325. 325. Os oito apóstolos se reúnem a Jesus perto de Aqzib.


10 de novembro de 1945.

325.1 Jesus — um Jesus muito magro e pálido, muito triste, eu diria, e sofredor — está lá no cume, justamente no cume mais alto de um pequeno monte, sobre o qual está também um povoado. Mas Jesus não está no povoado, que fica no cume, e sim, virado para a encosta do sudeste. Jesus se encontra em uma pequena saliência do monte, a mais alta, que se projeta para o noroeste. É mais leste do que norte1.

Jesus, olhando, como agora está fazendo, para diversos lados, vê uma cadeia de montes ondulados que, no extremo noroeste e no sudeste mergulha suas últimas ramificações no mar, ao sudeste do Carmelo, que daqui se vê bem, lá ao longe, ainda que com pouca nitidez, nos dias serenos e sem nuvens. A noroeste, como um cabo que penetra nas águas, parecendo o esporão de um navio, muito semelhante às montanhas dos Alpes Apuanos, por seus veios rochosos, que se embranquecem ao sol. Desta cadeia ondulada de montes descem torrentes e pequenos rios, todos bem cheios de água nesta estação, e que, através da planície da costa, correm para irem jogar-se ao mar. Perto da ampla baía de Sicaminon, o mais galhardo deles, o Kison, desemboca no mar, depois de ter formado um espelho d’água, no ponto de confluência de um outro riozinho, já perto da foz. O Sol do meio-dia, nos dias serenos, faz sair dos cursos d’água cintilações de topázio ou safiras, enquanto que o mar se transforma numa enorme safira, listrado com leves colares de pérolas.

O lugar é assim:

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A primavera do sul já vem dando sinais de sua chegada, com as folhas novas, que estão irrompendo das borbulhas entreabertas, ainda tenras, luzidias, como direi, virginais, de tão novas que estão, ainda não conhecedoras do que é a poeira e do que são as tempestades, as mordidas dos insetos e os contatos com o homem. E os ramos das amendoeiras já estão cheios de flocos de uma espuma branco-rosada, tão macios, que parecem uma coisa aérea, e dão a impressão de que querem separar-se do seu tronco natal para saírem navegando à vela, através do ar sereno, como se fossem pequeninas nuvens.Também os campos da planície, não muito vasta mas muito fértil, compreendida entre o cabo noroeste e o que está ao sul, estão mostrando um delicado verdejar de trigais, que levam embora toda a tristeza dos campos que há bem pouco tempo estavam nus.

Jesus fica olhando. Do ponto em que Ele está podem ver-se três estradas. A que sai do povoado e vem terminar ali é uma estradazinha só para uma pessoa, e as outras duas, que descem do povoado e se bifurcam em direções opostas vão, uma para o noroeste, e a outra para o sudoeste.

Quanto Jesus tem sofrido. Traz em Si todos os sinais da penitência feita, muito mais do que quando jejuou no deserto. Naquele tempo Ele era um homem pálido, mas ainda jovem e de aspecto alegre. Agora é o homem exausto por causa de um sofrimento complexo, que lhe abate tanto as forças físicas como as morais. Seus olhos estão muito tristes, com uma tristeza mansa e séria ao mesmo tempo. Suas faces, sutilizadas, fazem ressaltar ainda mais a espiritualidade do seu perfil, de fronte alta, nariz longo e reto, com boca e lábios completamente privados de sensualidade. Um rosto tão angélico, que exclui toda materialidade. Está com a barba mais longa que de costume, crescida até sobre as faces, chegando a confundir-se com os cabelos caídos sobre as orelhas, de modo que de seu rosto são visíveis apenas a fronte, os olhos, o nariz e os zigomas delicados e de uma cor de marfim, nada tendo de róseo. Está com os cabelos penteados de modo simples, pois ficaram como sem vida, e conservam como recordação do antro em que Ele esteve, muitos pedacinhos de folhas e de raminhos secos, que ficaram enredados em seus longos cabelos. Sua veste e seu manto, amarrotados e empoeirados, denunciam, também eles o lugar selvagem a que foram levados e onde não puderam ser cuidados por muitos dias.

325.2 Jesus fica olhando… O sol do meio-dia o faz sentir calor e parece que Ele sente prazer com isso, porque parece estar evitando a sombra de uns carvalhos para ir expor-se ao sol. Mas, por mais que seja um sol bem claro e sem nuvens, não pode conseguir que seus esplendores se reflitam em seus cabelos empoeirados, em seus olhos cansados, nem faz aparecerem as cores de seu rosto emagrecido.

Não é o sol que o restaura, nem lhe aviva as cores. Mas, sim, é a vista dos seus caros apóstolos, que vêm subindo gesticulando e olhando para o povoado, da estrada que vem do noroeste, e que é a mais plana. Então vem a metamorfose. Os olhos se lhe avivam, o rosto parece tornar-se menos macilento, tomando uma esfumatura de tom róseo, que se vai estendendo pelas faces, e mais ainda, até o sorriso, que o enche de luz. Ele abre os braços, que estavam cruzados, e exclama “Ó meus queridos!” Ele diz isso levantando o rosto, passando um olhar sobre as coisas, como para comunicar sua alegria aos caules, às plantas, ao céu sereno e ao ar, que já está com um sabor de primavera.

Ele puxa o manto até ficar bem apertado ao redor de seu corpo, para não ser agarrado pelas varetas das moitas, e vai descendo rapidamente por um atalho, indo ao encontro deles, que vêm subindo, e que não o viram ainda.

Quando chega ao alcance da voz, Ele os chama, para fazê-los parar em sua ida para o povoado.

Eles ouvem o chamado, lá ao longe. Talvez do ponto onde estão não podem ainda ver Jesus, cujas vestes escuras se confundem com o verde escuro do bosque, que cobre a encosta. Eles olham para os lados, gesticulam… Jesus torna a chamar… Finalmente, numa clareira do bosque, Ele aparece aos olhos deles, ao sol, como se já os quisesse abraçar.

Então, ouve-se um grande grito, que ecoa por toda a encosta: “É o Mestre!”, e, numa grande corrida por sobre a ladeira íngreme, por fora do caminho, lá se vão eles, arranhando-se, tropeçando, ofegantes, não sentindo mais o peso dos sacos, nem o cansaço da caminhada… levados pela alegria de revê-lo.

325.3 Naturalmente, os primeiros a chegar são os mais jovens, mais ágeis, isto é os dois filhos de Alfeu, com seus passos firmes de quem nasceu sobre as colinas, João e André, que vão correndo como dois cervos, rindo-se de tão felizes. Eles caem a seus pés, amorosos e reverentes, felizes, sumamente felizes. Depois chega Tiago de Zebedeu e, por último, quase juntos, os três menos capazes de correr e de subir montanhas: Mateus, o Zelotes e, por fim, o próprio Pedro.

Mas este abre passagem — oh! como abre — para chegar até o Mestre, que está apertado entre as pernas dos primeiros que chegaram e que não se cansam de beijar-lhe as vestes ou as mãos, que Ele deixou entregues a eles. Pega energicamente João e André agarrados, como ostras a um penhasco, às vestes de Jesus e, ofegante pelo cansaço, os afasta o tanto necessário para que possa cair aos pés de Jesus, dizendo:

– Oh! Mestre meu! Agora, torno a viver, finalmente! Eu já não podia mais. Estou envelhecido e magro, como se tivesse estado muito doente. Olha se não é verdade, Mestre…

E levanta a cabeça, para deixar-se ver por Jesus. Contudo, ao fazer isso, vê como Jesus está mudado e põe-se de pé, gritando:

– Mestre? Mas que foi que fizeste? Ó tolos! Olhai só! Não estais vendo nada? Jesus esteve doente!… 325.4Mestre, Mestre meu, que foi que aconteceu? Dize-o a teu Simão!

– Nada, amigo.

– Nada? Com esse rosto. Então, te fizeram mal?

– Nada disso, Simão.

– Não é possível! Ou estiveste doente, ou foste perseguido! Eu estou vendo!…

– Eu também. Também Eu te estou vendo, emagrecido e envelhecido, de fato. Por que então, estás assim –pergunta sorrindo o Senhor ao seu Pedro, que o está perscrutando, como se quisesse descobrir a verdade pelos cabelos, pela pele, pela barba de Jesus.

– Más eu sofri, eu. E não o nego. Acreditas que tenha sido agradável ficar vendo aquela grande dor?

– Tu o disseste. Eu também sofri pelo mesmo motivo…

– Terá sido mesmo só por isso, Jesus? –pergunta, compadecido e afetuoso, Judas de Alfeu.

– Pela dor, sim, meu irmão. Pela dor causada pela necessidade de mandar embora…

– E pela dor de ter sido obrigado a isso por…

– Eu te peço!… Silêncio. Para mim é mais querido o silêncio a respeito de minha ferida do que qualquer outra palavra que queira consolar-me, dizendo “Eu sei o que sofreste”. Afinal, ficai todos sabendo, eu sofri por muitas coisas, e não só por esta. E se Judas não me tivesse interrompido, Eu o teria dito.

Jesus está muito sério, ao dizer isso. Todos ficam atemorizados.

Mas Pedro é o primeiro a retomar a palavra, e pergunta:

– E onde estiveste, Mestre? Que fizeste?

– Eu estive em uma gruta… rezando… meditando… para fortificar o meu espírito, para conseguir a fortaleza para vós em vossa missão, por João e Síntique em seu sofrimento.

– Mas onde estiveste? Onde? Sem roupas, sem dinheiro! Como foi que viveste.

Simão está agitado.

– Em uma gruta. Eu não precisava de nada.

– E a comida? E o fogo? E a cama? Tudo, afinal! Eu esperava que fosses, pelo menos hospedar-te, como um peregrino que perdeu o caminho, em Jeftael ou em outro lugar, afinal, em alguma casa. Isso já me dava um pouco de paz. Mas, e então? Dizei-o vós, se não era o meu tormento ficar pensando que Ele estava sem roupas, sem comida e sem meios de consegui-la, e sobretudo sem isto, que é a vontade de ir procurá-la. Ah! Jesus! Isso não devias ter feito! E não o farás nunca mais! Eu não te deixarei mais sozinho nem por uma hora. Eu vou coser-me à tua veste para ir atrás de Ti, como se fosse a tua sombra, quer queiras, quer não. Só ficarei separado de Ti, se eu morrer.

– Ou se Eu morrer.

– Oh! Tu, não. Tu não deves morrer antes de mim. Não digas isso. Será que me queres ver completamente triste?

– Não. Pelo contrário, Eu quero estar contigo, com todos, alegrarme nesta bela hora que me torna a trazer os meus queridos, os meus prediletos amigos. Vede. Eu já me sinto melhor, só porque o vosso amor sincero me alimenta, me aquece e me consola muito.

E Ele os acaricia a um por um, enquanto os rostos deles brilham, com um sorriso feliz, e seus olhos reluzem, e tremem seus lábios de tanta emoção por aquelas palavras, e eles perguntam:

– É verdade, Senhor?

– É mesmo assim, Mestre?

– Somos assim por Ti tão queridos?

– Sim. Sois tão queridos assim! 325.5 Tendes alimento convosco?

– Sim. Eu calculava que Tu estivesses esgotado e o vim adquirindo pelo caminho. Tenho pão e carne assada, tenho leite, queijos e mel. Além disso, tenho um odre com vinho generoso e também ovos para Ti. Tomara que não se tenham estragado.

– Está bem. Vamos sentar-nos, então, aqui sob este belo sol e vamos comer. Enquanto vamos comendo, me falareis…

Assentam-se ao sol, em uma saliência do terreno e Pedro abre a sacola e observa os seus tesouros:

– Está tudo salvo –exclama ele–. Até o mel de Antigônio. E, por que não? Eu não o disse? Ainda que na volta tivéssemos sido colocados dentro de uma barrica e tivéssemos vindo rolados por algum doido ou trazidos em uma barca sem remos, e talvez até furada na hora da tempestade, teríamos chegado sãos e salvos… Mas na ida! Eu sempre mais me convenço de que antes era o Demônio que nos criava obstáculos. Para não nos deixar acompanhar aqueles pobrezinhos…

– É verdade. Agora ele não tinha mais aquele motivo –confirma o Zelotes.

– Mestre, Tu fizeste penitência por nós? –pergunta João, que até se esquece de comer para ficar contemplando Jesus.

– Sim, João. Eu vos acompanhei com o pensamento. Eu percebi os vossos perigos e as vossas aflições. Eu vos ajudei como pude…

– Oh! Eu o percebi. Eu até vo-lo disse. Estais lembrados?

– Sim. É verdade –confirmam todos.

– Pois bem. Agora vós me entregais o que Eu vos dei.

– Tu jejuaste, Senhor? –pergunta André.

– Sem dúvida! Ainda que tivesse querido comer, estando em uma gruta, e sem dinheiro, como quererias que Ele comesse? –responde Pedro.

– Por causa de nós. Como eu sinto com isso –diz Tiago de Alfeu.

– Oh! Não. Não vos aflijais com isso! Não foi só por causa de vós. Foi também pelo mundo todo. 325.6Como Eu fiz, quando iniciei a minha missão, assim fiz também agora. Naquela vez, Eu fui, no fim, socorrido pelos anjos. Agora, sou socorrido por vós. E, podeis crer, Eu tenho uma dupla alegria. Porque nos anjos é insubstituível o ministério da caridade. Mas nos homens ele é menos fácil de cumprir-se. Vós o estais exercendo. E, por meu amor, vos transformastes de homens em anjos, tendo escolhido a santidade apesar de tudo. Por isso, me fazeis feliz como Deus e como Homem-Deus. Porque me dais o que é de Deus: a Caridade, e me dais o que é do Redentor: a vossa elevação à Perfeição. Isto me vem de vós e é mais nutritivo do que qualquer alimento. Também naquele tempo, no deserto, Eu fui nutrido pelo amor, após o jejum. E por ele fui restaurado. Assim acontece agora. Todos nós tivemos que sofrer. Eu e vós. Mas não foi um sofrimento inútil. Eu creio, eu sei que esse sofrimento vos ajudou mais que um ano inteiro de ensinamento. A dor, a meditação sobre o que pode fazer de mal o homem a um seu semelhante, a piedade, a fé, a esperança que tivestes que exercitar, e estando sozinhos, vos fizeram amadurecer, como meninos que se tornaram homens…

– Oh! Sim. Eu me tornei velho. Não serei mais o Simão de Jonas que eu era quando partimos. Compreendi como é dolorosa, cansativa, em sua beleza, a nossa missão… –suspira Pedro…

– Pois bem, agora que estamos aqui juntos, 325.7contai-me…

– Fala tu, Simão. Tu sabes falar melhor do que eu –diz Pedro ao Zelotes.

– Não. Tu, como um valoroso chefe, conta por todos –responde o outro.

E Pedro começa, dizendo como introdução:

– Mas vós ajudai-me.

Ele conta ordenadamente até a partida para Antioquia. Depois começa a narrar como foi a volta:

– Estávamos todos sofrendo, sabes? Nunca mais me esquecerei das últimas palavras daqueles dois…

Pedro enxuga com as costas da mão duas grandes lágrimas, que irrompem imprevistas…

– Eles me pareceram o último grito de alguém que está se afogando… Mas, afinal, falai vós… eu não posso… –e se levanta, indo um pouco para longe dali, para ver se consegue controlar sua emoção.

Fala, então, Simão Zelotes:

– Nós não falamos, nenhum de nós, por muito tempo, na viagem… Não podíamos falar… A garganta nos doía, pelo tanto que estava cheia de pranto… E nós não queríamos chorar… porque, se tivéssemos começado, ainda que fosse um só, tudo haveria terminado. Eu tinha pego as rédeas, porque Simão de Jonas, para não deixar que se percebesse que ele estava chorando, foi para o fundo do carro e estava revistando as sacolas. Nós paramos em um pequeno povoado, a meio caminho, entre Antioquia e Selêucia. Por mais que a lua fosse se tornando clara, tanto mais a noite ia se tornando alta também, e nós, pouco práticos como éramos, resolvemos parar lá. E ficamos cochilando, vestidos como estávamos. Não comemos, nenhum de nós… porque não podíamos. Nós estávamos pensando naqueles dois… Aos primeiros clarões da aurora, atravessamos a ponte e, antes da hora de tércia, chegamos a Selêucia. Levamos o carro e o cavalo ao albergador e — era um homem muito bom — nos aconselhamos com ele a respeito do navio. Ele disse: “Eu mesmo vou ao porto, Sou conhecido lá, e conheço as pessoas.” E assim ele fez. Descobriu três navios que estavam de partida para estes portos. Mas sobre um deles estavam certos seres que não quisemos ter como vizinhos. Assim no-lo disse o homem, que o ficou sabendo pelo capitão do navio. O segundo era de Ascalon, e não queria fazer escala para nós em Tiro, a não ser que nós pagássemos uma soma, que nós não tínhamos mais. O terceiro era um navio pequeno, muito sem conforto, carregado de madeira em toras. Era uma pobre barca sem equipagem, e creio eu que com muita miséria. Por isso, ainda que se estivesse dirigindo para Cesaréia, consentiu em parar em Tiro, desembolsando nós um dia de comida e de pagamento a toda a tripulação. Isso nos convinha. Eu, na verdade, e comigo estava Mateus, me achava com um pouco de medo. É tempo de tempestades… e Tu sabes o que foi que encontramos na ida. Mas Simão Pedro disse: “Não acontecerá nada.” Então, subimos para bordo. Parecia que as velas do navio eram anjos, de tão macio e veloz que ele ia. Foi menos da metade do tempo que gastamos na ida para chegarmos a Tiro, e o capitão foi tão bom que nos consentiu levar a barca a reboque, até perto de Ptolemaida. Dentro dela desceram Pedro e André, com João, para as manobras. Mas era muito simples… Não como na ida… Em Ptolemaida nos separamos. E estávamos tão contentes, que lhe demos até dinheiro além do ajustado, antes de descermos todos para a barca, onde já estavam nossas coisas. Em Ptolemaida paramos um dia, e depois viemos para cá… Mas não nos esqueceremos mais do que sofremos. Simão de Jonas tem razão.

– Não temos razão também nós, ao dizermos que o demônio nos criava obstáculos na ida? –perguntam alguns deles.

– Tendes razão. 325.8Agora, escutai. A vossa missão se acabou. Agora vamos voltar para Jeftael, onde esperaremos Filipe e Natanael. E é preciso irmos logo. Depois virão os outros… Enquanto isso, iremos evangelizando por aqui, nos confins da Fenícia, e na própria Fenícia. Mas tudo o que aconteceu fique sepultado para sempre nos nossos corações. A nenhuma pergunta se dará resposta.

– Nem mesmo a Filipe e a Natanael? Eles sabem que nós viemos contigo…

– Eu lhes falarei. Eu sofri muito, meus amigos, e vós o vistes. Eu paguei com o meu sofrimento a paz de João e de Síntique. Fazei que o meu sofrimento não seja inútil. Não aumenteis com mais um peso o que Eu já tenho sobre os meus ombros. Eu já tenho tantos!… E o peso deles cresce dia a dia, hora por hora… Dizei a Natanael que Eu sofri muito. Dizei-o também a Filipe, e que eles sejam bons. Dizei-o aos outros dois. Mas não digais nada mais do que isto. Dizer que compreendestes que Eu sofri, e que Eu vo-lo confirmei, é verdade. Não é preciso dizer mais.

Jesus fala, muito cansado… Os oito olham para Ele, compadecidos, e Pedro ousa acariciá-lo na cabeça, estando por detrás dele. Jesus levanta a cabeça e olha para o seu bom Simão, com um sorriso de afetuosa tristeza.

– Oh! Não posso ver-te assim! Parece-me, e tenho a impressão de que a alegria da nossa união cessou e que dela só resta a santidade. Enquanto isso, vamos indo para Aqzib. Lá tu mudarás a roupa, rasparás a barba e pentearás os cabelos. Assim, não. Não te posso ver assim… Pareces-me alguém que escapuliu de mãos cruéis, um espancado, um exausto… Pareces-me o Abel2 de Belém da Galiléia, libertado de seus inimigos…

– Sim, Pedro. Mas é o coração do teu Mestre que está maltratado… e ele não ficará bom nunca mais… será sempre mais ferido. Vamos…

325.9 João suspira:

– Isso me desagrada… Eu teria querido contar a Tomé, tão amigo de tua Mãe, o milagre da canção e do ungüento…

– Tu o dirás um dia… Agora, não. Tudo vós direis um dia. Só então é que podereis falar. Eu mesmo vos direi: “Ide dizer tudo o que sabeis.” Mas, por enquanto, saibam ver no milagre a verdade. É esta: o poder da fé. Tanto João, como Síntique acalmaram o mar e curaram o homem, não com palavras, nem pelo ungüento. Mas pela fé com que eles usaram o nome de Maria e o ungüento feito por ela. E ainda: isto aconteceu porque, ao redor da fé deles, estava a vossa, a de todos vós, e a vossa caridade. Caridade para com o ferido. Caridade para com o cretense. A um vós quisestes conservar a vida e ao outro dar a fé. Mas, se ainda é fácil curar os corpos, é coisa bem dura curar os espíritos. Não há doença mais difícil de ser debelada do que a espiritual…

E Jesus dá um forte suspiro.

Estou vendo Aqzib. Pedro vai à frente com Mateus para achar alojamento. Acompanham-no os outros, muito juntos ao redor de Jesus. No ocidente o sol vai descendo com rapidez, enquanto eles vão entrando no povoado.

1 norte. Acompanham, o manuscrito original, as palavras o lugar é assim e no esboço de MV: eles relatam na página virada para as necessidades de layout de página. No esboço se lê, no lado oeste (de cima para baixo): Mar Mediterrâneo, Ptolemaida, Sicaminon, Quisom, Carmelo, e na encosta leste: Aczibe, aqui embaixo deve ser Jiftael. Também vamos ver os quatro pontos cardeais.
2 Abel, o jovem protagonista do episódio narrado em 248.5/11.


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