187. 187. Indo a Jerusalém pela Páscoa.De Tariqueia até o monte Tabor.


12 de junho de 1945.

187.1 Jesus se despede das barcas, dizendo: “Não voltarei atrás” e, acompanhado pelos seus, através da região que parecia muito fértil, vista da margem oposta, dirige-se para um monte, que aparece na direção sudoeste.

Os apóstolos vão indo em silêncio, falando um com o outro, somente com os olhos, pouco entusiasmados com o caminho pelo meio dessa região bonita, mas selvagem, cheia de carriços que se agarram aos pés, de caniços que fazem chover sobre as cabeças uma chuvinha do orvalho que ficou retido pelas fendas por entre suas folhas; de caroços de frutas secas, que lhes batem no rosto; de salgueiros frágeis que batem por toda parte nos corpos dos viandantes, fazendo-lhescócegas; de traidoras passagens no terreno, onde há ervas que parecem ter nascido em um solo sólido, mas, ao invés disso, escondem poças d’água nas quais os pés afundam, pois elas não são mais que uns aglomerados de rabos-de-raposa e de outras amarantáceas, nascidas em pequenos charcos e tão cerradas, que escondem o elemento em que nasceram.

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Jesus, do lugar em que está, parece alegrar-se com todo aquele verde de mil tons, com todas aquelas flores, pelas quais eles passam roçando, ou que estão erguidas e se agarram às outras para subir, que soltam delicados festões cobertos de graciosos convólvulos de uma cor rosa-malva tênue ou formam um tapete azul muito bonito para as milhares de corolas de miosótis palustres, que abrem seus cálices perfeitos em corolas brancas, róseas ou azuis, por entre as largas folhas chatas dos nenúfares. Jesus admira os penachos dos caniços do brejo, sedosos e cor de pérola e se inclina alegre para observar a delicadeza dos rabos-de-raposa, que formam um véu de esmeralda sobre as águas. Jesus para, extasiado, diante dos ninhos que os pequenos pássaros constróem, com um ir e vir feliz, acompanhado de trilos, de pulos, de um cansaço contente, dos flocos de lã arrancada às sebes que, por sua vez, as tinham arrancado dos rebanhos, que por ali passaram… Ele parece a pessoa mais feliz que possa haver. Onde está o mundo com as suas maldades, falsidades, dores e insídias? O mundo está do lado de lá deste oásis verde e florido, onde tudo é perfumado, tudo brilha, tudo ri e canta. Aqui está a terra criada pelo Pai e não profanada pelo homem, e aqui pode-se até esquecer o homem.

187.2 Ele quer repartir sua felicidade com os outros. Mas não encontra um terreno propício. Os corações estão cansados e exacerbados, cheios de tanta má vontade que a querem revirar sobre as coisas e até sobre o Mestre, com um mutismo fechado, semelhante àquele ar parado, que precede um temporal. Somente o primo Tiago, o Zelote e João se interessam pelo que interessa a Jesus. Pois os outros não são mais do que… uns ausentes, para não dizer hostis. Talvez, para não murmurar, fazem silêncio entre si. Mas, por dentro, cada um deve estar falando, até demais.

Uma mais viva exclamação de admiração, diante da jóia viva que é um pequeno pombo do mato, que vem voando e trazendo para a companheira um peixinho cor de prata, é justo aquilo que os faz abrir as bocas.

Jesus diz:

– Mas, poderá haver coisa mais gentil?

Pedro responde:

– Talvez mais gentil não… mas eu Te garanto que mais cômoda é a barca. Aqui estamos também na umidade e, em compensação, não temos comodidade…

– Eu preferiria ir pela estrada caravaneira, a ir… por este jardim, se é que Te agrada chamá-lo assim, e estou completamente de acordo com Simão –diz Iscariotes.

– A estrada caravaneira, vós não a quisestes –responde Jesus.

– É certo. Mas eu não teria entregado os pontos aos gerasenos. Eu teria ido embora de lá, mas teria continuado do outro lado do rio, indo por Gadara, por Pela, e por ali abaixo, sempre para baixo –resmunga Bartolomeu.

E o seu grande amigo Filipe termina:

– As estradas, afinal, são de todos, e por elas poderíamos caminhar nós também.

– Amigos, amigos! Eu estou tão aflito, estou tão enojado… Não aumenteis meus sofrimentos com as vossas mesquinharias! Deixai-me procurar um pouco de consolo nas coisas que não sabem odiar…

A censura, doce em sua tristeza, toca os apóstolos.

– Tens razão, Mestre. Nós somos indignos de Ti. Perdoa a nossa estultice. Tu és capaz de ver a beleza, porque és santo e olhas com os olhos do coração. Nós, carniça, sentimos somente esta carniça… Mas, não repares. Podes crer que, ainda que estivéssemos em um paraíso, sem Ti estaríamos tristes. Mas, contigo… oh, é sempre mais belo para o coração. Somente os nossos membros é que se recusam

–murmuram muitos.

187.3 – Daqui a pouco, sairemos daqui e encontraremos um chão mais cômodo, ainda que menos fresco –promete Jesus.

– Aonde iremos, precisamente? –pergunta Pedro.

– Levar a Páscoa aos que sofrem. Há tempo que o queria fazer. Mas não pude. Eu o teria feito, ao voltar da Galileia. Agora, que me obrigam a andar por caminhos não escolhidos por nós, Eu vou abençoar os pobres amigos de Jonas.

– Mas assim vamos perder tempo! A Páscoa já está perto! Sempre nos atrasamos por diversas causas.

E um outro coro de lamentações se levanta até o céu. Não sei como Jesus pode ter tanta paciência… E, sem censurar a ninguém, Ele diz:

– Eu vos peço. Não me crieis obstáculos! Compreendei minha necessidade de amar e de ser amado. Só tenho este conforto na terra: o amor e fazer a vontade de Deus.

– E vamos por aqui? Não seria melhor irmos para Nazaré?

– Se Eu vos tivesse proposto isso, vós vos teríeis revoltado. Ninguém pensará que estou por estes lugares, e faço-o por vós que… tendes medo.

– Medo? Ah! Isso, não. Estamos prontos até a combater por Ti.

– Pedi ao Senhor que não vos faça passar por uma prova. Eu sei que sois rixentos, invejosos, tendes o desejo de ofender a quem Me ofende, de mortificar o próximo. Tudo isso Eu sei. Mas que sejais corajosos, isso não sei. Por Mim, Eu teria caminhado até sozinho e pelos caminhos comuns, e nada me teria acontecido, porque ainda não é a hora. Mas tenho piedade de vós. E tenho obediência para com minha mãe e também isto: não quero causar desgosto ao fariseu Simão. E não lho causarei. Mas eles causarão desgosto a Mim.

– E daqui para onde iremos? Eu não tenho prática nestes lugares

–diz Tomé.

– Chegaremos ao Tabor, iremos ao lado dele por um trecho e, passando perto de Endor, iremos a Naim, e de lá iremos pela planície de Esdrelon. Não tenhais medo!… Doras, o filho de Doras e Jocanã já estão em Jerusalém.

187.4 – Oh! Como deve ser bonito! Dizem que do cume, do ponto mais alto, se pode avistar o Grande Mar, o de Roma. Isso me agrada muito! Vais levar-nos a vê-lo?

João faz a pergunta, com o seu rosto de menino bom levantado para Jesus.

– Por que é que te agrada tanto vê-lo? –pergunta Jesus, acariciando-o.

– Não sei. Porque é grande, e não se vê o seu fim… Ele me faz pensar em Deus… Quando estivemos no Líbano, eu vi o mar pela primeira vez, porque nunca tinha estado a não ser ao longo do Jordão ou então em nosso pequeno mar… e chorei de emoção. Que azul! Quanta água! E sua água não extravasa nunca!… Que coisa maravilhosa! E os astros, que fazem caminhos de luz sobre o mar… Oh! Não riais de mim! Fiquei olhando o caminho de ouro do Sol até ficar ofuscado, o caminho de prata da Lua até não ter mais nos olhos senão aquele candor fixo, e via como eles se iam dissipando e sumindo ao longe, muito longe. E aqueles dois caminhos falavam comigo. Eles me diziam: “É Deus que está naquelas lonjuras sem fim, e estes são os caminhos de fogo e de pureza que uma alma deve seguir, a fim de ir para Deus. Vem. Mergulha no infinito, remando por estes dois caminhos e encontrarás o Infinito.”

– És um poeta, João –diz admirado Tadeu.

– Não sei se isto é poesia. Só sei que acende o coração.

– Mas tu já viste o mar também em Cesareia e Ptolomaida, e bem de perto. Nós estávamos à beira dele. Não vejo necessidade de fazer uma viagem tão grande para ir ver outra água do mar. Afinal, nós nascemos na água… –observa Tiago de Zebedeu.

– E nela estamos ainda agora, infelizmente! –exclama Pedro que, tendo-se distraído por uns instantes, para ficar ouvindo João, não viu uma poça traiçoeira, e nela tomou um verdadeiro banho…

Todos se riem, a começar pelo próprio Pedro.

Mas João responde:

– É verdade. Mas, visto lá de cima, ele é mais belo. Podemos ver mais e mais longe. Ficamos pensando com mais profundidade e amplitude… Ficamos desejando, sonhando…

E, em verdade, João já está sonhando… Olha para a frente e sorri ao seu sonho. Parece uma rosa cor de carne, coberta por um orvalho miudinho, a tal ponto sua pele lisa e clara de jovem louro se torna da cor de um veludo purpurino e se cobre de um leve suor, que a torna ainda mais parecida com uma pétala de rosa.

– Que queres? Com que estás sonhando? –pergunta Jesus, em voz baixa, ao seu predileto, e parece um pai que interroga docemente um querido filhinho, que lhe está contando um doce sonho seu. Fala exatamente à alma de João, Jesus, tão doce no interrogar, para não estragar o sonho do seu amoroso discípulo.

– Eu quero andar por aquele mar infinito… ir a outras terras que estão para lá dele… Eu quero ir para falar de Ti… Estou sonhando… sonhando em ir até Roma, até a Grécia, até os lugares escuros, para levar-lhes a luz… de modo que os que vivem nas trevas, venham a ter contato contigo e vivam em comunhão contigo, ó Luz do mundo… Sonho um mundo melhor… para fazê-lo melhor por meio do conhecimento de Ti, isto é, por meio do conhecimento do Amor, que torne bons, puros, que torne heróico um mundo que se possa amar em teu Nome e — acima do pecado, da carne, do vício da mente, acima do ouro, acima de todas as coisas, — exalte o teu Nome, a tua Fé, a tua Doutrina… sonho de estar eu com estes meus irmãos, indo pelo mar de Deus, Te levando por estradas de luz… como, há tempo, Tua mãe te trouxe dos Céus para nós… Sonho… sonho que sou um menino que, não conhecendo nada mais que o amor, permanece sereno, até quando vai de encontro aos tormentos… e canta para dar coragem aos adultos, que ficam pensando demais, e vai adiante… ao encontro da morte, com um sorriso… ao encontro da glória, com a humildade de quem não sabe bem o que está fazendo e que só sabe ir até Ti, Amor.

Os apóstolos ficaram com a respiração parada, durante a extática confissão de João… Firmes no lugar em que estavam, olham para o mais jovem, que está falando com os olhos velados pelas pálpebras, como por um véu lançado sobre o ardor que sobe do coração e olham para Jesus, que se transfigura na alegria de reencontrar-se tão completo no seu discípulo…

Quando João se cala, ficando um pouco inclinado, — e faz-nos lembrar a graça da Anunciação da Humilde Virgem em Nazaré — Jesus o beija na fronte, dizendo:

– Iremos ver o mar, para fazer-te sonhar ainda com a vinda do meu Reino ao mundo.

187.5 – Senhor… depois disseste que vamos para Endor. Contenta, então, também a mim… para que passe a minha amargura pelo julgamento daquele menino… –diz Iscariotes.

– Oh! Ainda pensas naquilo? –pergunta Jesus.

– Sempre. Eu me senti diminuído aos teus olhos e aos dos companheiros. Fico pensando em que estareis pensando…

– Como esquentas a cabeça por nada! Eu nem me lembrava mais daquela inépcia, e certamente os outros também não. E tu no-lo vens recordar. És um menino acostumado às caricias e a palavra duma criança pareceu a teus olhos a condenação dum juiz. Mas não é esta a palavra que deves temer, e sim as tuas ações e o juízo de Deus. Mas, a fim de persuadir-te que continuas a ser-me caro como antes e como sempre, Eu te digo que te irei contentar. Que queres ir ver em Endor? É um pobre lugar colocado entre penhascos…

– Leva-me até lá, e eu te direi.

– Está bem. Mas toma cuidado, para não sofreres depois por isso…

– Se para este não pode ser um sofrimento ir ver o mar, a mim não pode fazer mal ir ver Endor.

– Ver?… Não. Mas é o desejo daquilo que se procura ver, ao ver, é que pode fazer mal. Mas iremos lá…

E retomam a estrada, dirigindo-se para o Tabor, cujo vulto já vai aparecendo cada vez mais perto, enquanto o seu solo se vai despojando daquela sua aparência palustre e se tornando sólido e de vegetação mais rara, deixando lugar para outras árvores mais altas, ou moitas de clematites e de cardos, que estão rindo com suas folhas novas e suas flores precoces.