317. 317. A oração de Jesus pela salvação de Judas Iscariotes.


2 de novembro de 1945.

317.1 Jesus está de novo aos pés do maciço sobre o qual está construída Jeftael. Mas Ele não está na estrada mestra (digamos assim), isto é, o caminho por onde passaram antes com a carroça. Ele está indo por uma trilha de cabritos, muito escarpada, cheia de estilhaços e de rachaduras profundas, como se tivesse sido colada ao monte, ou riscada por alguma unha descomunal, limitada por um precipício, que se abre a pique sobre novas profundezas, no fundo das quais espuma raivosa a torrente. Pôr um pé em falso num lugar destes é o mesmo que precipitar-se sem esperança, tendo-se que ir pulando de uma moita de espinheiro ou de outros arbustos selvagens em outra, moitas nascidas não sei como, por entre as fendas do rochedo, e não conservando a linha vertical própria das plantas, mas uma linha oblíqua, ou até horizontal, pelas quais se delimita o seu habitat. Pôr um pé em falso num lugar destes quer dizer fazer-se dilacerar por todos os pentes espinhosos destes arbustos, ou ficar com os rins despedaçados nos choques contra os troncos rígidos, que se estendem sobre o abismo. Pôr um pé em falso quer dizer ser rasgado pelas pontas agudas das pedras que se projetam das paredes do precipício. Pôr um pé em falso aí quer dizer chegar sangrando e todo quebrado, às águas espumantes da torrente e ir afogar-se nelas, ficando submerso sobre um leito de pedras pontudas, batidas por águas violentas.

Apesar de tudo, Jesus vai percorrendo este caminho, este arranhão feito na rocha, e tornado ainda mais perigoso pela umidade, que sai vaporizada da torrente, e escorre da parede do lado de cima e a pique, e eu diria que até ligeiramente côncava.

Eu me esforço para mostrar ao leitor este lugar1 infernal no desenho.

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Ele vai indo devagar, cauteloso, medindo os passos sobre as pedras aguçadas, algumas delas soltas, obrigado algumas vezes a ir passando rente à parede, de tanto que o caminho se estreita. E, para conseguir passar por pontos que são sobremaneira perigosos, Ele precisa agarrar-se aos ramos, que estão pendurados da parede. Ela continua pelo lado norte, chegando mais adiante ao lado sul, no qual o monte, depois de ter descido perpendicularmente do cume, torna-se côncavo mais do que em outros pontos, dando mais comodidade pela largura do caminho, mas, em compensação, tirando-a, por causa da altura, tanto que em certos pontos, Jesus precisa andar de cabeça inclinada, para não bater a testa no rochedo.

317.2 Talvez Ele tenha a intenção de parar ali, onde o caminho termina bruscamente, como se lá houvesse algum desmoronamento. Mas, observando, Ele vê que, por baixo da saliência, há uma caverna, mais uma fenda no monte, do que uma caverna, e para lá Ele desce, indo por cima das pedras desmoronadas. Jesus entra. Há uma rachadura logo no começo, com uma ampla gruta em seu interior, como se o monte tivesse sido escavado muito tempo antes, e a golpes de picareta, não se sabe para quê, e vê-se nitidamente onde às curvas naturais da rocha associaram-se as produzidas pelo homem, o qual, no lado oposto à rachadura da entrada, abriu uma espécie de longo corredor, em cujo fundo se nota, numa fraca claridade, as formas de uns bosques distantes, e tudo nos faz ver que o corredor penetra do sul para o leste, atravessando o esporão do monte.

Jesus vai entrando por aquele caminho subterraneo, semi-escuro e estreito, e o percorre até chegar à saída, que está por cima da estrada, por onde passaram Ele, os apóstolos e a carroça com que eles subiram para Jeftael. Os montes, que contornam o lago da Galiléia, estão à frente dele, do outro lado do vale e na direção noroeste, onde está brilhando o grande Hermon, em sua veste de neve. Uma tosca escadinha está escavada num dos lados do monte, que aqui não é muito vertical, nem nas subidas, nem nas descidas, e esta escadinha conduz àquele caminho estreito, que passa pelo vale, e chega até o cume, onde está o povoado de Jeftael.

Jesus está contente com a exploração que fez. Ele volta para trás, até à ampla caverna, procura nela um ponto mais abrigado, onde amontoa as folhas secas, levadas pelo vento para dentro da caverna. É uma cama bem pobre, uma camada de folhas secas, postas entre o seu corpo e o solo nu e gelado… Ele se deixa cair em cima daquilo, e lá fica estendido e quieto, com as mãos por baixo da cabeça, o olhar fixado na abóbada rochosa, absorto, eu diria, como alguém que está atordoado por ter feito algum grande esforço ou passado alguma dor superior às suas forças.

317.3Depois, lágrimas lentas, mas sem soluços, começam a descer de seus olhos e a cair dos dois lados do rosto, sumindo por entre os cabelos, passando por perto das orelhas, e desaparecendo pelo meio da folhagem seca…

Fica assim chorando por longo tempo, sem falar e sem mover-se… Depois se assenta e, com a cabeça por entre os joelhos, levantados e abraçados pelas mãos, que estão cruzadas, chama, com toda sua alma, a Mãe, que está distante:

– Minha Mãe! Minha Mãe! Minha eterna doçura! Oh! Minha Mãe! Oh! Minha Mãe! Oh! Minha Mãe! Como Eu gostaria que estivesses aqui perto! Por que é que não te tenho sempre, ó meu único conforto de Deus?

Somente a gruta profunda é que responde, com o murmúrio de um eco imperfeito, aos seus soluços, e parece chorar e soluçar também ela, em suas arestas, em suas pedras, e as poucas e ainda pequenas estalactites, que estão penduradas a um canto, que talvez seja o mais exposto à força da circulação das águas interiores.

O pranto de Jesus continua, ainda que calmo, como se só ter invocado sua Mãe já o tivesse consolado, e lentamente se transformado em um diálogo.

– Eles lá se foram… E por quê? E por quem? Por que Eu tive que dar esta dor? E por que me haverão de dá-la, se com ela o mundo já me enche o dia?… Judas!…

Quem saberá por onde anda agora o pensamento de Jesus, que está levantando a cabeça dentre os joelhos, e olhando para diante de Si, com uns olhos arregalados e um rosto tenso de quem está absorvido por visões espirituais do futuro ou por uma profunda meditação. Ele não chora mais chamando, mas sofre visivelmente. Pois parece estar respondendo a um interlocutor invisível. E, para melhor fazê-lo, Ele se põe de pé.

– Eu sou homem, meu Pai. Eu sou homem. A virtude da amizade, ferida e dilacerada em Mim, se torce e se lamenta dolorosamente…

Eu sei que devo sofrer tudo. Eu sei. Como Deus, Eu sei, e, como Deus, Eu quero para o bem do mundo, também como homem. Eu sei, porque o meu espírito divino o comunica à minha humanidade. E até como homem Eu quero, para o bem do mundo. Mas, que dor, ó meu Pai!

Esta hora é muito mais penosa do que aquela que Eu vivi com o teu e com o meu Espírito no deserto2… E é bem mais forte a tentação presente de não amar e de não suportar ao meu lado este ser viscoso e tortuoso, que tem o nome de Judas, a causa da grande dor que me abebera e me sacia, e que tortura as almas às quais Eu já havia dado a paz.

317.4 Pai, Eu sinto. Tu te fazes severo com o teu Filho à medida que Eu me vou me aproximando do fim desta minha expiação em favor do gênero humano. Sempre mais vai-se afastando de Mim a tua doçura, e o teu rosto se mostra severo para com o meu espírito, que vem sendo sempre rejeitado em sua parte mais profunda, naquela em que a humanidade, atingida pelo teu castigo, vem gemendo, há milênios.

Para Mim era doce o sofrer, era doce o caminho para o início da existência, doce também, quando de filho do carpinteiro Eu me tornei Mestre do mundo, afastando-me de minha Mãe para dar-te, ó Pai, ao homem decaído. Era-me doce também, em comparação com esta hora, a luta com o Inimigo, na Tentação no deserto. Eu o enfrentei com a galhardia de um herói que tem força total… Oh! Meu Pai!… como agora as minhas forças estão sob o peso do desamor e de muitas e muitas coisas demais…

Satanás, Eu sabia, depois de terminada a tentação, se teria ido embora, e de fato se foi, e os anjos vieram consolar o teu Filho feito homem, porque, como tal é que Ele era objeto da tentação do Demônio.

Mas agora ela não cessará, quando tiver passado esta hora, na qual o Amigo está sofrendo pelos amigos, por Ele mandados para longe, e pelo amigo perjuro, que o prejudica, tanto de perto como de longe. Ela não cessará. Não virão mais os teus anjos consolar-me nessa hora. Mas quem virá vai ser o mundo. Com todo o seu ódio, com sua derisão, sua incompreensão. Mas virá, e estará sempre mais perto, mais tortuoso e viscoso, o perjuro, o traidor, o vendido a Satanás. Meu Pai!…

É verdadeiramente um grito dilacerante de espanto, de invocação, e Jesus se agita, o que me faz pensar na hora do Getsêmani.

– Pai, Eu sei. Eu o vejo… Enquanto Eu aqui sofro e sofrerei, Eu te ofereço o meu sofrimento pela conversão deles, e por aqueles, que me foram arrancados dos braços, e que vão indo com seus corações traspassados, para os seus destinos, e ele se vende, para tornar-se maior do que Eu, o Filho do homem!

Sou Eu, não é verdade, o Filho do homem? Sim. Mas não sou o único a ser. A humanidade, esta Eva prolífica, gerou os seus filhos e, se Eu sou o Inocente Abel, não falta um Caim entre os filhos da humanidade. E se Eu sou o Primogênito, porque Eu o sou, como teriam devido ser os filhos do homem, sem mancha diante de teus olhos, ele, que foi gerado no pecado, é o primeiro daquilo que se tornaram depois aqueles que morderam o fruto envenenado. E agora, não saciados por terem em si os estímulos repugnantes e blasfemos da mentira, da falta de caridade, a sede de sangue, a avidez de dinheiro, a soberba e a luxúria, se endemoninharam, para serem, em vez de homens, que podiam chegar a ser anjos, a ser homens que se tornam demônios3… E Lúcifer quis ser semelhante a Deus, e por isso foi expulso do Paraíso e, transformado em demônio, foi morar no Inferno.

317.5 Mas, meu Pai! Oh! Meu Pai! Eu o amo… Eu o amo ainda. Ele é um homem… É um daqueles pelos quais Eu te deixei… Pela minha humilhação, salva-o… concede-me que Eu possa redimi-lo, Senhor Altíssimo! Esta penitência seja mais por ele do que pelos outros! Oh! Eu sei qual a incongruência do que Eu estou pedindo, Eu que sei tudo o que existe!… Mas, meu Pai, deixa de ver, por um momento, em Mim o teu Verbo! Contempla somente a minha Humanidade do Justo na tua graça, do Homem que não conhece o futuro, e que pode iludir-se… o Homem que, não conhecendo o inevitável fato, pode rezar, com esperança absoluta, para conseguir arrancar-te o milagre. Um milagre! Um milagre concedido a Jesus de Nazaré, a Jesus de Maria de Nazaré, a nossa eterna amada! Um milagre que profane o que está escrito, e o cancele! A salvação de Judas! Ele viveu a meu lado, bebeu as minhas palavras, participou comigo das refeições, dormiu sobre o meu peito… Não ele. Não seja ele o meu Satanás!…

Eu não te peço para não ser traído… Isso terá que ser, e será… para que sejam, pela minha dor de traído, anuladas todas as mentiras, como pela minha dor de vendido, sejam expiadas todas as avarezas, como pelo meu tormento de blasfemado sejam reparadas todas as blasfêmias, como por não ser acreditado seja concedida a fé àqueles que sem fé estão e estarão, pela minha tortura sejam limpas todas as culpas da carne… Mas, te peço: não ele, não ele, Judas, o meu amigo, o meu apóstolo!

Nenhum Eu quereria que fosse o traidor… Nenhum… nem mesmo o que estivesse mais longe, no meio dos gelos do Norte, ou por entre os calores da zona tórrida… Eu quereria que o Sacrificador fosse Tu somente… como em outras vezes já o foste, incendiando4 os holocaustos com os teus fogos… Mas, posto que devo morrer pela mão do homem, e que mais do que o carrasco real, será carrasco o amigo traidor, a podridão que terá em si o fedor de Satanás, ele já o aspira em si, para ser semelhante a Mim no poder… assim ele pensa, em seu orgulho e em sua luxúria; já que pela mão do homem Eu devo morrer, ó Pai, concede-me que não seja aquele a quem Eu dei o nome de amigo, e que é amado como tal, que não seja ele o traidor.

Multiplica, Pai meu, as minhas torturas, mas dá-me a alma de Judas… Coloco esta oração sobre o altar da minha Pessoa vítima… Meu Pai, acolhe esta oferta!…

317.6 O Céu está fechado e mudo!… É, então, este o horror que haverei de ter comigo até à Morte? O Céu está fechado e mudo!… Será, então, este o silêncio e o cárcere onde entregarei o meu espírito? O Céu está fechado e mudo!… Esta será então, a suprema tortura do Mártir?…

Pai, seja feita a tua vontade, e não a minha… Mas, pelos meus sofrimentos, oh! Pelo menos isto! Pelos meus sofrimentos, dá paz e esperança ao outro mártir de Judas, João de Endor, ó meu Pai… Ele realmente é melhor do que muitos. Ele percorreu um caminho que poucos sabem e saberão. Para ele tudo da Redenção já está cumprido. Dá-lhe, pois, a tua paz plena e completa, para que Eu o tenha na minha glória, quando o que se refere a Mim se tiver completado, para tua honra e obediência… Meu Pai!…

Jesus pouco a pouco se tinha ido pondo de joelhos, e agora está chorando com o rosto no chão, rezando, enquanto a luz de um curto dia de inverno vai diminuindo prematuramente na caverna escura, enquanto o barulho da torrente parece crescer, como uma voz tanto mais forte, quanto mais vai escurecendo a sombra no vale…

1 lugar, de que MV fez o esboço que reproduzimos. No centro está a montanha de Jiftael com o pico Jiftael, que é acessado a partir do oeste pela trilha de mulas. Para o sudoeste é o caminho para Ptolemaida e Sudeste o caminho feito por Jesus, sob a qual é a ravina com um córrego no fundo.
2 no deserto, 46.3/10. No que diz respeito a essa tentação, MV faz a seguinte observação numa cópia datilografada: luta entre as duas naturezas unidas em Cristo. Como Deus só podia amar. Como o homem não podia deixar de sentir desprezo pelo falso discípulo. Na passagem para o fim de sua missão redentora, intuia a preparação do abandono paterno, que teria sido total nas horas da Paixão. O grande solitário e desconhecido, que era o Verbo que se fez carne, vivendo entre os homens, sempre se sentiu sozinho e desconhecido. Apenas a mãe o conhecia realmente e foi sua companheira perfeita. Nos outros, quanto mais perto do momento da redenção, mais cresciam os mal-entendidos, o ódio ou o abandono. A paixão sem derramamento de sangue, mas sempre paixão. E ainda, no que diz respeito à oração que se segue em 317.5, MV comenta: Esta oração ao Pai, não surpreenda aos supercríticos. É o evangelho que Cristo foi tentado como homem no deserto e sofreu até suar sangue em sua luta de Homem, um Homem só não mais suportado pela Divindade, no Getsêmani, na noite de Quinta-Feira Santa. Esta é outra das suas horas de homem real, totalmente homem, o amor e sujeito ao sofrimento humano, Nele perfeita, porque perfeita entre todos os homens. Das tentações da natureza humana de Jesus, unidos à Sua natureza divina, tratam também as notas: 46.5 - 47.6 - 54.5 - 69.5 - 80.10 - 174.9 - 203.12 - 527.7 - 540.12 - 567.20/23 - 602.17 - 603.6/7 - 610.16.
3 demônios... A frase seguinte parece obtida com palavras novas de: Isaías 14,12-15.
4 incendiando, como em Levítico 9,24; Juízes 6,21; 1 Reis 18,38; 1 Crônicas 21,26; 2 Crônicas 7,1.


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