88. 88. Na planície de Esdrelon. O amor de Joãoe os poucos como ele. Visita ao pastor Jonas.


26 de janeiro de 1945.

88.1 Por uma pequena vereda entre campos abrasados, cheios de restolhos e grilos, Jesus caminha, tendo ao lado, Levi e João. Atrás, em grupo, estão: José, Judas e Simão.

É noite. Mas não há refrigério. A terra é um fogo que continua a queimar, mesmo depois do incêndio do dia. O orvalho nada pode contra este abrasamento. Acho que tudo seca, antes mesmo de tocar o chão, tão grande é o ardor que sai dos sulcos e das fendas do solo.

Todos se calam, cansados e acalorados. Mas vejo Jesus sorrir. A noite é clara, ainda que a lua minguante esteja apenas começando a aparecer lá no extremo oriente.

– Achas que ele estará aqui? –pergunta Jesus a Levi.

– Estará com certeza. A este ponto, já está feita a colheita dos cereais, embora nem se começou ainda a colheita das frutas. Por isso, os camponeses estão ocupados em vigiar os vinhedos e pomares, evitando predadores, e não se afastam, especialmente quando os patrões são exigentes, como é o de Jonas. Samaria fica perto daqui e, quando aqueles renegados podem, nos prejudicam com gosto, a nós de Israel. Não sabem que os servos depois vão ser espancados? Sim, que o sabem. Mas nos odeiam, esta é a verdade.

– Não tenhas ódio, Levi –diz Jesus.

– Não tenho. Mas verás como, por culpa deles, Jonas foi ferido, há cinco anos. Desde então, ele passa as noites de guarda. Porque o flagelo é um suplício cruel…

– Falta ainda muito para chegarmos?

– Não, Mestre. Estás vendo lá onde termina esta pobre terra, naquele montão escuro? Lá estão os pomares de Doras, o duro fariseu. Se me deixas, vou na frente para fazer que Jonas me ouça.

– Vai.

88.2 – Mas, os fariseus são todos assim, meu Senhor? –pergunta João–. Oh! Eu não queria estar a serviço deles! Prefiro o meu barco.

– O barco, é o teu tudo? –pergunta Jesus, semi-sério.

– Não, és Tu! O barco era meu tudo, quando eu não sabia que existia o Amor sobre a terra –responde prontamente João.

Jesus ri da sua veemência.

– Não sabias que sobre a terra existia o amor? E, então, como nasceste, se teu pai não amou a tua mãe? –pergunta Jesus, como por brincadeira.

– Aquele amor é bonito, mas não me seduz. Tu és o meu amor. Tu és o Amor na terra para o pobre João.

Jesus o aperta contra si, e diz:

– Eu queria ouvir-te dizer isso. O Amor é ávido de amor, e o homem à sua avidez dá e dará sempre gotas imperceptíveis como aquelas que caem do céu. São tão fracas, que se consomem no ar, nas chamas do verão. Também as gotas de amor dos homens se consumirão no ar, mortas pelas chamas de muitas coisas. O coração as espremerá ainda, mas os interesses, os amores, os negócios, a avidez, tantas coisas humanas, as queimarão. E o que então subirá a Jesus? Oh! Muito pouca coisa! Os restos, os sobreviventes as palpitações humanas, as interesseiras palpitações somente para pedir, quando urge a necessidade. Amar-me mesmo, só por amor, será coisa de poucos: dos Joãos… Olha uma espiga que tornou a nascer. Talvez tenha sido uma semente que caiu na hora da ceifa. Soube nascer, resistir ao sol, à seca, levantar-se, crescer, produzir espiga… Olha, já está formada. Nestes campos despojados somente ela está viva. Daqui a pouco, os grãos maduros cairão no chão, rompendo a casca lisa que os conserva presos ao caule, e serão caridade para os passarinhos, ou então, produzindo cem por um, renascerão ainda e, antes que o inverno traga de volta o arado à lavoura, estarão de novo maduros e matarão a fome de muitos pássaros, que já estarão sofrendo a fome das mais tristes estações… Vê, meu João, quanto pode fazer uma semente corajosa! Assim serão os poucos que me amarão por amor. Um só matará a fome de muitos. Um só tornará bonito o lugar onde está, onde antes reinava a feiura do nada. Um só dará vida ao lugar onde antes havia morte, atraindo os famintos. Comerão do grão produzido pelo trabalho do seu amor, e depois, egoístas e distraídos, voarão para longe. Mas, ainda que eles não o saibam, aquele grão vai criar germes vitais no sangue deles e em seu espírito… e voltarão… Hoje, amanhã e depois também, como dizia Isaque, aumentar-se-á nos corações o conhecimento do Amor. O caule, despojado, não será mais nada. Um fio de palha queimada. Mas, quanto bem advirá do seu sacrifício! E, pelo seu sacrifício, quanta recompensa!

Jesus havia parado um instante, diante de uma fina espiga nascida à beira do caminho, num pequeno rego que, em tempos de chuva, talvez fôsse um riacho. Depois prosseguiu, sendo sempre ouvido por João em sua costumeira pose de namorado, que bebe não só as palavras, mas os gestos do amado.

Os outros, que falam entre si, nem percebem aquele doce colóquio. Acabam de chegar ao pomar, e param, reunindo-se todos. O calor é tal, que eles suam, não obstante estejam sem os mantos. Calam-se e ficam esperando.

88.3 Da densa escuridão, que a lua agora começa a iluminar, surge o vulto claro de Levi e, atrás, um outro mais escuro:

– Mestre, aqui está Jonas.

– A minha paz esteja contigo! –saúda Jesus, antes mesmo que Jonas o alcance.

Mas Jonas não responde. Corre e se lança chorando aos seus pés e os beija. Quando pode falar, diz:

– Quanta espera por Ti! Quanta! Quanto desgosto sentir a vida passar, a morte chegar, e ter que dizer: “Eu não o vi!” Contudo, nem toda a esperança estava morrendo. Nem mesmo quando estive para morrer. “Ela tinha dito: ‘Vós ainda o servireis’, e Ela não pode ter dito uma coisa que não seja verdade. É a Mãe do Emanuel. Por isso ninguém mais do que Ela tem Deus consigo, sabe o que é de Deus.”

– Levanta-te. Ela te manda saudações. Moraste perto dela e agora estás também morando perto. Nazaré a hospeda.

– Tu! Ela! Em Nazaré? Oh! Se eu o tivesse sabido! De noite, nos frios meses gelados, quando dorme o campo e os malvados não podem prejudicar os cultivadores, eu teria ido, correndo, beijar vossos pés, e teria voltado de lá com o tesouro de uma certeza. Por que não te manifestaste, Senhor?

– Porque não era hora ainda. Agora, a hora chegou. É preciso saber esperar. Tu disseste: “Nos meses gelados, quando o campo dorme.” No entanto já está semeado, não é verdade? Pois bem, Eu também era como o grão já semeado. E tu me havias visto no ato da semeadura. Depois, Eu desapareci. Sepultado debaixo de um necessário silêncio. Para crescer e chegar ao tempo da seara, brilhando aos olhos de quem me tinha visto Recém-Nascido, e aos olhos do mundo. Este tempo chegou. Agora o Recém-Nascido está pronto para ser o Pão do mundo. E, em primeiro lugar, procuro os meus fiéis, dizendo-lhes: “Vinde. Alimentai-vos de Mim.”

O homem o escuta, sorrindo feliz, e continua a dizer, como se estivesse falando consigo mesmo:

– Oh! Estás mesmo aí! Estás mesmo aí!

– Estivestes para morrer? Quando?

– Quando eu fui fustigado até quase morrer, porque me tinham saqueado duas vinhas. Olha quantas feridas! Abaixa a veste e mostra as costas marcadas por cicatrizes irregulares. Ele me bateu com um açoite de ferro. Contou os cachos apanhados — via-se onde o pedúnculo tinha sido arrancado — e me deu uma vergastada por cada cacho. E depois, deixou-me lá, semimorto. Maria me socorreu, a jovem esposa de um meu companheiro, que sempre me quis bem. Seu pai era o feitor antes de mim, e eu, quando vim para aqui, me afeiçoei à menina, porque se chamava Maria. Cuidou de mim, e me curei, depois de dois meses, pois, com o calor, as feridas haviam se agravado, e me causavam febre alta. Eu disse ao Deus de Israel: “Não importa. Faz que eu reveja o teu Messias. Não me importa este mal. Aceita-o como um sacrifício. Não posso mais oferecer-te outros sacrifícios. Sou servo de um homem cruel e Tu o sabes. Nem mesmo na Páscoa ele me permite ir ao teu altar. Toma-me como hóstia, mas em troca dá-me Ele!”

– E o Altíssimo te fez contente. 88.4Jonas, queres servir-me, como os teus companheiros já fazem?

– Oh! Como farei?

– Como eles fazem. Levi sabe, e te dirá quanto é simples servir-Me. Quero só a tua boa vontade.

– A boa vontade te dei, desde os teus primeiros balbucios. Por ela, tudo superei, tanto os desânimos, como os ódios. Aqui não se pode falar muito… O patrão uma vez me chutou, porque eu insistia que Tu já estavas aqui. Mas, quando ele estava longe, eu contava o prodígio daquela noite às pessoas que podia confiar.

Agora contarás então o prodígio deste meu encontro. Encontrei-vos quase todos, e todos fiéis. Não é isto um prodígio? Só por me terdes contemplado com fé e amor, vos tornastes justos aos olhos de Deus e dos homens.

– Oh! Agora terei coragem! Muita coragem! Agora eu sei que estás aqui e posso dizer: “Ele está lá. Ide a Ele!…” Mas onde, meu Senhor?

– Por todo Israel. Até setembro, estarei na Galileia. Nazaré e Cafarnaum me terão frequentemente e lá poderás encontrar-me. Depois… estarei por toda parte. Eu vim para reunir as ovelhas de Israel.

– Oh! Meu Senhor! Encontrarás muitos bodes. Desconfia dos grandes de Israel!

– Não me farão nada de mal, enquanto não chegar a hora. E tu, aos mortos, aos que estão dormindo, e aos vivos, irás dizer: “O Messias está entre nós.”

– Aos mortos, Senhor?

– Aos mortos da alma. Os outros, os justos mortos no Senhor já vibram de alegria por causa de sua próxima libertação do limbo. Diz aos mortos: “Eu sou a Vida.” Diz aos que estão dormindo: “Eu sou o Sol que surge, para fazê-los despertar do sono.” Diz aos vivos: “Eu sou a Verdade que eles procuram.”

– E curas também os doentes? Levi falou-me de Isaque. Foi só para ele que fizeste um milagre, por ser um dos teus pastores, ou fazes para todos?

– Para os bons, o milagre é como um justo prêmio. Para os menos bons, é para impeli-los à verdadeira bondade. Para os maus também, às vezes para sacudi-los e persuadi-los de que Eu sou, e que Deus está Comigo. O milagre é um dom. E o dom é para os bons. Mas Aquele que é Misericórdia, e vê como a natureza humana arca sob uma pesada carga, sem poder ser removida, a não ser por algum acontecimento poderoso, recorre também a isso, para dizer: “Tudo eu fiz convosco, e nada valeu. Dizei portanto, vós mesmos, que Eu vos devo fazer ainda.”

88.5 – Senhor, não te aborrece entrar em minha casa? Se me garantes que nenhum ladrão entrará nas propriedades, eu queria hospedar-te, e chamar os poucos que te conhecem pela minha palavra para encontrar-Te. O patrão nos tem torcido e moído, como caules desprezíveis. Nós temos somente a esperança de um prêmio eterno. Mas, se Tu te manifestas aos corações humilhados, eles terão em si uma outra força.

– Eu vou. Não te preocupes com as plantas e os vinhedos. Serás capaz de crer que os anjos farão uma guarda fiel?

– Oh! Senhor! Já pude ver os teus servos celestes. Creio. E vou Contigo cheio de segurança. Benditas estas plantas e estas vinhas que sentirem o vento e a canção de asas e vozes angélicas! Bendito este chão que santificas com o teu pé! Vem, Senhor Jesus! Ouvi, ó plantas e videiras! Ouvi, ó glebas! Aquele Nome que a vós confiei para a minha paz, eu o digo a Ele. Jesus está aqui. Ouvi, e pelos ramos e sarmentos suba exultante a seiva. O Messias está conosco.

Tudo termina com estas alegres palavras.