflitas vivem sob a sombra acolhedora desta mata, vão contando a Jesus suas angústias, e Jesus as cura ou as conforta, cheio de paciência e poder. Lá mais adiante, em um pequeno prado, o menino de Cafarnaum está feliz, brincando com os outros meninos do povoado, e os seus gritos de alegria competem com o canto de muitos passarinhos, que estão nos galhos das árvores viçosas, enquanto as suas vestes multicores, agitadas na corrida sobre a grama verde, os fazem parecer grandes borboletas, que passam de uma para outra flor.
452.4 A comida está pronta. Estão chamando a Jesus. Ele pede um cesto a um camponês, que havia trazido figos e uvas, o enche com pão, com os peixes mais bonitos, com frutas saborosas, pondo junto também o seu odre com água e mel, e se dirige para o ex-leproso.
– Tu ficas sem odre, Mestre –adverte-o Bartolomeu. Ele não vai poder entregá-lo mais.
E Jesus, sorrindo:
– Ainda há muita água para a sede do Filho do homem. Há água colocada pelo pai nos poços profundos. E o Filho do homem ainda tem as mãos livres para fazer com elas uma concha… Dia virá em que não terei mais nem estas nem aquela… e não terei mais nem a água do amor para matar a sede do Sedento… Agora encontro tanto amor ao redor de Mim…
E vai para a frente, levando com as duas mãos o cesto grande, redondo e fundo para colocá-lo sobre a grama, a alguns metros de João, dizendo-lhe:
– Pega e come. É o banquete de Deus.
Depois Ele volta para o seu lugar. Oferece e abençoa o alimento, o faz distribuir aos presentes, que ajuntaram com Ele tudo o que tinham. Todos comem com gosto e com uma pacífica alegria, enquanto Maria se ocupa, cheia de maternal doçura, com Alfeu. Depois, terminada a refeição, Jesus se coloca entre o povo e o ex-leproso, começando a falar, enquanto as mães apanham no colo os seus filhos saciados de alimento e de brinquedos, e os ninam para fazê-los dormir, a fim de que não fiquem perturbando.
452.5 – Ouvi, todos vós. Em um salmo1 de Davi, o Salmista faz esta pergunta: “Quem habitará no Tabernáculo de Deus? Quem repousará no monte de Deus?” E passa a enumerar quem serão os afortunados, e por quais motivos o serão. Diz ele: “Aquele que vive sem mancha e pratica a justiça. Aquele que fala de coração, com verdade, não urde enganos com sua língua, que não causa dano ao próximo, que não aceita palavras infamantes contra o seu semelhante.” E, em poucas linhas, depois de ter dito quem entrará nos domínios de Deus, diz o que é que esses bem-aventurados fazem de bem, depois de já não terem feito o mal. Diz assim: “Aos olhos deles, o malvado é um nada. Eles honram aos que temem a Deus. Aos que, jurando ao seu próximo, não o enganam. Não emprega o seu dinheiro em usura. Não recebe presentes para prejudicar a um inocente.” E termina: “Quem faz estas coisas nunca vacilará.” Em verdade, em verdade Eu vos digo que o Salmista disse a verdade, e confirmo com a minha sabedoria que quem faz estas coisas não vacilará nunca.
452.6 A primeira das condições para entrar no reino dos Céus é “Viver sem mancha.”
Mas, pode o homem, uma criatura fraca, viver sem mancha? A carne, o mundo e Satanás, em um contínuo fervedouro de paixões, de tendências e de ódio, esguicham seus borrifos para manchar os espíritos e, se o Céu fosseaberto somente para aqueles que vivem sem mancha desde o uso da razão em diante, pouquíssimos são os homens que chegam à morte sem terem conhecido doenças mais ou menos graves durante sua existência. E Então? Desse modo, o Céu fica fechado aos filhos de Deus? Estes terão que dizer: “Eu o perdi”, quando um assalto de Satanás ou uma tempestade da carne os fizeram cair, e se veem manchados em suas almas? Não haverá mais perdão para quem tiver pecado? Não haverá nada para cancelar a mancha que deturpa o espírito? Não temais o vosso Deus com um temor injusto. Ele é Pai, e um pai estende sempre uma mão aos filhos vacilantes, oferece ajuda aos que querem levantar-se, conforta-os com meios suaves para que o aviltamente deles não degenere em desespero, mas floresça em uma humildade cheia da vontade de se tornarem diletos do Pai.
Eis. O arrependimento do pecador, boa vontade em querer prestar reparação, são duas coisas nascidas de um verdadeiro amor para com o Senhor, que limpam a mancha da culpa e o tornam digno do perdão divino. Quando Este que vos está falando tiver cumprido a sua missão sobre a terra, às absolvições do amor, do arrependimento e da boa vontade unir-se-á, poderosíssima, a absolvição que o Cristo vos terá obtido, a preço do seu Sacrifício. Mais cândidos em suas almas do que meninos há pouco nascidos, porque para quem crer em Mim, brotarão de seu seio rios de água viva que limpam até a culpa original, que é a causa primeira de toda fraqueza do homem, podereis aspirar ao Céu, ao Reino de Deus e aos seus Tabernáculos. Porque a graça que estou para dar-vos, vos ajudará a praticar a justiça a qual vai aumentando tanto mais, quanto mais for praticada, e esse direito vos dará um espírito sem mancha para entrar no Reino dos Céus. Nele entrarão os pequenos e gozarão, pela felicidade dada gratuitamente, porque o céu é alegria. Mas nele entrarão os adultos, os velhos, aqueles que viveram, que lutaram e venceram, e que, à cândida coroa da Graça unirão a coroa multicor de suas obras santas, de suas vitórias sobre Satanás, sobre o mundo e a carne, e grande, muito grande será a sua felicidade de vencedores, grande a um tal ponto, que o homem nem pode imaginar.
452.7 Como se pratica a justiça? Como se conquista a vitória? Com a honestidade de palavras e de ações, com a caridade para com o próximo. Reconhecendo que Deus é Deus, e não colocando os ídolos das criaturas, do dinheiro, no lugar de Deus Santíssimo. Dando a cada um o lugar que o espera, sem procurar dar mais ou dar menos do que é devido. Aquele que, porque alguém é seu amigo ou parente poderoso, o ama e o serve até nas coisas não boas, não é justo. Aquele, pelo contrário, dá prejuízo ao próximo, porque sobre ele não pode esperar levar vantagem daquela espécie, e jura contra ele, ou se deixa comprar com presentes, para depor contra o inocente, ou para julgar com parcialidade, não segundo a justiça, mas segundo os cálculos do que aquele injusto juízo lhe pode obter de quem é o mais poderoso entre os contendores, não é justo, e vãs são as suas orações, as suas ofertas, porque estão manchadas pela injustiça, aos olhos de Deus.
Vós estais vendo que isto que Eu digo é ainda do Decálogo. Porque o bem, a justiça, a glória está no cumprimento do que o Decálogo ensina e ordena que se faça. Não existe outra doutrina. Outrora ela foi dada por entre os esplendores do Sinai. Agora é dada por entre os fulgores da Misericórdia, mas a Doutrina é aquela. E não muda. Nem pode mudar. Muitos, para se desculparem, dirão em Israel, para justificarem o porquê não são santos, mesmo depois de sua passagem pela terra do Salvador: “Eu não tive nem modo para acompanhá-lo e escutá-lo.” Mas esta desculpa deles não tem valor algum. Porque o Salvador não veio para estabelecer uma Lei nova, mas veio reafirmar a primeira, a única Lei. E até mesmo veio para reafirmá-la em sua santa nudez, na sua simplicidade perfeita. Veio reafirmar com amor e com promessas do amor certo de Deus o que antes havia sido mandado com rigor, por um lado, e ouvido com temor, pelo outro.
452.8 Para fazer-vos compreender bem o que são os dez Mandamentos e qual a importância que há em segui-los, vou contar-vos uma parábola.
Um pai de família tinha dois filhos, igualmente amados, e dos quais ele queria ser, em medida igual, o benfeitor. Esse pai tinha, além da casa onde estavam os filhos, algumas propriedades onde havia grandes tesouros escondidos. Os filhos sabiam desses tesouros, mas não sabiam quais os caminhos para se ir até eles, porque o pai, por motivos que só ele sabia, não tinha revelado aos filhos o caminho para se chegar até lá. Isso foi assim por muitos e muitos anos. Em certo momento, ele chamou os seus dois filhos e lhes disse: “É bom que agora fiqueis sabendo onde estão os tesouros que o vosso pai pôs de lado para vós e, para poderdes chegar até eles, eu agora vo-los direi. Por enquanto, conhecereis bem a estrada, para que vós não percais o caminho certo. Ouvi-me, então. Os tesouros não estão na planície de águas estagnadas, onde o sol é ardente, onde a poeira os encobriria, os espinheiros e os abrolhos os sufocariam, nem onde facilmente os ladrões poderiam chegar para vo-los roubar. Os tesouros estão no alto, bem no alto daquele monte escabroso. Eu os coloquei lá e lá eles estão esperando. Para ir-se ao monte, há um caminho, ou melhor, há vários caminhos. Mas só um deles é bom. Dos outros, uns vão dar em precipícios, outros em outros, obstáculos, outros em cavernas sem saída,outros em fossas cheias de água lamacenta, outros em ninhos de víboras, outros em crateras cheias de enxofre aceso, outros em muralhas intransponíveis. O bom, por sua vez, é cansativo, mas chega ao cume, sem ser interrompido por precipícios nem outros obstáculos. Para que vós o possais reconhecer, eu coloquei ao longo dele, em distâncias regulares, dez monumentos feitos com pedras, tendo gravadas sobre cada um deles três palavras, pelas quais eles podem ser reconhecidos: ‘Amor, obediência, vitória.’ Ide por esse caminho e chegareis ao lugar do tesouro. Eu, porém, por um outro caminho, só por mim conhecido, irei, e vos abrirei as portas, a fim de que sejais felizes.”
452.9 Os dois filhos saudaram ao pai que, enquanto podia ser ouvido por eles, repetia: “Ide pelo caminho de que eu vos falei. É para o vosso bem. Não vos deixeis tentar pelos outros caminhos, ainda que possam parecer-vos melhores. Perderíeis o tesouro e a mim também…”
Ei-los chegados aos pés do monte. O primeiro dos monumentos estava exatamente no começo do caminho, junto ao centro de um círculo de onde partiam diversos caminhos que dali saíam para a conquista do monte, por todos os lados. Os dois irmãos começaram a subida pelo caminho bom. Ele era muito bom nas primeiras horas, pois não tinha nem um fio de sombra. Do alto do céu os raios do sol desciam a pino, inundando o monte de luz e calor. O rochedo esbranquiçado, no qual havia sido escavado o caminho, um céu límpido acima de suas cabeças e um sol ardente ao redor de seus membros, era isso o que os dois irmãos podiam ver e perceber. Animados ainda pela boa vontade, pela lembrança do pai e de suas recomendações, eles ainda iam subindo, alegres para o cume. Chegaram ao segundo monumento… e depois ao terceiro. O caminho era cada vez mais cansativo, solitário e sob um forte calor. Já nem mais se podiam ver os outros caminhos, nos quais havia ervas e árvores, ou águas claras, ou, pelo menos uma subida mais suave, menos a pique, feita sobre a terra, em vez de o ser sobre a rocha.
“Nosso pai quer que cheguemos mortos,” disse um dos filhos, ao chegarem ao quarto monumento.
E começou a dar passos mais vagarosos. O outro procurou animá-lo a continuar a andar, dizendo-lhe:
“Ele nos ama como fôssemos ele mesmo, e mais ainda, porque ele guardou para nós o tesouro de um modo tão maravilhoso. Este caminho feito na rocha e que, sem erro, vem subindo desde lá debaixo até o cume, foi ele que escavou. Estes monumentos, ele os fez para nos guiarmos por eles. Pensa, meu irmão! Ele, sozinho, fez tudo isso por amor! Para dá-lo a nós. Para fazer que nós cheguemos ao tesouro sem possibilidade de erro e sem perigo.”
Eles ainda continuaram a caminhar. Mas os caminhos que eles tinham deixado no vale, de vez em quando, passavam por perto do caminho que fora cavado na rocha, e sempre mais assim o faziam, quanto mais se aproximavam do cume, estreitando-se o caminho em que estavam, quando estavam já perto do ápice do cone. E aqueles caminhos, como eram bonitos, sombreados, convidativos!
“Eu quase que peguei um daqueles,” disse o descontente, ao chegar ao sexto monumento. “Ele, tanto como este, chega também lá em cima.”
“Tu não podes dizer isso. Pois não vês se ele desce ou se sobe…”
“Olha a passagem dele lá em cima!”
“Não se sabe bem se é este. Além disso, o pai disse que não deixássemos o caminho seguro…”
De má vontade, o desanimado prosseguiu. Eis o sétimo monumento: “Oh! Eu vou-me embora mesmo.”
“Não faças isso, meu irmão!”
A parte mais alta do caminho já ia ficando verdadeiramente muito difícil. Mas o cume já estava perto. Eis que o oitavo monumento também já está perto, e está passando rente ao deles o caminho florido.
“Oh! Estás vendo como se não vai em linha reta, mas não vai subindo também este?”
“Não sabes se é este.”
“Sim. Eu o reconheço.”
“Tu estás enganado.”
“Não. Eu vou.”
“Não faças isso. Pensa no pai, nos perigos, no tesouro.”
“Que todos se percam! Que é que eu vou fazer com esse tesouro, se chego lá em cima quase morto? Que perigo pode haver maior do que esta estrada? E que ódio maior do que este do pai, que nos burlou com esta história do caminho, para fazer-nos morrer? Adeus. Eu chegarei antes de ti, e chegarei viv…”
E se jogou no caminho ao lado, desaparecendo com uma exclamação de alegria, atrás dos troncos das árvores que lhe davam sombra.
452.10 O outro prosseguiu com tristeza. Oh! O caminho, em seu último trecho, era realmente horrível! O viandante não aguentava mais. Estava como um embriagado, por causa do cansaço e do sol! Ao chegar ao nono monumento, ele parou, ofegante, apoiou-se na pedra gravada e leu, maquinalmante, as palavras que nela estavam escritas. Ali por perto passava um dos caminhos sombreados, com fontes de água, com flores… “Vou… ou não vou? Mas, não. Ali está escrito, e foi meu pai que o escreveu: ‘Amor, obediência, vitória’. Eu devo crer. Crer em seu amor, em sua verdade, devo obedecer para mostrar-lhe o meu amor… Vamos… Que o amor me sustente!” Ali está o décimo monumento… O viandante, exausto, queimado pelo sol, ia caminhando encurvado, como sob um jugo… Era o amoroso e santo jugo da fidelidade, que é amor, obediência, fortaleza, esperança, justiça, prudência, tudo… Em vez de apoiar-se, jogou-se sentado àquela meia sombra que o monumento formava sobre o chão. Sentia-se morrendo… Do caminho ao lado, vinha o rumor de um regato e um cheiro de bosque… “Pai, meu pai, ajuda-me com o teu espírito, na tentação… ajuda-me a ser fiel até o fim!”
De longe, por entre risadas, ouve-se a voz do irmão: “Vem, eu te espero. Aqui é um éden… vem…”
“E se eu fosse?…,” gritando bem alto: “Por aí se sobe mesmo para o cume?”
“Sim, vem. Há uma galeria fresca que conduz para cima. Vem! Eu já estou vendo o cume, para lá da galeria do rochedo…”
“Vou? Ou não vou?… Quem é que me socorre?… Eu vou…”
Firmou no chão as mãos para levantar-se e, enquanto assim fazia, notou que as palavras gravadas não estavam tão bem esculpidas como as do primeiro monumento. “Em cada monumento as palavras iam ficando cada vez mais apagadas, como se o pai, cansado, já estivesse com menos forças para gravá-las. E… olha! Também aqui aparece aquele sinal vermelho-escuro que já… era visível, desde o quinto monumento. A diferença éque somente aqui é que ele preenche o vazio de cada palavra, e escorreu para fora, regando o rochedo como umas lágrimas escuras, parecendo ser de sangue…”
Raspou com o dedo no lugar onde havia uma grande mancha na largura de duas mãos. E a mancha se esfarinhou, deixando descobertas e frescas estas palavras: “Assim eu vos amei. E derramei o sangue para conduzir-vos até o Tesouro.”
“Oh! Oh! O meu pai! E poderia eu pensar em não cumprir a tua ordem?! Perdão, meu pai! Perdão.”
O filho chorou junto ao rochedo e o sangue que enchia o vazio das palavras, tornou-se fresco de novo, brilhando como um rubi, e as lágrimas foram comida e bebida para o filho bom, e também lhe deram força… Ele se levantou… Por amor chamou o seu irmão em voz alta, bem alta. Queria contar-lhe a sua descoberta… o amor do pai, e dizer-lhe: “Volta!” Mas ninguém lhe respondeu..
O jovem começou de novo a andar, quase de joelhos, sobre a pedra quente, porque ele estava quase exausto em sua carne pelo cansaço, mas seu espírito está tranquilo. Aí está o cume… E ali está o pai.
“Meu pai!”
“Filho querido!”
O jovem abandonou-se sobre o peito paterno, e o pai o acolheu, cobrindo-o de beijos.
“Estás sozinho?”
“Sim. Mas logo chegará o irmão…”
“Não. Ele não chegará mais. Ele deixou o caminho dos dez monumentos. Ele não voltou atrás depois dos primeiros desenganos que o advertiam. Queres vê-lo? Ei-lo-lá. Está no abismo de fogo… Ele ficou obstinado na culpa. Eu o teria ainda perdoado e esperado, se, depois de ter reconhecido seu erro, ele tivesse voltado sobre os seus passos e, ainda que com atraso, tivesse passado por onde o Amor passou primeiro, sofrendo até derramar o seu sangue, a parte mais querida de Si mesmo, por causa de vós.”
“Ele não sabia.”
“Se tivesse olhado com amor as palavras esculpidas nos dez monumentos, teria lido o seu verdadeiro significado. Tu o leste, desde o quinto monumento e o fizeste notar ao outro, dizendo: ‘O pai aqui deve ter-se ferido!’ E o leste no sétimo, no oitavo, no nono… cada vez mais claro, até que tiveste o instinto de descobrir o que é que estava por debaixo do meu sangue. Sabes qual é o nome daquele instinto? ‘A tua verdadeira união comigo.’ As fibras do teu coração, unidas às minhas fibras, estremeceram e te disseram: ‘Aqui terás a medida de quanto te ama o pai.’ Agora entra na posse do Tesouro e de mim mesmo, tu que foste amoroso, obediente e vitorioso para sempre.”
Esta é a parábola.
452.11 Os dez monumentos são os dez mandamentos. O vosso Deus os esculpiu e colocou sobre o caminho que leva ao Tesouro eterno, e sofreu para conduzir-vos àquele caminho. Vós sofreis? Deus também. Vós tendes que forçar-vos a vós mesmos? Deus também. Sabeis até que ponto? Sofrendo por separar-se de Si mesmo e por forçar-se a conhecer o ser homem com todas as misérias que a humanidade leva consigo: a de nascer, de passar frio, fome, cansaço, ser tratado com sarcasmos, afrontas, ódio, ínsidias, e, enfim, a morte, dando todo o seu Sangue, para dar-vos o Tesouro. Isto sofre Deus, que desceu para salvar-vos. Isto sofre Deus no alto do Céu, permitindo a Si mesmo o sofrer.
Em verdade Eu vos digo que nenhum homem por mais cansativo que seja o seu caminho, para chegar ao céu, não irá nunca por um caminho tão cansativo e doloroso como o que o Filho do homem percorre para vir do Céu à terra e da terra ao sacrifício feito para abrir-vos as portas do Tesouro.
Nas tábuas da Lei já está o meu Sangue. No caminho que Eu vos traço está o meu Sangue. A porta do Tesouro se abre por baixo da onda do meu Sangue. A vossa alma se torna cândida e forte, ao banhar-se e ao alimentar-se com o meu Sangue. Mas vós, para que ele não seja derramado em vão, deveis andar pelo caminho imutável dos dez mandamentos.
Agora vamos repousar. Ao pôr de sol, Eu irei para Hipo. João irá para a purificação e vós para vossas casas. A paz do Senhor esteja convosco.
1 um salmo, que é o Salmo 15.
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