100. 100. Em Nazaré na casa do velho e doente Alfeu.Não é fácil a vida de apóstolo.


7 de fevereiro de 1945. São Romualdo1.

100.1 Jesus está com os seus pelas belas colinas da Galileia. Para fugir do sol, ainda alto, prestes a pôr-se, eles caminham sob as árvores que, em sua maioria, oliveiras.

– Além daquela margem está Nazaré –diz Jesus–. Daqui a pouco estaremos lá. Agora Eu vos digo, que ao limite da cidade nos separaremos. Judas e Tiago irão logo à casa do pai deles, como os seus corações desejam. Pedro e João irão distribuir o óbolo aos pobres, que certamente estarão junto à fonte. Eu e os outros iremos para casa cear, e depois pensaremos em descanso.

– Nós voltaremos ao bom Alfeu. Da outra vez prometemos isso a ele. Mas eu irei só para saudá-lo. Cedo minha cama ao Mateus, que ainda não está acostumado a incômodos –diz Filipe.

– Não. Tu não, que és idoso. Não o permito. Eu tive cama cômoda até agora, mas, que sonos infernais eu dormia! Podes crer, agora estou tão em paz, que me parece estar dormindo entre as plumas mesmo se me deito sobre pedras. Oh! é a consciência o que faz dormir ou não –responde Mateus.

Suscita-se uma disputa de caridade para com Mateus entre os discípulos Tomé, Filipe e Bartolomeu, que, pode-se compreender, são os que da outra vez estavam na casa deste Alfeu (que certamente não é o pai de Tiago, porque este fala com André e diz: “Um lugar para ti haverá sempre, como da outra vez, mesmo se o pai tiver piorado”).

Vence Tomé:

– Eu sou o mais novo do grupo. Eu é que vou ceder a cama. Mateus, deixa-me fazer. Um pouco por vez te acostumarás. Pensas que é pesado para mim? Não. Eu sou como um enamorado que pensa: “… estarei numa cama dura, mas estou perto do meu amor.”

Tomé, homem dos seus trinta e oito anos, ri jovial, e Mateus cede.

Nazaré já está a poucos metros, com as suas primeiras casas.

– Jesus… nós vamos –diz Judas.

– Ide, ide.

Os dois irmãos vão quase correndo.

– É, pai é pai –murmura Pedro–. Mesmo quando ele nos trata com mau humor é sempre nosso sangue, e o sangue puxa mais do que uma corda. Além disso… Agradam-me os teus primos. Eles são muito bons.

– São muito bons, sim. E são humildes, a ponto de não se examinarem, tampouco para medirem quanto o são. Pensam sempre que são faltosos, porque o espírito deles vê o bem em todos, menos neles. Eles irão longe….

100.2 Já estão em Nazaré. Algumas mulheres veem Jesus e o saúdam, também homens e crianças o fazem. Mas aqui não há as aclamações dos outros lugares ao Messias: aqui são amigos que saúdam o Amigo que está de volta. Uns mais, outros menos expansivos. Em muitos vejo também uma irônica curiosidade, ao observarem o grupo heterogêneo que está com Jesus, e que certamente não é um grupo de dignitários reais, nem de pomposos sacerdotes. Acalorados, empoeirados, vestidos muito modestamente, exceto Judas Iscariotes, Mateus, Simão e Bartolomeu — e os coloquei em ordem decrescente de elegância — parecem mais uma turma de homens do povo, que vão indo para uma feira, e não o cortejo de um rei que de si, não tem senão a imponência da estatura e sobretudo a imponência do aspecto.

Andam alguns metros, e depois Pedro e João se apartam indo para a direita, enquanto Jesus com os outros prossegue, até chegarem a uma pequena praça repleta de meninos gritadores, que estão ao redor de um tanque cheio de água recolhida pelas mães.

100.3 Um homem vê Jesus e faz um gesto de espanto e de alegria. Apressa-se em direção a Ele e o saúda:

– Bem-vindo! Eu não te esperava tão cedo! Segura: beija o meu último neto. É o pequeno José. Nasceu nesta tua ausência –e lhe estende um pequenino que tem nos braços.

– José foi como o chamaste?

– Sim. Não me esqueço do meu quase parente, e ainda mais que parente, o meu grande amigo. Agora tenho todos os nomes mais queridos postos em meus netos: Ana, a minha amiga do tempo em que eu era pequeno, e Joaquim. Depois, Maria… Oh! que festa quando ela nasceu! Lembro-me de quando foi-me dada para beijar e me disseram: “Estás vendo? Aquele belo arco-íris foi a ponte pela qual Ela desceu do Céu. Os anjos usam aquele caminho ali”, e realmente parecia um anjinho, de tão bela que era… Agora, eis o José. Se tivesse sabido que voltarias tão cedo, teria esperado a Ti para a circuncisão.

– Agradeço-te por teu amor aos meus avós, ao meu pai e à minha Mãe. É um belo menino. Que ele seja sempre justo como o justo José.

Jesus balança o pequenino, que esboça umas risadinhas cheias de leite.

– Se me esperares, eu irei Contigo. Espero que as ânforas estejam cheias. Não quero que Maria, minha filha, se canse. Aliás, faço assim. Dou as ânforas aos teus companheiros, se quiserem pegá-las, e falo um pouco Contigo sozinho.

– Mas certamente que as pegamos! Nós não somos reis dos assírios –exclama Tomé, e ele é o primeiro a apanhar uma ânfora.

– Então, olha, Maria de José não está em casa. Ela foi à casa do cunhado, sabes? Mas a chave está em minha casa. Fazei que vo-la entreguem para que possais entrar em casa, quero dizer, na oficina.

– Sim, sim, ide. À casa também. Depois Eu vou.

Os apóstolos vão e Jesus fica com Alfeu.

– Eu queria te dizer… Sou teu verdadeiro amigo… E, quando alguém é verdadeiro amigo, e é mais velho, e é do lugar, pode falar. Eu acho que tenho o dever de falar… Eu… não quero te dar conselhos. Tu sabes melhor do que eu. Só quero advertir-te que… Oh! não quero estar fazendo de espião, nem falar mal dos teus parentes. Mas eu creio em Ti, Messias, e… me sinto mal, é isso, em ver que eles dizem que Tu não és Tu, ou seja, o Messias, que Tu és um doente, que Tu arruínas a família e os parentes. A cidade… Sabes, Alfeu é muito estimado e por isso a cidade dá também ouvidos a eles, e agora está doente que dá pena… Mas a pena às vezes serve também para fazer coisas injustas. Vê, eu estava lá naquela tarde, quando Judas e Tiago defenderam a Ti e à sua liberdade em te seguir… Oh! Que cena! Eu não sei como tua Mãe pode resistir! E a pobre Maria do Alfeu? As mulheres são sempre vítimas em certas situações da família.

– Agora os primos estão na casa do pai….

– Na casa do pai? Oh! Eu me compadeço deles! O velho está completamente fora de si e, talvez por causa da idade e certamente por causa da doença, mas faz coisas de louco. Se não fôsse louco, me causaria ainda mais pena, Por que… estaria arruinando sua alma.

– Achas que maltratará os seus filhos?

– Disso estou certo. Desagrada-me por eles e pelas mulheres… Aonde vais?

– À casa de Alfeu.

– Não, Jesus! Não faças que te faltem com o respeito!

– Os primos me amam mais do que a si mesmos, e é justo que Eu lhes pague com igual amor… Lá estão duas mulheres que me são caras… Eu vou. Não me detenhas.

E Jesus se apressa, rumo à casa de Alfeu, enquanto o outro fica pensativo no meio da rua.

100.4 Jesus vai depressa. Ei-lo ao limite da horta de Alfeu. Um choro de mulher o alcança e os gritos descompostos de um homem. Jesus vai ainda mais depressa por aqueles poucos metros que separam a rua da casa, através da horta, que está toda verde.

Ele está quase na soleira da casa, quando à porta aparece a Mãe e vê o Filho.

– Mãe!

– Jesus!

Dois gritos de amor.

Jesus procura entrar, mas Maria lhe diz:

– Não, Filho! –E se coloca sobre a soleira, com os braços abertos e as mãos agarradas no umbral, uma barreira de carne e de amor, e repete:– Não, Filho. Não faças isto.

– Deixa, Mãe. Não acontecerá nada.

Jesus está muito calmo, não obstante a acentuada palidez de Maria certamente o perturbe. Ele pega o pulso delicado Dela, afasta a mão do umbral e passa.

Na cozinha estão espalhados pelo chão, e reduzidos a uma lama viscosa, os ovos, os cachos de uva e o vaso com mel trazidos de Caná.

De um quarto vem uma voz queixosa de um velho que impreca, que acusa, que se lamenta, numa daquelas cóleras senis tão injustas, impotentes, penosas de se ver e dolorosas de suportar:

– … eis a minha casa destruída, tornada o objeto de escárnio de toda Nazaré, e eu, aqui sozinho, sem ajuda, ferido em meu coração, no meu respeito e em minhas necessidades!! Eis o que te resta, Alfeu, por teres agido como um verdadeiro fiel! E por que? Por que? Por causa de um doido. Um doido que fez endoidecer os meus tolos filhos. Ai! Ai! Que dores!

E a voz de Maria de Alfeu, chorosa, que suplica:

– Meu bom Alfeu! Não estás vendo que fazes mal a ti mesmo? Vem, que te ajudo a deitar-te… Sempre foste bom, sempre justo… Por que agora está acontecendo isto contigo? E comigo? E com aqueles teus pobres filhos?

– Nada! Nada! Não me toques! Não quero! Meus filhos são bons? Ah! Sim! Realmente! Dois ingratos! Trazem-me o mel, depois de ter-me enchido de absinto. Trazem-me ovos e frutas, depois de se terem alimentado do meu coração! Vai embora, eu te digo. Vai! Eu não te quero. Eu quero Maria. Ela sabe fazer as coisas. Onde está agora aquela mulher fraca, que não sabe fazer-se obedecer por seu Filho?

Maria de Alfeu, enxotada, entra na cozinha, enquanto Jesus está para entrar no quarto de Alfeu. Ela o vê, e cai sobre Ele soluçando desesperadamente, enquanto Maria, a Virgem, vai, humilde e paciente, para perto do velho irado.

– Não chores, tia. Agora vou Eu.

– Não! Não procures ser insultado! Ele parece louco. Tem uma bengala. Não, Jesus, não. Golpeou até os filhos!

– Ele não me fará nada –e Jesus, com firmeza, se bem que docemente, coloca a tia de lado, e entra.

100.5 – Paz a ti, Alfeu.

O velho, que está para deitar-se, entre mil queixas e censuras a Maria, porque não sabe fazer as coisas (antes dizia que só Ela é que as sabia fazer) vira-se bruscamente.

– Aqui? Aqui para zombares de mim? Também isto?

– Não. Para trazer-te paz. Por que estás tão inquieto? Tu pioras. Mãe, deixa. Eu cuidarei dele. Não te farei mal e tu não ficarás cansado. Mãe, tira as cobertas.

E Jesus pega com cuidado aquele pequeno monte de ossos agonizante, arquejante, mau, choroso, infeliz, e o apoia na cama com cuidado, como se fôsse um recém-nascido:

– Eis, assim. É como Eu fazia com meu pai. Vamos levantar este travesseiro, ficarás mais alto, e respirarás melhor. Mãe, coloca aqui, debaixo dos rins, aquele ali, pequenino. Ficará mais macio. Agora, vamos pôr a luz assim, de modo que não lhe bata nos olhos, e deixando passar um ar puro. Está feito. Agora… eu vi uma infusão sobre o fogo. Traze-a aqui, Mãe. É bem doce. Estás muito suado e te estás resfriando. Isto vai fazer-te bem.

Maria sai, obediente.

– Mas eu… eu… Por que estás sendo bom comigo?

– Porque Eu te quero bem, tu o sabes.

– Eu também te queria… mas agora…

– Agora não me queres mais. Eu sei. Mas Eu te quero, e isto me basta. Depois me amarás…

– E então… ai, ai… que dores! E então, se é verdade que me queres bem, por que ofendes os meus cabelos brancos?

– Eu não te ofendo, Alfeu, de modo nenhum. Eu te honro.

– Honras? Eu sou o objeto de escárnio de Nazaré.

– Por que, Alfeu, dizes assim? Em que te faço objeto de escárnio?

– Em meus filhos. Por que eles estão rebeldes? Por causa de Ti. Por que sou escarnecido? Por causa de Ti.

– Diz-me uma coisa: Se Nazaré te louvasse pela sorte dos teus filhos, sentirias a mesma dor?

– Então não! Mas Nazaré não me louva. Ela me louvaria, se realmente Tu fosses um conquistador. Mas deixar-me por alguém que é pouco menos que um demente, que vai pelo mundo atraindo ódios e zombarias, pobre, no meio de pobres! Ah! quem não haveria de rir! Pobre casa minha! Pobre casa de Davi, como estás terminando! E eu haveria de viver tanto, para ver esta desventura? Para ver a Ti, o último ramo da gloriosa estirpe, corrompendo-te na demência, por um excesso de servilismo! Ah! Que desventura para nós, desde o dia em que aquele meu tímido irmão deixou-se unir àquela insípida e prepotente mulher, que sobre ele exerceu total predominância. Eu lhe disse, então: “José, o casamento não é para ti. Serás infeliz!” E foi. Ele sabia como estava sendo, ele que nunca tinha querido saber de casamento. Maldição à lei das órfãs herdeiras!2 Maldição ao destino. Maldição àqueles esponsais.

A “Virgem herdeira” voltou com a infusão, a tempo de ouvir as jeremíadas do cunhado. Está ainda mais pálida. Mas a sua graça paciente não se turbou. Ela vai até Alfeu e com um doce sorriso, o ajuda a beber.

– És injusto, Alfeu. Mas estás tão mal, que tudo te é perdoado –diz Jesus, que lhe sustém a cabeça.

– Oh! Sim! Muito mal! Dizes que és o Messias! Que fazes prodígios. Assim dizem. Ao menos para pagar-me os filhos que me tomaste, cura-me! Cura-me… e te perdoarei.

– Perdoa tu aos teus filhos. Compreende a alma deles, e Eu te darei alívio. Se tens rancor, não posso fazer nada.

– Perdoar?

O velho faz um movimento brusco, que naturalmente aguça todos os espasmos, e isso o enfurece de novo:

– Perdoar? Nunca! Vai embora! Vai, se é para dizer-me isto! Vai! Quero morrer sem ser mais perturbado.

Jesus faz um gesto de resignação.

– Adeus, Alfeu. Vou-me embora… Tio… devo mesmo ir?

– Se não queres contentar-me, sim, vai-te. E diz àquelas duas serpentes que seu velho pai morre com raiva deles.

– Não. Isto não. Não percas a tua alma. Não me ames, se assim o queres. Não creias que Eu sou o Messias. Mas não odeies. Não odeies, Alfeu. Zomba de Mim. Diz que Eu estou louco. Mas não odeies.

– Mas, por que me queres bem, se eu te insulto?

– Porque Eu sou Aquele que tu não queres reconhecer. Sou o Amor. Mãe, Eu vou para casa.

– Sim, meu Filho. Daqui a pouco eu irei.

– Deixo-te a minha paz, Alfeu. Se me quiseres, manda-me chamar, a qualquer hora, e Eu virei.

Jesus sai, calmo como se nada houvesse acontecido. Apenas está mais pálido.

– Oh! Jesus, Jesus, perdoa-o –geme Maria de Alfeu.

– Certo que sim, Maria. Não há nem necessidade de fazer isso. A quem está sofrendo, tudo se perdoa. Agora, já está mais calmo. A graça trabalha também ocultamente nos corações. Além disso, há o teu pranto e certamente, a dor de Judas e de Tiago, e a fidelidade deles à vocação. Que a paz esteja em teu angustiado coração, tia.

Ele a beija, e sai pela horta, indo para casa.

100.6 Quando Ele está para pôr o pé na rua, eis que entram Pedro, e atrás dele, João, ofegantes como quem veio correndo:

– Oh! Mestre. Que foi que aconteceu? Tiago me disse: “Vem correndo à minha casa. Quem sabe como Jesus está sendo tratado.” Mas não, eu estou enganado. Entrou Alfeu, aquele da fonte, e disse a Judas: “Jesus está em tua casa”, e, então Tiago disse assim… Os teus primos estão abatidos. Eu não estou entendendo nada. Mas estou vendo a Ti… e me tranquilizo.

– Não é nada, Pedro. Um pobre doente, que as dores tornam impaciente. Agora tudo acabou.

– Oh! Fico feliz com isto! E tu, por que estás aqui?

Pedro interpela Iscariotes, que acorre também ele, e o tom de Pedro não é muito suave.

– Parece-me que tu também estás aqui.

– Pediram-me que viesse aqui, e eu vim.

– Eu também vim aqui. Se o Mestre estivesse em perigo, e em sua terra, eu, que já o defendi na Judeia, posso defendê-lo também na Galileia.

– Para isso, bastamos nós. Mas na Galileia não é preciso.

– Ah! Ah! Ah! De fato! A terra dele o expele como um alimento indigesto. Bem. Fico contente com isto por causa de ti, que te escandalizaste por um pequeno incidente acontecido na Judeia, onde Ele é desconhecido. Aqui, ao invés!!! –e Judas termina com um pequeno assobio, que é um poema de sátira.

– Escuta, rapaz. Eu estou pouco disposto a suportar-te. Portanto, acaba com isso, se não queres… alguma coisa. Mestre, eles te fizeram algum mal?

– Não, meu Pedro. Asseguro-te que não. 100.7Vamos mais depressa para consolar os primos.

Vão, e entram na grande oficina. Judas e Tiago estão perto do grande balcão de carpinteiro, Tiago em pé, Judas sentado em um banco, com o cotovelo sobre o banco, e a cabeça apoiada na mão.

Jesus vai a eles, sorridente, para tranquilizá-los logo que o seu coração os ama:

– Alfeu está mais quieto agora. As dores se acalmaram, e tudo volta a ficar em paz. Ficai tranquilos, vós também.

– Então o viste? E nossa mãe?

– Vi a todos.

Judas pergunta:

– Nossos irmãos também?

– Não. Eles não estavam.

– Estavam. É que não quiseram aparecer para Ti. Mas, para nós! Oh! Se tivéssemos cometido um delito, não teríamos sido tratados assim. E nós, que tínhamos ido de Caná quase voando, pela alegria de poder revê-lo e de levar-lhe aquilo que lhe agrada! Nós o amamos e… e ele não nos entende mais… Não acredita mais em nós.

Judas baixa o braço, e chora, com a cabeça sobre o banco. Tiago é mais forte. Mas o seu rosto exprime um martírio interior.

– Não chores, Judas. E tu, não fiques sofrendo.

– Oh! Jesus! Somos filhos… e ele nos amaldiçoou. Mas, ainda que isso nos magoe, não, não voltamos atrás! Somos teus, e teus seremos, mesmo que, para separar-nos de Ti, nos ameacem de morte! –exclama Tiago.

– E tu dizias que não eras capaz de heroísmo? Eu o sabia. Mas tu, por ti mesmo o estás dizendo. Na verdade, tu serás fiel até à morte. E tu também.

Jesus os acaricia. Mas eles sofrem. O pranto de Judas enche a abóbada de pedra.

100.8 E neste ponto tenho a oportunidade de ver melhor a alma dos discípulos.

Pedro, que tem o seu honesto rosto desolado, exclama:

– É! Sim! É uma dor… São coisas tristes. Mas, meus rapazes (e os sacode afetuosamente), nem todos podem merecer aquelas palavras… Eu… eu percebo que fui um felizardo, por ter sido chamado. Aquela bondosa mulher que é a minha esposa, me diz sempre: “É como se eu tivesse sido repudiada, porque tu não és mais meu’. Mas eu digo: ‘Oh! Feliz repúdio’!” Dizei vós também. Perdeis um pai, mas ganhais a Deus!

O pastor José está admirado, em sua condição de órfão, de que um pai possa ser razão de choro, e diz:

– Eu pensava que era o mais infeliz, porque não tinha pai. Percebo que é melhor pranteá-lo porque ele morreu, do que por ser nosso inimigo.

João se limita a beijar e acariciar seus companheiros.

André suspira, e fica calado. Ele se aflige pelo desejo de falar, mas a sua timidez lhe tapa a boca.

Tomé, Filipe, Mateus e Natanael falam baixo em um canto, com o respeito de quem está junto a uma dor verdadeira.

Tiago de Zebedeu reza, de maneira apenas inteligível, para que Deus lhes dê a paz.

Simão Zelote, oh! como me agrada o seu ato! Ele deixa o seu canto e vai para perto dos dois aflitos, põe uma mão sobre a cabeça de Judas, o outro braço ao redor da cintura de Tiago, e diz:

– Não chores, filho. Ele nos havia dito, a mim e a ti: “Eu vos uno: a ti que, por causa de Mim, perdes um pai, e a ti que tens um coração de pai, sem ter filhos.” E nós não chegamos a compreender quanto havia de profecia naquelas palavras. Mas Ele sabia. Eis o que eu vos peço. Sou velho, e sempre sonhei em ser chamado de “pai.” Aceitai-me, como tal, e eu, como pai, vos abençoarei pela manhã e pela tarde. Eu vos peço, aceitai-me como tal.

Os dois, entre soluços mais fortes, anuem.

100.9 Entra Maria, e corre para junto dos dois aflitos. Acaricia a cabeça morena de Judas e as faces de Tiago. Ela está pálida como um lírio.

Judas pega a sua mão e a beija, e pergunta:

– Que é que ele está fazendo?

– Está dormindo, filho. A mãe vos manda o seu beijo –e beija os dois.

A voz áspera de Pedro explode:

– Escuta, vem aqui um momento, que te quero dizer uma coisa –e vejo Pedro agarrar, com sua mão robusta, um braço de Iscariotes e levá-lo fora, para a rua. Depois volta sozinho.

– Para onde o mandaste? –pergunta Jesus.

– Para onde? A ir tomar ar, senão eu tinha que acabar dando-lhe um ar de outro modo… e só não o fiz, por causa de Ti. Oh! Agora estamos melhor. Quem ri diante de uma dor é uma víbora, e as serpentes eu esmago… Tu estás aqui … e eu apenas o mandei ir ver o luar. Pode ser… que também eu me torne um escriba, coisa que só Deus pode fazer em mim, que mal sei que estou no mundo, mas ele, nem com a ajuda de Deus, se torna bom. Assegura-te isto Simão de Jonas, e eu não me engano. Não! Não fiques preocupado com isto. Nem lhe pareceu verdade que acabou de sair de uma tristeza. É mais seco do que um seixo ao sol de agosto. Vamos, rapazes! Aqui está uma Mãe, que mais doce não há nem no Céu. Aqui está um Mestre, que é melhor do que o Paraíso todo; aqui estão muitos corações honestos que vos amam sinceramente. As borrascas fazem bem: fazem abaixar a poeira. Amanhã estareis mais frescos que as flores, mais ligeiros que os pássaros, para seguir o nosso Jesus.

E, com estas simples e boas palavras de Pedro, tudo termina.

Depois, Jesus diz:

100.10– Em seguida a esta visão, porás aquela que Eu te dei na primavera de 1944, aquela em que Eu perguntava à minha Mãe quais eram as suas impressões sobre os apóstolos. As figuras morais deles já deram os suficientes esplendores, para que possa ser colocada aqui aquela visão, sem criar escândalo a ninguém. Eu não precisava de nenhum conselho. Mas, quando estávamos sozinhos, enquanto os discípulos estavam espalhados por entre famílias amigas ou pelas aldeias vizinhas, durante as minhas paradas em Nazaré, como me era doce falar e pedir conselho à minha doce Amiga, à minha Mãe, e ouvir a confirmação de sua boca cheia de graça e sabedoria, sobre tudo o que Eu já havia visto. Nunca fui outra coisa com Ela, senão “O Filho.” E, entre os nascidos de mulher, não houve uma mãe mais “mãe” do que Ela, em todas as perfeições das virtudes maternas, tanto humanas, como morais, nem houve filho mais “filho” do que Eu, no respeito, na confidência, no amor.

100.11 E agora que também vós obtivestes um mínimo de conhecimento dos doze, das virtudes deles, dos seus defeitos, do seu caráter, de suas lutas, há ainda alguém que diz ter me sido fácil uni-los, elevá-los, formá-los? E há ainda alguém que julga ser fácil a vida do apóstolo, e para ser um apóstolo, ou seja, muitas vezes por considerar-se tal, julga ter direito a uma vida fácil, sem dores, contrastes nem derrotas? Há ainda alguém que por me servir, pretende que Eu seja o seu servo e faça milagres de forma contínua em seu favor, fazendo da sua vida um tapete florido, fácil, e humanamente glorioso? O meu caminho, o meu trabalho, o meu serviço é a cruz, a dor, as renúncias, o sacrifício. Eu fiz assim. Que o façam aqueles que querem dizer-se “meus.” Isto não é para os “Joãos”, mas para os doutores descontentes e difíceis.

100.12 E também para os doutores das cavilações digo que usei o termo “tio” e “tia”, inusitado nas línguas palestinas, para esclarecer e definir uma desrespeitosa questão sobre a minha condição de Unigênito de Maria e sobre a Virgindade pré e pós-parto de minha Mãe, a qual me teve por um espiritual e divino conúbio e, que se repita uma vez mais, não conheceu outras uniões, nem teve outros partos. Carne inviolada, que nem Eu lacerei, fechada sobre o mistério de um seio-tabernáculo, trono da Trindade e do Verbo encarnado”.



1 São Romualdo é um acréscimo a lápis de MV na página manuscrita para recordar, evidentemente, o onomástico do Padre Migliorini.
2 lei das órfãs herdeiras (ou da filha herdeira, como é referido 13.2) que é sancionada em Números 27,8 e que comporta (vimo-lo em 11.3) a obrigatoriedade para a moça herdeira de se casar com um da mesma estirpe, como é estabelecido em: Números 36,8-9.