507. 507. A grande disputa com os judeus e a fugado Templo com a ajuda do levita Zacarias.
30 de setembro de 1946.
507.1Jesus torna a entrar no Templo, com os apóstolos e discípulos. Alguns apóstolos, e não somente eles, o fazem observar que é uma imprudência isso. Mas Ele responde:
– Por acaso, já estarei eu condenado? Não. Por enquanto, ainda não estou. Subo, pois, ao altar de Deus, como todo israelita que teme ao Senhor.
– Mas Tu vais com a intenção de falar…
– E não é este o lugar onde, como de costume, se reúnem os rabis para falar? Ficar fora daqui para falar e ensinar é uma exceção, que pode ser interpretada como um descanso tomado por um rabi, ou, então, uma necessidade pessoal dele. Mas o lugar em que cada um gosta de dar aula aos discípulos é este. Não estais vendo ao redor dos rabis pessoas de todas as nacionalidades, que se aproximam, para ouvirem pelo menos uma vez os famosos rabis? Se não tiverem alguma outra coisa para contar, poderão dizer, ao voltarem para suas terras: “Ouvimos um mestre, um filósofo falar, conforme o modo de Israel.” É um mestre para aqueles que já são ou estão inclinados a ser hebreus, e é um filósofo para os verdadeiros e propriamente ditos gentios. E os rabis não se aborrecem, ao se fazerem ouvidos por esses últimos, porque esperam fazer deles prosélitos. Sem esta esperança que, se fosse humilde, seria santa, eles não estariam no Pátio dos Pagãos, mas exigiriam poder falar no dos Hebreus, e, se fosse possível, até no próprio Santo, que, segundo o seu modo de pensar a respeito de si mesmos, eles são tão santos, que só Deus está acima deles… E Eu, Mestre, falo onde os mestres falam. Mas não temais. Ainda não chegou o momento deles. Quando chegar o momento deles, Eu vo-lo direi, para que vos fortaleçais em vossos corações.
– Tu não o dirás –diz Iscariotes.
– Por que não?
– Porque não o poderás saber. Nenhum sinal to mostrará. Não há sinal. Há quase três anos que eu estou contigo, e sempre te vi ameaçado e perseguido. Quando chegar a hora, estarás sozinho. Agora, tens atrás de Ti o povo que Te ama, e que os fariseus temem. Portanto estás mais forte. Com que meios queres entender que chegou o momento?
– Os meios são as coisas que Eu vejo nos corações dos homens.
Judas fica um pouco estupefato e depois diz:
– E não o dirás também porque… Tu te poupas, por não confiares em nossa coragem.
– Para não nos afligires, cala-te –diz Tiago de Zebedeu.
– Também isso. Mas com certeza Tu não dirás nada.
– Eu vo-lo direi. E enquanto Eu não vo-lo disser, sejam quais forem a violência e o ódio que virdes contra Mim, não vos espanteis com isso. São coisas sem consequências. 507.2Ide para frente. Eu fico aqui para esperar Manaém e Marziam.
Contrariados, os doze e os que estão com eles vão para frente.
Jesus volta para a porta, a fim de esperar os dois, e desce até à estrada tomando depois o rumo da Fortaleza Antônia.
Alguns legionários, postados ao lado da fortaleza, estão mostrando-o e falando uns com os outros. Parece ser o começo de uma discussão, pois um deles diz em voz alta:
– Eu lhe irei perguntar –e se afasta indo até Jesus–. Salve, Mestre. Vais falar hoje, e lá dentro?
– A Luz te ilumine. Sim. Eu vou falar.
– Então… toma cuidado. Alguém que sabe nos veio avisar. E uma que te admira nos mandou vigiar. Nós estaremos perto do subterrâneo, do lado do oriente. Sabes por onde se entra nele?
– Não deixo de saber. Mas a entrada está fechada, de um lado e do outro.
– Tu achas?
O legionário se ri, com um riso breve e, à sombra do seu elmo, brilham os olhos e os dentes, fazendo que ele pareça mais jovem. Depois, tomando posição, o saúda:
– Salve, Mestre. Lembra-te de Quinto Félix.
– Eu me lembrarei. Que a Luz te ilumine.
Jesus continua a caminhar, e o legionário volta para o lugar em que estava antes e fica conversando com os seus camaradas.
– Mestre, teremos tardado muito? Eram muitos os leprosos! –dizem, ao mesmo tempo, Manaém, vestido simplesmente de marrom escuro, e Marziam.
– Não. Vós viestes logo. Agora, vamos. Os outros nos estão esperando. Manaém, foste tu que avisaste aos romanos?
– Sobre o quê, Senhor? Eu não falei com ninguém. E não saberia… As romanas não estão em Jerusalém.
Eles estão de novo perto do portão do muro. E como se fosse por acaso, lá está também o levita Zacarias.
– A paz esteja contigo, Mestre. Eu quero dizer-te… que procurarei estar sempre onde estiveres, aqui dentro. E tu, não me percas de vista. E se houver algum tumulto, e vires que eu vou-me embora, procura acompanhar-me sempre. Eles te odeiam muito! E eu não posso fazer nada mais… Procura compreender- me…
– Deus te recompense e abençoe pela piedade que tens para com o seu Verbo. Farei o que tu dizes. E não tenhas medo de que alguém fique sabendo do teu amor por mim.
E eles se separam.
– Talvez tenha sido ele que foi dizer aos romanos. Tendo estado lá dentro, terá ficado sabendo… –sussurra Manaém.
507.3Vão rezar, passando pelo meio das pessoas que os olham com sentimentos bem diferentes, e que se reúnem atrás de Jesus, quando, havendo terminado a oração, Ele volta do Pátio dos Hebreus.
Já estando fora do segundo muro, Jesus ia querendo parar, mas vê-se rodeado por um grupo de escribas, de fariseus e sacerdotes. Um dos magistrados do Templo fala por todos.
– Ainda estás aqui? Não sabes que não te querem? E não sabes qual o perigo que te ameaça? Vai-te daqui. É já muito o que fazemos deixando-te entrar para rezar. Não te permitimos mais ficar ensinando as tuas doutrinas.
– Sim. Vai-te daqui. Vai-te, blasfemador!
– Sim. Eu me vou, como vós quereis. Eu não vou somente para fora destes muros. Mas vou, e já estou indo, mais para longe, para um lugar onde não me podereis alcançar. E chegarão as horas em que vós também me procurareis, e não somente para me perseguirdes, mas também por um supersticioso terror de serdes castigados por me terdes expulsado, com uma ânsia supersticiosa de serdes perdoados de vossos pecados, para obterdes misericórdia. Mas Eu vo-lo digo. Esta agora é que é a hora da misericórdia. Esta é a hora de vos tornardes amigos do Altíssimo. Depois de passada esta hora, toda reparação será inútil. Não me tereis mais e morrereis no vosso pecado. Percorrereis até a terra toda, conseguireis chegar até aos astros e planetas, mas não me achareis mais, porque para onde Eu vou, vós não podeis ir. Eu já vos disse isto. Deus vem e passa. Quem é sábio o acolhe com os seus dons, em sua passagem. Quem é estulto, o deixa ir-se e não o encontra nunca mais. Vós sois daqui de baixo. Eu sou lá de cima. Eu não sou deste mundo. Por isso, uma vez que Eu tenha voltado à Morada de meu Pai, que está fora deste mundo, não me encontrareis mais e morrereis nos vossos pecados, porque não sabereis nem unir-vos espiritualmente comigo pela fé.
– Queres matar-te, endemoninhado? Certamente, porque no Inferno, para onde descem os violentos, não poderemos mais ir unir-nos a Ti, pois o Inferno é para os condenados, os malditos, e nós somos os benditos filhos do Altíssimo –dizem alguns.
E outros os aprovam, dizendo:
– Certamente Ele quer se matar, porque diz que para onde Ele vai, nós não podemos ir. Ele compreendeu que foi descoberto e que se saiu mal na prova, e se elimina sem ficar esperando ser eliminado, como aquele outro Galileu, que foi um falso Cristo.
E outros, mais benévolos, dizem:
– E se Ele fosse mesmo o próprio Cristo, e fosse voltar justamente para Aquele que o tivesse mandado?
– Para onde? Para o Céu? Abraão não está lá, e queres que Ele vá estar? Primeiro deve vir o Messias.
– Mas Elias foi arrebatado ao céu num carro de fogo.
– Num carro, sim. Mas, para o céu! Quem o garante?
E a discussão continua, enquanto fariseus, escribas, magistrados, sacerdotes e os judeus que acompanham os sacerdotes, os escribas e os fariseus vão atrás do Cristo, atravessando a grande série de pórticos, como uma malta de cães que vai atrás de uma caça que saiu da toca.
507.4Mas alguns, os bons que estavam no meio da massa hostil, aqueles verdadeiramente levados por um desejo honesto, abrem alas até chegarem perto de Jesus, e lhe fazem com ansiedade uma pergunta, que já tantas vezes se ouviu ser feita, ou com amor ou com ódio:
– Quem és Tu? Dize-o a nós para que saibamos como devemos proceder. Dize-nos a verdade, em nome do Altíssimo.
– Eu sou a própria Verdade e não uso nunca de mentira. Eu sou Aquele que sempre declarei ser, desde o primeiro dia em que falei às turbas, em todos os lugares da Palestina, Aquele que aqui Eu disse ser, muitas vezes, junto ao Santo dos Santos, do qual Eu não temo os fulgores, porque Eu digo a Verdade. Tenho muitas coisas a dizer ainda e a julgar no meu dia, que se referem a este povo e, por mais que para mim já esteja próxima a tarde, Eu sei que as direi, e julgarei a todos, pois assim foi que me prometeu Aquele que me mandou, que é veraz. Ele falou comigo em um eterno amplexo de amor, dizendo-me todo seu Pensamento, para que eu o pudesse dizer com a minha palavra ao mundo, e não poderei ficar calado, e ninguém poderá fazer-me calar até que Eu tenha anunciado ao mundo tudo o que Eu ouvi do meu Pai.
– E Tu, ainda blasfemas? E continuas a dizer-te Filho de Deus? Mas quem queres que creia em Ti? Quem queres que veja em Ti o Filho de Deus? –dizem-lhe os inimigos, gesticulando com seus punhos quase sobre o rosto de Jesus, enlouquecidos pelo ódio.
Os apóstolos, os discípulos e os bem intencionados os repelem, formando como que uma barreira de proteção ao Mestre. O levita Zacarias vai chegando, com movimentos bem medidos e preparados, a fim de não chamar a atenção dos energúmenos, para perto de Jesus, e aproximando-se de Manaém e dos dois filhos do Alfeu.
507.5Já estão no fim do Pórtico dos Pagãos, porque vão indo lentamente por entre os dois grupos contrários, e Jesus para em seu lugar de costume, perto da última coluna do lado oriental. Então Ele se detém. Do lugar onde estão, nem os pagãos podem expulsar um verdadeiro israelita, a não ser excitando a multidão. E isso é uma coisa que aqueles traiçoeiros evitam fazer. De lá Jesus recomeça a falar, respondendo aos seus ofensores e a todos os que estão com eles:
– Quando tiverdes elevado o Filho do homem…
Gritam os fariseus e os escribas:
– E quem achas que te vai elevar? Infeliz do país que tem como rei um charlatão doido e um blasfemador odiado por Deus. Nenhum de nós te elevará, fica certo disso. E um resto de luz ainda te fez compreender isso em tempo, quando Tu foste tentado1. Tu sabes que nunca te poderemos fazer nosso rei!
– Eu o sei. Não me elevareis sobre um trono, mas me elevareis. E ficareis pensando rebaixar-me, quando me elevardes. Mas justamente quando estiverdes pensando ter-me rebaixado é que estarei sendo elevado. Não somente sobre a Palestina, não somente sobre todo Israel espalhado pelo mundo, mas até sobre as nações pagãs, até sobre os lugares que os doutos do mundo ainda nem conhecem. E Eu o serei, não pela vida de um homem, mas por toda vida que há na terra, e cada vez mais a sombra do pavilhão de meu trono se estenderá sobre a terra, até cobri-la toda. E só então é que eu voltarei, e me vereis. Oh! Sim. Vós me vereis.
– Mas ouvi só que palavras de doido! Nós o elevaremos, abaixando-o. Um maluco! Um maluco! E a sombra de seu trono sobre toda a terra! Maior do que Ciro! Do que Alexandre! Mais do que César! Onde o colocarás, César? Achas que ele vai tomar até o império de Roma? E ficará no trono por todo o tempo do mundo! Ah! Ah! Ah!
Eles parecem estar dando bofetadas, ou pior, chicotadas com suas ironias, mais do que com um azorrague.
507.6Mas Jesus os deixa falar. Levanta a voz para ser ouvido no meio daquele clamor dos que zombam e dos que o defendem, e que enchem o lugar com um grande barulho, como o de um mar revolto.
– Depois que tiverdes suspendido o Filho do homem então compreendereis quem Eu sou, e que por Mim nada faço, mas falo o que meu Pai me ensinou, e faço o que Ele quer. E Aquele que me mandou não me deixa sozinho, mas está comigo. Assim como a sombra acompanha o corpo, do mesmo modo atrás de Mim, vigilante, presente, ainda que invisível, está o Pai. Ele está atrás de mim, e me conforta e me ajuda, e não se afasta, porque Eu faço sempre o que lhe agrada. Mas Deus se afasta quando os seus filhos não obedecem às suas leis e às suas inspirações. Nesse caso, Ele se vai, e nos deixa sozinhos. Por isso, muitos de Israel pecam. Porque o homem abandonado a si mesmo dificilmente se conserva justo, e facilmente cai por entre as espirais da Serpente. E em verdade Eu vos digo que por causa do vosso pecado de resistência à Luz e à Misericórdia de Deus, Deus se afasta de vós, e deixará vazio de si este lugar e os vossos corações, e aquilo que Jeremias chorou em suas profecias e em suas lamentações há de cumprir-se exatamente. Meditai naquelas palavras proféticas2 e tremei, e reentrai em vós mesmos com um bom espírito. Ouvi não as ameaças, mas a bondade do Pai, que adverte os seus filhos, enquanto ainda lhes é dado tempo para reparar e se salvarem. Ouvi Deus em suas palavras e nos fatos, e se não quereis crer em minhas palavras, pois o velho Israel vos sufoca, crede pelo menos no velho Israel. Nele os profetas gritam, falando dos perigos e desventuras da cidade Santa e de toda a nossa Pátria, se não se converter ao Senhor seu Deus e não seguir ao Salvador. Sobre este povo a mão de Deus já pesou nos séculos passados. Mas nada serão o passado e o presente em comparação com o tremendo futuro que o espera por não ter querido receber bem o Mandamento de Deus. Nem no rigor, nem na duração se pode comparar ao que está esperando Israel que rejeita o Cristo. Eu vo-lo digo, ao espraiar minha vista através dos séculos. Como uma árvore cortada e jogada sobre o turbilhão das águas de um rio, assim será a raça hebraica, ferida pelo anátema divino. Com muita vontade ela procurará agarrar-se às margens, num ponto ou noutro; e, vigorosa como é, lançará rebentos e raízes. Mas quando pensar que encontrou uma morada, será atacada pela violência da enchente, que a arrancará de novo, esmagará suas raízes e rebentos, e ela irá mais para frente, para sofrer, para de novo lançar raízes e ser de novo arrancada e dispersa. E nada lhes poderá dar paz, porque a enchente que os persegue será a ira de Deus e o desprezo dos povos. Somente jogando-se em um mar de Sangue vivo e santificante é que poderia encontrar paz. Mas esta fugirá daquele Sangue, porque, ainda que tenha ouvido palavras de convite, parecer-lhe-á ter ouvido a voz do Sangue de Abel: como Caim do Abel Celeste.
Um outro vasto murmúrio se espalha pelo amplo recinto, como um rumor das ondas. Mas faltam neste murmúrio as vozes ásperas dos fariseus, dos escribas e dos judeus escravizados a eles. Jesus se aproveita desse murmúrio para tentar ir-se embora dali.
507.7Mas alguns que estavam longe aproximam-se dele e lhe dizem:
– Mestre, escuta-nos. Nós não somos todos como aqueles –(e mostram os inimigos)–, mas, ao contrário, fazemos esforços para seguir-te, mesmo vendo que a tua voz está sozinha contra cem e mil vozes que dizem o contrário do que Tu dizes. E são as coisas que eles dizem que nós ouvimos de nossos pais desde nossa infância. Tuas palavras, porém, nos levam a crer. Mas como faremos para crer completamente e termos a vida? Nós estamos como que amarrados pelo pensamento do passado…
– Se vós vos apoiásseis em minha Palavra, como se renascêsseis agora, creríeis completamente e vos faríeis meus discípulos. Mas é preciso que vos despojeis do passado e aceiteis a minha doutrina. Ela não cancela tudo do passado. Pelo contrário: ela mantém e revigora o que é santo e sobrenatural no passado, e tira o que é supérfluo e humano, pondo a perfeição da minha doutrina no lugar que agora está ocupado pelas doutrinas humanas, sempre imperfeitas. Se vierdes a mim, conhecereis a verdade e a Verdade vos tornará livres.
– Mestre, é verdade o que te dissemos, que estamos como que amarrados pelo passado. Mas este liame não é prisão nem escravidão. Nós somos a posteridade de Abraão3. Nas coisas do espírito. Porque a posteridade de Abraão, se é que não estamos amarrados, é assim chamada para significar posteridade espiritual, contraposta à de Agar, que é uma posteridade de escravos. Como, então, podes dizer que ficaremos livres?
– Era posteridade de Abraão também Ismael e os filhos dele, Eu vo-lo faço notar. Porque Abraão foi pai tanto de Isaac, como de Ismael.
– Mas impura, porque filho de uma mulher escrava e egípcia.
– Em verdade, em verdade Eu vos digo: não há mais do que uma escravidão. Somente quem comete pecado é escravo. E de uma escravidão que nenhuma moeda é capaz de resgatar. E de um patrão inexorável e cruel. E perde todo direito à livre soberania do Reino do Céu. O escravo, o homem que uma guerra ou alguma desgraça tornou escravo, pode ainda até passar a ser possuído por um bom patrão. Mas o seu bem-estar é sempre precário, porque o patrão o pode vender a outro patrão cruel. Ele é uma mercadoria e nada mais. Às vezes serve até de moeda para saldar alguma dívida. E não tem nem o direito de chorar. O servo, porém, vive na casa de seu patrão enquanto este não o licencia. Mas o filho fica sempre na casa do pai e o pai não pensa em expulsá-lo. Ele só pode sair dela por sua livre vontade. E nisto é que está a diferença entre a escravidão e a servidão, e entre a servidão e a filiação. A escravidão põe o homem em grilhões. A servidão o põe a serviço de um patrão. A filiação o coloca para sempre, em paridade de vida, na casa de seu pai. A escravidão aniquila o homem. A servidão o torna sujeito. A filiação o torna livre e feliz. O pecado torna o homem escravo do patrão mais cruel e sem moderação: Satanás. A servidão, que em nosso caso é a Antiga Lei, torna o homem temente a Deus como a um Ser intransigente. A filiação, isto é, o ir para Deus unido ao seu Primogênito, que sou Eu, torna o homem livre e feliz, conhecendo a caridade do Pai e tendo confiança nela. Aceitar a minha doutrina é ir para Deus em companhia de Mim, que sou o Primogênito, entre os muitos filhos amados. Eu quebrarei os vossos grilhões contanto que venhais a Mim, para que Eu os quebre, e ficareis verdadeiramente livres, e coerdeiros comigo do Reino dos Céus. 507.8Eu sei que sois posteridade de Abraão. Mas os que entre vós procuram matar-me não estão honrando a Abraão, mas a Satanás, e o servem como uns escravos fiéis. Por quê? Porque rejeitam a minha palavra, e esta não pode penetrar em muitos de vós. Deus não faz ao homem violência para que ele me aceite. Mas Ele me manda para que Eu vos mostre a sua vontade. E eu vos digo o que vi e ouvi junto de meu Pai. E faço o que Ele quer. Contudo, aqueles entre vós que me perseguem fazem o que aprenderam do pai deles, e o que ele lhes sugere.
Como um paroxismo que volta depois de uma parada da doença, a ira dos judeus, fariseus e escribas, que parecia haver-se acalmado um pouco, reergue-se violenta. Eles se insinuam, como uma cunha, no meio do círculo compacto que está ao redor de Jesus e procuram aproximar-se dele. A multidão mostra um ondular de vagalhões contra eles, como contrários lhes são também os sentimentos dos corações. Os judeus gritam, lívidos pela ira e pelo ódio:
– O nosso pai é Abraão. Não temos nenhum outro pai.
– O Pai dos homens é Deus. O próprio Abraão é filho do Pai universal. Mas muitos repudiam o Pai verdadeiro por um pai que não é pai, mas que eles escolhem como tal, porque parece mais poderoso e pronto para contentá-los em seus desejos imoderados. Os filhos fazem as obras que veem seus pais fazendo. Se vós sois filhos de Abraão, por que é que não fazeis as obras de Abraão? Não as conheceis? Deverei enumerá-las para vós em sua natureza e em seus símbolos? Abraão obedeceu, indo para a terra que Deus lhe indicou, uma figura do homem que deve estar pronto a deixar tudo a fim de ir para o lugar aonde Deus o manda ir. Abraão foi condescendente com o filho do seu irmão e o deixou escolher a região que preferisse, uma figura do respeito à liberdade de ação e da caridade que devemos ter para com o nosso próximo. Abraão ficou humilde depois dos sinais da predileção de Deus, e O honrou em Mambré, julgando-se sempre um nada diante do Altíssimo, que lhe havia falado, figura da postura de amor reverencial que o homem deve sempre tomar para com o seu Deus. Abraão creu em Deus e lhe obedeceu até nas coisas mais difíceis de serem cumpridas. E, para sentir-se seguro, não procedeu como um egoísta, mas orou a Deus pelos de Sodoma. Abraão não pactuou com o Senhor, querendo algum prêmio pelas suas muitas obediências, mas, pelo contrário, para honrá-lo até o fim, chegou ao máximo de sacrificar-lhe seu filho amado.
– Não o sacrificou.
– Ele lhe sacrificou o filho amado porque, na verdade, o seu coração já o havia sacrificado durante a viagem, tendo sido sustada pelo anjo a sua vontade de obedecer quando já o coração do pai estava ferido, no momento de ferir o coração do filho. Matava o filho para honrar a Deus. Vós matais o Filho de Deus para honrardes a Satanás. Fazeis vós as obras daquele que dizeis ser vosso pai? Não. Vós não as fazeis. Vós procurais matar-me porque Eu vos digo a verdade, assim como Eu a ouvi de Deus. Abraão não fazia assim. Não procurava matar a voz que vinha do Céu, mas obedecia a ela. Não. Vós não fazeis as obras de Abraão, mas, sim, as que vos mostra o vosso pai.
507.9– Nós não nascemos de uma Prostituta. Bastardos nós não somos. Tu o disseste, Tu mesmo, que o pai dos homens é Deus, e nós, então, somos o Povo eleito e das castas escolhidas do meio desse Povo. Por isso temos a Deus como o nosso único Pai.
– Se reconhecêsseis a Deus por Pai, em espírito e verdade, me amaríeis, porque Eu procedo de Deus, venho de Deus. Eu não venho de Mim mesmo, mas foi Ele que me mandou. Portanto, se verdadeiramente conhecêsseis o Pai, reconheceríeis a Mim também, como seu Filho, vosso irmão e Salvador. Podem os irmãos deixar de conhecer-se? Podem os filhos de Um só não reconhecer a linguagem que se fala na Casa do Único Pai? Por que é, então, que não compreendeis a minha linguagem e não tolerais as minhas palavras? Porque Eu venho de Deus, e vós, não. Vós deixastes a morada paterna e esquecestes como era o rosto e a linguagem daquele que nela mora. Vós saístes, por vossa vontade, para outras regiões, para outras moradas, onde reina um outro Deus, que não existe, e onde se fala uma outra língua. E quem ali reina exige que para entrar lá, cada um se faça filho dele e lhe obedeça. E vós fizestes assim e o fazeis. Vós abjurais, renegais a Deus Pai, para escolherdes um outro pai. E esse é Satanás. Vós tendes por pai o demônio e quereis cumprir o que ele vos sugere. E os desejos do demônio são de pecado e violência, e isso vós aceitais. Desde o princípio, ele foi homicida e não perseverou na Verdade, porque ele, rebelando-se contra a Verdade, não pode ter em si o amor à Verdade. Quando ele fala, fala como ele é, ou seja, fala como um mentiroso, um ser tenebroso, porque na verdade ele é mentiroso, gerou e pariu a mentira, depois de ter sido fecundado pela soberba, e nutrido com a rebeldia. Toda concupiscência está em seu seio, e ele a cospe e a inocula, a fim de envenenar as criaturas. É o tenebroso, o escarnecedor, o rastejante réptil maldito, é o opróbrio e o horror. Desde há séculos e séculos, suas obras atormentam o homem e os sinais e frutos delas estão diante das inteligências dos homens. E, no entanto, é a ele, que mente e arruína, que vós dais ouvidos, enquanto que, se Eu falo o que é verdadeiro e bom, vós não me credes, e ainda me chamais de pecador. Mas quem é que, entre os muitos que se aproximaram de Mim, com ódio ou com amor, pode dizer que me viu pecar? Quem é que o pode dizer com verdade? Onde estão as provas para convencer-me a Mim e a quem crê em Mim que Eu sou um pecador? Contra qual dos Mandamentos foi que eu faltei? Quem, diante do altar de Deus, pode jurar que me viu violar a Lei e os costumes, os preceitos, as tradições, as orações? Quem, entre todos os homens, poderá fazer com que se altere a cor do meu rosto, para ficar Eu, com provas seguras, convencido de pecado? Ninguém pode fazer isso. Ninguém dentre os homens e ninguém dentre os anjos. Deus, no coração dos homens, grita: “Ele é o Inocente”. Disso todos vós estais convictos, e mais ainda vós que me acusais do que esses outros que não têm a certeza sobre quem, entre Mim e vós, é que tem razão. Mas somente quem é de Deus é que escuta as palavras de Deus. Vós não as escutais, por mais que elas ressoem em vossas almas noite e dia, e vós não as escutais porque não sois de Deus.
507.10– Nós, nós que vivemos dentro da Lei e na mais estrita observância dos preceitos para honrar o Senhor, não somos de Deus? E Tu ousas dizer isso? Ah!!!
E parecem estar asfixiados pelo horror, como se estivessem com um cabresto:
– E não devemos dizer que és um endemoninhado e um samaritano?
– Eu não sou uma coisa nem outra, mas honro a meu Pai, ainda que vós o negueis para Me injuriar. Mas essa vossa ofensa não me causa mágoa. Eu não procuro a minha glória. Há quem cuide dela e julgue. Isto Eu digo a vós, que me quereis aviltar. Mas a quem tem boa vontade Eu digo que quem acolher a minha palavra, ou que já a acolheu, e a souber guardar, não verá a morte para sempre.
– Ah! Agora estamos vendo bem que pelos teus lábios fala o demônio que te possui! Tu mesmo disseste: “Ele fala como um mentiroso.” Isto que Tu disseste é uma mentira e, portanto, uma palavra demoníaca. Abraão morreu e os profetas morreram. E Tu dizes que quem guardar a tua palavra nunca verá a morte para sempre. Então, Tu não morrerás?
– Eu só morrerei como Homem, para ressurgir no Tempo da Graça, mas como Verbo não morrerei. A Palavra é Vida e não morre. E quem acolhe a Palavra tem em si a Vida e não morre para sempre, mas ressurge em Deus porque Eu o ressuscitarei.
– Blasfemador! Louco! Demônio! És mais do que nosso Pai Abraão, que morreu, e do que os profetas? Quem é que pretendes ser?
– O Princípio, Eu que vos estou falando.
Acontece um pandemônio. E enquanto isso acontece, o levita Zacarias empurra delicadamente Jesus para um canto do pórtico, ajudado pelos filhos de Alfeu e por outros que o protegem, talvez até sem saberem o que estão fazendo.
507.11Quando Jesus já está bem encostado na parede e com a proteção dos mais fiéis colocados diante dele e, quando já se acalma um pouco o tumulto que se alastrou até o pátio, Ele diz, com sua voz muito firme e bela, sempre calma, até nos momentos de maior perturbação:
– Se Eu me glorifico a Mim mesmo, não tem valor a minha glória. Cada um pode dizer de si mesmo o que quiser. Mas quem me glorifica é o meu Pai, que vós dizeis que é o vosso Deus, ainda que Ele seja tão pouco vosso que vós nem o conheceis, e nunca o conhecestes, nem o quereis conhecer por meio de Mim, que dele vos falo, porque o conheço. E se Eu dissesse que não o conheço, para acalmar o vosso Ódio contra mim, Eu seria um mentiroso como vós o sois, vós que dizeis que o conheceis.Eu sei que não devo mentir por motivo algum. O Filho do homem não deve mentir nem se o dizer a verdade for a causa de sua morte. Porque se o Filho do homem mentisse não seria mais verdadeiramente filho da verdade, e a Verdade o repeliria de Si. Eu conheço Deus, como Deus e como Homem. E como Deus e como Homem Eu conservo as suas palavras e as observo. Israel, reflete! Aqui é que se cumpre a Promessa. Ela se cumpriu em Mim. Reconhecei-me pelo que Eu sou! Abraão, vosso pai, suspirou por ver o meu dia. E ele o viu, profeticamente, por uma graça de Deus, e saltou de alegria por isso. E vós que na realidade o estais vivendo…
– Mas cala a boca! Ainda não tens cinquenta anos e queres dizer que Abraão te viu e que Tu o viste?
E a risada zombeteira deles se ouve ao longe, como uma onda de veneno ou de ácido corrosivo.
– Em verdade, em verdade, Eu vos digo: desde antes que Abraão nascesse, Eu existo!
– Eu existo? Só Deus pode dizer que existe, porque é eterno. E não Tu. Blasfemador! “Eu Existo!” Anátema! És Tu, por acaso, Deus, para dizeres isso? grita-lhe um, que deve ser uma pessoa importante, porque, tendo chegado faz pouco tempo, já está perto de Jesus, e porque todos se afastam como que aterrorizados por sua chegada.
– Tu o disseste –responde Jesus, com voz trovejante.
Tudo serve de arma nas mãos de quem odeia. Enquanto o último que interrogou o Mestre, se entrega a toda uma mímica de um horror escandalizado e arranca da cabeça o capuz, desgrenha os cabelos e a barba, solta os broches que seguram a veste ao redor do pescoço, como se estivesse afligido de horror, punhados de terra e pedras usados pelos vendedores de pombos e outros animais, para conservar estendidas as cordas dos recintos, e dos cambistas para uma prudente guarda de seus cofres, dos quais eles cuidam mais do que de suas vidas, são atirados contra o Mestre e naturalmente caem sobre a multidão, pois Jesus está muito afastado, por baixo da série de pórticos, e não pode ser atingido, enquanto a multidão pragueja e se lamenta…
507.12Zacarias, o levita, dá um forte empurrão em Jesus, o único meio de fazê-lo chegar a uma portinha baixa, escondida na parede do pórtico e já preparada para ser aberta, e o empurra junto com os dois filhos de Alfeu, com João, Manaém e Tomé. Os outros ficam do lado de fora no meio do tumulto. E o rumor chega, já muito fraco, ao caminho subterrâneo, por entre as fortes muralhas de pedra, obra que eu não sei como se chama em arquitetura. São colocadas em encaixes, eu diria, isto é, com pedras grandes e pedras menores, intercalando-se umas e outras. Não sei se me explico bem. São umas pedras largas, pesadas, lavradas rudemente, pouco visíveis na penumbra que é produzida por umas seteiras colocadas lá no alto, em distâncias regulares, para arejar e não deixar que fique completamente escuro o lugar, que é uma galeria apertada, que eu não sei para que é que serve, mas que dá a impressão de estar dando a volta ao longo de toda a série de pórticos. Talvez tenha sido feita para abrigo, a fim de tornar mais largas e mais resistentes as muralhas dos pórticos, que formam outras tantas cintas ao redor do verdadeiro e propriamente dito Templo, que é o Santo dos Santos. Mas eu não sei. Vou dizendo o que estou vendo. Um cheiro de umidade, daquela umidade que não se sabe dizer se é fria ou não, como o de certos porões.
– E que vamos fazer aqui? –pergunta Tomé.
– Cala-te! Zacarias me disse que virá e que fiquemos em silêncio e quietos –responde Tadeu.
– Mas… dá para confiar?
– Espero que sim.
– Não temais. O homem é bom, encoraja-os Jesus.
Do lado de fora, o tumulto já se vai afastando. O tempo passa. Depois, o rumor surdo de uns passos e uma pequena luz trêmula, que vem até à frente de escuras profundezas.
– Estás aí, Mestre? –diz uma voz que quer fazer-se ouvir, mas que tem medo de ser ouvida.
– Sim, Zacarias.
– Louvores sejam dados a Javé. Será que eu me fiz esperar? Eu tive que ficar aguardando que todos corressem para as outras entradas. Vem, Mestre… os teus apóstolos… Eu consegui falar a Simão que fossem todos para Betesda e lá esperassem. De lá se desce… Há pouca luz. Mas o caminho é seguro. Vai-se descendo até às cisternas… e de lá se sai para o Cedron. É um caminho antigo. Nem sempre foi destinado a usos bons. Mas desta vez, sim… E isso o santifica.
Vão sempre descendo por uma sombra, somente interrompida pela chama vacilante da tocha, até que um clarão diferente se vê lá no fundo… e, mais longe, o clarão de um verde vai aparecendo… Uma cancela grande, que até já parece uma porta maciça e firme, é o que marca o fim da galeria…
– Mestre, eu te salvei. Já podes ir. Mas escuta-me. Não venhas durante algum tempo. Eu não poderia servir-te sempre sem ser notado. E… esquece, esquecei todos esse caminho, e de mim, que vos conduzi –diz Zacarias, fazendo atuar os aparelhos que estão no pesado portão, e abrindo-o apenas o tanto que sirva para deixar sair as pessoas.
E repete:
– Esquecei, por piedade de mim.
– Não tenhas medo. Nenhum de nós falará. E Deus esteja contigo pela tua caridade.
Jesus levanta a mão, pondo-a sobre a cabeça inclinada do jovem.
Sai acompanhado pelos primos e pelos outros. Encontra-se sobre um pequeno escampado selvagem de sarças que mal pode contê-los todos, na frente do Jardim das oliveiras. É um caminho de cabras, estreito, e que vai descendo por entre as sarças para a torrente.
– Vamos. Tornaremos a subir depois, à altura da Porta das Ovelhas, e Eu com os irmãos irei a José, enquanto vós ireis a Betesda chamar os outros, e depois, vos reunireis comigo… Iremos para Nobe, amanhã, após o pôr do sol.
1 foste tentado, como está explicado em 464.19.
2 palavras proféticas, que estão em quase todo o livro de Jeremias e o das Lamentações, atribuído ao mesmo profeta.
3 posteridade de Abraão, na narração de Gênesis 16-17; 21,8-20; obras de Abraão nas histórias de Gênesis 12; 13; 15; 18; 22. Citado na obras ao final de 8.2 (em relação ao conhecido episódio do sacrifício do filho de Isaque). Abraão foi várias vezes recordado como pai de Israel e de todos os crentes. É chamado seio de Abraão (nota em 223.7) o lugar da bendita espera para os que morrem na fidelidade a Deus. Outras notas sobre Abraão, além da nota em 300.2 que se refere a Rebeca, esposa de Isaque, estão em 509.4 - 514.3 - 635.18 - 638.8.15.
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