477. 477. Colóquio com a Mãe no bosque de Matatias.Os sofrimentos morais de Jesus e de Maria.


21 de agosto de 1946.

477.1 Jesus está sozinho. Sozinho em um altiplano ligeiramente côncavo, que com uma leve e constante ondulação, vai indo para a vertente das colinas, que certamente são aquelas que rodeiam o lago da Galileia, pois eu o estou vendo lá embaixo, à direita, e que já vai ficando escuro no seu belíssimo azul, por causa do pôr do sol que se aproxima, e vai retirando já de muitas partes do lago o fulgurante dardejar de seus raios. Por detrás daquela concavidade, ao norte, estão as montanhas de Arbela e outras mais altas, as que estão do outro lado do lago, onde se erguem Meieron e Gíscala, e a noroeste, lá ao longe, mas sempre imponente e real, de qualquer lado que seja olhado, o Grande Hermon, que o sol, quando está no ocaso, atinge de um modo curioso em seu pico mais alto, fazendo-o ficar como um topázio cor de rosa, lá no ocidente, deixando-o depois com sua cor de opala e naquela indefinível esfumatura com os claro-azuis da neve, como eu já vi algumas vezes nos picos dos nossos Alpes, nas fronteiras.

Eu fico olhando para o norte, e eis que vejo, sem dificuldade: à direita, embaixo, o lago, e à esquerda estão as colinas mais altas que nos impedem de ver a planície da costa. Mas, se eu me virar para o sol, verei o Tabor, para lá das amenas colinas, que são, com certeeza, as que estão ao redor de Nazaré. Uma pequena cidade está lá embaixo, perto de uma estrada de grande movimento, onde as pessoas se apressam para chegar aos lugares do fim de uma jornada.

Jesus não fica olhando nada do que eu olho. Ele somente procura um lugar para assentar-se, e o acha aos pés de uma frondosa azinheira que, com suas frondes, resguardam a grama do solo contra o forte calor do sol e por isso ela está ainda fresca e viçosa, como se por ali não tivesse passado o vento, queimando tudo. Assim Jesus tem à sua frente o lago, ao lado a senda por entre as árvores e pela qual Ele subiu, do outro lado das ondulações do terreno que cercam ao norte a concavidade de prados e de bosques, onde Ele está, e que está toda verde, porque as árvores em sua maior parte são azinheiras e outras árvores perenes que o outono não desfolha. Somente aqui e ali aparece algum ponto vermelho como sangue, que é alguma folha que vai perdendo a cor antes de cair, para ceder seu lugar à que já vem nascendo perto dela que já está morrendo.

Jesus está muito cansado, se encosta no tronco robusto, ficando por algum tempo com os olhos fechados, como para descansar. Mas depois toma sua postura habitual, afastando-se do tronco, com os antebraços estendidos para a frente, com as mãos juntas e os dedos entrecruzados. E fica pensando. Certamente está rezando. De vez em quando, por algum ruído que acontece perto dele, o dos passarinhos que brigam disputando um lugar para passarem a noite, ou de algum animal por entre a grama e que faz rolar alguma, pelo declive, algum ramo que esbarra contra outro por causa de um sopro inesperado do vento, Jesus levanta os olhos, e, com um olhar de quem está muito absorto e que certamente nada vê, os vira em direção de onde vem o barulho, especialmente na direção da estradinha, que vai subindo por entre as azinheiras. Depois os abaixa de novo, concentrando-se em Si mesmo. Duas vezes Ele olha com atenção para o lago, que agora está na sombra, depois vira a cabeça e olha para o ocidente, onde o sol já desapareceu atrás das colinas dos bosques e na segunda Ele se levanta e vai pela senda escura mesmo, olhando se aparece alguém, depois volta para o lugar onde estava.

477.2 Enfim, ouve-se um rumor de passos, e duas figuras aparecem: Maria, vestida de um azul escuro e João carregado de sacos. João o chama duas vezes: “Mestre”, e logo que Jesus se volta, ele diz:

– Eis a Tua Mãe.

E o ajuda a passar a pé por um pequeno rio, por cima de uns pedregulhos que foram colocados sobre a senda a fim de torná-la mais firme e mais cômoda para quem sobe ou para quem desce, mas na realidade o que fizeram com ela foram umas verdadeiras armadilhas para pés descalços.

Jesus se levanta logo para ir ao encontro da Mãe e, com João, a ajuda a subir os pedregulhos colocados para a conservação do caminho. Mas acontece que somente as grandes raízes das azinheiras é que estão fazendo isso. Agora Maria está sendo auxiliada para subir pelo Filho, que a observa, e lhe pergunta:

– Estás cansada?

– Não, Jesus –diz-lhe Ela sorrindo.

– Mas a Mim me parece que o estejas. Não estou gostando de te ter feito vir. Mas Eu não podia ir…

– Oh! Não é nada, meu Filho. Sentindo um pouco de calor, eu estou. Mas aqui se está bem. Tu, sim, é que estás cansado, e o pobre do João…

Mas João sacode a cabeça rindo-se, pondo no chão o saco novo e bem cheio, o de Jesus, e o dele sobre a grama, aos pés da azinheira, e se retira, dizendo:

– Eu vou lá embaixo. Pois vi uma pequena fonte. Vou refrescar-me um pouco naquela água. Mas de lá eu ouvirei, se me chamardes, e se retira deixando à vontade os dois.

477.3 Maria desaperta o seu manto, tira o véu para enxugar o suor que está enchendo de pérolas sua fronte. Olha para Jesus e lhe sorri, pois Ele também lhe sorri, enquanto lhe acaricia a mão e a coloca sobre sua própria face, para ter as carícias dela. Assim como “filho”, Ele está fazendo o que eu já o vi fazer outras vezes! Maria solta a mão, lhe arranja os cabelos, tirando deles um pedacinho de casca da árvore, que lhe ficou por entre as madeixas, e cada movimento dos dedos dela é uma carícia, pelo grande amor com que o faz. E ela diz:

– Estás muito suado, Jesus. O manto sobre as costas está úmido, como se tivesse chovido sobre ele, mas agora já poderás por um outro. Este eu vou tirar-te. Está desbotado pelo sol e pela poeira. Eu tinha tudo pronto… Espera! Eu sei que comeste somente uma crosta de pão velho com um punhado de azeitonas, tão salgadas que fazem tua garganta arder. Assim me disse João, que nada mais fazia senão beber, desde que chegou. Mas eu te trouxe pão fresco, que eu tinha acabado de tirar do forno, um favo de mel, que eu havia tirado ontem da colmeia para dá-lo aos meninos de Simão. Mas para eles eu tenho outros favos. Toma-o, meu Filho. É da nossa casa…

E se inclina para abrir o saco, que tem, por cima de todas as outras coisas, um cestinho raso de vime com frutas e, por cima destas, um favo envolvido em grandes folhas de videira, e oferece tudo ao Filho, junto com pães frescos e estalejantes.

Enquanto Jesus come, ela vai tirando do saco as vestes que preparou para os meses do inverno, mais pesadas, quentes, prontas para proteger contra o frio e a chuva, e as mostra a Jesus, que lhe diz:

– Quanto trabalho, minha Mãe! Eu ainda tinha aquelas do inverno passado…

– Os homens, quando estão longe de suas mulheres, devem receber tudo de novo para não terem necessidade de consertar nada, a fim de poderem estar com tudo direito. Mas eu não estraguei nada. Este meu manto é o teu, mais curto e tingido de novo. Para mim ele ainda está bom. Mas para Ti ele não servia mais. Tu és Jesus…

Dizer o que esta frase significa é impossível: “Tu és Jesus.” É uma frase simples. Mas todo o amor da Mãe, da discípula, da hebreia antiga para com o Messias Prometido, e mais ainda da hebreia deste tempo bendito, que já possui Jesus, tudo isso está naquelas poucas palavras. Se a Mãe se tivesse prostrado, adorando o seu Filho como Deus, não teria usado mais do que de uma forma ainda limitada, como forma de sua veneração. Mas nestas palavras há mais do que uma adoração formal, de joelhos que se dobram, de uma coluna que se curva, de uma fronte que toca no chão, pois aqui está todo o ser de Maria, a sua carne, o seu sangue, a sua mente, o seu coração, o seu espírito, o seu amor, que adora totalmente, perfeitamente o Deus-Homem.

Eu nunca vi uma coisa mais grandiosa, mais singular do que estas adorações de Maria ao Verbo de Deus, que é o seu Filho, mas que ela sempre se lembra de que é o seu Deus. Nenhuma daquelas criaturas, que foram curadas ou convertidas por Jesus eu vejo virem adorar o seu Salvador, nem mesmo as mais amorosas, nem aquelas que, sem o perceberem estão sendo teatrais, sob o ímpeto do amor, nenhuma delas pode amar totalmente, mas sempre como umas criaturas às quais sempre falta alguma coisa para serem perfeitas. Maria ama mais do que uma criatura. Oh! É de fato a filha de Deus imune da culpa! Por isso é que pode amar assim! Fico pensando no que é que o homem perdeu com o Pecado original… Fico pensando no que foi que Satanás nos roubou, ao fazer cair os nossos progenitores. Ele nos tirou essa capacidade de amar bem.

477.4 Enquanto estou considerando estas coisas, olhando para a Dupla perfeita, Jesus, tendo acabado de comer, deslizou de onde estava, indo assentar-se sobre a grama, aos pés da Mãe, pondo sua cabeça sobre os joelhos dela, como faz um menino cansado e triste, que vai refugiar-se junto a única que o pode animar. Maria o acaricia, passando a mão por sobre seus cabelos, tocando de leve a fronte do seu Jesus. Parece que ela quer afugentar todos os cansaços e todos os sofrimentos que estão naquele seu Filho, com as suas carícias. Jesus fecha os olhos e Maria para de fazer aquelas carícias, ficando com a mão posta sobre os cabelos, olhando para sua frente, pensativa e imóvel. Ela talvez pense que Jesus quer dormir. Ele está muito cansado…

Mas Jesus abre de novo os olhos, quase de repente, vê que a tarde vem chegando, vê que não lhe é concedido prolongar aquela hora de conforto, e, então, levanta a cabeça, permanecendo sentado onde está, e diz:

– Tu sabes, minha Mãe, de onde estou vindo?

– Eu sei. João me contou. São duas almas que voltam para Deus. É uma alegria para Ti e para mim.

– Sim. Eu vou descendo para Jerusalém com esta alegria.

– É como um conforto, depois da desilusão que tiveste naquele mesmo dia em que nos separamos.

– Como o sabes? Será que foi João quem te disse? Só ele sabia…

– Não. Eu lhe fiz uma pergunta sobre isso. Mas João respondeu: “Mãe, daqui a pouco tu o verás. Pergunta isso a Ele.”

Jesus sorri, dizendo:

– João é escrupulosamente fiel.

477.5 Fazem uma parada. Depois Jesus pergunta:

– Então, quem foi que te falou daquilo?

– A mim, não. Vieram uns… homens de José, teu irmão … ele próprio veio a mim. Estava ainda um pouco… Sim, meu Filho. É sempre melhor dizer a verdade. Estava um pouco inquieto depois do teu encontro com ele em Cafarnaum, especialmente depois da conversa que houve entre José, Judas e Tiago. Eles se viram na tua ausência e até Tiago, até ele ou melhor, especialmente Tiago foi severo… E muito… Eu diria que demais. Mas o Eterno, sempre bom, tirou dessa contrariedade um bem. Certamente porque foi uma contrariedade que proveio de duas fontes de amor. Duas fontes diferentes, é verdade, mas sempre fontes de amor. Imperfeitas, é verdade. Porque, se elas fossem perfeitas, se pelo menos uma delas fosse perfeita, não teriam chegado à ira… Dizer ira talvez seja muito forte para dar-se um nome àquele estado de ânimo do Tiago, mas certamente ele foi muito, muito severo… Tu, com certeza, o terias feito lembrar-se da caridade. Eu… não aprovei, mas fiquei com dó, porque compreendi o que é que fazia ficar tão inquieto o sempre paciente Tiago. Não se pode dizer que ele seja perfeito… Ele é um homem. É ainda muito homem também. Oh! Há ainda muito caminho a percorrer para que Tiago chegue a ser um justo, como era o meu José! Ele sabia dominar-se sempre… e ser sempre bom…

Mas eu estou divagando! Eu estava dizendo que o amor imperfeito dos dois para contigo, pois eles te amam, oh! muito. Até José, ainda que não o pareça, à primeira vista. Mas amor mesmo para contigo todos aqueles cuidados que eles tomam até para com esta pobre mulher. É amor para contigo o modo de pensar deles, como um velho israelita fixado em suas ideias, como o pai deles. Que é que ele não daria para ver-te amado por todos! À sua maneira, com certeza… Mas, voltando ao fato, devo dizer-te que José, ao qual não fez mal o modo de proceder de Tiago, começou a vir à minha casa todos os dias, e sabes para quê? Para que eu lhe explique as Escrituras “como tu e o teu Filho a compreendeis”, disse ele. Explicar as Escrituras à luz da Verdade! É difícil, quando quem nos está escutando é um José de Alfeu, isto é, alguém que crê firmemente no reino temporal do Messias, em seu nascimento como rei e em tantas outras coisas!

Mas, para fazê-los aceitar a ideia de que o Rei de Israel deve ser, sim, de estirpe real, de Davi, sim. Mas não é necessário que Ele tenha nascido em um palácio real. Para isso me ajudou o próprio orgulho deles. Eles… Oh! Como eles se apegam ao fato de ser Ele da estirpe real de Davi! Com delicadeza eu lhes disse tantas coisas… e esta ideia, eu a procurei corrigir nele. Ele admite agora, para estar de acordo com as profecias, que Tu és o Profetizado. Mas eu não teria conseguido, oh! Não teria conseguido covencê-lo de que Tu, ou que a tua verdadeira grandeza consiste justamente nisto: em seres Rei quanto ao espírito, isto é a única coisa que te pode fazer o Rei universal e eterno, mesmo que não tivessem vindo, e já por duas vezes, as pessoas para procurá-lo… Os primeiros foram os de Cafarnaum e os outros com eles, depois de tê-lo novamente seduzido com deslumbrantes promessas de grandeza para toda a casa, vendo-o pouco propenso em ceder em favor deles, pois eles pretendiam forçar-te e me forçar a fazer-te aceitar uma coroa. Mas eles não conseguiram e passaram a fazer ameaças. As costumeiras ameaças veladas de que eles costumam lançar mão. Facas afiadas, enroladas em lã macia, para fazer parecer que fossem inofensivas… José reagiu, dizendo:“Eu sou o mais velho, mas Ele é maior de idade, e em nossa família não me parece que tenham existido bobos, nem doidos. Como quem já é maior de idade, há quatro lustros, Ele sabe o que está fazendo. Ide, pois, e interrogai-o e, se Ele se recusar, deixai-o assim. Ele sabe o que está fazendo. Ele é responsável por suas ações.”

Mas depois, e precisamente na vigília do sábado, vieram alguns dos teus discípulos… Estás olhando para mim, meu Filho? Permite que eu não te diga os nomes deles, deixa que eu te diga que um filho que houvese levantado a mão contra os cabelos brancos do pai, um levita que tivesse profanado o altar, e estivesse com medo da ira de Javé, não seriam como eles eram. Eles vinham de Cafarnaum, onde te haviam procurado… Tinham andado pelos caminhos do lago, de Cafarnaum até Magdala, depois até Tiberíades, esperando encontrar-te. Eles se haviam encontrado com Hermes e Estêvão, que iam descendo com outros para Jerusalém, depois de terem sido hospedados por Gamaliel por alguns dias. Eu não quero dizer o que eles disseram, o que te querem dizer, e estão ansiosos por dizê-lo. Mas as palavras deles tinham aumentado ainda mais o sofrimento dos discípulos, que foram desencaminhados até o ponto de se unirem a quem te queria trair, por meio de uma unção mentirosa. Quando eles vieram, José estava em minha casa. E isto foi bom. Oh! José ainda não chegou à Luz, mas já está no crepúsculo de sua aurora. José compreendeu a cilada e… te ama muito, agora José é nosso. Ele te ama. Não ouso dizer “como deve”, mas pelo menos como parente já de idade, que sofre com o teu sofrimento, que vigia por tua incolumidade, que conhece todos os teus inimigos…

Eis a razão porque eu sei o que eles te fizeram, meu Filho. É uma dor. E também uma alegria, porque mais de um já te reconheceram por aquilo que és. Para ti e para mim são esta dor e esta alegria. Nós perdoamos a todos, não é verdade? Eu já perdoei aos arrependidos, na parte que me tocava.

– Minha Mãe, tu podias dar todo o perdão, também, por Mim. Porque eu já os havia perdoado ao ver o coração deles. São homens…

Tufalaste bem… 477.6Mas eu também tenho a alegria de ver José andando para a frente, rumo à aurora da verdadeira Luz…

– Sim. Ele esperava ver-te. Seria bom que Tu o visses. Hoje ele esteve ausente até o pôr do sol. Ficará sentido, se não te vir. Mas ele o poderá fazer em Jerusalém.

– Não, Mãe. Eu não ficarei em Jerusalém, de tal modo que possa ser visto. Preciso evangelizar a Cidade e os lugares vizinhos dela, Eu seria logo expulso, se me descobrissem. Deverei, pois, fazer como alguém que fez o mal, enquanto que Eu só quero fazer o bem. Mas assim é.

– Então, não verás José? Ele parte amanhã para a festa dos Tabernáculos. Vós podíeis fazer a viagem juntos…

– Não posso…

– Já te estarão perseguindo a tal ponto, meu Filho?

Que ansiedade se nota na voz da Mãe!

– Não, minha Mãe. Não. Não mais do que antes. Podes confiar. Pelo contrário. Os espíritos bons estão vindo a mim. Outros, que bons não são, param para meditar, enquanto que antes feriam sem razão, mas os discípulos estão aumentando e os que são de idade estão sempre se formando, e os apóstolos vão-se aperfeiçoando. Eu não falo de João. Ele tem sido sempre uma graça que o Pai me concedeu, mas Eu falo de Simão de Jonas e dos outros. Simão, que Eu posso dizer que dia a dia vai-se mudando do homem que era em apóstolo, e tu sabes o que Eu quero dizer. Isso me dá uma grande alegria. Natanael e Filipe, que vão-se livrando dos laços de suas ideias. Tomé e… mas, que é que Eu estou dizendo! Todos. Sim, podes crer. Todos agora são bons: são a minha alegria. Tu deves ficar tranquila, sabendo que estou com eles: são meus amigos, meus consoladores, são os defensores do teu Filho. Se tu estivesses assim defendida e amada!

– Oh! Eu tenho Maria, tenho as mulheres de José e a de Simão e eles mesmos também, os meninos. Eu tenho o bom Alfeu. E depois, quem em Nazaré não gosta de Maria de Nazaré? Tu deves ficar tranquilo… A cidade inteira ama à tua mãe.

– Mas os que não me amam ainda são apenas uns poucos. Eu sei disso, sei que o amor deles por Ti está imbuído da compaixão que se tem da mãe de um doido e de um vagabundo. Contudo tu sabes que Eunão sou isso, e que Eu te amo. 477.7Tu sabes que ter que separar-me de ti é uma obediência, não digo a maior, mas a mais amorosamente, dolorosa que o Pai exige de Mim…

– Sim, meu Filho. Sim. Eu sei. Eu não me lamento de nada. Certamente eu gostaria de estar, preferiria estar contigo, no meio da lama, exposta ao vento, ao relento, perseguida, cansada, sem telhado e sem fogão, sem pão, como Tu tantas vezes, ainda que em minha casa, enquanto Tu estás lá longe, e eu nem sei como estás na hora em que penso em Ti. Tu comigo, e eu contigo, tu sofrerias menos, e eu menos sofreria… Porque Tu és meu Filho, eu poderia te ter sempre em meus braços, defender-te do frio, da dureza das pedras e sobretudo da dureza dos corações, com o meu amor, com o meu peito, com os meus braços. Tu és o meu Filho. Eu te segurei bem sobre o coração lá na gruta, na viagem para o Egito, e na volta de lá, sempre, quando as insídias da estação e dos homens podiam fazer-te mal. Por que não poderia eu fazer o mesmo agora? Por acaso, não serei eu mais a tua Mãe, porque agora Tu és homem? Então, não pode mais uma mãe ser tudo para o filho, porque ele não é mais pequenino? Eu penso que, se eu estiver contigo, não te poderão fazer mal… Não. Eu sou uma tola… Tu és o Redentor… e os homens, eu já o tenho visto, não têm piedade nem mesmo da propria mãe deles… Mas deixa-me ir para perto de Ti. Tudo é melhor para mim do que estar longe de Ti.

– Se os homens fossem melhores, eu teria voltado para Nazaré de novo. Mas também Nazaré… Não importa. Eles virão a mim. Por enquanto, eu estou indo a outros… Não posso levar-te comigo. E não voltarei aqui, senão quando eles souberem quem Eu sou. 477.8 Agora Eu vou para a Judeia. Subirei até o Templo… Depois ficarei por aquelas regiões. Percorrerei uma vez mais a Samaria. Trabalharei onde há mais coisas que fazer. Por isso, ó Mãe, Eu te aconselho a preparar-te para ir ao meu encontro no começo da primavera e a estabelecer-te perto de Jerusalém. Nós nos veremos com mais facilidade. Eu subirei de novo até a Decápole, mais uma vez, e nos veremos ainda… Assim Eu espero. Mas, na maior parte do tempo, ficarei na Judeia. Jerusalém é a ovelha mais necessitada de cuidados, porque, em verdade, é mais teimosa do que um carneiro velho, mais rixenta do que um bode que ficou selvagem. Eu irei semear por lá a Palavra, como um orvalho que não se cansa de cair sobre sua aridez…

Jesus se põe em pé, fica parado olha para sua mãe, que o está fitando com atenção, Ele abre a boca e depois sacode a cabeça dizendo:

– Há ainda uma coisa a dizer, antes da última coisa… Minha Mãe, se José quiser falar-me, que esteja, lá pela aurora de depois de amanhã, na estrada que de Nazaré, passando pelo Tabor, vai para Jezrael. Eu lá estarei sozinho, ou com João.

– Eu o direi, meu Filho.

477.9 Há um silêncio, um profundo silêncio, pois os passarinhos já pararam de brigar por entre os ramos, e até o vento se calou, enquanto o crepúsculo vai-se aproximando. Depois, Jesus, que parece ter procurado com dificuldade as últimas palavras a dizer, diz:

– Minha Mãe, a permanência acabou. Um beijo, minha Mãe. E a tua bênção.

E eles se beijam e se abençoam um ao outro.

Em seguida, Jesus, inclinando-se para pegar o véu de sua Mãe, chamando João, como que para tornar menos pesadas suas palavras, diz:

– Quando fores para a Judeia, leva-me a minha veste mais bonita. Aquela que me fizeste para as festas solenes. Em Jerusalém devo ser “Mestre”, no sentido mais amplo e até mais perceptível pelos homens, visto que aqueles espíritos, fechados e hipócritas, olham mais para as exterioridades: mais para a veste do que para o interior, que é a doutrina. Assim, até Judas de Keriot ficará contente… e contente ficará José, que me verá de fato vestido com uma veste real. Oh! Será um triunfo! E a veste feita por ti contribuirá…

E sorri, sacudindo a cabeça para abrandar um pouco a verdade evidente que aquelas palavras encerram.

Mas Maria não se engana. Ela põe-se de pé, se apóia no braço de Jesus, exclamando: “Meu Filho!”, e com uma angústia que me faz sofrer.

Jesus a acolhe sobre o seu coração, e ela chora sobre o coração dele.

– Minha Mãe, Eu quis falar-te nesta hora de paz por isto… Eu te confio o meu segredo, tudo o que Eu tenho de mais querido aqui embaixo. Nenhum dos discípulos sabe que não voltaremos mais a estes lugares, a não ser quando tudo se tiver cumprido. Mas tu… Para ti não há segredos… Assim Eu te havia prometido1. Minha Mãe.

Não chores. Temos ainda muitas horas para estarmos juntos. Por isso, Eu te digo: “Vem para a Judeia.” O ter-te perto de Mim, compensar-me-á por aquele trabalho da mais difícil das evangelizações, feita àqueles duros de coração, que criam obstáculos à Palavra de Deus. Vem com as discípulas da Galileia. Vós me ajudareis muito. João proverá no que diz respeito ao alojamento para ti e para elas. Agora, antes que ele volte, vamos rezar juntos. Depois, tu voltarás ao povoado, e Eu também irei de noite…

477.10 Os dois estão rezando juntos, estão dizendo as últimas palavras do Pai-nosso, quando aparece João que, a meia luz, ao chegar mais perto, vê e fica espantado pelos sinais de choro sobre o rosto de Maria. Mas não fala nada sobre isso. Ele saúda o Mestre e lhe diz:

– Estarei, lá pelo romper da aurora, na estrada, perto de Nazaré… Vem, minha Mãe. Por fora do bosque, ainda está claro, lá embaixo a estrada está alumiada de fato pelas lanternas, que foram colocadas nos carros pelo caminho…

Maria beija de novo Jesus, chorando por baixo do seu véu, e depois, ajudada por João, que a segura pelo cotovelo, desce para o caminho, e logo se dirige para o vale.

Jesus fica sozinho, rezando, pensando e chorando. E Jesus continua a chorar ao ver sua Mãe que vai descendo. Depois Ele volta para onde estava antes, toma de novo a posição anterior, enquanto a sombra e o silêncio se vão tornando cada vez mais completos ao redor dele.

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14 de fevereiro de 1944.

[…]

477.11 Diz Jesus2:

– Também isto não esqueci das dores de Maria. Ter estraçalhado a ela com a espera do meu sofrimento, tê-la visto chorar. É por isto que não lhe nego nada. Ela me deu tudo. Eu lhe dou tudo. Ela sofreu toda a dor. Eu lhe dou toda a alegria.

Desejo que, quando pensas em Maria, medites esta sua agonia que durou trinta e três anos e culminou aos pés da Cruz. Ela sofreu por vós. Por vós as derisões da multidão que a julgava mãe de um louco. Por vós as reprovações dos parentes e das pessoas importantes. Por vós a minha aparente indiferença3: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que fazem a vontade de Deus.” E quem, mais do que ela fazia essa vontade, uma Vontade tremenda, que lhe impunha a tortura de ver supliciar o Filho?

Por vós as fadigas de encontrar-me aqui e ali. Por vós os sacrifícios, aquele de deixar a sua casinha e misturar-se às multidões, aquele de deixar a sua pequena pátria pelo tumulto de Jerusalém. Por vós o dever estar em contato com aquele que alimentava no coração a traição. Por vós a dor de ouvir-me acusado de possessão diabólica, de heresia. Tudo, por vós.

477.12 Vós não sabeis quanto amei minha Mãe. Vós não refletis como o coração do Filho de Maria fosse sensível aos afetos. E credes que a minha tortura tenha sido puramente física, no máximo percebeis a tortura espiritual do abandono final do Pai.

Não, filhos. Também as paixões do homem Eu as provei. Sofri por ver minha Mãe sofrer, por dever conduzi-la, como cordeirinha mansa, ao suplício, de ter de estraçalhá-la com os sucessivos adeus, em Nazaré na primeira evangelização, nisto que vos mostrei e que precede a minha iminente Paixão, e naquilo, quando já estava em andamento a traição de Iscariotes, antes da Ceia, ou naquele atroz sobre o Calvário.

Sofri por ver-me escarnecido, odiado, caluniado, procurado por curiosidade má, que não envolvia um bem, mas antes um mal. Sofri por todas as mentiras que fui obrigado a ouvir ou ver agindo em minha frente. Aquelas dos fariseus hipócritas, que me chamavam mestre e me faziam perguntas, não pela fé em minha inteligência, mas para me armar ciladas; aquelas dos beneficiados por Mim, que se voltaram aos acusadores no Sinédrio e no Pretório; aquela, aquela premeditada, longa, sutil, de Judas, que me vendeu e continuou a fingir-se discípulo, que me indicou aos perseguidores com o sinal do amor. Sofri pela mentira de Pedro, tomado de medo humano.

Quanta mentira, tão revoltante para Mim que sou a Verdade! Quanta mentira, ainda agora, há em relação a Mim! Dizeis amar-me, mas não me amais. Tendes o meu Nome sobre os lábios, e no coração adorais Satanás e seguis uma lei contrária à minha.

Sofri pensando que diante do valor infinito do meu Sacrifício, o Sacrifício de um Deus, tão poucos se salvariam. Todos, digo: todos aqueles que nos séculos dos séculos da terra haveriam preferido a morte à vida eterna, tornando vão o meu Sacrifício, Eu os tive presentes. E com este conhecimento caminhei de encontro à morte.

477.13Vê, pequeno João, que o teu Jesus e a Mãe sofreram agudamente no seu eu moral. E longamente. Paciência, então, se deverás sofrer. “Nenhum discípulo é maior que o Mestre”, Eu o disse4.

Amanhã falarei das dores do espírito. Agora repousa. A paz esteja contigo.

1 prometido, em 460.10.
2 Diz Jesus... segue em um episódio escrito baseada a uma “visão” de 14 de fevereiro de 1944 e que é relatado no volume “Os cadernos de 1944”. O mesmo episódio, reescrito mais exatamente baseada à “visão” de 21 de agosto de 1946, é o que precede aqui.
3 aparente indiferença, que está em 269.12.
4 Eu o disse, em 265.11.


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