371. 371. Quinta-feira antes da Páscoa.Proteção de Claudia e a noiteno palácio de Lázaro. O estatuto do Reino.
27 de janeiro de 1946.
371.1 Os seguidores de Jesus não brilham pelo seu heroísmo. A notícia levada pelo Judas é semelhante à aparição de um gavião sobre um terreiro cheio de pintinhos, ou a de um lobo, à beira da mata, perto de um rebanho. Espanto ou, pelo menos, angústia, é o que se vê provavelmente em uns nove décimos dos rostos presentes, e especialmente dos rostos masculinos. Eu acho que muitos já estão com a impressão do fio da espada ou do chicote contra a sua pele, e o menos em que pensam é que terão que provar as prisões nos cárceres, enquanto ficam à espera do processo.
As mulheres estão menos agitadas. Mais do que agitadas, elas estão pensativas, lembrando-se dos filhos ou dos maridos, e aconselhando a uns e a outros a se separarem em pequenos grupos pelas campinas.
Maria de Magdala não concorda com essa onda de um temor exagerado, e diz:
– Oh! Quantas gazelas há em Israel! Não ficais envergonhados, por tremerdes assim? Eu vos disse que no meu palácio estareis mais seguros do que numa fortaleza. Vinde, pois! E eu vos garanto que não vos acontecerá nada. Se, além dos designados por Jesus, houver outros que achem que estão seguros em minha casa, que venham. Lá há camas para cem pessoas. Vamos, decidí-vos em vez de ficardes aí a desmaiar de medo! Somente eu peço à Joana que mande criados, que vos atendam com alimentos. Porque no palácio não há para tanta gente, e já está tarde. Uma boa refeição é o melhor remédio para dar forças aos tímidos.
Ela, não só está bastante vistosa, com sua veste branca, mas também bastante irônica, até no brilho dos olhos, enquanto lá do alto do seu tamanho, olha para o rebanho espavorido, que se apinha no vestíbulo de Joana.
– Eu vou logo tomar providências. Ide, então, que Jônatas vos acompanhará, com os seus servos, e eu com ele, porque eu me concedo a alegria de acompanhar o Mestre, e sem medo, e vos garanto que vou tão sem medo, que até vou levando comigo as crianças –diz Joana.
Ela se afasta para dar ordens, enquanto a vanguarda do medroso exército põe cautelosamente a cabeça para fora do portão, e, vendo que não há perigo, resolve sair para a estrada, e começa a caminhar acompanhada pelos outros.
O grupo das virgens está no centro, logo atrás de Jesus, que está nas primeiras fileiras. Atrás das virgens, vêm as mulheres e depois os demais… os que estão com uma coragem vacilante, e estão indo, mas com as costas protegidas por Maria de Lázaro, que foi unir-se às romanas, decididas a não se afastarem de Jesus tão cedo. Mas Maria de Lázaro corre até lá adiante para ir dizer alguma coisa a sua irmã, enquanto as sete romanas ficam com Sara e Marcela, que também se puseram na retaguarda, por ordem de Maria, com a intenção de fazer que passem, sem serem notadas, as sete romanas.
Acabou de chegar, andando com passos rápidos, Joana com as crianças levadas pela mão, e atrás dela está Jônatas, com seus servos carregados de bolsas e de cestas, e que vão colocar-se à retaguarda da pequena multidão que, na verdade, ninguém está notando, porque as estradas estão cheias de grupos, que vão até às casas ou aos acampamentos, e a penumbra faz que fiquem menos reconhecíveis os rostos. Agora, Maria de Magdala, junto com Joana, Anastásica e Elisa, está bem na primeira fila, e vão guiando, por umas veredas secundárias, os seus hóspedes, até o palácio.
371.2 Jônatas vai caminhando quase ao lado das romanas, às quais ele dirige a palavra, como se o fizesse a servas das discípulas mais ricas. Cláudia se aproveita disso para dizer- lhe:
– Homem, eu te peço que vás chamar o discípulo que trouxe a notícia. Dize-lhe que venha aqui. Mas dize-o de maneira que não chame a atenção. Vai.
A veste é modesta, mas o modo é voluntariamente autoritário, como de quem está acostumado a comandar. Jônatas arregala os olhos, procurando ver, através do véu descido, quem é que lhe está falando assim. Mas não chega a ver senão o brilho de dois olhos imperiosos. E ele deve desconfiar que não é uma serva que falou, e, antes de obedecer, se inclina.
Jônatas encontra Judas de Keriot, que está falando animadamente com Estevão e com Timoneu, e o puxa pela veste.
– Que queres?
– Preciso dizer-te uma coisa.
– Dize-a.
– Não. Vem aqui atrás comigo. Estão precisando de ti. Acho que querem uma esmola…
O pretexto é bom, e é aceito em paz pelos companheiros de Judas e com entusiasmo pelo mesmo Judas, que vai lá para trás, tão rápido como Jônatas.
Chegaram à última fileira.
– Mulher, aqui está o homem que querias –diz Jônatas a Cláudia.
– Fico-te agradecida por me teres servido –responde ela, conservando-se sempre velada.
E depois, dirigindo-se a Judas:
– Que te seja agradável parar por um momento para me escutar.
Judas, ao ouvir aquele modo refinado de falar, e vendo também dois olhos brilhando através do véu transparente, talvez se julgue a caminho de alguma grande aventura, e consente sem dificuldade.
371.3 O grupo das romanas se divide. Ficam com Cláudia, Plautina e Valéria. As outras continuam a andar. Cláudia olha ao redor de si. Vê que o caminho está solitário, e que nele ficaram paradas, com sua bela mão põe para um lado o véu, e descobre o rosto.
Judas a reconhece e depois de um instante de hesitação, ele se inclina, fazendo-lhe a saudação com uma mistura de gestos judaicos e com uma palavra em latim:
– Domina!
– Sim. Sou eu. Levanta-te, e escuta. Tu amas o Nazareno. Tu te preocupas pelo bem dele. E fazes bem. É um homem virtuoso, e deve ser defendido. Nós o veneramos como grande e justo. Os judeus não o veneram. Eles o odeiam. Eu sei. Escuta. Procura entender bem, e executa. Eu o quero proteger. Não como a luxuriosa de pouco antes. Com honestidade e virtude. Quando o teu amor e a tua perspicácia te fizerem compreender que há ciladas contra Ele, vem, ou manda alguém. Cláudia pode tudo o que depende de Pôncio. Cláudia obterá proteção para o Justo. Entendes?
– Perfeitamente, Domina. O nosso Deus te proteja. Eu virei, sempre que puder, virei eu, pessoalmente. Mas, como irei a ti?
– Pergunta sempre por Álbula Domitila. Ela é uma segunda eu mesma, mas ninguém fica admirado, se ela estiver falando com judeus, pois ela é que cuida das minhas liberalidades. Todos vão pensar que tu és um cliente. Será que isso te humilha?
– Não, Domina. Servir ao Mestre e obter a tua proteção é uma honra.
– Sim. Eu vos protegerei. Eu sou uma mulher. Mas eu sou dos Cláudios. Posso mais do que todos os grandes em Israel, porque atrás de mim está Roma. Toma, por enquanto. Para os pobres de Cristo. É o nosso óbolo. Mas… eu quereria ser deixada entre os discípulos nesta tarde. Procura dar-me esta honra, e tu serás protegido pela Cláudia.
Para um tipo como o Iscariotes, as palavras da patrícia produzem um efeito prodigioso. Ele foi erguido ao sétimo céu… Mas ele se atreve a perguntar:
– E tu o ajudarás mesmo?
– Sim. O seu Reino merece ser fundado, porque é um reino de virtude. Que seja benvindo, em oposição às ondas imundas que cobrem os reinos atuais, e que me causam repugnância. Roma é grande, mas o Rabi é muito maior do que Roma. Nós temos as águias sobre as nossas insígnias, é a sigla soberba. Mas sobre as dele estarão os Gênios e o seu Santo Nome. Grande será Roma, e verdadeiramente grande, e também a Terra, quando colocarem aquele Nome sobre suas insígnias e o sinal dele estiver sobre os lábaros e sobre os templos, sobre os arcos e as colunas.
Judas está maravilhado, sonhador, extasiado. Agarra a pesada bolsa que lhe foi dada, e faz isso maquinalmente, e com a cabeça dá entender que sim, que sim, a tudo…
– Agora, então, vamos alcançá-los. Somos aliados, não é mesmo? Aliados para proteger o teu Mestre, o Rei dos espíritos honestos.
Ela desce o véu e, rápida, desembaraçada, vai, quase correndo, alcançar o grupo que vai na frente, acompanhada pelas outras e por Judas, que está ofegante, não tanto pela corrida, mas por aquilo que ouviu. O palácio de Lázaro está recebendo os últimos pares de discípulos, quando chegam a ele. Entram ligeiros, e o portão de ferro se fecha com um grande barulho dos ferrolhos, que vão sendo colocados pelo guarda.
371.4 Uma lâmpada solitária, segura pela mulher do guarda, mal clareia o vestíbulo quadrado e todo branco do palácio de Lázaro. Compreende-se que a casa não é habitada, porque está muito bem guardada e conservada em ordem. Maria e Marta vão guiando os hóspedes através de um vasto salão certamente destinado aos banquetes, com suas paredes faustosamente cobertas com estofos preciosos, que expõem à vista os seus arabescos, pouco a pouco, à medida que vão sendo acesos os lampadários, e colocadas as luzes sobre as credências, sobre os cofres preciosos, que estão colocados ao longo das paredes, ou sobre mesas postas a um lado, prontas para serem usadas, mas das quais certamente há tempo que não se faz uso. Maria manda, então, que elas sejam levadas para o centro da sala, e preparadas para a ceia, com os víveres que os servos de Joana estão tirando de dentro das bolsas e cestas, e pondo sobre as credências.
Judas conduz Pedro para um lado, e lhe diz qualquer coisa ao ouvido.
Vejo Pedro esbugalhar os olhos e sacudir a mão, como se tivesse queimado os dedos, enquanto exclama:
– Raios e ciclones! Mas, que é que estás dizendo?
– Sim. Olha. E pensa só! Não tenhas medo! Não fiques mais tão angustiado!
– Mas é belo demais! Demais! Como foi que ela disse? Disse mesmo que nos protege? Que Deus a abençoe. Mas, qual é?
– Aquela vestida da cor da pomba selvagem, alta e magra. Aquela que está olhando para nós…
Pedro olha para a mulher alta, de rosto regular e sério, de olhos doces, ainda que imperiosos.
– E como fizeste para falar-lhe? Não tiveste…
– Não tive mesmo.
– No entanto, tu odiavas os contatos com eles! Como também eu, como todos…
– Sim, mas eu superei esse ódio, por amor ao Mestre, como superei também o desejo de cortar minhas relações com os antigos companheiros do Templo… Oh! Tudo pelo Mestre! Vós todos, e minha mãe convosco, pensais que eu tenha falta de sinceridade. Tu, há pouco tempo, me censuraste pelas amizades que eu tenho. Mas, se eu não as mantivesse — o que seria uma pena — eu não saberia de muitas coisas que sei. Não é bom pormos vendas em nossos olhos, nem cera nos ouvidos, por medo de que o mundo penetre em nós pelos olhos e pelos ouvidos. Quando se está em um empreendimento como o nosso, é preciso cuidar de ter os olhos e os ouvidos mais do que abertos. Cuidar deles para o seu próprio bem, o da sua missão e o da fundação desse bendito Reino…
Muitos dos apóstolos e alguns discípulos se aproximaram, e estão escutando, com sinais de cabeça. Porque, de fato, não se pode dizer que Judas fale mal!
Pedro, homem honesto e humilde, o reconhece, e diz:
– De fato, tens razão. Perdoa as minhas censuras. Tu vales mais do que eu, pois sabes agir. Oh! Vamos dizer isso ao Mestre e à sua Mãe, e à tua! Ela estava muito angustiada!
– Foi porque umas más línguas insinuaram… Mas, por enquanto, cala-te! Depois, mais tarde. Estás vendo? Mal assentam-se à mesa, já o Mestre nos faz sinal para andarmos…
371.5 A ceia é rápida. Até as romanas, sentadas às mesas das mulheres e misturados a elas, de tal modo que a própria Cláudia está sentada entre Porfíria e Dorcas, todas estão comendo em silêncio aquilo que foi colocado em sua frente, e, por entre elas, Joana e Maria de Magdala, correm misteriosas palavras acompanhadas por sorrisos e piscadelas de olhos. Parecem umas jovens estudantes em férias.
Jesus, depois da ceia, manda que se faça um quadrado de cadeiras, e que todos tomem lugar nele para ouvi-lo. Ele vai pôr-se no centro, e começa a falar no meio do quadrado cheio de rostos atentos, dos quais só estão fechados os olhinhos inocentes do filhinho de Dorcas, que está dormindo no colo da mãe, e estão lutando contra o sono os de Maria, que está sentada sobre os joelhos da Joana, e os de Matias, que foi acocorar-se sobre os joelhos de Jônatas.
– Discípulos e discípulas aqui reunidos em Nome do Senhor, ou atraídos até aqui pelo desejo da Verdade, um desejo que vem também de Deus, que quer luz e verdade em todos os corações, ouvi.
Nesta tarde foi-nos concedido estarmos todos unidos, justamente quando a maldade quer dispersar-nos, e o procura fazer. E nem vós, de sentidos limitados, sabeis como é profunda e extensa esta união, verdadeira âncora das futuras, que se farão, quando o Mestre não estiver mais entre vós, com o seu corpo, mas estiver em vós com o seu espírito. Então é que vós sabereis amar. Então é que sabereis praticar. Por enquanto sois como meninos ainda de colo. Então, sereis como adultos, e podereis sentir o gosto de todos os alimentos, sem que eles vos façam mal. Então, sabereis dizer como Eu digo: “Vinde a Mim, vós todos, porque todos somos irmãos, e por todos Ele se imolou.”
371.6 Há prevenções demais em Israel! Todas elas são flechas que lesam a caridade. Eu falo a vós, ó fiéis, abertamente, porque entre vós não há traidores, nem os que estão cheios desses preconceitos que dividem, que se transformam em incompreensão, em obstinação, em ódio contra Mim, que vos mostro os caminhos do futuro. Eu não posso falar de modo diferente. E, de agora em diante, falarei menos, porque vejo que as palavras são inúteis, ou quase inúteis. Vós tendes ouvido já palavras para santificar-vos e instruir-vos de um modo perfeito. Mas pouco progredistes, especialmente vós, homens meus irmãos, porque a palavra vos agrada, mas, não a pondes em prática. De agora em diante, e com uma medida cada vez mais apertada, Eu vos mandarei fazer o que devereis fazer, quando o Mestre tiver voltado para o Céu, do qual Ele veio. Eu vos farei assistir ao que é o sacerdote futuro. Mais do que as minhas palavras, observai os meus atos, repeti-os, aprendei-os, uni-os ao ensinamento. Só então é que vos tornareis discípulos perfeitos.
Que fez e que vos mandou fazer hoje o Mestre? A caridade, em suas mil formas. A caridade para com Deus. Não oração somente vocal, ritual. Mas a caridade ativa, que, se renova no Senhor, que se despoja do espírito do mundo, das heresias do paganismo, o qual não existe apenas nos pagãos, mas que existe também em Israel, com os mil costumes que vieram substituir a verdadeira Religião, santa, aberta, simples, como tudo o que vem de Deus. Não fazendo atos bons, ou aparentemente tais, só para serdes louvados pelos homens, mas ações santas para merecerdes o louvor de Deus.
Quem nasceu, tem que morrer. Vós sabeis disso. Mas a vida não termina com a morte. Ela continua ou se transforma, e por toda a eternidade, com um prêmio para quem tiver sido justo, e com um castigo para quem foi mau. Este pensamento de que certamente haverá um julgamento não é para que ninguém fique parado durante a vida, nem na hora de morrer, mas que ele seja um estímulo e um freio; estímulo para praticar o bem, e freio que nos detém para que não pratiquemos más ações. Sede, pois, verdadeiros amantes do verdadeiro Deus, agindo nesta vida sempre com o fim de merecer a vida futura.
Oh, vós, que amais as grandezas, que grandeza existe maior do que a de vos tornardes filhos de Deus e, portanto, deuses? Oh, vós, que temeis a dor, que segurança tendes de não mais sofrer, como aquela que nos espera no Céu? Sede santos. Quereis fundar um reino também sobre a Terra? Percebeis que vos estão armando ciladas, estais com medo de não o conseguir? Se agísseis como santos, o conseguiríeis. Porque a mesma autoridade que nos domina, não poderá impedi-lo, por mais que tenha muitas coortes, porque vós persuadireis as coortes a seguir a doutrina santa, assim como, sem violência, eu persuadi as mulheres de Roma de que aqui está a Verdade…
– Senhor! –exclamam as romanas, vendo-se descobertas.
– Sim, mulheres. 371.7Escutai, e lembrai-vos disso. Eu digo aos meus seguidores de Israel, e o digo a vós, que não sois de Israel, mas que tendes um espírito justo, qual é o estatuto do meu Reino.
Nada de revoltas, nada de escravidão. Mas santificar a autoridade, impregnando-a com a nossa santidade. Será um longo trabalho, mas acabará vitorioso. Com mansidão e paciência, sem pressas estultas, sem desvios humanos, sem revoltas inúteis, obedecendo nas coisas em que o obedecer não é nocivo à alma, vós chegareis a fazer da autoridade, que agora nos domina, uma autoridade protetora e cristã. Cumpri o vosso dever de súditos para com a autoridade, como cumpris o de fiéis para com Deus. Procurai ver em toda autoridade, não um opressor, mas um vosso elevador, pois vos dá o modo de santificá-lo, e de vos santificardes com o exemplo e o heroísmo.
Desejai ser como já o sois, bons fiéis e bons cidadãos, também bons maridos, boas mulheres, santos, castos, obedientes, amorosos um para com o outro, unidos para educar vossos filhos dentro da Lei do Senhor, para serdes paternais e maternais até com os criados e com os escravos, pois eles também têm alma e corpo, sentimentos e afetos como vós tendes. Se a morte vos tira o companheiro ou a companheira, se puderdes não fiqueis desejando novas núpcias. Amai os órfãos também, por causa do companheiro que desapareceu. E vós, servos, sede submissos aos vossos patrões e, se eles são imperfeitos, santificai-os com o vosso exemplo. Grande merecimento tereis por isso aos olhos do Senhor. No futuro, em meu Nome, não haverá mais patrões e servos, mas irmãos. Não haverá mais raças, mas irmãos. Não haverá mais oprimidos e opressores, que se odeiam, porque os oprimidos chamarão de irmãos aos opressores.
Amai-vos uns aos outros com fé, dando um ao outro a ajuda, como hoje Eu vos vou fazer. Mas, não limiteis a ajuda somente aos pobres, aos peregrinos, aos doentes da vossa raça. Abri vossos braços a todos, assim como a Misericórdia os abre hoje para vós. Quem tem mais, dê a quem não tem, ou tem pouco. Quem sabe mais, ensine a quem não sabe ou sabe pouco, e ensine com paciência e humildade, lembrando-se de que, na verdade, antes da minha instrução, não sabíeis nada. Procurai a sabedoria, não para brilhardes, mas como uma ajuda para andardes pelos caminhos do Senhor.
As mulheres casadas amem as virgens, e estas as casadas, e ambas deem afeto às viúvas. Todas são úteis no Reino do Senhor. Os pobres não invejem, e os ricos não criem ódios, com a demonstração de suas riquezas e a dureza de seu coração. Cuidai dos órfãos, dos doentes, dos que não têm casa. Abri o vosso coração, até mesmo antes de abrirdes a vossa casa, porque, se vós dais, mas de má vontade, não prestais a Deus uma honra, mas lhe fazeis uma ofensa, pois Ele está presente em cada infeliz.
Em verdade, em verdade, Eu vos digo que não é difícil servir ao Senhor. Basta amar. Amar o verdadeiro Deus, amar o próximo, seja ele quem for. Em toda ferida ou febre que curardes, lá Eu estarei. Em cada desventura que socorrerdes, lá Eu estarei. E tudo o que fizerdes a mim no próximo, se for um mal, também a Mim terá sido feito. Quereis fazer-me sofrer? Quereis perder o Reino da paz, quereis perder o direito de tornar-vos deuses, somente por desejardes não ser bons para com o vosso próximo?
371.8 Nunca mais seremos todos assim unidos. Virão outras Páscoas… e não poderemos estar juntos, por muitas causas. As primeiras: por causa de uma pendência que, por um lado, é santa, e, por outro, excessiva e todo excesso é uma culpa, pela qual nós deveremos ficar separados. E nas outras Páscoas também, por que Eu não estarei mais entre vós… Mas lembrai-vos deste dia de hoje. Fazei no futuro, e não só pela Páscoa, mas sempre, o que Eu vos mandar fazer.
Eu nunca vos quis iludir, falando de facilidade em me pertencer. Porque pertencer-me quer dizer viver na Luz e na verdade, mas também significa comer o pão da luta e das perseguições. Agora, porém, quanto mais fordes fortes no amor, mais fortes sereis na luta e na perseguição.
Crede em Mim. Pelo que Eu sou realmente: Jesus Cristo, o Salvador, cujo Reino não é deste mundo, cuja vinda traz paz para os bons, cuja posse quer dizer conhecer e possuir a Deus, porque verdadeiramente, quem me tem em si, e tem a si mesmo em Mim, está em Deus, e já possui a Deus em seu espírito, para tê-lo depois no Reino do Céu para sempre.
A noite chegou. Amanhã já é a Parasceve. Ide. Purificai-vos, meditai, fazei uma Páscoa santa.
Mulheres de outra raça, mas de espírito reto, ide. A boa vontade, que vos anima, vos sirva de caminho por onde chegar à Luz. Em nome dos pobres, como sou Eu mesmo, Eu vos abençoo por vosso óbolo generoso e vos abençoo por vossas boas intenções para com o Homem que veio trazer amor e paz sobre a Terra. Ide! E tu, Joana, e todos os que não estão mais com medo de ciladas, ide também.
371.9 Um murmúrio de espanto percorre a assembleia, enquanto as romanas, tendo guardado as tabuinhas enceradas, nas quais Flávia escreveu, quando Jesus estava falando, pondo-as numa bolsa, em número de seis, pois que Egla vai ficar com Maria de Magdala, enquanto as outras vão saindo, depois de uma saudação coletiva. Tão grande é o espanto, que nenhum dos presentes, a não ser Joana, Jônatas e os servos da Joana, que vão levando nos braços os pequeninos adormecidos, nenhum deles se move. Mas, quando o rumor soturno do portão que se fecha diz que as romanas já partiram, um grande clamor se faz ouvir, em lugar do murmúrio.
– Mas, quem são?
– Como estão entre nós?
– Que fizeram?
E, mais alto que os outros, grita Judas:
– Como sabes, Senhor, do valioso óbolo que me deram?
Jesus acalma o tumulto com um gesto, e diz:
– São Cláudia e suas damas. E, enquanto as damas de Israel, com medo da ira de seus maridos, ou com o mesmo pensamento e coração que eles, não têm coragem de se tornarem minhas seguidoras, as desprezadas pagãs, com santas astúcias, sabem vir aprender a Doutrina que, se bem que aceita, por enquanto de um modo humano, mas que é sempre para elas uma coisa que as eleva… E esta menina, já escrava, mas de raça judia, é a flor que Cláudia oferece às fileiras de Cristo, dando-lhe a liberdade, e oferecendo-a à fé de Cristo. Quanto a querer saber a respeito do óbolo… Oh! Judas! Todos, menos tu, poderiam fazer-me esta pergunta! Tu sabes que Eu vejo os corações.
– Então, estarás vendo que eu disse a verdade, quando disse que era uma cilada, e que eu a frustrei, indo fazer falar uns… uns seres culpados?
– É verdade.
– Dize-o, então, em voz alta, para que minha mãe o ouça. Minha mãe, eu sou um rapaz, mas não um velhaco… Minha mãe, vamos fazer as pazes. Compreendamo-nos, amemo-nos, estejamos unidos no serviço do nosso Jesus.
E o Judas vai humildemente, e todo amoroso, à sua mãe, que lhe diz:
– Sim, meu filho! Sim, Judas! Bem! Bem! Sê sempre bom, ó meu filho! Para ti, para o Senhor! Para a tua pobre mãe!
371.10Enquanto isso, a sala está cheia de agitações e comentários, e muitos acham que foi uma imprudência ter acolhido as romanas, e censuram a Jesus.
Judas ouve. Deixa a mãe, e corre em defesa do Mestre. Conta o seu colóquio com Cláudia, e termina dizendo:
– Não é uma ajuda desprezível. Mesmo sem tê-la recebido antes entre nós, não fomos capazes de evitar perseguições. Deixemo-la agir. E lembrai-vos bem, é melhor calarmo-nos com quem quer que seja. Pensai que, se há perigo para o mestre, não o há menos para nós, por sermos amigos dos pagãos. O Sinédrio que, no fundo, está ainda detido por causa do medo de ir contra Jesus, pelo temor que ainda tem de levantar a mão contra o Ungido de Deus, mas que não teria tanto escrúpulo para nos matar como a uns cães, a nós que somos uns pobres homens quaisquer. Em vez de ficar mostrando uma cara de escandalizados, lembrai-vos de que faz pouco tempo que éreis como umas pessoas espavoridas, e bendizei ao Senhor, que nos ajudou, com meios em que ninguém tinha pensado, ainda que os queirais chamar de ilegais, mas bem fortes para fundar o Reino do Messias. Tudo poderemos, se Roma nos defender! Oh! Eu não tenho mais medo! Um grande dia é este de hoje! Mais do que por todas as outras coisas, mas por esta… Ah! Quando tu fores o Chefe! Que poder doce, forte e bendito! Que paz! Que justiça! O Reino forte e benévolo do Justo! E o mundo que vem vindo, pouco a pouco, para ele!… E as profecias que se cumprem! As turbas, as nações… O mundo aos teus pés! Oh! Mestre! Mestre meu! Tu, Rei, e nós os teus ministros… Na Terra a paz, no Céu a glória… Jesus Cristo de Nazaré, Rei da estirpe de Davi. Messias Salvador, eu te saúdo e te adoro!
E Judas, que parece arrebatado em êxtase, termina prostrando-se e dizendo:
– Na Terra, no Céu, e até nos Infernos é conhecido o teu Nome, e infinito é o teu poder. Que força poderá resistir a Ti, ó Cordeiro e Leão, Sacerdote e Rei, Santo, Santo, Santo? –e fica inclinado até o chão, na sala onde todos estão mudos pelo espanto.