405. 405. O repouso num feneiro e o discursoperto de Emaús-da-Planície. O pequeno Miguel.


28 de março de 1946.

405.1 Junto à porta de Emaús há uma casa de camponeses. Ela está silenciosa, porque todos estão nos campos, trabalhando. Sobre a eira já estão amontoados os feixes do dia anterior. E já há feno nos rústicos paióis. O sol ardente do meio-dia espalha, com seu calor, um forte odor do feno já guardado e dos feixes. Não se ouve rumor algum, a não ser o que fazem os pombos e o dos pardais sempre provocadores e briguentos. Uns e outros vão do telhado ou das árvores vizinhas aos montões de feixes e de feno, e são os primeiros entre todos os que irão provar daqueles produtos, dando bicadas por entre as espigas que estão erguidas, insultam uns aos outros com golpes de asas, lutam para apanhar cada um mais sementes, para roubar as folhas mais macias do feno, ávidos, lutadores, atrevidos.

São eles os únicos ladrões comuns em Israel, e entre eles, eu notei que há o maior respeito pela propriedade alheia. As casas parecem querer ficar abertas, e as eiras e as vinhas sem guardas. Não falando dos raríssimos ladrões profissionais, os verdadeiros salteadores, que assaltam, nas passagens estreitas entre os montes, não há aqui os ladrõezinhos, nem mesmo simplesmente os… gulosos, que estendem a mão para as árvores frutíferas ou para o pombinho dos outros. Cada um vai por seu próprio caminho, ou então atravessando a propriedade do próximo, como se não tivessem olhos nem mãos. É verdade que a hospitalidade é aqui tão largamente praticada, que não há necessidade de roubar para poder comer. Somente para com Jesus, e por causa de um ódio, que é tão grande, a ponto de fazer que se descuidem do costume secular de ser hospitaleiro para com o peregrino, somente para com Ele é que se verifica o fato de casas que lhe negam hospitalidade e comida. Mas para com os outros geralmente há piedade, especialmente para com as classes mais humildes.

Assim é que os apóstolos, depois de terem batido à porta fechada de uma casa, e não tendo encontrado ninguém, foram pôr-se ao abrigo de um telheiro, sob o qual há ferramentas agrícolas e recipientes vazios, e, como se fossem donos, serviram-se dos montes de feno como de cadeiras, dos baldes usados no poço e das moringas para beberem e também para molhar os pedaços de pão mofado e de cordeiro já frio, que eles vão comendo quase em silêncio, pois estão cheios de sono e atordoados pelo sol. E, com a mesma liberdade com que se serviram do feno e das moringas, estendem-se depois por cima do feno cheiroso, e logo se ouve um coro de rosnadores, em vários tons, e de diferente duração.

Jesus também está cansado. Mais do que cansado, Ele está triste. Ele fica olhando, por longo tempo, os doze, que estão adormecidos. E reza. E pensa… Pensa, acompanhando maquinalmente com os olhos as lutas dos pardais e dos pombos e o voo rápido das andorinhas sobre a eira ensolarada. Parece que os estridores dessas velozes mestras do voo estejam dando respostas curtas e afirmativas às perguntas penosas que Jesus faz a Si mesmo. Depois Ele se estende sobre o feno, e logo em seguida aqueles olhos doces e tristes cor de safira são velados pelas pálpebras, enquanto seu semblante se compõe no sono, e, talvez porque no sono Ele fique abatido pela tristeza do coração, seu rosto fica com as feições que revelam muito cansaço, e da dor que Ele vai ter depois da morte…

405.2 Voltam os camponeses, donos da casa. Homens, mulheres e crianças. E com eles estão os discípulos vistos antes. Eles veem Jesus e os seus, dormindo sobre o feno, e vão baixando a voz, até que ela vire um sussurro, para não despertá-los. Algumas mães oferecem o peito às crianças que não querem calar-se. Pelo menos elas estão dando a entender que não querem isso.

Um dos pequeninos vai, dando os passos de um pombinho, e com um dedinho na boca, observar a Jesus, “que é o mais bonito”, diz ele, pois Jesus está dormindo com a cabeça apoiada sobre o braço dobrado servindo de travesseiro. E todos, descalços, na ponta dos pés, acabam indo imitar o primeiro, e entre todos estão o Matias e o João, que se comovem, ao vê-lo dormindo assim sobre o feno, e Matias observa:

– Como era aquele seu primeiro sono, também agora o nosso Mestre é menos feliz do que naquele tempo… Até a Mãe lhe está faltando.

– É verdade. Ele só tem sempre perto de Si a perseguição. Mas nós o amaremos sempre, e o amaremos sempre como naquelas horas do passado… –responde João.

– E mais ainda, Matias. Mais ainda. Porque antes nós o amávamos só pela fé e porque é doce amar uma criança. Mas agora nós o amamos, porque o conhecemos…

– Ele tem sido odiado desde pequeno, João. Lembra-te do que aconteceu quando quiseram matá-lo!

E Matias empalidece, só de lembrar.

– É verdade… Mas, bendita seja aquela dor! Nós perdemos tudo, menos Ele. E isso é o que importa. Que é que nos teria adiantado, se tivéssemos ainda os nossos pais, nossa casa e nosso modesto bem-estar, se Ele estivesse morto?

– É verdade. Tens razão, Matias. Que é que nos adiantará possuir até todo o mundo, quando Ele não estiver mais neste mundo?

– Nem me fales nisso. Então, estaremos abandonados mesmo… Ide, vós. Nós ficamos aqui perto do Mestre –diz João, despachando os camponeses.

– É desagradável não termos pensado em dar-lhes a chave. Eles poderiam ter entrado em casa e se acomodado melhor… –diz o homem mais velho da casa.

– Nós lhe diremos… E Ele já se sentirá feliz por vosso amor. Ide, ide…

Os camponeses vão para casa, e logo uma fumaça que se levanta diz que eles estão preparando a comida. Mas o estão fazendo com cuidado, entretendo as crianças e fazendo pouco barulho… e também sem barulho vão levando depois as comidas para os discípulos, e murmuram:

– Para eles nós as conservaremos separadas, para quando eles acordarem…

Depois o silêncio volta à casa. Talvez os ceifeiros, que estão trabalhando desde o raiar do dia, se terão deitado em suas camas para descansarem nestas horas em que seria impossível ficar nos campos, sob um sol abrasador. Também os discípulos começam a cochilar. Até os pombos e os pardais pararam. Somente as andorinhas continuam incansáveis, e o seu voo rápido escreve palavras azuis no espaço, e palavras de sombra por baixo de suas asas brancas…

405.3 O pequenino de pouco antes, muito bonito na pequena camisa

curta a que foi reduzida a sua veste nesta hora tórrida, põe a cabecinha morena para fora da porta da cozinha, dá uma olhadela, anda para a frente tomando cuidado com os seus pezinhos tenros, que estão sofrendo por causa do chão, que está quente, devido ao sol. A pequena camisa, desabotoada, está para cair, se escapar do seu ombro gorducho. Ele chega até os discípulos, e procura passar por cima deles, para ir ver Jesus de novo. Mas suas perninhas são muito curtas para que ele possa passar por cima dos corpos musculosos dos adultos, e ele tropeça, e cai ao lado de Matias, que acorda, e vê o rostinho envergonhado, quase para chorar, do pequenino. Ele sorri, e diz, ao entender qual era a manobra do menino:

– Vem cá, que eu te colocarei entre mim e Jesus. Mas fica calado e quieto. Deixa-o dormir, que Ele está cansado.

E o pequeno, feliz, assenta-se em adoração ao belo rosto de Jesus. Olha para ele, estuda-o, fica com muita vontade de fazer-lhe uma carícia, de tocar em seus cabelos dourados. Mas Matias o está vigiando, sorrindo, e não lho permite. Então o pequenino lhe pergunta em voz baixa:

– Ele dorme sempre assim?

– Sempre assim –responde Matias.

– Ele está cansado? Por quê?

– Porque caminha muito e fala muito.

– Para que Ele fala e caminha?

– Para ensinar os meninos a serem bons, a amar o Senhor, a fim de irem com Ele para o Céu.

– Lá em cima? Como é que se faz? É longe…

– A alma, tu sabes o que é a alma?

– Não!

– É a coisa mais bonita que há em nós, e…

– Mais bonita do que os olhos? A mamãe me diz que tenho por olhos duas estrelas. E as estrelas são bonitas, sabes?

O discípulo sorri, e responde:

– É mais bonita do que as estrelinhas dos teus olhos, pois a alma boa é mais bonita do que o sol.

– Oh! E onde é que ela está? Onde é que a tenho?

– Aqui. No coraçãozinho. Ela vê, ouve tudo, e nunca morre. E, quando alguém nunca faz o mal, e morre como justo, a alma voa lá para cima, com o Senhor.

– Com Ele? –e o pequeno mostra Jesus.

– Sim, com Ele.

– Mas Ele também tem uma alma?

– Sim. Ele tem uma alma e a divindade. Porque é Deus este homem que estás olhando.

– Como sabes disso? Quem foi que te disse?

– Os anjos.

O menino, que estava sentado bem ao lado de Matias, não pode receber tranquilamente essa notícia, mas dá um salto e põe-se em pé, dizendo:

– Tu já viste os anjos?

E olha para Matias, abrindo seus grandes olhos. E foi tão espantosa a notícia para ele, que, por um instante, até se esquece de Jesus, e, por isso, não vê que Ele já está com os olhos meio abertos, despertado que foi pelo leve grito do menino, e depois, com um sorriso, os fecha de novo, e vira a cabeça para o outro lado.

– Silêncio! Estás vendo? Você o acorda… Eu te mando embora.

– Vou ficar bom. Mas, como é que são os anjos? Quando foi que os viste?

A vozinha transformou-se num sussurro.

E Matias, com paciência, fala da noite do Natal ao pequeno, que tornou a ir sentar-se em seu peito, extasiado. E, com paciência, vai-lhe respondendo a todos os porquês.

– Por que foi que nasceu num estábulo? Ele não tinha casa? Não tem uma mãe? Era tão pobre, a ponto de não ter uma casa? Não tem uma mãe? Onde está a Mãe dele? Por que é que Ela o deixa só, quando Ela sabe que já o quiseram matar? Ela não lhe quer bem?

É uma chuva de perguntas, e outra de respostas. E à ultima é que Matias responde:

– Ela lhe quer muito bem, a Mãe Santa do seu Divino Filho. Mas faz o sacrifício de sua dor, ao deixá-lo, para que os homens se salvem. Para consolar-se, Ela pensa que ainda haja homens bons, capazes de amá-lo…

E essa ideia desperta esta resposta:

– É que há meninos bons, que o amam, não sabes? Onde é que Ela está? Dize-o a mim, que eu irei onde ela está, e lhe direi: “Não chores. Ao teu Filho eu dou amor.” Que achas? Ela ficará contente?

– Muito contente, menino –diz Matias, beijando-o.

– E Ele também ficará contente?

– Muito, muito. E eu lho direi, quando Ele despertar.

– Oh! Sim!… Mas, quando é que Ele vai despertar?

O menino está ansioso…

405.4 Jesus não resiste mais. Ele se vira, com os olhos bem abertos e com seu sorriso luminoso, e diz:

– Já o disseste a Mim, porque Eu ouvi tudo. Vem cá, menino.

O menino não espera ser chamado duas vezes, mas vai correndo para o lado de Jesus, acariciando-o, beijando-o, tocando seu dedinho na fronte dele, nas sobrancelhas, nos cílios dourados, espelhando-se nos olhos azuis dele, esfregando-se sobre sua barba macia e sobre seus cabelos sedosos, e dizendo a cada uma dessas descobertas:

– Como és bonito! Bonito! Bonito!

Jesus sorri e Matias sorri… E depois, à medida que os outros vão acordando, visto que o pequeno não é mais o centro de todas as atenções, os discípulos e os apóstolos sorriem, ao verem aquele exame cuidadoso, feito por aquele homenzinho seminu, gorducho, que observa Jesus de alto a baixo, da cabeça aos pés, e termina, dizendo:

– Vira-te!

E explica depois:

– É para ver as asas –e pergunta decepcionado:

– Porque não as tens?

– Eu não sou um anjo, menino.

– Mas és Deus! Como fazes para seres Deus, se não és cheio de asas? Como farás, quando quiseres ir para o Céu?

– Eu sou Deus. Mas é que Deus não tem necessidade de asas. Eu faço o que quero, e tudo posso.

– Então, faze que meus olhos fiquem como os teus. Eles são bonitos.

– Não. Os que já tens, fui Eu quem tos deu, e assim me agradam. Dize, isto sim, que torne a tua alma de justo, para que ames sempre mais.

– Ela também foi feita por Ti, e então ela te agradará, como eu a tenho –diz, em sua lógica infantil, o menino.

– Sim, agora ela me agrada muito, porque é inocente. Mas, ao passo que os teus olhos serão sempre dessa cor de azeitona madura, a tua alma, de branca pode tornar-se preta, se te tornares mau.

– Mau, não. Eu te quero bem, e quero fazer como os anjos mandaram fazer, quando Tu nasceste: “Paz a Deus no Céu, e glória aos homens de boa vontade” –diz o pequenino, trocando as palavras, o que provoca uma fragorosa risada nos adultos, coisa que o humilha, e faz que ele se cale.

Mas Jesus, mesmo corrigindo-o, o consola:

– Deus é sempre Paz, menino. É a Paz. Mas os anjos lhe davam glória pelo acontecimento do Nascimento do Salvador, e davam aos homens a primeira regra para obter-se a paz que do meu nascimento haveria de provir: “ter boa vontade.” Esta que Tu queres.

– Sim. Então me dá essa paz. Coloca-a em mim, no lugar em que aquele homem diz que eu tenho minha alma –e, com os dois dedos indicadores, ele mostra muitas vezes o seu peito.

– Sim, pequeno amigo. Como te chamas?

– Miguel.

– Nome do poderoso Arcanjo. Então, que te seja dada a boa vontade, Miguel. E que tu sejas um dos confessores do verdadeiro Deus, dizendo aos perseguidores, como disse o teu angélico protetor: “Quem como Deus?” Sê bendito agora e sempre –e lhe impõe as mãos.

Mas o pequeno não ficou persuadido. Ele diz:

– Não. Beija aqui. Em minha alma. E aí dentro entrará a tua bênção, e aí ficará fechada –e ele descobre o pequeno peito para ser beijado, sem que nenhum obstáculo tenha vindo opor-se entre o seu pequeno corpo e os lábios divinos.

Sorriem e ficam comovidos, também os presentes. E bem que há motivo! A fé maravilhosa do inocente que, por instinto, como diriam alguns, mas que eu digo “por um estímulo espiritual,” foi a Jesus, é verdadeiramente comovente, e Jesus o faz notar, dizendo:

– Oh! Se todos tivessem o coração das crianças!…

405.5 Enquanto isso as horas passaram. A casa se reanima. Vozes de mulheres, de meninos, e de homens se fazem ouvir. E uma das vozes das mães chama:

– Miguel! Miguel!! Onde estás? –e aparece, apavorada, olhando para o poço profundo, com um atroz pensamento em seu coração.

– Não tenhas medo, mulher. O teu filho está comigo.

– Oh! Eu temia… Ele gosta de brincar com água…

– De fato, ele foi à Água viva, que desce do Céu para dar vida aos homens.

– Ele ficou te aborrecendo. Ele me escapuliu, saindo tão sorrateiro, que eu nem percebi… –desculpa-se a mulher.

– Oh! Não. Ele não me aborreceu. Ele me consolou. Os meninos não fazem Jesus sofrer.

Vão chegando os homens e as outras mulheres. O dono da casa diz:

– Entra, e vem comer. E perdoa, se não te tratamos como o dono de nossa casa, desde o primeiro momento em que te vimos…

– Eu nada tenho a perdoar. Aqui eu fiquei, e bem. O teu respeito me presta muita honra. Nós tínhamos alimento, a água do teu poço é fresca, e o feno é macio. É mais do que precisa o Filho do homem. Eu não sou nenhum sátrapa da Síria…

E Jesus, acompanhado pelos seus, entra na ampla cozinha para tomar alimento, enquanto na eira os homens estão preparando tudo de tal modo que haja lugar para todos os que estão chegando de todos os lados para ouvirem o mestre, e outros se apressam em preparar as bebidas, os alimentos, e a tirar o couro de um cordeirinho, para dá-lo como alimento durante a viagem dos evangelizadores, e as mulheres trazem ovos e manteiga. Isso provoca os protestos de Pedro, que está dizendo justamente assim: que não se pode transportar nos alforjes um alimento tão fácil assim de derreter-se com aqueles calores… Mas os potes aí estão por algum motivo… As mulheres enchem um deles de manteiga, e o fecham, depois o descem ao poço para que se esfrie o mais possível.

Jesus agradece, e gostaria de diminuir aquelas ofertas. Mas, como? São palavras desperdiçadas. Porque outros presentes estão chegando de toda parte, e cada ofertante ainda se desculpa, por estar dando pouco…

Pedro murmura:

– Bem se vê que por aqui andaram os pastores. Terreno bem tratado… terreno bom.

A eira está cheia de pessoas, todas bem dispostas, por mais que o dia ainda não se tenha refrescado, e um último raio de sol ainda castigue a eira.

405.6 Jesus começa a falar:

– A paz esteja convosco! Eu não estou, logo aqui onde vejo que já é conhecida a doutrina do Mestre de Israel devido ao trabalho dos bons discípulos, para repetir-vos o que vós já sabeis. Eu deixo aos bons discípulos a glória e a tarefa de vos terem instruído, e de fazê-lo sempre de um modo capaz de dar-vos a segurança perfeita de que Eu sou o Prometido de Deus, e que a minha palavra vem de Deus.

– E os teus milagres vêm de Deus, bendito sejas Tu! –grita uma voz de mulher, lá do meio da multidão, e muitos se viram para olhar naquela direção.

A mulher levanta nos braços um filho sadio e risonho, e grita:

– Mestre, o pequenino João, que Tu curaste1 em Águas Belas. É aquele pequenino que teve os quadris esmagados, e que nenhum médico podia curar, e eu o levei a ti com fé, e Tu o curaste, segurando-o sentado em teu colo.

– Eu me lembro, mulher. A tua fé mereceu o milagre.

– Ela cresceu, Mestre. Todos os meus parentes creem em Ti. Vai, meu filho, agradecer ao Salvador. Deixai-o ir a Ele… –pede a mulher.

E a multidão se abre para deixar passar o menino, que vai sem demora a Jesus, estendendo seus braços para poder abraçá-lo, o que acontece por entre os hosanas e os comentários das pessoas da cidade e das que vêm de fora. Porque os da campina já sabiam do fato, e não ficam espantados com ele.

Jesus recomeça a falar, segurando o menino pela mão.

– Eis, confirmada por uma mãe agradecida, a minha Natureza, e confirmado o poder da fé no coração de Deus, que não decepciona nunca os que creem e os justos pedidos de seus filhos.

405.7Eu vos convido a lembrar-vos de Judas Macabeu2, quando ele se viu colocado nesta planície, estudando o formidável acampamento de Górgias com um exército contando com mil soldados de infantaria, mil cavaleiros adestrados para a batalha, bem protegidos por couraças e por armas e torres de guerra. Judas olhava, com seus três mil soldados de infantaria, que não tinham escudos nem espadas, e percebia que o temor ia penetrando nos corações de seus soldados. Então, ele falou, na força do seu direito, o que Deus aprovava porque não era para praticar abusos, mas para a defesa da Pátria invadida e profanada. E disse: “Que não vos espante o número deles, nem tenhais medo do ataque deles. Lembrai-vos de como os vossos pais foram salvos no Mar Vermelho, quando o Faraó os perseguia com um grande exército.” E tendo-se reanimado a fé no poder de Deus, que está sempre com os justos, ensinou aos seus os meios para obterem auxílio. E disse: “Agora, pois, levantemos nossa voz até o Céu, e o Senhor terá piedade de nós, e, recordando-se da aliança feita com nossos pais, destruirá hoje, diante de nós esse exército, e todos os povos conhecerão que há um Salvador, que liberta Israel.”

Eis. Eu vos mostro dois pontos capitais para termos Deus conosco e ajudar-nos em nossas justas empresas.

A primeira coisa necessária para tê-lo como nosso aliado, é termos as justas disposições de nossos pais. Lembrai-vos da santidade, da presteza dos patriarcas em obedecer ao Senhor, fosse, ou não, de pouco ou de muito valor aquilo que Ele pedia. Lembrai-vos de com que fidelidade eles se mantiveram fiéis ao Senhor. Muito nos lamentamos em Israel, por não termos mais o Senhor conosco, tão favorável a nós como foi em outros tempos. Mas Israel tem ainda as disposições de seus pais? Quem foi que rompeu, e continua a romper continuamente a aliança com o Pai?

A segunda coisa capital para termos Deus conosco: a humildade. Judas Macabeu era um grande israelita, e era um grande soldado. Mas ele não diz: “Eu hoje vou destruir este exército, e os povos haverão de conhecer que eu sou o libertador de Israel.” Não, Ele diz: “E o Senhor destruirá este exército diante de nós, que somos incapazes de fazê-lo, pois somos muito fracos.” Porque Deus é Pai e tem cuidado dos seus pequenos, para não deixá-los perecer, manda os seus poderosos combatentes, para combaterem com armas sobre-humanas os inimigos de seus filhos. E, quando Deus está conosco, quem poderá vencer-nos? Isto é o que deveis dizer sempre, agora, e mais ainda no futuro, quando quererão vencer-vos, e não só em uma coisa passageira, como é uma batalha nacional, mas em uma coisa muito mais ampla, tanto no tempo, como nas consequências para as vossas almas. Não vos deixeis levar pelo susto, nem pela soberba. Estas duas coisas são prejudiciais. Deus estará convosco, se fordes perseguidos por causa do meu Nome, e vos dará força nas perseguições. Deus estará convosco, se fordes humildes, se reconhecerdes que vós, por vós mesmos, não sois capazes de nada, mas que podeis tudo, se estiverdes unidos ao Pai.

Judas não se vangloria, nem usa do título de Salvador de Israel. Mas dá esse título ao Deus Eterno. De fato, é inutilmente que os homens se agitam, se Deus não estiver ajudando os esforços deles. Ao passo que, sem se agitar, quem vence é aquele que confia no Senhor, pois o Senhor sabe quando é justo premiar com a vitória, e quando é justo punir com a derrota. Estulto é o homem que quer julgar a Deus, dar conselhos a Deus, ou criticá-lo. Pensai em uma formiga que, observando a obra de um cortador de mármore, lhe dissesse: “Tu não sabes fazer isso. Eu farei melhor e mais depressa do que tu”. A mesma coisa faz o homem que quer ensinar a Deus. E a esse papel ridículo ele ainda acrescenta o papel de um ingrato e prepotente, esquecido do que ele é: uma criatura, e de que Deus é o Criador. Pois bem. Se Deus criou um ser tão bem criado, que ele pode achar-se capaz de dar conselhos ao próprio Deus, qual será, então, a perfeição do Autor de todas as criaturas? Só este pensamento já deveria bastar para fazer a soberba baixar a cabeça, e destruir esta má e satânica planta, esta parasita que, tendo-se insinuado em uma inteligência, a invade e suplanta, a sufoca e mata toda árvore boa, toda virtude que faz o homem grande sobre a terra, verdadeiramente grande, não por seus rendimentos, nem pelas coroas conquistadas, mas por uma justiça e uma sabedoria sobrenatural, e feliz no Céu por toda eternidade.

405.8 E prestemos atenção em um outro conselho, que é dado pelo grande Judas Macabeu e pelos acontecimentos daquele dia nesta planície. Tendo-se travado a batalha, as fileiras de Judas, com as quais Deus estava, venceram e destruíram os inimigos, uma parte pondo-os em fuga até Jezeron, Azoto, Idumeia e Jâmnia, diz a História. E a outra parte, transpassando-os à espada e deixando-os mortos no campo em número de mais de três mil. Mas aos seus homens armados, desejosos da vitória, Judas disse: “Não fiqueis parados, a fazer presa, porque a guerra ainda não acabou, e Górgias, com o seu exército, está na montanha, perto de nós. Por enquanto, temos que combater ainda contra os nossos inimigos, e vencê-los completamente, para depois, tranquilamente fazer a presa.” E assim fizeram. E tiveram uma vitória segura e uma grande presa e a libertação, e, ao voltarem, cantavam as bênçãos de Deus, porque “Ele é bom, e porque sua misericórdia é eterna.”

Também o homem, qualquer homem, é como os campos que estão ao redor da cidade santa dos judeus. Rodeado pelos inimigos externos, e tendo contra si os internos, todos cruéis, todos na esperança de combater contra a cidade santa, que é cada homem, isto é, contra a sua alma, para atacá-la de repente, para tomá-la de surpresa, com mil astúcias, e destruí-la. As paixões, que Satanás cultiva e excita, e que o homem não vigia com todo cuidado para pôr nelas um freio, e que são perigosas se ele não souber domá-las, mas são inócuas, se forem vigiadas como um ladrão acorrentado, e, por outro lado, que, do lado de fora conjura com elas por meio de suas seduções, pela carne, os bens materiais, o orgulho, são todas estas coisas bem parecidas com os poderosos exércitos de Górgias, encouraçados, munidos de torres de guerra, de arqueiros que acertam bem nos alvos, de cavaleiros velozes, sempre prontos a iniciar o ataque, às primeiras ordens do Mal. Mas, que pode o Mal, se Deus estiver com o homem que quer ser justo? O homem sofrerá, poderá ser ferido, mas salvará a liberdade e a vida, e conhecerá a vitória, depois de uma boa batalha. Contudo, essa vitória não há de ser só uma vez, e sim, há de renovar-se sempre, enquanto durar a vida ou enquanto ele se despojar da sua humanidade, e se tornar mais espírito do que carne, um espírito mais unido a Deus do que às flechas, às feridas, ou às fogueiras da guerra, que não podem fazer-lhe mal em seu interior, mas caem, depois de o terem atingido superficialmente, como pode fazer uma gota sobre uma pedra dura e brilhante de jaspe.

Não fiqueis preocupados em fazer presa. Não vos distraiais, enquanto não estiverdes nas soleiras da vida. Não desta da terra, mas da verdadeira Vida dos Céus. Então, vitoriosos, apanhai as vossas presas, entrai, andai para frente, gloriosos, diante do Rei dos reis, e dizei: “Eu venci. Aqui estão as minhas presas. Eu as consegui com a tua ajuda e com a minha boa vontade, e te bendigo, Senhor, porque és bom, e a tua misericórdia é eterna.”

405.9 Isto quanto à vida em geral para todos. Mas para vós, para vós que em Mim credes, vos está esperando, de emboscada, uma outra batalha. E mais outras batalhas. A batalha contra a dúvida. A batalha contra as palavras que vos serão ditas. A batalha contra as perseguições.

Eu estou para ser levado ao lugar para o qual Eu vim do Céu. Esse lugar vos fará medo, e vos parecerá um desmentido às minhas palavras. Não. Olhai com olhos espirituais o que irá acontecer. E vereis que o que vai acontecer será a confirmação do que realmente Eu sou. Não o pobre rei de um pobre reino, mas o Rei predito pelos profetas, aos pés de cujo trono único, imortal, como uns rios para o oceano, virão todos os povos da Terra, dizendo: “Nós te adoramos, ó Rei dos reis e Juiz eterno, porque pelo teu Santo sacrifício redimiste o mundo.”

Resistí à dúvida. Eu não minto. Eu sou Aquele, do qual falam os profetas. Como a mãe de João há pouco, levantai a lembrança do que Eu vos fiz, e dizei: “Estas obras são de Deus. Ele no-las deixou para lembrança, como uma confirmação, uma ajuda para crer, e crer justamente nesta hora.” Lutai, e vencerei na luta contra a dúvida, que sufoca a respiração das almas. Lutai contra as palavras que vos serão ditas. Recordai-vos dos profetas e das minhas obras. E às palavras inimigas respondei com os profetas e com os milagres, que me vistes fazer. Não tenhais medo. E não sejais ingratos, tendo medo de falar daquilo que Eu vos fiz. Lutai contra as perseguições. Mas não luteis perseguindo a quem vos persegue. E, sim, praticando o heroísmo de confessar que sois meus, diante de quem com ameaças de morte quiser persuadir-vos a negar-me. Lutai sempre contra os inimigos. Todos. Contra a vossa humanidade, isto é, contra os vossos medos, contra os compromissos indignos, as alianças interesseiras, as pressões, as ameaças, as torturas e a morte.

405.10 A morte! Eu não sou como o chefe de um povo, que diz ao seu povo: “Sofrei por Mim, enquanto Eu gozo.” Não. Eu sofro em primeiro lugar, para dar-vos o exemplo. Eu não sou alguém que está à frente de exércitos, e diz aos exércitos: “Combatei para defender-me. Morrei para me dardes a vida.” Não. Eu sou o primeiro que combate. Eu morrerei em primeiro lugar, para ensinar-vos a morrer. Assim como Eu tenho sempre feito o que Eu disse que se deve fazer e, pregando a pobreza, Eu permaneci pobre; pregando a continência, Eu permaneci casto; pregando a temperança, fui sóbrio; pregando a justiça, fui justo; pregando o perdão, perdoei e perdoarei. Como fiz tudo isso, farei também a última coisa. Eu vos ensinarei como é que se redime. Ensinar-vos-ei, não com palavras, mas com os fatos. Eu vos ensinarei a obedecer, obedecendo na mais dura obediência, a da minha morte.

Eu vos ensinarei a perdoar, perdoando, no meio dos meus últimos sofrimentos, como perdoei quando estava sobre a palha do meu berço, à Humanidade que me havia arrancado dos Céus. Eu perdoarei, como sempre perdoei. A todos. A todos por minha conta. Aos pequenos inimigos, aos inertes, aos indiferentes, aos volúveis e aos grandes inimigos que, não só me causam a dor de ficarem apáticos diante do meu poder e do meu desejo de salvá-los, mas que me dão e darão o último espasmo de serem os deicidas. Eu perdoarei. E, visto que aos deicidas impenitentes em vão poderei dar a absolvição, pedirei ainda, com os últimos espasmos ao Pai por eles… para que os perdoe… pois ficaram embriagados por um licor satânico… Perdoarei… E vós, perdoai em meu Nome. E amai. Amai como Eu amo, como Eu vos amo e vos amarei para sempre.

405.11 Adeus. A tarde vem descendo. Rezemos juntos, e depois cada um volte para sua casa, com a palavra do Senhor no coração, e vos faça dessa palavra uma espiga bem granada para as vossas fomes futuras, quando ireis desejar ouvir de novo o Amigo, o Mestre, o vosso Salvador, pois somente elevando o vosso espírito aos Céus, é que podereis encontrar Aquele que vos amou mais do que a Si mesmo. Pai nosso que estais nos Céus…

E Jesus, com os braços abertos, como uma alta e alva cruz sobre o muro escuro da fachada do setentrião, vai dizendo lentamente o Pai-nosso. Depois Ele abençoa com a bênção mosaica. Beija os pequeninos. E os abençoa ainda. Despede-se e vai, rumo ao norte, beirando o muro de Emaús, sem entrar na cidade. As tintas arroxeadas do crepúsculo absorvem lentamente a doce visão do Mestre, que vai, vai indo sempre para o seu destino.

No pátio semiescuro, há um silêncio de dolorosa paz… como de expectativa. Depois o pranto do pequeno Miguel, o pranto do cordeirinho, que se sente sozinho, vem romper o encanto, e muitos olhos estão lacrimejantes, e muitos lábios repetem as inocentes palavras do pequenino:

– Oh! Por que foste embora? Volta! Volta! Faze-o voltar, Senhor!

E, depois que Jesus desapareceu completamente, vem o desolado reconhecimento de que o fato já passou:

– Jesus não está mais aqui!

A mãe tenta inutilmente consolar seu pequeno Miguel, que chora como se tivesse perdido mais do que sua mãe, e, estando nos braços dela, só tem olhos para olhar no rumo do ponto por onde Jesus desapareceu, e estende os braços clamando:

– Jesus! Jesus!

405.12 … Jesus espera, vê que está um pouco longe, depois diz:

– Vamos a Jope. Os discípulos trabalharam muito lá, e a cidade espera a palavra do Senhor.

Não há muito entusiasmo pela ideia de prolongar mais o caminho, mas Simão, o Zelotes faz observar que de Jope até às propriedades de Nicodemos e das de José é perto, e que as estradas são boas. E João, está contente, porque se vai rumo ao mar. E os outros, levados por essas considerações, acabam concordando em ir, mais dispostos, pela estrada que vai para o mar.

Jesus diz:

– Colocarás aqui a visão de 20 de setembro de 1944: “Jesus e os gentios em uma cidade marítima,” e dareis este título3: “Jesus em Jope fala a Judas Keriot e a uns Gentios,” porque aquele episódio lá aconteceu depois de um dia de milagres e de pregação.

1 curaste, em 125.5.
2 convido a lembrar-vos de Judas Macabeu no episódio da batalha de Emaus referida em 1 Macabeus 4,1-25.
3 dareis este título… A sugestão do título, para o capítulo que segue, tem um objetivo evidente de incluir nele o nome da cidade, Jope, “porque aquele episódio lá aconteceu” e porque MV tinha escrito no fim do capítulo: “Não sei que cidade seja”. Todavia, o título que colocamos é ainda mais específico ao sugerido. – A escritora se limitava a inserir a data no início de cada capítulo, como já apontamos em 63.1. Começando pelo capítulo que na presente edição traz o número 187, ela quase sempre acrescentou à data um título muito breve e inadequado. Portanto os títulos de todos os capítulos são nosso, exceto alguns. (Também retocamos, e frequentemente completamos, os 21 subtítulos do capítulo 632). Além disso, é nossa a numeração progressiva dos capítulos e a composição de cada capítulo em versos numerados, cada um dos quais exprime uma completude narrativa ou conceitual.


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