606. 606. Jesus e Maria são a antítese de Adão e de Eva.Judas Iscariotes é o novo Caim.A verdadeira evolução do homem é a de seu espírito.


2 de abril de 1944. Domingo de Ramos.

606.1Diz Jesus:

– A dupla Jesus e Maria forma a antítese da dupla Adão e Eva1. Está predestinada a anular tudo o que foi feito por Adão e Eva, e a colocar de novo a Humanidade no ponto em que estava, quando foi criada: rica de graça e de todos os dons dados pelo Criador. A Humanidade passou por uma regeneração completa pela obra dos dois, Jesus e Maria, os quais se tornaram os novos progenitores da família humana. Todo o tempo que veio antes deles foi anulado. O tempo e a história do homem passaram a ser contados a partir do momento em que a nova Eva, por uma viravolta na obra da Criação, tira do seu seio inviolado, por obra do Senhor Deus, o novo Adão.

Mas, para anular as obras dos dois Primeiros, que foram a causa da enfermidade mortal e de uma mutilação eterna e empobrecimento, mais ainda: de indigência espiritual — porque depois do pecado Adão e Eva se encontraram despojados de tudo aquilo que lhes havia sido doado, uma riqueza infinita, o Pai Santo — tiveram, estes dois Segundos, que agir em tudo de maneira oposta à dos dois Primeiros. Por isso, tiveram que pôr em prática a obediência, até chegarem ao ponto da perfeição de quem se aniquila e se sacrifica na carne, no sentimento, no pensamento e na vontade, para aceitar tudo o que Deus quer. Portanto, praticar a pureza até o grau de uma castidade absoluta, pela qual a carne… para Nós dois puros, que é que valia a carne? Era apenas um véu de água sobre o espírito triunfante, uma carícia do vento sobre o espírito rei, cristal que isola o espírito-senhor e não o corrompe, pois é um impulso que ajuda e não um peso que oprime. Isto é o que foi a carne para Nós. Menos pesada e sensível do que uma veste de linho, uma leve substância interposta entre o mundo e o esplendor do eu sobre-humanado, o meio para fazer o que Deus queria. Nada mais.

606.2Terá sido nosso o amor? Com certeza. O “perfeito amor foi nosso. Não é, ó homens, não é amor a fome de sensualidade que vos torna cheios do desejo de saciar-vos com a carne. Isso é luxúria. E nada mais. Tanto isso é verdade que, amando-vos assim — e vós credes que isso é amor — não sabeis compadecer-vos uns dos outros, nem ajudar-vos, nem perdoar-vos. E, então, que é o vosso amor? É ódio. É unicamente o delirio paranoico, que vos impele a preferir o sabor de alimentos podres aos de alimentos sãos, fortificantes dos sentimentos nobres.

Nós tivemos o “perfeito amor”. Nós, os castos perfeitos. Este amor abraçava a Deus no Céu e, unido a Ele como as raízes ao tronco que as une e as nutre, expandia-se e descia, esbanjando-se do repouso, do refúgio, de sustento e conforto nesta Terra e em seus habitantes. Ninguém está excluído deste amor. Nem os nossos semelhantes, nem os seres inferiores, nem as ervas, nem as águas, nem os astros, nem mesmo os maus estavam excluídos deste amor. Porque eles também, ainda que fossem membros mortos, contudo sempre eram membros do grande corpo de Cristo, e por isso viam neles, ainda que deturpada e enfeada por suas maldades, a santa efígie do Senhor, que os havia criado à sua imagem e semelhança.

Regozijando-se com os bons, chorando sobre os não bons, orando (o que vem a ser um amor ativo que se manifesta com o pedir e receber proteção para quem se ama), rezando pelos bons, a fim de que se tornem sempre melhores e se aproximem cada vez mais da perfeição do Bom, que lá dos Céus nos ama, orando por aqueles que ficam vacilando entre a bondade e a maldade, para que se fortalecessem e soubessem persistir no caminho santo, rezando pelos maus, a fim de que a Bondade falasse aos seus espíritos, os derrubasse talvez com o fulgor do seu poder, mas os convertesse ao Senhor seu Deus. Nós amamos. Como ninguém mais amou. Nós estimulamos o amor até às alturas da perfeição, para encher com o nosso oceano de amor o abismo que foi cavado pela falta de amor dos Primeiros, que amaram a si mesmos mais do que a Deus, querendo ter mais do que era lícito para se tornarem superiores a Deus.

606.3Por isso, Nós tivemos que unir à pureza, à obediência e à caridade, mais do que a todas as riquezas da terra (a carne, o poder, o dinheiro, esse trinômio de Satanás, oposto ao trinômio de Deus: a fé, a esperança e a caridade); ao ódio, à luxúria, à ira, à soberba (às quatro paixões perversas, que são a antítese das quatro virtudes santas: a fortaleza, a temperança, a justiça e a prudência) Nós tivemos que unir a prática constante de tudo o que era oposto ao modo de agir do casal Adão e Eva. E, se ainda nos foi fácil fazer isso, por causa de nossa boa vontade sem limite, somente o Eterno é que sabe como foi heroico cumprir esta prática em certos momentos e em certos casos.

Eu quero aqui falar de um só. De minha Mãe. Não de Mim. Da nova Eva, a qual havia rejeitado, desde os mais tenros anos, os afagos usados por Satanás para induzi-la a morder o fruto, a provar aquele sabor que enlouqueceu a companheira de Adão. A nova Eva não se limitou a rejeitar Satanás, mas o havia vencido, esmagando-o por sua vontade de obediência, de amor e de uma castidade tão ampla, que ele, o Maldito, ficou realmente esmagado e domado.

Não! Não, porque Satanás não pode sair de debaixo do calcanhar de minha Mãe Virgem! Ele se baba e espuma, ruge e blasfema. Mas sua baba cai no chão e o seu urro não chega até ao redor do ar que rodeia a minha Santa, a qual não percebe o fedor nem as risadas dos demônios, nem vê, não pode ver a baba nojenta da Serpente eterna, porque as harmonias celestes e os celestes aromas rodeiam com amor a sua santa pessoa, a bela pessoa; e porque os olhares dela, mais puros do que o lírio e mais cheios de amor do que o da pomba que arrulha, fixa somente ao seu Senhor Eterno, do qual Ela é Filha, Mãe e Esposa.

606.4Quando Caim matou Abel, a boca de sua mãe proferiu as maldições que o seu espírito, separado de Deus, sugeria contra o seu próximo mais íntimo: o filho de suas vísceras profanadas por Satanás e tornadas feias por um desejo desregrado. E aquela maldição foi a mancha no reino do moral humano, como o delito de Caim foi a mancha no reino do animal humano. Era o primeiro sangue sobre a terra, que atrai como um ímã milenário, todo sangue que a mão do homem derrama, fazendo-o verter das veias do homem. Maldição sobre a terra, proferida pela boca do homem. Como se a terra não estivesse já bastante maldita por causa do homem rebelde ao seu Deus, e não tivesse ainda devido conhecer os abrolhos e espinhos, a dureza das glebas, as secas, as saraivas, as geadas e as canículas; esta Terra que havia sido criada perfeita e servida por elementos perfeitos, a fim de ser a morada cômoda e bela para o seu rei, o homem.

Maria deve desfazer o que Eva fez. Maria vê o segundo Caim: Judas. Maria sabe que ele é o Caim do seu Jesus, isto é, do seu Abel. Ela sabe que o sangue deste segundo Abel foi vendido por aquele Caim, e já está derramado. Mas Ela não amaldiçoa. Ela ama e perdoa. Ama e torna a chamar.

Oh! A Maternidade de Maria, a Mártir! Maternidade sublime, tanto quanto a tua, que é virginal e divina! Foi com esta última que Deus te presenteou! Mas com a primeira Tu, ó Mãe Santa, ó Corredentora, tu mesma te presenteaste, porque Tu, somente Tu é que pudeste naquela hora, com o coração moído por aqueles flagelos que haviam moído minhas carnes, soubeste dizer a Judas aquelas palavras. Tu, somente Tu soubeste naquela hora, quando já sentias o peso da cruz que te rachava o coração, soubeste amar e perdoar.

606.5Maria: a nova Eva. Ela nos ensina a nova religião que leva o amor a perdoar a quem lhe mata um filho. Não sejais como Judas, que a esta Mestra da Graça fecha seu coração e perde a esperança, quando diz: “Ele não pode me perdoar,” pondo assim em dúvida as palavras da Mãe da Verdade, e portanto as minhas palavras, que haviam sempre repetido que Eu tinha vindo para salvar e não para perder. Para perdoar a quem vinha a mim arrependido.

Maria, a nova Eva, também recebeu de Deus um novo Filho, “em lugar de Abel, matado por Caim.” Mas não o teve como uma hora de alegria brutal, que torna anestesiada a dor sob os vapores da sensualidade e as canseiras do contentamento. Mas o teve em uma hora de dor total, aos pés de um patíbulo por entre os estertores do moribundo, que era o seu Filho, os impropérios de uma multidão deicida e uma desolação imerecida e total, já que Deus não mais a consolava.

A vida nova começa para a Humanidade e para cada um dos homens a partir de Maria. Em suas virtudes e em seu modo de viver, Ela é vossa escola. E em sua dor, que teve todas as facetas, até a do perdão para aquele que matou seu Filho, está a vossa salvação.

606.6Diz Jesus: «Um dia Eu te falarei ainda de Caim e dos Progenitores. Há muita coisa para se dizer e para meditar.

5 de abril de 1944.

606.7Diz Jesus:

– No Gênesis se lê: “Então Adão pôs em sua mulher o nome de Eva, por ser ela a mãe de todos os viventes.”

Oh! Sim. A mulher era nascida da “Virago”, que Deus havia formado para ser companheira de Adão, tirando-a da costela do homem. Ela nascera com o seu destino doloroso, porque tinha querido nascer2. Pois tinha querido conhecer o que Deus lhe havia ocultado, reservando para si a alegria de dar-lhe a alegria de uma posteridade sem o aviltamento da sensualidade. A companheira de Adão tinha querido conhecer o bem que se esconde no mal e, sobretudo, o mal escondido no bem. Porque, seduzida como tinha sido por Lúcifer, tinha o desejo de conhecer coisas que só Deus podia conhecer sem perigo, e se tinha tornado criadora. Mas, usando indignamente essa força de bem, ela a tinha corrompido praticando um ato mau, que foi a desobediência a Deus, a malícia e cobiça da carne.

Ela já era a “mãe”. Havia um pranto sem parar ao redor de sua rainha profanada. E um pranto desolado da rainha por causa daquela profanação, cuja realidade Ela compreende e sabe que não pode desfazer-se! Se as trevas e os cataclismos acompanharam a morte do Inocente, também as trevas e a tempestade acompanharam a morte do Inocente e da Graça que havia nos corações dos Progenitores. E assim havia nascido a dor sobre a terra. E a Providência de Deus não quis que ela fosse eterna, dando-vos, depois de muitos anos de dor, a alegria de sair da dor para entrar na alegria, se souberdes viver com reta intenção.

Ai do homem, se ele tivesse devido, com suas forças humanas, fazer-se o dono da vida! E ter que viver com a lembrança dos seus delitos e um contínuo aumento deles, porque viver sem pecar vos é mais impossível do que viver sem respirar, sendo vós as criaturas que havíeis sido criadas para conhecer a Luz, mas que a treva por si mesma envenenou, fazendo-vos as suas vítimas. A Treva! Ela vos rodeia continuamente. Ela vos envolve, fazendo renascer tudo o que o Sacramento desfez, e porque vós não opondes contra ela a vontade de serdes de Deus, chega a envenenar-vos de novo com o seu veneno, que o Batismo em vós havia tornado inócuo.

606.8Deus Pai afastou o homem, de cuja desobediência eram evidentes os sinais, do lugar de delícias paradisíacas, a fim de que ele não pecasse uma segunda vez, e até mais ainda, levantando sua mão de ladrão para a árvore da vida. Não podia mais o Pai confiar em seus filhos, nem sentir-se seguro em seu Paraíso Terrestre. Satanás havia penetrado nele para armar ciladas às suas criaturas prediletas, e tinha podido seduzi-las à culpa quando eram inocentes, com mais facilidade teria podido fazê-lo agora, quando não eram mais inocentes.

O homem havia desejado possuir tudo, não deixando para Deus o tesouro de ser o Criador. Que fosse embora, então, com a riqueza conquistada com violência e a levasse consigo para a terra do exílio, a fim de fazê-lo lembrar-se sempre do seu pecado, como um rei aviltado e despojado dos seus bens. A criatura paradisíaca se havia tornado uma criatura terrestre. E deviam passar por séculos de dor para que o Único que podia estender a mão para o fruto de Vida se aproximasse e colhesse daquele fruto para toda a Humanidade. E o colhesse com suas mãos traspassadas e o desse aos homens, a fim de que eles se tornassem coerdeiros do Céu e possuidores da vida que não morre nunca.

606.9Diz ainda o Gênesis: “Depois Adão conheceu sua mulher Eva.”

Tinham querido conhecer os segredos do bem e do mal. Justo era que conhecessem agora também a dor de terem que reproduzir a si mesmos na carne, tendo a ajuda direta de Deus somente para aquilo que o homem não pode criar: o espírito, centelha que vem de Deus, sopro que por Deus é infundido, selo que põe sobre a carne o sinal do Criador Eterno. E Eva deu à luz Caim.

Eva estava com a carga de sua culpa. Chamo aqui a vossa atenção sobre um fato que, para a maior parte das pessoas, passa despercebido. Eva estava sob o peso de sua culpa. Nem a dor tinha sido ainda na medida suficiente para diminuir sua culpa. Como um organismo carregado de toxinas, ela havia transmitido ao filho tudo o que pululava nela. E Caim, o primeiro filho de Eva, tinha nascido malvado, invejoso, iracundo, luxurioso e perverso, pouco diferente das feras em seu instinto, mas muito superior a elas quanto ao que é sobrenatural, porque em seu eu feroz ele negava o respeito a Deus, para o qual olhava como para um inimigo, achando que era permitido não prestar a Ele um culto sincero. E Satanás ainda o excitava mais a zombar de Deus. E quem zomba de Deus não tem mais respeito por ninguém neste mundo. Por isso é que aqueles que estão em companhia dos que zombam do Eterno conhecem o que é o amargor do pranto, porque não há para eles nenhuma esperança de um amor respeitoso em seus filhos, nenhuma segurança de um amor fiel em seu consorte, nenhuma certeza de uma amizade honesta em seus amigos.

Lágrimas e mais lágrimas regaram o rosto de Eva e regaram também o seu coração, por causa da dureza de seu filho, lançando em seu coração o germe do arrependimento. As lágrimas e mais lágrimas conseguiram para ela uma diminuição de culpa, porque Deus perdoa ao ver a dor de quem se arrepende. E o segundo gerado de Eva teve sua alma lavada no pranto da mãe, e foi agradável e respeitoso para com os seus genitores, devotado para com o seu Senhor, cuja onipotência ele percebia vir raiando dos Céus. Ele era a alegria da decaída.

Mas o caminho doloroso de Eva devia ser longo, proporcional ao seu caminho na experiência do pecado. Pois neste houve um frêmito dos sentidos, e naquele um frêmito de espasmos. Neste, beijos. Naquela, sangue. Neste, um filho. Naquele, a morte de um filho. Do predileto por sua bondade. Abel se tornou um instrumento de purificação para a culpada. Mas que purificação dolorosa! Ela encheu com os seus uivos a terra, que ficou horrorizada pelo fratricídio, e misturou as lágrimas de uma mãe com o sangue de um filho, enquanto aquele que o havia derramado, por ter ódio contra Deus e contra o irmão amado por Deus, fugia perseguido por seu remorso.

606.10Diz o Senhor a Caim: “Por que estás irritado?” Pois, se tu faltas contra Mim, ainda te irritas porque Eu não olho para ti benignamente?

Quantos Cains há sobre a terra! Eles me prestam um culto cheio de derrisão e hipocrisia, ou não mo prestam absolutamente, e ainda querem que Eu olhe para eles com amor e os encha de felicidade.

Deus é vosso Rei. Não é o vosso servo. Deus é vosso Pai. Mas um pai nunca é servo, se julgarmos conforme a Justiça. Deus é justo. E vós não o sois. Mas Ele é. E Ele não pode deixar de vos castigar, visto que ele vos cumula de benefícios sem medida contanto que o ameis um pouco, mesmo quando vê que zombais dele. Mas a justiça não conhece dois caminhos. Seu caminho é um só. Aquilo que fazeis, aquilo tereis. Fazei o bem e tereis o bem. Fazei o mal e tereis o mal. E, podeis crer, é sempre muito mais o bem que recebeis em comparação com o mal que deveríeis receber pela vossa maneira de viver em rebelião contra a Lei divina.

606.11Foi dito por Deus: “Não é verdade que, se fizeres o bem terás o bem, e que, se fizeres o mal, o pecado estará imediatamente à tua porta?” De fato, o bem produz em nós uma constante elevação espiritual e nos vai tornando sempre mais capazes de fazer um bem cada vez maior, até chegarmos a atingir a perfeição e nos tornarmos santos. Ao passo que, basta ceder ao mal para nos degradarmos e nos afastarmos da perfeição, conhecer o domínio do pecado que entra no coração e o faz ir descendo gradualmente a culpabilidades cada vez maiores.

“Mas,” diz ainda Deus, “mas abaixo de ti estará o desejo disso, e tu o deves dominar.” Sim. Deus não vos fez escravos do pecado. As paixões estão abaixo de vós. Não acima de vós. Deus vos deu inteligência e força para vos dominardes. Também aos primeiros homens, atingidos pelo rigor de Deus, Ele deu inteligência e força moral. Agora, pois, desde que o Redentor consumou para vós o Sacrifício, vós tendes para ajudar vossa inteligência e vossa força os rios da Graça, e podeis e deveis dominar os desejos do mal. E com a vossa vontade fortificada pela graça o deveis fazer. Eis aí porque foi que os anjos, em meu Nascimento, cantaram para a terra: “Paz aos homens de boa vontade.” Eu tinha vindo para trazer-vos a graça e, mediante a união dela com a vossa boa vontade, teria vindo aos homens a paz. A paz: glória do Céu de Deus.

606.12“E Caim disse a seu irmão: ‘Vamos lá fora!’.” Era uma mentira dele, e ele escondia com um sorriso a traição que mata. A delinquência é sempre mentirosa para com as vítimas e para com o mundo, que ela procura enganar. Ela quereria enganar até Deus. Mas Deus lê nos corações.

“Vamos lá para fora.” Muitos séculos depois alguém disse: “Salve, Mestre,” e o beijou. Os dois Cains esconderam o delito sob uma aparência inócua e desafogaram sua inveja, sua ira, sua prepotência e todos os seus maus instintos sobre a vítima, porque não se tinham dominado a si mesmos, mas haviam feito do seu espírito o seu próprio eu corrompido.

Eva sobe, pela expiação que faz. Enquanto Caim desce para o inferno. O desespero se apodera dele e lá o precipita. E com o desespero, que é o último golpe mortal dado ao espírito já enfraquecido por seu delito, vem o medo físico, vil, da punição humana. Não pode lembrar-se do Céu o homem que está com sua alma morta. Ele é um animal que tem medo de perder sua vida animal. A morte, cujo aspecto já é um sorriso para os justos, pois é por ela que eles vão para a alegria da posse de Deus, é terror para aqueles que sabem que morrer quer dizer passar do inferno do coração para o Inferno de Satanás para sempre. E como alucinados, veem de todos os lados a vingança pronta para feri-los.

606.13Mas ficai sabendo — Eu estou falando aos justos — ficai sabendo que se o remorso e as trevas de um coração culpado dão ocasião ou fomentam as alucinações do pecador, a ninguém é lícito erigir-se como juiz do irmão, e muito menos como seu carrasco. Somente um é Juiz: Deus. E se a justiça do homem criou os seus tribunais, a estes é que toca a tarefa de administrar justiça, e ai daqueles que profanarem tal nome e quiserem julgar pelo critério de suas próprias paixões ou pelas pressões dos poderes humanos.

Maldito seja quem se fizer carrasco particular de um seu semelhante! Mas maldição ainda maior para aqueles que, sem que o façam por uma irritação irrefletida, mas por um frio cálculo humano, condenam à morte ou à desonra de um cárcere sem justiça. Porque, se àquele que matar será dado um castigo sete vezes maior, como disse o Senhor que aconteceria com quem matasse Caim, aquele que condena sem julgamento, escravizando-se a Satanás, vestindo-se com a veste de Autoridade Humana, será condenado setenta e sete vezes pelo rigor de Deus.

Seria necessário ter isso sempre presente, especialmente agora3, ó homens que vos matais uns aos outros, para fazerdes dos que tombaram a base do vosso triunfo, e não sabeis que estais cavando sob os vossos pés o precipício no qual vos precipitareis, amaldiçoados por Deus e pelos homens. Pois Eu disse: “Não matarás.”

606.14Eva sobe pelo seu caminho de expiação. O arrependimento cresce nela diante das provas do seu pecado. Ela quis conhecer o bem e o mal. E a lembrança do bem perdido é para ela como a lembrança do sol para alguém que tenha ficado cego de repente. E o mal feito está diante dela, nos despojos do seu filho morto, e ao redor dela, pelo vazio criado pelo filho homicida e fujão. Depois disso, nasce Set. E depois de Set, Enós, o primeiro sacerdote.

Vós inchais vossas mentes com os rios da vossa ciência e falais de evolução, como para dardes um sinal da vossa formação espontânea. O homem animal, ao evoluir-se, se tornará o super-homem. Vós dizeis assim4. Sim. Assim é. Mas a meu modo. No meu campo. Não no vosso. Não será passando da espécie dos quadrúpedes para a dos homens, mas sim, passando da dos homens para a dos espíritos. E tanto mais crescerá o espírito quanto mais evoluirdes.

Vós, que falais de glândulas, e que encheis a boca falando de hipófise ou pineal, e colocais nesta a sede da vida, começada não no tempo em que viveis, mas nos tempos precedentes e nos que sucederão aos atuais, ficai sabendo que a vossa verdadeira glândula, a que faz de vós os verdadeiros possuidores eternos na vida é o vosso espírito: quanto mais ele se desenvolver, tanto mais possuireis as luzes divinas e vos transformareis de homens em deuses, deuses imortais, conseguindo assim, sem irdes contra o plano de Deus e à sua ordem a respeito da árvore da Vida, possuir esta vida exatamente como Deus quer que a possuais, pois que Ele a criou para vós eterna e brilhante, num abraço feliz com sua eternidade, que vos absorve em si e vos comunica as suas propriedades.

Quanto mais o espírito tiver evoluído, tanto mais conhecereis Deus. 606.15Conhecer Deus, quer dizer amá-lo e servi-lo, e por isso ser capazes de invocá-lo em favor de vós mesmos e dos outros. E com isso vos tornareis os sacerdotes que desta Terra oram a Deus por seus irmãos, visto que o sacerdote é consagrado. Mas também o é o cristão convicto, amoroso e fiel. E assim especialmente o é a alma vítima que se imola a si mesma por um impulso de caridade.

Não é o hábito o que Deus observa, mas a disposição, E, em verdade, Eu vos digo que aos meus olhos aparecem muitos tonsurados, que de sacerdotes só têm a tonsura5, e muitos leigos nos quais a caridade que os possui e pela qual eles se deixam consumir é o Óleo da ordenação, que faz deles os meus sacerdotes, desconhecidos pelo mundo, mas conhecidos por Mim, que os abençoo.

1 dupla Adão e Eva, protagonista de: Gênesis 1,26-29; 2,7-25; 3; 4,1-16.25-26, inclusa ali a história de Caim e Abel, mencionada mais embaixo.
2 querido nascer, porque foi em consequência do pecado, cometido intencionalmente, que a Virago (a mulher extraída do homem) tornou-se Eva (a mãe de todos os viventes).
3 especialmente agora, visto que em 1944 desencadeava-se a segunda guerra mundial.
4 dizei assim, como também em 4.7.
5 a tonsura, corte de cabelo particular, no tempo da escritora, era um dos sinais exteriores do sacerdote e do religioso.


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