415. 415. Breve permanência em Betânia.


11 de abril de 1946.

415.1 O pôr-do-sol já está avermelhando o céu, quando Jesus chega a Betânia. Escaldados pelo Sol e empoeirados, os seus o acompanham. E Jesus com os seus apóstolos são os únicos a desafiarem o calor da estrada, à qual pouca proteção oferecem as árvores que a acompanham, desde o Monte das Oliveiras até pelo declive de Betânia.

O verão está furioso. Mas o ódio está ainda mais. Os campos estão desnudados e torrados, verdadeiras fornalhas, que sopram um ar afogueado. Pois os ânimos dos inimigos de Jesus estão ainda mais desnudados, despidos, já não direi de amor, mas de honestidade, e até direi de moral humana, afogueados pelo ódio… E não há mais do que uma casa para Jesus. Não mais do que um refúgio: o de Betânia. Lá existe amor, refrigério, proteção, fidelidade… O peregrino perseguido para lá se dirige com o seu hábito branco e com seu rosto entristecido, com uns passos já cansados de quem não pode mais parar, porque recebe de seus inimigos aguilhoadas sobre os rins, e, com o olhar resignado de quem já está vendo a própria morte, que vem se aproximando a cada hora, a cada passo, e que Ele já aceita por obediência a Deus…

A casa, que fica no meio de um espaçoso jardim, está toda fechada e silenciosa, esperando por horas mais frescas. O jardim está como um lugar deserto onde não se ouve nenhuma voz e onde o sol reina como um déspota.

415.2 Tomé está falando com sua voz de barítono. Um toldo se levanta e uns olhos olham de soslaio… Depois se ouve um grito:

– O Mestre!

E os servos se põem a correr para fora, acompanhados pelas espantadas patroas, que certamente não estavam esperando Jesus aquela hora, ainda quente como um fogo.

– Raboni!

– Meu Senhor!

Marta e Maria o saúdam de longe, já inclinadas, prontas para a prostração, que fazem, logo que se abre a cancela, quando Jesus não está mais separado delas.

– Marta, Maria: a paz esteja convosco e com a vossa casa.

– A paz esteja contigo, Mestre e Senhor… Mas, numa hora destas?

–perguntam as irmãs, tendo despachado os servos, para que Jesus possa falar livremente.

– Para repousar o corpo e o espírito onde não me odeiem… –diz Jesus com tristeza, estendendo as mãos, como para dizer: “Vós me quereis.” Se esforça para sorrir, mas com um sorriso muito triste e desmentido pelo olhar de uns olhos cheios de dor.

– Fizeram-te algum mal? –pergunta Maria se inflamando.

– O que te aconteceu? –pergunta Marta.

E, com um ar maternal, acrescenta:

– Vem, que eu te darei um alívio. Desde que hora é que vens caminhando, para estares assim tão cansado?

– Desde o romper da aurora… e posso dizer que sem parar, porque a breve parada na casa de Elquias, o sinedrita, foi pior do que um longo caminho…

– Ali te angustiaram?…

– Sim… e antes no Templo…

– Por que foste à casa daquela serpente? –interroga Maria.

– Porque, se lá Eu não fosse, isso teria servido para justificar o ódio dele, que me teria acusado de desprezar os membros do Sinédrio. Mas agora, que Eu vá ou não vá, a medida do ódio dos fariseus está cheia… e não me darão mais trégua…

– Já chegamos a esse ponto? Fica conosco, Mestre. Aqui não te farão mal…

– Eu faltaria à minha missão… Muitas almas estão esperando o seu Salvador. Eu devo ir…

– Mas eles te impedirão de ir a elas!

– Não. Eles me perseguirão, fazendo que Eu ande, para poderem estudar todos os meus passos, cada palavra minha, vigiando-me, como os sabujos que farejam sua presa, para terem um pretexto que possa parecer uma culpa… e tudo servirá…

Marta, sempre tão cautelosa, está tão cheia de dó, que levanta a mão, como para fazer uma carícia sobre aquela face emagrecida, mas ela se contém, enrubescendo, e diz:

– Perdoa-me! Tu me deste tanta pena como a que me dá o nosso Lázaro. Por ter-te amado como a um irmão que sofre, perdoa-me, Senhor!

– Eu sou o irmão sofredor… Amai-me com puro amor de irmãs… 415.3Mas, Lázaro, que é que ele está fazendo?

– Foi-se enfraquecendo, pouco a pouco, Senhor –responde Maria, e, entre lágrimas, que já lhe estão brotando dos olhos, procura um livre desafogo com esta confissão, que se une à pena de ver o seu Mestre tão aflito.

– Não chores, Maria. Nem por Mim, nem por ele. Nós fazemos a vontade divina. Deve-se chorar é por quem não cumpre esta vontade…

Maria se inclina para pegar a mão e a beija na ponta dos dedos.

Enquanto isso, já vão chegando à casa, e vão entrando, e indo logo a Lázaro, e os apóstolos ficam parados, e vão tomando uns refrescos que os servos lhes oferecem.

Jesus se inclina sobre o cada vez mais macilento Lázaro e o beija sorrindo para aliviar a tristeza do seu amigo.

– Mestre, como me amas! Não ficaste nem esperando a tarde para vires a mim. E com este calor…

– Meu amigo, Eu me alegro contigo, e tu comigo. Tudo mais nada é.

– É verdade. Nada é. Até o meu sofrimento para mim não é mais nada… Agora eu sei por que é que sofro e o que é que posso com o meu sofrimento.

E Lázaro sorri de um modo íntimo, com um sorriso espiritual.

– Assim é, Mestre. Quase se diria que o nosso Lázaro está enfrentando com prazer a enfermidade e…

Um soluço interrompe a voz de Marta, que se cala.

– Mas sim, dize-o logo: e a morte. Mestre, dize-lhes que me devem ajudar, como os levitas ao lado dos sacerdotes.

– Ajudar em quê, meu amigo?

– A consumar o sacrifício…

– E, no entanto tu tremias, pensando na morte, até há pouco tempo atrás! Será que não nos amas mais? Não amas mais ao Mestre? Não o queres servir? –pergunta com voz forte, mas pálida de dó, Maria, acariciando a mão amarelada do irmão.

– E o perguntas tu, logo tu, alma ardente e generosa? Eu não sou teu irmão? Não tenho o mesmo sangue que tu, e os teus mesmos santos amores: Jesus, as almas e vós, minhas queridas irmãs?… Mas, desde a Páscoa, minha alma guardou uma grande palavra. E eu amo a morte. Senhor, eu te ofereço pela tua própria intenção.

– Então, não me pedes mais a cura?

– Não, Raboni. Eu te peço a bênção para saber sofrer e… morrer… e, se não for pedir demais, e para redimir. Assim Tu disseste1.

– Eu o disse. E te abençoo, para te dar toda a força.

E lhe impõe as mãos, e depois o beija.

415.4 – Estaremos juntos, e Tu me instruirás…

– Por enquanto, não, Lázaro. Eu não vou parar aqui. Vim somente por poucas horas. A noite Eu partirei.

– Mas, por quê? –perguntam, decepcionados os três irmãos.

– Porque não posso parar… Eu voltarei no outono. Então… ficarei aqui por muito tempo, e farei muitas coisas aqui… e nos arredores.

Faz-se um triste silêncio. Depois Maria faz um pedido:

– Então, pelo menos toma algum descanso, um novo vigor…

– Nada me poderá dar novo vigor, a não ser o vosso amor. Fazei que descansem os meus apóstolos, e deixai-os ficar aqui entre nós, em paz assim…

Marta sai dali com os olhos lacrimejantes, para voltar depois com umas taças de leite frio e umas frutas temporãs…

– Os apóstolos comeram e, cansados, dormiram. Mestre meu, não queres mesmo descansar?

– Não insistas, Marta. Ainda não terá chegado a aurora, e eles me estarão procurando aqui, no Getsêmani, na casa de Joana e em todas as casas hospitaleiras. Mas, quando chegar a aurora, Eu já estarei longe.

– Para onde irás, Mestre? –pergunta Lázaro.

– Para Jericó, mas não pelo caminho de costume… Eu tomo o rumo de Tecué, e depois é que volto para pegar o caminho de Jericó.

– Um caminho difícil nesta estação –murmura Marta.

E é justamente por isso que ele está deserto. E nós caminharemos de noite. As noites agora estão claras, até mesmo antes do nascer da lua… E a aurora chega bem depressa.

– E depois? –pergunta Maria.

– Depois vamos para o Além-Jordão. E, à altura da Samaria, ao norte dela, atravessarei o rio, e de lá é que Eu virei.

– Vai logo para Nazaré. Estás cansado… –diz Lázaro.

– Antes Eu devo ir às praias do mar… Depois… irei para a Galileia. Mas lá também me perseguirão…

– Lá terás sempre a tua Mãe, que te conforta –diz Marta.

– Sim, pobre Mãe!

– Mestre, Magdala é tua. Tu sabes disso –diz Maria.

– Eu sei, Maria… Tudo o que é bem e tudo o que é mal Eu sei…

415.5 – Ficarmos separados assim!… e por tanto tempo! Será que ainda me encontrarás vivo, Mestre?

– Não tenhas dúvidas disso. Não choreis… Pois até com as separações precisais ir-vos habituando. São coisas úteis para pôr à prova a força dos afetos. Compreendem-se melhor os corações que se amam, olhando-os, com olhos espirituais, de longe. Quando não são seduzidos pelo prazer humano da proximidade física da pessoa que amamos, é então que podem meditar sobre o seu amor e a espiritualidade dele… Compreende-se mais o eu de longe… Eu estou certo de que, pensando em vosso Mestre, o compreendereis melhor ainda, quando virdes e contemplardes em paz as minhas ações e os meus afetos.

– Oh! Mestre! Mas nós não temos dúvidas a respeito de Ti!

– Nem Eu a respeito de vós. Eu sei. mas ainda me conhecereis melhor. E não vos digo que me ameis, porque Eu conheço os vossos corações. Eu somente digo: rezai por Mim.

Os três irmãos põem-se a chorar… Jesus está muito triste… Como deixar de chorar?

– Que quereis? Deus havia colocado o amor entre os homens! Mas os homens o substituíram pelo ódio… E o ódio não separa somente os inimigos uns dos outros, mas se insinua até entre os amigos para separá-los.

Há um longo silêncio. Depois Lázaro diz:

– Mestre, vai-te embora da Palestina por algum tempo…

– Não. O meu lugar é aqui. Aqui para viver, para evangelizar e para morrer.

– Mas Tu tomaste providências para com o João e a grega. Vai ficar com eles.

– Não. Eles estavam sendo salvos. Eu devo salvar. E esta é a diferença que tudo explica. O altar é aqui, e aqui é a cátedra, Eu não posso ir para outro lugar! E, afinal!… Credes vós que isso mudaria o que está decidido? Não. Nem na Terra, nem no Céu. Somente serviria para ofuscar a pureza espiritual da figura do Messias. Eu seria “o vilão,” que se salva por meio da fuga. Eu devo dar o exemplo aos presentes e aos futuros, pois nas coisas de Deus, nas coisas santas não há necessidade de sermos vilões…

– Tens razão, mestre, suspira Lázaro…

415.6 E Marta, descendo o toldo, diz:

– Tens razão… A tarde está chegando. Não há mais sol…

Maria põe-se a chorar angustiadamente, como se aquela palavra tivesse tido o poder de desarmar sua força moral, que ainda estava retendo o seu pranto, apenas com um silencioso lacrimejar. Ela chora de um modo mais dilacerante do que na casa do Fariseu, quando, com seu pranto, pedia perdão ao Salvador…

– Por que estás chorando assim? –pergunta-lhe Marta.

– Porque tu disseste a verdade, minha irmã! Não há mais sol… O Mestre vai-se embora… Não há mais sol… nem para nós…

– Sede bons. Eu vos abençoo, e que a minha bênção fique convosco. E agora deixai-me com Lázaro, que está cansado e precisando de silêncio. Velando o amigo, eu descansarei. Provede às necessidades dos apóstolos, e fazei que eles estejam prontos para a hora das sombras…

As discípulas se retiram, e Jesus fica silencioso, recolhido em Si mesmo, sentado junto ao amigo enfraquecido que, contente por aquela proximidade, adormece com um leve sorriso no rosto.

415.7Diz Jesus:

– Colocar aqui a visão de Jesus e o mendigo no caminho de Jericó, tida a 17 de maio de 1944, e logo depois aquela da conversão de Zaqueu, tida a 17 de julho de 1944.

1 disseste, em 376.3.


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