134. 134. A cura de Jerusa em Doco.


19 de março de 1945.

[…].

134.1 Vejo: Jesus, na primeira luz de uma sombria manhã de inverno, entra na pequena cidade de Doco e a um madrugador que vai passando, pergunta:

– Onde é que mora a Mariana, a velha mãe da nora que está à morte?

– Mariana? A viúva de Levi? A sogra da Jerusa, mulher do Josias?

– Ela mesma.

– Olha, homem. No fim desta rua há uma praça, e no canto há uma fonte. Dali saem três estradas. Pega a que tem no centro uma palmeira e caminha ainda cem passos. Encontrarás um rego. Segue-o até à ponte de madeira. Atravessa-a e verás uma ruazinha coberta. Vai por ela. Quando acabar a rua e a coberta, porque desemboca em uma praça, terás chegado. A casa de Mariana tem uma cor de ouro, porque é velha. E com as despesas que eles têm, não a podem limpar. Não vás errar. Adeus. Estás vindo de longe?

– Não muito.

– Mas és Galileu?

– Sim.

– E estes? Estão vindo para a festa?

– São meus amigos. Adeus, homem. A paz esteja contigo.

Jesus deixa só o falador, que não tem mais pressa, e vai pelo seu caminho. E os apóstolos atrás.

Chegam à… pracinha: uma área de terra muito barrenta, tendo no centro um alto carvalho, que aí cresceu como se fôsse o dono e que, talvez no verão, oferece um bom abrigo. Por enquanto, ele só oferece melancolia, tão cerrado e escuro, mais alto que as pobres casas, não deixa que tomem luz e sol.

A casa da Mariana é a mais pobrezinha. Larga e baixa, mas tão necessitada de cuidados! O portão está cheio de remendos colocados sobre as rachaduras de uma madeira já muito velha. Uma janelinha, que já nem tem mais batentes, mais parece um buraco preto, como se fôsse a cavidade onde antes já existiu um olho.

134.2 Jesus bate palmas junto ao portão. Vem uma menininha dos seus dez anos, pálida, despenteada, com os olhos vermelhos.

– És tu a netinha da Mariana? Vai dizer à vovó que Jesus está aqui.

A menina dá um grito e sai correndo, chamando em alta voz. A velha vem correndo, seguida por seis crianças, além da mocinha de antes. A maior parece ser um menino gêmeo dela. Os últimos são dois pequerruchos que estão agarrados à saia da velha, descalços e magros e mal sabem caminhar suficientemente bem.

– Oh! Tu vieste! Filhos, venerai o Messias! Bem-vindos à minha pobre casa. Minha filha está à morte… Não choreis, crianças, para que ela não ouça! Pobres criaturas! As meninas estão acabadas pelas vigílias, porque eu faço tudo, mas fazer vigília não posso mais, pois caio no chão de tanto sono. São meses que não vejo cama. Agora durmo sentada numa cadeira, para estar perto dela e das meninas. Mas elas são pequenas e sofrem com isso. Os meninos vão buscar lenha para conservarmos o fogo aceso e vendem parte da lenha para comprarmos pão. Também eles vão definhando, os coitados dos meus netos! Mas o que nos está matando não é a canseira, mas, ver que ela está morrendo… Não fiqueis chorando. Temos Jesus.

– Sim, não choreis. A mamãe vai sarar, o papai vai voltar, não tereis mais tantas despesas, nem tanta fome. Estes são os dois últimos?

– Sim, Senhor. Esta pobre criatura deu à luz gêmeos três vezes… e ficou mal do peito.

– A uns demais e a outros nada –resmunga Pedro, por entre a barba.

Depois, pega um pequenino e lhe dá uma maçã, para fazê-lo calar-se.

E enquanto o outro menino também lhe pede uma e Pedro o contenta, 134.3Jesus vai com a velha além do átrio e sobe uma escada para entrar num quarto, onde está gemendo uma mulher jovem, mas esquelética.

– É o Messias, Jerusa. Agora não sofrerás mais. Estás vendo como Ele veio mesmo? Isaque nunca mente. Ele o disse. Crê, portanto, que assim como veio, te pode curar.

– Sim, boa mãe. Sim, meu Senhor. Mas se não me podes curar, faz pelo menos que eu morra. Tenho os cães em meu peito. As bocas dos meus filhos às quais dei leite doce, me pagaram com fogo e amargor. Estou sofrendo tanto, Senhor! Estou dando tantas despesas! Meu marido está longe, por causa do nosso sustento. A velha mãe está se acabando. Eu estou morrendo… Com quem vão ficar os filhos, quando eu morrer, deste mal, e ela, de cansaço e privações?

– Dos pássaros Deus toma conta e também dos filhinhos do homem. Mas tu não morrerás. Sentes muita dor aqui?

Jesus faz um gesto como quem vai pousar a mão sobre o seio envolto em faixas.

– Não me toques! Não me aumentes a dor! –grita a doente.

Mas Jesus pousa delicadamente sua longa mão sobre a mama doente.

– Realmente tem fogo por dentro, pobre Jerusa. O amor materno virou fogo em teu seio. Mas tu não tens ódio ao esposo e aos meninos, não é verdade?

– Oh! Por que deveria? Ele é bom e sempre me amou. Com sábio amor nos amamos e esse amor floresceu em filhos… E eles!! Angustio-me por ter que deixá-los, mas… Senhor! Mas o fogo está cessando! Mãe! Mãe! É como se um anjo estivesse soprando o ar do Céu sobre o meu tormento! Oh! que paz! Não tires, não tires a tua mão, meu Senhor. Ao contrário, aperta-a. Oh! que força, que alegria! Os meus filhos! Aqui os meus filhos! Eu os quero! Dina! Osias! Ana! Seba! Melqui! Davi! Judas! Aqui! Aqui! A mãe não vai mais morrer! Oh!!

A jovem se vira sobre as almofadas, chorando de alegria, enquanto acorrem os filhos 134.4e a velha, de joelhos, que não sabendo em sua alegria, fazer outra coisa, entoa o canto de Azarias na fornalha ardente e o diz todo com sua voz trêmula por causa da velhice e da comoção.

– Oh! Senhor! Que é que te posso fazer? Não tenho nada com que dar-te honra! –diz por fim.

Jesus a faz levantar-se e diz:

– Deixa-me somente descansar do meu cansaço. E fica calada. O mundo não me ama. Eu devo ir-me embora por algum tempo. Eu te peço fidelidade a Deus e silêncio. Peço-o a ti, à esposa e aos pequenos.

– Oh! Não tenhas medo! Ninguém vem à casa de quem é pobre! Podes ficar aqui sem medo de seres visto. Os fariseus, não? Mas… e para comermos? Eu só tenho um pouco de pão…

Jesus chama Iscariotes:

– Pega o dinheiro e vai comprar tudo o que é preciso. Comeremos e descansaremos juntos com estas boas pessoas. Ficaremos aqui até a tarde. Vai e cala-te.

Depois Jesus se vira para a curada:

– Tira as faixas, levanta-te, ajuda a tua mãe e jubila-te. Deus te concedeu graça, por ter piedade de tuas virtudes de esposa. Iremos partir o pão juntos, porque hoje o Senhor Altíssimo está em tua casa e é preciso celebrar este acontecimento com uma festa completa.

E Jesus sai, alcançando Judas, que está para sair:

– Comprarás com abundância. Que eles tenham também para os dias futuros. A nós não faltará nada em casa de Lázaro.

– Sim, Mestre. E, se me permites… Tenho algum dinheiro meu. Fiz voto de oferecê-lo pela tua salvação das mãos dos teus inimigos. Eu o transformo em pães. É melhor dá-lo a estes irmãos em Deus, do que pô-lo nas goelas do Templo. Permites? O ouro para mim foi sempre uma serpente. Não quero mais o seu fascínio. Porque me sinto tão bem, agora que sou bom. Sinto-me livre. E sou feliz.

– Faz como quiseres, Judas. O Senhor te dê paz.

Jesus vai ao encontro dos discípulos, enquanto Judas sai e tudo termina.

[…].