343. 343. Fermento dos fariseus. O Filhodo homem. O primado de Simão Pedro.
27 de novembro de 1945.
343.1 A planície continua às margens do Jordão até o ponto em que ele se lança no lago Meron. É uma bela planície na qual, de um dia para outro, crescem mais viçosos os cereais e se enchem de flores as árvores frutíferas. As colinas, depois das quais está Quedes, ficaram agora às costas dos peregrinos, que estão sentindo muito frio e vão caminhando depressa nestas primeiras luzes do dia, olhando com grande avidez para o sol que vem subindo e procurando-o, mal os seus raios chegam aos prados e acariciam as copas das árvores. Eles devem ter dormido ao relento ou, quando muito, sobre algum palheiro, pois suas roupas estão amarrotadas, cheias de pedacinhos de palha e de folhas secas, que eles estão tirando à medida que os vão descobrindo à luz que vai se tornando mais clara.
O rio dá noticia de sua presença pelo barulho que está fazendo e que, no meio do silêncio de uma manhã na campina, parece muito forte. Uma viçosa fileira de árvores novas ostenta suas folhas, que tremulam com a suave brisa da manhã. Mas o rio não se vê ainda, escondido como ele está no fundo da planície. Já estamos quase à margem dele quando se vêem brilhando por entre as plantinhas verdes das margens as suas águas azuladas, avolumadas por muitas pequenas torrentes, que descem das colinas do oeste.
– Vamos ir pela margem até à ponte, ou vamos atravessar o rio aqui mesmo? –perguntam a Jesus, que estava sozinho e meditando e que para, a fim de atendê-los.
– Olhai se há alguma barca para atravessar. É melhor ir por aqui…
– Sim. Na ponte, que fica justamente sobre o caminho que vai para Cesaréia Panéades, poderíamos encontrar-nos de novo com alguém que estivesse vindo sobre os nossos rastros –observa aborrecido, Bartolomeu, enquanto fica olhando para Judas.
– Não. Não me fiques olhando com esses olhos. Eu não sabia que vínhamos por aqui e não podia dizer nada. Fácil seria compreender que, de Sefet, Jesus teria ido para as tumbas dos rabis e para Quedes. Mas nunca eu teria pensado que Ele quisesse avançar até à Capital de Filipe. Por isso eles não estão sabendo. E não os encontraremos por minha culpa nem por vontade deles. A não ser que seja Belzebu quem os esteja conduzindo –diz, calmo e humilde, Iscariotes.
– Isto é bom. Porque com certas pessoas… É preciso que estejamos de olhos abertos e medindo nossas palavras, não deixando indícios do que projetamos fazer. Precisamos estar atentos a tudo. Se assim não for, nossa evangelização se tornará uma continua fuga –replica Bartolomeu.
Estão de volta João e André. Dizem:
– Encontramos duas barcas. Eles nos passam por uma dracma cada barca. Vamos descer na margem.
E nas duas barquinhas, em duas viagens passam para o outro lado. A planície achatada e fértil1 os acolhe também aqui. Ela é fértil, mas pouco povoada. Somente os camponeses que a cultivam, é que moram nela.
343.2– Hum! Como faremos para achar pão? Eu estou com fome. E aqui… não encontramos nem as espigas dos filisteus. Ervas e folhas, folhas e flores. Não se vê nem uma ovelha, nem uma abelha –murmura Pedro aos companheiros, que sorriem diante da observação dele.
Judas Tadeu se vira — ele estava um pouco na frente — e diz:
– Compraremos pão no próximo povoado.
– Contanto que não nos façam fugir –termina Tiago de Zebedeu.
– Tomai cuidado, vós que dizeis estar atentos a tudo, com o fermento dos fariseus e dos saduceus. Parece-me que assim estais fazendo, mas sem refletirdes no mal que estais fazendo. Estai atentos. Tomai cuidado –diz Jesus.
Os apóstolos olham uns para os outros, e murmuram:
– Mas o que é que Ele está dizendo? Quem nos deu o pão foi aquela mulher do surdo-mudo e o hospedeiro de Quedes. E ainda sobrou. E é o único que temos. E não sabemos se poderemos achar o tanto suficiente para matar nossa fome. Como é que Ele está dizendo que compramos dos fariseus e saduceus o pão com o fermento deles. Talvez Ele não queira que compremos nesses povoados…
Jesus, que de novo estava sozinho na frente, torna a virar-se:
– Por que estais com medo de ficar sem pão para a vossa fome? Ainda que todos aqui fossem fariseus e saduceus, não ficaríeis sem comida, por causa do conselho que Eu vos dei. Eu não falei do fermento que há no pão… Por isso, podereis comprar onde quiserdes o pão para os vossos estômagos. E, se ninguém no-lo quisesse vender, não ficaríeis sem pão do mesmo modo. Não vos lembrais dos cinco pães com que mataram sua fome cinco mil pessoas? E não vos lembrais de que recolhestes doze cestos cheios com os restos dos pães? Eu poderia fazer para vós, que sois doze e tendes um pão, o que Eu fiz para cinco mil com cinco pães. Compreendeis agora a qual fermento Eu me refiro? Ao que incha o coração dos fariseus, saduceus e doutores contra Mim. Agora vós estais indo no rumo do ódio, como se em vós tivesse penetrado uma parte do fermento dos fariseus. Não se deve odiar nem mesmo a quem é nosso inimigo. Não abrais nem mesmo um respiradouro ao que não é de Deus. Atrás do primeiro entrariam outros elementos contrários a Deus. Algumas vezes, pelo fato de se querer exageradamente combater com armas iguais aos inimigos, acaba-se morrendo ou sendo vencido. E, tendo sido vencidos, poderíeis, pela convivência com eles, absorver as suas doutrinas. Não. Tende caridade e prudência. Vós ainda não tendes o tanto necessário para combater essas doutrinas, sem ficar contaminados por elas. Porque alguns dos elementos delas vós também os tendes em vós. E a ira contra eles é um deles. Eu vos digo ainda, que eles poderiam mudar de método para seduzir-vos e afastar-vos de Mim, lançando mão de mil gentilezas, mostrando-se arrependidos e desejosos de fazer as pazes. Não deveis evitá-los; mas, quando eles procurarem ensinar-vos suas doutrinas, precisais saber deixar de acolhê-las. Eis aí o que é o fermento de que Eu falo. É a má vontade, que é contra o amor, e as falsas doutrinas. Eu vos digo: sede prudentes.
343.3 – Aquele sinal que os fariseus estavam pedindo ontem era “fermento” Mestre? –pergunta Tomé.
– Era fermento e veneno.
– Fizeste bem em não dar-lhes.
– Mas Eu lhes darei um dia…
– Quando? Quando? perguntam, curiosos.
– Um dia.
– E que sinal será? Não o dizes nem a nós, os teus apóstolos, para que possamos reconhecer rapidamente –pergunta Pedro, cheio de desejo.
– Vós não deveis precisar de um sinal.
– Oh! Mas não é para podermos crer em Ti! Eles têm muitos pensamentos. Nós só temos um: o de amar-te –diz com veemência Tiago de Zebedeu.
343.4 – Mas as pessoas, das quais vós estais mais perto e vos dais bem com elas mais do que Eu, tratando-as bem, sem causar-lhes aquele acanhamento que poderia acontecer comigo, quem é que elas dizem que Eu sou? E que elas acham do Filho do homem?
– Uns dizem que és Jesus, isto é, o Cristo, e esses são os melhores. Outros dizem que és um Profeta, outros, somente um Rabi, e outros, como Tu sabes, dizem que és um doido e endemoninhado!
– Alguns, porém, Te dão o mesmo nome que Tu te dás, e Te chamam de “Filho do homem.”
– E alguns também dizem que isso não pode ser, porque o Filho do homem é bem outra coisa. E nem sempre isso que dizem é uma negação porque, no fundo, eles admitem que Tu és mais do que o Filho do homem, porque és o Filho de Deus. Outros, ao contrário, dizem que Tu não és nem mesmo o Filho do homem, mas um pobre homem, agitado por Satanás ou que já está transtornado pela demência. Tu estás vendo que os pareceres são muitos e todos diferentes –diz Bartolomeu.
– Mas, afinal, no pensar do povo, quem é o Filho do homem?
– É um homem no qual há as mais belas virtudes do homem, um homem que reúne em si todos os requisitos de inteligência, sabedoria e graça, que nós achamos que existiram em Adão, e alguns, a esses requisitos acrescentam o de não morrer. Tu sabes que já corre por aí a notícia de que João Batista não morreu. Mas que somente foi levado pelos anjos para algum outro lugar e que Herodes, para não ter que dizer que foi vencido por Deus e menos ainda Herodíades, tenham matado um servo e decepado a cabeça dele, e tenham mostrado o corpo do servo como sendo o cadáver de João Batista. Tantas coisas o povo diz sobre ele! Por isso, muitos pensam que o Filho do homem seja ou Jeremias, ou Elias, ou algum dos Profetas, ou também o próprio Batista, no qual havia graça e sabedoria, e que se dizia Precursor do Cristo: o Ungido de Deus. O Filho do homem seria um grande homem, nascido do homem. Muitos não podem admitir, ou não querem admitir que Deus tenha podido mandar seu Filho à terra. Tu o disseste ontem: “Só crerão aqueles que estão convencidos da infinita bondade de Deus.” Israel crê no rigor de Deus, mais do que em sua Bondade… –diz ainda Bartolomeu.
– Sim. Sentem-se, de fato, tão indignos, que julgam impossível que Deus seja tão bom a ponto de enviar o seu Verbo para salvá-los. Neste ponto o que faz um obstáculo à fé deles é o estado degradado em que estão as suas almas –confirma o Zelotes.
E acrescenta:
– Tu dizes que és o Filho de Deus e do homem. De fato, em Ti há toda graça e sabedoria como homem. E eu creio que realmente quem tivesse nascido de um Adão em estado de graça teria sido teu semelhante pela beleza e inteligência e por todos os outros dotes. E em Ti Deus brilha pelo seu poder. Mas, quem o pode crer, entre aqueles que se crêem deuses, e medem a Deus por si mesmos, em sua soberba sem limites? Eles, os cruéis, podem certamente pensar que Deus tenha anulado a sua doçura, ao entregar-se a si mesmo para redimi-los, e o seu amor para salvá-los, a sua generosidade em entregar-se ao arbítrio do homem, a sua pureza para sacrificar-se no meio de nós. Não o podem, não, esses que são tão inexoráveis e cavilosos, ao procurarem e punirem as culpas.
343.5 – E vós, quem dizeis que Eu sou? Dizei-o, conforme o vosso modo de julgar, sem levar em conta as minhas palavras, ou as de outrem. Se fôsseis obrigados a julgar-me, quem diríeis que Eu sou?
– Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo –grita Pedro, ajoelhando-se, com os braços estendidos para o alto, para Jesus, que está olhando para ele, com um rosto todo cheio de luz, e se inclina para pô-lo em pé e abraçá-lo, dizendo:
– Feliz de ti, ó Simão, filho de Jonas! Porque não é a carne nem o sangue que te revelou isto, mas sim, o Meu Pai, que está nos Céus. Desde o primeiro dia em que vieste a Mim, tu fizeste a ti mesmo esta pergunta e, visto que eras simples e honesto, soubeste compreender e aceitar a resposta que te vinha dos Céus. Tu não viste manifestações sobrenaturais, como teu irmão, João e Tiago. Tu não conhecias a minha santidade de filho, de operário, de cidadão, como Judas e Tiago, meus irmãos. Tu não recebeste nenhum milagre, nem me viste fazer algum deles, nem Eu te dei sinal do meu poder, como os fiz, e como os viram Filipe, Natanael, Simão Cananeu, Tomé, Judas. Tu não foste subjugado por minha vontade, como Leví, o publicano. Contudo, tu exclamaste: “Ele é o Cristo!” Desde a primeira hora em que me viste, já acreditaste, e nunca a tua fé se abalou. Por isso Eu te chamo Céfas. E por isso sobre ti, a Pedra, Eu edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. A ti Eu darei as chaves do Reino dos Céus. E tudo o que ligares na terra estará ligado no Céu. E tudo o que desligares na terra estará desligado no Céu, ó homem fiel e prudente, cujo coração Eu pude provar. E aqui, a partir deste momento, tu és o chefe, ao qual se deve obediência e respeito, como se fosse um outro Eu mesmo. E como tal Eu o proclamo diante de todos vós.
343.6 Se Jesus tivesse esmagado Pedro, debaixo de uma saraivada de repreensões, o choro de Pedro não teria sido tão alto. Ele chora, todo sacudido pelos soluços, com o rosto inclinado sobre o peito de Jesus. É um choro que só pode achar semelhante naquele outro, irreprimível, de quando ele negou a Jesus. Agora se trata de um pranto nascido de mil sentimentos humildes e bons. É mais uma manifestação do antigo Simão — o pescador de Betsaida, aquele que, ao primeiro anúncio feito por seu irmão, havia dado uma risada, dizendo: “Então, o mestre está aparecendo a ti… Era o que faltava”, incrédulo e zombeteiro —, um pouco ainda daquele antigo Simão é o que se pode ver por baixo daquele choro aparecer, por baixo da crosta adelgaçada de sua humanidade, cada vez com maior nitidez, o Pedro, Pontífice da Igreja de Cristo.
Quando ele levanta o rosto, tímido, confuso, só sabe fazer uma coisa para dizer tudo, para prometer tudo, a fim de fortalecer-se todo para o novo ministério, e a lançar-se, com seus braços curtos e musculosos, ao pescoço de Jesus, obrigando-o a inclinar-se para beijá-lo, misturando seus cabelos e sua barba, um pouco hirsutos e grisalhos, com os cabelos e a barba macios e louros de Jesus, olhando depois para Ele, com um olhar de adoração, de amor, de súplica, com uns olhos brilhantes e vermelhos, por causa das lágrimas derramadas, tendo em suas mãos calosas, largas e rústicas, o rosto ascético do Mestre inclinado sobre o seu, como se fosse uma vasilha, da qual estivesse escorrendo algum licor vital… e bebe, bebe doçura e graça, segurança e força, daqueles olhos, daquele sorriso…
343.7 Separam-se, afinal, e continuam andando para Cesaréia de Filipe, e Jesus diz a todos:
– Pedro disse a Verdade. Muitos têm a intuição dela, e vós a ficastes sabendo. Mas vós, por enquanto, não digais a ninguém a respeito do Cristo, a verdade completa, que vós sabeis. Deixai que Deus fale aos corações dos ouvintes, como fala aos vossos. Em verdade Eu vos digo que as minhas afirmações ou às vossas unem uma fé perfeita e um perfeito amor, chegam a saber o verdadeiro significado destas palavras: Jesus, o Cristo, o Filho do homem e de Deus.
1 planície e fértil, que MV tenta retratar com o esboço que reproduzimos. São lidas com dificuldade as palavras: Colli (oeste), Caesarea Paneade (nordeste), Monti alta o suficiente (para o leste), Colinas (sudeste) e local de passagem (centro, no rio).
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