249. 249. Maria Santíssima ensina Judas Iscariotessobre o valor proeminente da fidelidade a Deus.
10 de agosto de 1945.
249.1Uma manhã calma e cheia de sol torna mais agradável a marcha por sobre as colinas, que continuam sempre na direção do oeste, isto é, do mar.
– Fizemos bem em chegar aos montes nas primeiras horas da manhã, debaixo de um sol assim. Mas por aqui há sombras e frescor. Tenho pena daqueles que vão pela estrada romana. Ela é boa para o inverno –diz Mateus.
– Depois destas colinas, já teremos o vento do mar. E ele sempre melhora o ar –diz Jesus.
– Vamos comer lá em cima. No outro dia estava tão bonito. E, ainda deve ser mais bonito, porque o Carmelo está mais perto e o mar está mais próximo –acrescenta Tiago de Alfeu.
– É tão bela a nossa pátria! –exclama André.
– Sim. Aqui há de tudo. Montes nevoentos e colinas amenas, lagos, rios, plantas de toda espécie e nem lhe falta o mar. Ela é realmente a terra das delícias, que os nossos salmistas, os nossos profetas, os nossos grandes guerreiros e poetas celebraram –diz Tadeu.
– Dize-nos alguma passagem1, tu que sabes tantas coisas –pede-lhe Tiago de Zebedeu.
– “Com a beleza do Paraíso, Ele formou a terra de Judá.
Com o sorriso de seus anjos, decorou a terra de Neftali e, com os rios de mel do céu, deu sabor aos frutos de sua terra.
Toda a natureza se espelha em ti, ó pedra preciosa de Deus, dada por Ele ao seu povo santo.
Mais doce do que os cachos carregados de uvas que amadurecem nas encostas de teus montes, mais suave do que o leite que enche os úberes de tuas ovelhas, mais inebriante do que o mel, que tem o sabor das flores que te vestem, ó terra feliz, é a tua beleza para o coração de teus filhos.
O céu desceu para tornar-se um rio, que une as duas pedras preciosas, para fazeres com elas um par de brincos, e uma cintura sobre o teu vestido verde.
O teu Jordão canta, e um dos teus mares ri, enquanto o outro nos faz lembrar que Deus é terrível, e as colinas parecem ficar dançando, nas horas da tarde, como alegres meninas em um prado, e os teus montes rezam, nas auroras, com os anjos ou cantam aleluia diante do sol ardente, ou também adoram, junto com as estrelas, o teu poder, Senhor Altíssimo.
Não nos fechaste dentro de limites, mas, diante de nós, deixaste o mar aberto, para dizer-nos que o mundo é nosso.”
– Que bonito, hein? Bonito mesmo! Eu nunca estive mais longe do que no lago e em Jerusalém. Durante anos e anos, não vi mais do que isso. Até agora, conheço só a Palestina. Mas tenho certeza de que nada de mais belo existe no mundo –diz Pedro, cheio de orgulho nacional.
– Maria me dizia que é muito bonito também o vale do Nilo –diz João.
– E o homem de Endor fala de Chipre como de um paraíso –acrescenta Simão.
– É. Mas a nossa terra!…
E os apóstolos, todos, menos Iscariotes e Tomé, que estão em companhia de Jesus, um pouco adiante, continuam, louvando as belezas da Palestina.
Por últimas, vêm as mulheres, que não podem deixar de apanhar sementes de flores para plantá-las em seus jardins, ou porque são bonitas ou porque vão servir de lembrança da viagem que fizeram.
249.2Águias, creio marítimas, e também abutres, fazem longos voos ao redor do cume das colinas, voando baixo, às vezes, à procura de alguma presa. E uma briga começa entre dois deles, que estavam dando suas voltas e os dois já estão perdendo penas, em um elegante e feroz duelo, que termina com a fuga do vencido, o qual talvez saia dali para ir morrer sobre algum pico distante. Pelo menos assim é que acham todos, pois o vôo dele é um vôo de cansado, de moribundo.
– A cobiça lhe fez mal –comenta Tomé.
– A cobiça e a obstinação fazem sempre mal. Também àqueles três de ontem!… Eterna misericórdia! Que triste sorte! –diz Mateus.
– Não ficarão mais sãos? –pergunta André.
– Pergunta ao Mestre.
Jesus, interrogado, responde:
– Melhor seria perguntar se eles se converterão… Porque, em verdade, Eu vos digo que é preferível morrer leproso e santo, a morrer são e pecador. A lepra continua sobre a terra, no sepulcro. Mas o pecado continua para a eternidade.
249.3– A mim agradou muito o teu discurso de ontem à tarde –diz Zelotes.
– Mas a mim, não. Foi muito severo para muitos em Israel –diz Iscariotes.
– Estás tu entre esses muitos?
– Não, Mestre.
– E então? Por que te incomodas com o assunto?
– Porque pode prejudicar-te.
– Deveria Eu, então, para não ser prejudicado, transigir e ficar cúmplice dos pecadores?
– Não digo isto. Isto não podemos fazer. Mas não atrair a inimizado dos grandes…
– Quem cala, consente. Eu não concordo com as culpas. Nem dos pequenos nem dos grandes.
– Mas, viste o que aconteceu com o Batista?
– Foi a sua glória.
– A sua glória? Parece-me que foi a sua ruína.
– Perseguição e morte por fidelidade ao nosso dever são uma glória para o homem. O mártir é sempre glorioso.
– Mas, com a morte, ele impede a si mesmo de ser mestre, causa dor aos seus discípulos e familiares. Sai ele de todo sofrimento, mas deixa os outros em sofrimentos bem maiores. O Batista não tem parentes, é verdade. Mas tem sempre deveres para com os discípulos.
– Mesmo que tivesse parentes, ele faria como fez. A vocação é mais do que o sangue.
– E o quarto mandamento?
– Esse vem depois dos que são dedicados a Deus.
– Uma mãe, tu viste ontem como sofre por um filho…
– Mãe, vem cá.
Maria logo vai a Jesus e lhe pergunta:
– Que queres, meu Filho?
– Minha Mãe, Judas de Keriot está perorando a tua causa, porque ele te ama e me ama.
– A minha causa? Em que ponto?
– Ele quer me persuadir a ter mais prudência, para que Eu não receba o golpe, como nosso parente, o Batista. E ele me diz que Eu preciso ter dó das mães, poupando-me por causa delas, porque assim o quer o quarto mandamento. Que dizes a isso? Eu te passo a palavra, ó Mãe, para que ensines com doçura este nosso Judas.
249.4– Eu digo que não amaria mais o meu Filho como Deus, e que chegaria até a duvidar se não me teria sempre enganado sobre a sua Natureza, se eu o visse faltar à sua perfeição, rebaixando o seu pensamento com considerações humanas, perdendo de vista as considerações sobre-humanas: isto é, o trabalho de redimir, a procura dos homens para redimí-los, por amor deles mesmos e para a glória de Deus, mesmo às custas de suscitar sofrimentos e rancores. Eu o amaria ainda como a um filho transviado por alguma força maligna, mas só por piedade, porque é meu filho, e porque ele iria ser um infeliz, mas já não mais com aquela plenitude de amor com que o amo, agora que eu o vejo fiel ao Senhor.
– A Si mesmo, queres dizer.
– Ao Senhor. Agora Ele é o Messias do Senhor, e deve ser fiel ao Senhor, como todos os outros, e até mais do que os outros, porque Ele tem uma missão maior do que qualquer outra que já tenha havido, que há e que haverá sobre a Terra, e certamente Ele tem de Deus os auxílios proporcionados para tão grande missão.
– Mas, se lhe acontecesse algum mal, não chorarias?
– Choraria todas as minhas lágrimas. Mas choraria lágrimas de sangue, se o visse traindo a Deus.
– Isto diminuirá em muito as culpas dos que o perseguirão.
– Por quê?
– Porque, tanto tu como Ele, estais como que a justificá-las.
– Não fiques pensando assim. As culpas serão sempre iguais aos olhos de Deus, tanto quando nós julgamos que uma coisa é inevitável, como se julgamos que nenhum homem de Israel deveria ser culpado para com o Messias.
– Um homem de Israel? E, se fossem pagãos, não seria a mesma coisa?
– Não. Para os pagãos só haveria a culpa contra um seu semelhante. Mas Israel sabe quem é Jesus.
– Muitos em Israel não o sabem.
– Não o querem saber. São incrédulos de propósito. À falta de caridade eles unem, por isso, a incredulidade e negam a esperança. Pisar nas três virtudes principais não é uma das menores culpas, Judas. É grave, espiritualmente grave, mais do que o ato material para com o meu Filho.
Judas, por falta de argumentos, se abaixa para amarrar uma das sandálias e assim fica para trás.
249.5Chegam ao cume, ou melhor, a uma beira, que está quase no cume, de um dos lados, e que se estende para a frente, como se estivesse querendo sair correndo para o riso azul daquele mar sem fim. Um bosque cerrado de azinheiras tem sob suas copas, uma luz de esmeralda clara, pontilhada por frágeis agulhas de sol, que brilha sobre a crista do monte, tão graciosa, arejada e aberta sobre a praia do mar, já bem perto, em frente da majestosa cordilheira do Carmelo. Lá embaixo, aos pés do monte, que tem aquela beira que se projeta no espaço, como se quisesse voar por sobre pequenas lavouras a meia encosta, lá está um estreito vale, com uma profunda torrente, que certamente há de ser imponente pela violência das águas, nos tempos de enchente, mas que agora está reduzida a um espumar de prata, no centro do leito. A torrente corre para o mar e passa, raspando, pela base do Carmelo. Uma estrada está perto da torrente e sobe pela margem direita, indo fazer ligação de uma cidade colocada no centro da enseada da costa com as cidades do interior, talvez da Samaria, se é que eu estou me orientando bem.
– Aquela cidade é Sicaminon –diz Jesus–. Estaremos lá no fim da tarde. Agora vamos descansar, porque a descida é difícil, ainda que seja fresca e curta.
E, sentados em círculo, enquanto se assa em um rústico espeto um cordeirinho, certamente um presente feito pelos pastores, eles vão conversando uns com os outros e com as mulheres…
1 alguma passagem: os trechos citados não parecem tomados textualmente da sacra Escritura, que todavia reflete o
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