516. 516. Em Gabaon, milagre do mudinhoe elogio da Sabedoria como amor a Deus.
22 de outubro de 1946.
516.1Na primavera, no verão e no outono, Gabaon, situada sobre o alto de uma amena colina de pouca altura, isolada no meio de uma planície muito fértil, parece ser uma cidade muito aprazível, muito arejada e com um panorama muito bonito. Suas casas brancas quase que se escondem por entre o verde das árvores de folhagem perene e outras de todas as espécies, misturadas também com outras árvores que foram desnudadas pela estação, mas que, ao chegar a estação boa, deverão transformar a colina em uma nuvem de pétalas leves e, mais tarde, numa exposição de frutas. Agora, no rigor do inverno, mostra suas vertentes cobertas com os renques das videiras, após a colheita das azeitonas acinzentadas, ou então malhadas, pelos pomares, de onde foram tirados os troncos escuros. Mas, assim mesmo está bonita e arejada, e os olhares podem repousar sobre a encosta da colina e sobre a planície, que foi arada.
Jesus se dirige para uma grande cisterna, ou poço, que me faz lembrar um pouco daquele da Samaritana, ou também daquele de En Rogel e, mais ainda, dos reservatórios de perto de Hebron. Lá estão muitas pessoas. São pessoas que se apressam em apanhar bastante água para o sábado que já está quase chegando, pessoas que trabalham depressa, para terminarem seus últimos afazeres, e outras que, tendo terminado todos os seus trabalhos, já se entregam ao repouso do sábado. No meio dessas pessoas estão os oito apóstolos, que anunciam a presença do Mestre, e que já estão conseguindo resultados, pois estou vendo como vão transportando doentes, como vão reunindo os mendigos e como algumas pessoas estão vindo das casas.
Quando Jesus põe o pé no espaço onde se acha o tanque, ouve-se um murmúrio, que se transforma num só grito:
– Hosana! Hosana! Está entre nós o Filho de Davi! Bendita a Sabedoria que vem onde foi invocada!
– Benditos sejais vós, que a sabeis acolher. Paz! Paz e bênção.
E logo se dirige para os doentes e os aleijados, tanto os acidentados, como os que o são por doença, para os cegos de sempre e para os que estão a caminho da cegueira. E os cura.
515.2Bonito foi o milagre de um mudinho, que a mãe lhe apresentou e que Jesus cura com um beijo na boca, e que usa a palavra, que lhe foi dada pela Palavra, para gritar os dois nomes para ele mais belos:
– Jesus! Mamãe!
E, dos braços da mãe que o estava segurando levantado acima do povo, ele se joga entre os braços de Jesus, agarrando-se ao pescoço dele, até que Jesus o entregou à mãe feliz, que está explicando a Jesus como este seu primogênito, destinado pelo coração dos pais a ser um levita desde logo que nascesse, poderá sê-lo agora, pois já está sem defeitos:
– Não foi para mim que eu o tinha pedido ao Senhor, junto com o meu esposo Joaquim, mas para que servisse ao Senhor. E não para que me chamasse de mãe e dissesse que me ama é que eu pedi para ele a palavra. Os olhos dele e os seus beijos já me diziam isso. Mas eu o pedia para que ele pudesse, como um cordeirinho sem defeito, ser todo oferecido ao Senhor, para louvar o seu Nome.
E Jesus lhe responde:
– O Senhor ouvia a palavra de sua alma, porque Ele, como uma mãe, transforma os sentimentos em palavras e atos. Mas foi bom o teu desejo e o Altíssimo o acolheu. Agora trata de educar o teu filho para o louvor perfeito, para que seja perfeito no seu serviço ao Senhor.
– Sim, Rabi. Mas, dize-me o que devo fazer.
– Faze que ele ame ao Senhor Deus com todo o seu ser, e espontaneamente florescerá em seu coração o louvor perfeito, e perfeito ele será no serviço de seu Deus.
– Disseste bem, Rabi. A Sabedoria está em teus lábios. Fala, eu te peço, a todos nós –diz um ilustre gabaonita, que abriu caminho até Jesus e o convida depois a ir à sinagoga. Deve ser o sinagogo.
516.3Jesus para lá se dirige, acompanhado por toda a cidade, mais aqueles que já estavam com Jesus, e Jesus aceita o conselho do sinagogo, indo falar do terraço da casa do sinagogo, que é contígua à sinagoga. É uma casa larga e baixa, ornada dos dois lados pelo verde firme de um canteiro de jasmins. E a voz de Jesus, forte e harmoniosa, expande-se pelo ar calmo da tarde, que já vem descendo, e se propaga pela praça e pelas três ruas, que nela desembocam, enquanto um pequeno mar de cabeças está com os rostos erguidos, a escutar.
– A mulher de vossa cidade, que desejou a palavra para o seu filhinho, não pelo desejo de ouvir dos lábios dele doces palavras, mas para que ele ficasse hábil para o serviço de Deus, fez-me lembrar de uma outra palavra saída dos lábios de um grande homem desta mesma cidade. A ela, como também àquela outra mulher de vossa cidade, Deus atendeu, porque nas duas Ele viu um pedido de justiça, pois uma justiça deveria estar em todas as orações, para que possam encontrar acolhida e graça da parte de Deus. Que é necessário durante esta vida, a fim de obter depois o prêmio eterno, a verdadeira vida sem fim em uma felicidade sem fim? É preciso amar o Senhor com todo o nosso ser e ao próximo como a nós mesmos. E esta é a coisa mais necessária para ter a Deus como amigo e obter dele graças e bênçãos. Quando Salomão1 se tornou rei, depois da morte de Davi, tomou posse, de fato, do reino, subiu até esta cidade, onde ofereceu um grande sacrifício de vítimas. E, naquela noite, apareceu-lhe o Altíssimo, dizendo-lhe: “Pede o que quiseres de Mim.” Foi uma grande benignidade da parte de Deus. E uma grande prova da parte do homem. Porque a cada dom corresponde uma grande responsabilidade da parte de quem o receba, responsabilidade tanto maior, quanto maior for o dom. E esta é uma prova do grau de formação atingido pelo espírito. Se um espírito beneficiado por Deus, em vez de aperfeiçoar-se, desce para o materialismo, esse fica reprovado na prova, pois mostra com isso a sua falta de formação ou uma sua formação incompleta. Duas são as coisas que servem como índice do valor espiritual do homem: como se comporta na alegria ou como se comporta na dor. Somente quem é formado na justiça sabe ser humilde na glória, fiel na alegria, reconhecedor e constante até depois de ter obtido, mesmo quando não deseja mais nada. E sabe ser paciente e ficar amante do seu Deus, enquanto os sofrimentos vão-se intensificando, somente quem é realmente santo.
516.4– Mestre, posso fazer uma pergunta? –diz o gabaonita.
– Fala.
– Tudo o que estás dizendo é verdade. E, se eu entendi bem, Tu queres dizer que Salomão superou com êxito a prova. Mas depois ele pecou2. Agora, dize-me: por que Deus lhe fez tantos benefícios se depois ele ia pecar? Certamente o Senhor sabia do futuro pecado do rei. E, então, por que foi que lhe disse: “Pede-me o que quiseres?” Foi um bem ou um mal?
– Sempre um bem, pois Deus não faz ações más.
– Mas Tu disseste que a cada dom corresponde uma responsabilidade. Ora, tendo Salomão pedido e obtido a Sabedoria…
– Ele tinha a responsabilidade de ser sábio, e não o foi, queres tu dizer. É verdade. E Eu te digo que certamente essa sua falta quanto à sabedoria foi punida e com justiça. Mas o ato de Deus de conceder-lhe a sabedoria pedida foi bom. E bom foi o ato de Salomão ao pedir a Sabedoria e não outras coisas materiais. E, visto que Deus é Pai e é Justiça, no momento do erro, grande parte do erro Ele perdoou, tendo presente que o pecador, algum tempo antes tinha amado a Sabedoria mais do que qualquer outra coisa e criatura. Um ato terá diminuído o outro ato. A ação boa, feita antes do pecado, fica e vale para o perdão, mas quando o pecador, depois do pecado, se arrepende.
Por isso Eu vos digo que não deixeis passar a ocasião de fazer ações boas para que sirvam como moedas para descontar vossos pecados, quando, pela graça de Deus, vos arrependerdes deles. As ações boas, mesmo parecendo coisas passadas, e por isso se poderia erroneamente pensar que eles não vos estimulem mais, nem criem novos incentivos e novas forças para fazer coisas boas, são sempre ativas, se não fosse por outro motivo, pela recordação que se levanta no fundo de uma alma envilecida, e faz surgir lá uma saudade do tempo em que éramos bons. E essa saudade é muitas vezes o primeiro passo no caminho de volta para a Justiça. Eu disse que3 até um copo d’água, dado com amor a um sedento, não fica sem recompensa. Um gole d’água nada é, como valor material, mas a caridade o torna grande. E não fica sem recompensa. Às vezes a recompensa pode ser uma volta ao Bem, o que se realiza com a lembrança daquele ato, da palavra dos irmãos sedentos, dos sentimentos do coração naquela ocasião, do coração que oferecia água em nome de Deus, e por amor. E eis que Deus, por uma série de recordações, volta, como um sol que ressurge depois de uma noite escura, a brilhar sobre o horizonte de um pobre coração que o havia perdido e que, encantado por sua inefável Presença, se humilha e grita: “Pai, eu pequei! Perdoa. Eu te amo de novo.”
516.5O amor a Deus é Sabedoria. É a Sabedoria das Sabedorias, porque quem ama tudo conhece e tudo possui. Aqui, enquanto a tarde vai caindo, e o vento da tarde faz com que se arrepiem os corpos dentro das vestes, e que fiquem oscilando as chamas dos fachos que acendestes, Eu não vou ficar a dizer-vos o que já sabeis: os pontos do livro Sapiencial, onde está escrito como foi que Salomão obteve a Sabedoria, e a oração4 que ele fez para obtê-la. Mas para vos lembrardes de Mim para terdes um caminho seguro, uma luz que vos guie, Eu vos exorto a meditar, com o vosso sinagogo, aquelas páginas. O Livro da Sabedoria deveria ser um código de vida espiritual. Como uma mão materna, ele deveria guiar-vos e introduzir-vos no perfeito conhecimento da virtude e da minha doutrina. Porque a Sabedoria me prepara os caminhos e faz dos homens, “de vida curta e incapazes de entender os juízos e as leis, servos e filhos de servos de Deus”, os deuses do Paraíso de Deus.
Procurai antes de tudo Sabedoria para honrar ao Senhor e ouvir ser-vos dito por Ele no Dia Eterno: “Já que tivestes sobretudo este desejo, e não o de riquezas, bens, glória, longa vida, nem o triunfo sobre os inimigos, seja-vos concedida a Sabedoria”, isto é, o próprio Deus, pois o Espírito de Sabedoria é o Espírito de Deus. Procurai primeiro a Sabedoria santa e, Eu vo-lo digo, todas as outras coisas vos serão dadas, e de tal modo que nenhum dos grandes do mundo pode alcançá-las. Amai a Deus. Consagrai-vos ao serviço de Deus e ao seu triunfo nos corações. Convertei para o Senhor os que não são amigos de Deus. Sede santos. Acumulai as obras santas em vossa defesa contra as possíveis fraquezas da criatura. Sede fiéis ao Senhor. Não critiqueis nem os vivos nem os mortos. Mas esforçais-vos para imitar os bons. E não para vossa alegria terrena mas para alegria de Deus, pedi ao Senhor as graças e vos serão dadas.
Vamos. Amanhã rezaremos juntos e Deus estará conosco.
E Jesus os abençoa, despedindo-se deles.
1 Quando Salomão..., como se narra em 2 Crônicas 1,3-12; 1 Reis 3,4-15.
2 depois ele pecou, como se narra em 1 Reis 11,1-13.
3 disse, em 265.13.
4 oração, que está em Sabedoria 9.
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