561. 561. O saforim Samuel, de sicário a discípulo.
5 de fevereiro de 1947.
561.1Jesus está sozinho, e ainda na caverna. Um fogo está bem aceso, dando luz e calor. Um forte cheiro de resinas e de ramos queimando se desprende e se espalha por entre estalidos e fagulhas, atravessando toda a caverna. Jesus se retirou de lá para o fundo, onde estão jogados os ramos secos. Ele está meditativo. A chama está vacilante e de vez em quando se abaixa, torna a avivar-se sucessivamente com os sopros do vento, que passa voando pelo mato afora e entra zumbindo pela caverna adentro, a qual ressoa como uma buzina. Não é um vento contínuo. Ele cessa, depois se levanta de novo, como os fluxos das ondas longas do mar. Quando ele assobia forte, as cinzas e as folhas secas são soprados por entre o estreito corredor rochoso para o qual Jesus foi, na gruta maior, e as chamas se abaixam todas a lamber o chão daquele lado; e depois, tendo descido a onda do vento, de novo ele se levanta, lançando chispas e tornando a brilhar diretas. Jesus não se preocupa com isso. Ele está meditando.
Depois, ao sibilar do vento se une o barulho da chuva que começa pingando, depois se torna grossa e bate sobre a ramagem da mata. Um verdadeiro aguaceiro transforma rapidamente os caminhos das encostas em pequenas torrentes rumorejantes. Agora é a voz da água que predomina, pois o vento pouco a pouco vai-se calando. A luz muito duvidosa de um crepúsculo tempestuoso, juntando-se à do fogo, que, ao se acalmarem os ramos, cessa e fica avermelhado, mas não solta mais labaredas, clareia levemente a caverna, e nos cantos a sombra já é completa. Jesus, vestido de escuro como está, mal se pode ver; muito mal, se Ele levanta o rosto que está inclinado sobre seus joelhos unidos, se vê uma brancura por cima da parede escura.
561.2Pelo barulho de passos e de palavras proferidas com dificuldade, como as de quem está cansado e extenuado, percebe-se que vem chegando alguém pelo caminho, do lado de fora da gruta. Depois, vê-se uma sombra escura, pingando água de cima a baixo, e que se apresenta na entrada.
O homem, pois se vê que é um homem pela grande barba preta, solta um “oh!” de alívio, e joga no chão o chapéu encharcado de água, sacode o manto, e diz para si mesmo:
– Hum! Uma boa sacudida, Samuel! Pareces ter caído na fossa de um pisoador! E as sandálias? Viraram barcas. Barcas no fundo do rio! Eu estou molhado até na pele! Olha só que córregos descem dos cabelos. Estou parecendo uma telha de beiral quebrada, que deixa passar a água por mil buracos. Começamos bem! Será que Belzebu está do seu lado para defendê-lo? Huumm. O lugar é belo, mas…
Ele se joga sentado sobre uma pedra perto do fogo que, mesmo se as chamas já se apagaram, está ainda vermelho nos tições, com aqueles desenhos estranhos que são o fim da vida da lenha queimada, e procura reavivar o fogo, soprando sobre ele, tira as sandálias e procura enxugar os pés cheios de barro, com alguma parte do manto que está menos molhada do que o resto. Mas ele tem que se enxugar com a água. Seu esforço só serve para tirar o barro dos pés e passá-lo para o manto.
E continua o seu monólogo:
– Malditos sejam eles e ele, e todos. Eu perdi até a bolsa. É verdade. Ainda bem, que não perdi a vida… E “é esta a estrada mais segura”, como me disseram. É! Mas eles não viajam por ela! Se eu não tivesse visto esse fogo! Quem é que o terá acendido? Algum infeliz como eu. Mas onde estará ele agora? Ali estou vendo um buraco… Quem sabe, será uma outra caverna. Mas não serão ladrões? Ora… que bobo sou eu! Que é que eles vão tomar de mim, se não tenho nem uma moedinha? Contudo, não importa. Este fogo vale mais do que um tesouro. Se eu pudesse ter um pouco de gravetos para acendê-lo de novo? Eu tiraria as roupas e as enxugaria. Oh! É isto mesmo. Só tenho isto a fazer, enquanto eu não voltar…
561.3– Se queres gravetos, meu amigo, aqui estão –diz Jesus, sem se mover do seu lugar.
O homem, que estava de costas para Jesus, leva um susto ao ouvir aquela voz imprevista, põe-se de pé e se volta. Parece estar amedrontado.
– Quem és tu? –pergunta ele, pondo as mãos acima dos olhos, procurando enxergar melhor.
– Sou um viandante como tu. Fui eu que acendi o fogo, e estou contente por ter ele te servido de guia.
Jesus se aproxima com um feixe de lenha nos braços e o joga perto do fogo, dizendo:
– Acende logo as chamas, antes que a cinza cubra tudo. Eu não tenho isca, nem fuzil, pois quem os emprestou foi-se embora, depois do pôr do sol.
Jesus fala amigavelmente, mas não vai para a frente, de modo que o fogo o ilumine. Pelo contrário, Ele continua em seu canto, envolvido mais ainda em seu manto.
561.4Enquanto isso, o homem se inclina, põe-se a soprar com força sobre as folhas secas que Ele jogou no fogo, e fica assim ocupado até que a chama surgiu de novo. Ele se ri, jogando os gravetos cada vez mais grossos que formam de novo as labaredas. Jesus tornou a sentar-se em seu lugar e está observando.
– Agora eu deveria tirar minha roupa para poder enxugá-la. É melhor estar nu do que ficar molhado assim. Mas nem isso eu consigo. Desmoronou uma das beiras da gruta e eu me vi debaixo de uma cascata de terriço e água. Olha só! Ah! Agora estou bem arranjado! Olha! Rasguei até a veste. Que viagem maldita! Antes eu tivesse transgredido o sábado! Mas, não. Até o pôr do sol eu fiquei firme. Depois… E agora, como faço? Para salvar-me, deixei que lá se fosse a minha bolsa, e a estas horas ela já deverá estar lá no vale, ou enganchada em alguma moita, e quem puder que saiba onde.
– Aqui está a minha veste. Já está enxuta e quente. Para mim basta o manto. Toma-o. Eu estou são. Não tenhas medo.
– Está bem. Tu és um bom amigo. Como irei agradecer-te?
– Querendo-me bem, como a um irmão.
– Querendo-te bem, como a um irmão! Mas Tu não sabes quem eu sou. E se eu fosse um malvado, quererias o meu amor?
– Eu o quereria, para fazer-te bem.
O homem, que é ainda jovem e mais ou menos da idade de Jesus, inclina a cabeça, meditando. Está com as vestes de Jesus nas mãos, mas nem o está vendo. Maquinalmente ele as põe por sobre sua pele nua, pois ele havia tirado toda a roupa, até as vestes de baixo.
561.5Jesus, que havia voltado para o seu canto, lhe pergunta:
– Quando foi que comeste?
– Lá pela sexta hora. Eu teria comido quando chegasse ao povoado, lá no vale. Mas perdi o caminho, a bolsa e o dinheiro.
– Olha aqui. Eu tenho ainda algumas sobras de comida. Deviam servir-me amanhã. Mas, toma-as. A Mim não é pesado o jejum.
– Mas se tens que caminhar, precisarás de forças.
– Oh! Eu não vou longe. Só até Efraim…
– Efraim?! És samaritano?
– Ficas aborrecido com isso? Eu não sou samaritano.
– De fato, o teu sotaque é galileu. Quem és Tu? Por que é que não descobres o teu rosto? Tens que cobrir o rosto por seres culpado? Eu não te denunciarei.
– Eu sou um viandante, como já disse antes. O meu Nome não te diria nada, ou te diria demais. E, afinal, que é um nome? Quando Eu te ofereço uma veste para os teus membros gelados, um pão para a tua fome, e sobretudo a minha piedade pelo teu coração, será que tens necessidade, para sentires o conforto de uma vestes enxutas, de alimento e de afeto, de saber o meu Nome? Se queres dar-me um nome, chama-me de “Piedade.” Não tenho nada de vergonhoso que me obrigue a esconder-me. Mas não será por isso que tu deixarias de denunciar-me. Porque o teu coração tem dentro dele um pensamento que não é bom. E os maus pensamentos produzem como frutos as más ações.
O homem toma um susto e vai para perto de Jesus. Mas de Jesus ele só vê os olhos, e assim mesmo cobertos com um véu, pois estão com suas pálpebras abaixadas.
– Come, come, meu amigo. Não há outra coisa a fazer.
531.6O homem volta para perto do fogo e vai comendo lentamente, sem falar. Está pensativo. Jesus está como um novelo enrolado em seu cantinho. O homem vai ficando bem disposto, pouco a pouco. O calor das chamas, o pão e a carne assada que Jesus lhe deu o tornam alegre. Ele se levanta, se espreguiça, estende o cordão, que era a sua cinta, de uma lasca da rocha até um gonzo enferrujado, quem sabe fincado por quem, lá dentro, e desde quando, e sobre ele estende a veste, o manto e o chapéu para enxugar; sacode as sandálias e aproxima tudo das labaredas, que vão sendo por ele alimentadas generosamente.
Jesus parece estar cochilando. O homem, por sua vez, vai sentar-se e fica pensando. Depois ele se vira, e fica olhando para o Desconhecido. E lhe pergunta:
– Estás dormindo?
Jesus lhe responde:
– Não. Estou pensando e rezando.
– Rezando por quem?
– Por todos os infelizes. De todas as espécies. E são tantos!
– És Tu um penitente?
– Sou um penitente. A terra tem muita necessidade de penitência, para que seja dada força aos fracos que nela habitam, a fim de que possam repelir Satanás.
– Disseste bem. Falas como um rabi. Eu entendo disso porque sou um dos saforins1. Estou com o rabi Jônatas ben Uziel. E sou o seu mais querido discípulo. E agora, se o Altíssimo me assiste, ficar-lhe-ei ainda mais querido. E meu nome será exaltado por todo Israel.
Jesus não replica a nada.
561.7O outro, depois de alguns momentos, se levanta e vai sentar-se perto de Jesus. E diz, alisando seus cabelos, que estão já quase enxutos, e alinhando a barba:
– Escuta. Disseste que vais a Efraim. Mas, vais lá por acaso, ou moras lá?
– Estou morando em Efraim.
– Mas tu disseste que não és samaritano!
– E o repito. Não sou samaritano!
– E quem é que pode morar lá, a não ser… Escuta: dizem que em Efraim foi refugiar-se o rabi de Nazaré, o proscrito, o maldito. É verdade isso?
– É verdade. Jesus, o Cristo do Senhor, está lá.
– Não é o Cristo do Senhor! É um mentiroso! É um blasfemador! É um demônio! É a causa de todos os nossos males. E não se levanta nenhum vingador de todo o povo para derrubá-lo! –exclama, fanático em seu ódio.
– Será que ele te fez mal para falares dele com tanto ódio em tua voz?
– A mim, não. Eu o vi apenas uma vez, na festa dos Tabernáculos, e no meio de um tão grande tumulto que eu teria muita dificuldade para reconhecê-lo. Porque, se é verdade que eu sou discípulo do grande rabi Jônatas ben Uziel, faz pouco tempo que passei a ficar definitivamente no Templo. Antes… eu não o podia por muitas razões, e somente quando o rabi estava na casa dele é que eu ia pôr-me a seus pés para beber justiça e doutrina. Mas Tu… ao me perguntares se eu o odeio, percebi uma reprovação escondida em tuas palavras. Serás tu talvez um dos seguidores do Nazareno?
– Não o sou. Mas todo aquele que é justo condena o ódio.
– O ódio é santo quando é contra um inimigo de Deus e da Pátria. E o Rabi Nazareno é assim. Portanto, é uma coisa santa combatê-lo, odiá-lo.
– Tu combates o homem ou a ideia que Ele representa e a doutrina que Ele prega?
– Tudo! Tudo! Não se pode combater uma coisa, se se poupa a outra. No homem está sua doutrina e sua ideia. Ou se destrói tudo ou nada feito. Quando se abraça uma ideia, abraça-se o homem que a apresenta e sua doutrina, ao mesmo tempo. Eu sei disso porque o experimento com o meu mestre. As ideias dele são as minhas. Os desejos dele para mim são leis.
– De fato, um bom discípulo é assim que faz. Mas é preciso saber distinguir se é bom o mestre, e seguir somente um mestre bom. Porque não é lícito perder a própria alma por amor de um homem.
– Jônatas ben Uziel é bom.
– Não. Não o é.
– Que é que estás dizendo? E a mim é que o dizes?” Enquanto estamos aqui sozinhos eu poderia matar-te para tirar vingança por meu mestre. Eu sou forte, sabes?
– Eu não tenho medo. Não tenho medo da violência. E não tenho medo, mesmo sabendo que se tu me atacas, Eu não reagirei.
561.8– Ah! Compreendi. És um discípulo do Rabi, um “Apóstolo.” Ele dá esse nome aos seus discípulos mais fiéis. E vais indo à procura dele. Talvez quem estava contigo era um outro teu semelhante. E estás esperando algum teu semelhante.
– Estou esperando alguém, sim.
– Por acaso, será o Rabi?
– Não há necessidade de que Eu o espere. Ele não tem necessidade da minha palavra para ser curado dos seus males. Não está com a alma doente nem tem o corpo doente. Eu estou esperando uma pobre alma envenenada, que está delirando. Para curá-la.
– Então, Tu és um Apóstolo! Sabe-se, de fato, que Ele os está mandando evangelizar, pois está com medo de ir pessoalmente desde quando Ele foi condenado pelo Sinédrio. É por isso que Tu tens a doutrina dele! Não reagir a quem ofende é uma das doutrinas dele.
– É uma das doutrinas dele, porque Ele ensina o amor, o perdão, a justiça, a mansidão. Ele ama os inimigos como os amigos. Porque Ele vê tudo em Deus.
– Oh! Se Ele me encontrasse, se, como espero, eu o encontrar, não creio que Ele me amará. Pois seria um estulto! Mas eu não posso falar contigo, que és Apóstolo dele. E nem me arrependo de tudo o que eu disse. Tu o contarás a Ele.
– Não há necessidade disso. Mas em verdade Eu te digo que Ele te amará, ou melhor, que Ele te ama apesar de tu estares indo a Efraim para entregá-lo ao Sinédrio, que prometeu um grande prêmio a quem fizer isso.
– Tu és… profeta ou tens o espírito de Piton? Ou ele te comunicou o seu poder? És, então, também Tu um maldito? E eu fui aceitar o teu pão, a tua veste e foste meu amigo! Está escrito2: “Não levantarás a mão contra quem te fez bem.” E Tu o fizeste! Porque se sabias que eu… Talvez para impedir-me de agir? Porque se eu vou te poupar porque tu me deste pão e sal, fogo e veste, porque hei de faltar com a justiça fazendo-te mal, ao teu Rabi eu não pouparei. Porque a ele eu não conheço e Ele não me fez nenhum bem, mas mal.
– Oh! Infeliz! Não te lembras de que estás delirando? Como é que pode alguém que não te conhece ter-te feito mal? Como podes ter respeito ao sábado se não respeitas o preceito de não matar?…
– Eu não mato.
– Materialmente, não. Mas não existe diferença entre quem mata e quem entrega a vítima nas mãos do matador. Tu respeitas a palavra de um homem, que diz que não se faz mal a quem nos fez o bem, e depois não respeitas a palavra de Deus e, com uma cilada, por um punhado de moedas, por um pouco de honra, pela suja honra de ter sabido trair um inocente, tu te preparas para um delito!
– Eu não o faço só pelas moedas e pela honra. Mas para fazer uma coisa agradável a Deus e para salvar a Pátria. 561.9Eu repito o gesto de Jael3 e de Judite.
O homem está mais fanático do que nunca.
– Sísara e Holofernes eram inimigos de nossa Pátria. Eram invasores. Eram cruéis. Mas que é o Rabi de Nazaré? Que é que Ele invade? Que é o que Ele usurpa? Ele é pobre e não quer riquezas. É humilde e não quer honras. Ele é bom. Com todos. São contados aos milhares os beneficiados por Ele. Por que é que o odiais? Tu, por que o odeias? Não te é lícito fazer o mal ao teu próximo. Tu serves ao Sinédrio. Mas será o Sinédrio que vai te julgar na outra vida ou será Deus? E como é que Ele te julgará? Eu não digo: Ele te julgará por teres matado o Cristo, mas por teres matado um inocente. Tu não crês que o Rabi de Nazaré seja o Cristo e, por isso, pela tua convicção de que Ele não o é, por isso não serás acusado desse delito. Deus é justo e não julga como culposo um ato praticado sem perfeito conhecimento. Não te julgará, portanto, por teres matado o Cristo, pois estás convencido de que Jesus de Nazaré não é o Cristo. Mas Ele te acusará por teres matado um inocente. Eles te envenenaram e te fizeram ficar ébrio, por meio de palavras cheias de ódio que proferiam. Mas tu não estás tão ébrio a ponto de não poderes compreender que Ele é inocente. As obras dele falam a favor dele. O vosso medo, e mais ainda o medo de vossos Mestres do que o vosso de discípulos, vos põe todos amedrontados e passais a ver o que não existe. É o medo dos que temem que Ele os supere. Mas não temais. Ele vos abre os braços, dizendo “Irmãos.” Ele não põe as milícias contra vós. Ele não vos amaldiçoa. A única coisa que Ele quer é salvar-vos. Vós, os grandes e os discípulos dos grandes, até o último de Israel. A vós mais do que ao último de Israel, mais do que ao menino que ainda não sabe o que é ódio e o que é amor. Porque vós tendes necessidade mais do que os ignorantes e do que os meninos, porque sabeis e pecais sabendo. A tua consciência de homem, se a despojas das ideias que vos impingiram, se a purificas dos tóxicos que te fazem delirar, poderás dizer que Ele é culpado? Fala! Mas sê sincero. Será que o terás visto algum dia pecar contra a Lei ou aconselhar alguém a pecar contra a Lei? Será que o terás visto em rixas ou ávido, luxurioso, caluniador e duro de coração? Fala! Será que o terás visto desrespeitoso para com o Sinédrio? Ele é como um proscrito por obedecer ao veredito do Sinédrio. Ele poderia lançar um grito e toda a Palestina o seguiria para marchar contra os poucos que o odeiam. Mas Ele, ao contrário, aconselha aos seus discípulos a paz e o perdão. Ele poderia — como dá a vida aos mortos, a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, o movimento aos paralíticos, a libertação aos endemoninhados, porque nem o Céu nem o Inferno são insensíveis à sua vontade — a poderia fulminar-vos com o raio divino e livrar-se assim de seus inimigos. Mas Ele ora por vós e cura vossos parentes, cura-vos o coração, dá-vos pão, vestes e fogo. 561.10Porque Eu sou Jesus de Nazaré, o Cristo, Aquele que tu estás procurando para receberes o prêmio prometido a quem o entregar ao Sinédrio, junto com as honras de libertador de Israel. Eu sou Jesus de Nazaré, o Cristo. Eis-me aqui. Prende-me, então. Como Mestre e como Filho de Deus, Eu te livro e te absolvo da obrigação e do pecado de não levantar ou de ter levantado a mão contra quem te fez o bem.
Jesus se levantou, tirando o manto de sobre a cabeça, e estende as mãos como para ser preso e amarrado. Mas sendo Ele de alta estatura — e fica parecendo até mais esbelto, pois ficou somente com a veste de baixo, curta e ajustada, com o manto escuro pendente dos ombros, bem ereto, com os olhos fixos no rosto do seu perseguidor, diante do reflexo móvel das chamas, que lhe fazem brilhar sobre os cabelos uns pontos luminosos e brilhar também suas largas pupilas por dentro do círculo de safira do íris — tão majestoso, tão leal e sem medo, incute mais respeito do que se estivesse rodeado por um exército em sua defesa.
O homem ficou como se estivesse fascinado… e paralisado pelo espanto. Só depois de algum tempo é que ele conseguiu murmurar: “Tu! Tu! Tu!”, e parece não saber dizer outra coisa.
Jesus insiste:
– Então, prende-me! Tira esse inútil cordão, estendido para segurar uma veste suja e rasgada, e amarra as minhas mãos. Eu te acompanharei como um cordeiro acompanha o açougueiro. E não te odiarei porque me levas para a morte. Eu já te disse4 para o vosso bem. Também quando Eu nasci antecipei a hora por amor a vós, para dar-vos a paz antes do tempo. Mas vós, desta minha ânsia de amor fazeis uma arma de negação. Não temas! Eu não invoco sobre ti o castigo de Caim, nem os raios de Deus. Eu oro por ti. Eu te amo. E nada mais. Serei Eu alto demais para que a tua mão de homem me alcance? Isso mesmo! De fato o homem não poderia ferir Deus se Deus não viesse voluntariamente colocar-se nas mãos do homem. Pois bem: eu vou ajoelhar-me diante de ti. O Filho do homem está diante de ti, aos teus pés. Fere-o, então!
Jesus, de fato, se ajoelha e estende a faca, segurando-a pela lâmina, ao seu perseguidor, que se afasta, murmurando:
– Não! Não!
– Vamos! É só um momento de coragem… e ficarás mais célebre do que Jael e Judite! Olha. Eu rezo por ti. Como diz Isaías5: “… e rezou pelos pecadores.” Ainda não vens? Por que te afastas? Ah! Talvez tenhas medo de não poderes ver como morre um Deus. Olha, Eu vou para ali, para perto do fogo. Pois o fogo não pode faltar nunca nos sacrifícios. Faz parte deles. E então? Agora, que me estás vendo bem.
E se ajoelhou perto do fogo.
– Mas não fiques me olhando! Não fiques me olhando! Oh! Para onde irei fugir para não ver o teu olhar? –grita o homem.
– Quem? A quem é que não queres ver?
– A Ti… e o meu delito. Verdadeiramente o meu pecado está diante de mim! 561.13Para onde, para onde fugir?
O homem está aterrorizado…
– Sobre o meu coração, meu filho! Aqui, entre estes braços cessam os íncubos e os medos. Aqui há paz. Vem! Vem! Faze-me feliz!
Jesus se levantou e está estendendo os braços. O fogo está entre os dois. Jesus está cintilando pelo reflexo das chamas.
O homem cai de joelhos, cobre o rosto e grita:
– Piedade de mim, ó Deus! Piedade de mim! Cancela o meu pecado! Eu queria ferir o teu Cristo! Piedade! Ah! Não pode haver piedade para com um delito assim! Eu estou condenado!
Ele chora com o rosto por terra, sacudido violentamente pelos soluços, e geme dizendo: “Piedade”, e imprecando: “Malditos!”…
Jesus gira ao redor das chamas e vai até o homem, inclina-se, toca na cabeça dele e lhe diz:
– Não maldigas aqueles que te seduziram. Eles conseguiram para ti o maior dos bens: o de que Eu te falasse, como agora falo, e que Eu te segurasse entre os meus braços.
Pegou-o depois pelas costas e o levantou, e sentando-se no chão puxou-o para cima de seu coração, e o homem deixou-se ficar sobre os joelhos, em um pranto menos frenético, mas bem purificador! Jesus o acaricia sobre a cabeça morena, deixando-o acalmar-se.
Finalmente o homem levanta a cabeça e, com um rosto mudado, diz:
– O teu perdão!
Jesus se inclina e o beija na fronte. 561.14O homem lhe joga os braços ao pescoço e, com a cabeça inclinada sobre o ombro de Jesus, chora e conta o que aconteceu. Ele quereria contar como o tinham sugestionado para o delito. Mas Jesus proíbe, dizendo-lhe:
– Cala-te Cala-te! Eu sei tudo. Quando tu entraste, Eu te conheci, tanto por aquele que eras, como pelo que querias fazer. Eu teria podido afastar-me de lá e evitar-te. Mas Eu fiquei para salvar-te. O passado morreu. Não vamos relembrá-lo mais.
– Mas… tu te fias tanto assim de mim? E se eu pecasse de novo?
– Não. Tu não pecarás de novo. Eu sei. Estás curado.
– Sim. Eu estou. Mas eles são muito astutos. Não me mandes de volta a eles.
– E para onde queres ir que eles lá não estejam?
– Ir contigo. Para Efraim. Se vês meu coração, estarás vendo que não é uma armadilha que eu preparo para Ti, mas apenas um pedido de ser protegido.
– Eu o sei. Vem. Mas Eu te advirto que lá está Judas de Keriot, vendido ao Sinédrio e traidor de Cristo.
– Divina Misericórdia! Até disto Tu sabes?!
E o espanto dele chega ao cúmulo.
– Eu sei de tudo. Ele pensa que Eu não saiba. Mas Eu sei tudo. E sei também que tu estás tão convertido, que não falarás a Judas nem a nenhum outro o que te aconteceu. Mas pensa bem: se Judas sabe trair o seu Mestre, que é que não saberá fazer contra ti?
O homem põe-se a pensar por muito tempo. Depois lhe diz:
– Não há de ser nada. Se tu não me expulsas, eu fico contigo. Ao menos por algum tempo. Até a Páscoa. Até que Tu te reúnas com os teus discípulos. Eu me unirei a eles. Oh! Se é verdade que me perdoaste, não me expulses!
– Eu não te expulso. 561.15Agora iremos para lá, para cima daquelas folhagens, a fim de esperar a manhã e, lá pelo alvorecer, iremos para Efraim. Diremos que o acaso nos uniu e que tu vieste para o meio de nós. E é verdade.
– Sim. É a verdade. Lá pelo alvorecer as minhas vestes já estarão enxutas e eu te entregarei a tua…
– Não. Deixa lá aquelas vestes. Elas são um símbolo. Do homem que se despoja do seu passado e veste o novo uniforme. A mãe de Samuel, o antigo, cantou6 cheia de júbilo: “O Senhor faz morrer e faz viver, conduz à morada dos mortos e dela faz voltar.” Tu és um morto que renasceu. Vem da morada dos mortos para a verdadeira vida. Deixa as vestes que tiveram contato com os sepulcros cheios de sujeira. E vive! Vive para a tua verdadeira glória: a de servir a Deus com justiça e possuí-lo pela eternidade.
Eles se assentam sobre uma pequena ondulação do terreno, onde estão amontoadas umas folhas. Logo o silêncio desce, porque o homem, cansado, pega no sono, encostado sobre o ombro de Jesus, que ainda está rezando.
561.16… E é uma bela manhã de primavera quando eles chegam, tendo ido pelo caminho da torrente, que já começa a ficar limpa, depois do aguaceiro, e vai agora cantando mais alto, porque as águas aumentaram e brilham ao Sol nas margens luzidias por causa das chuvas, diante da casa de Maria de Jacó.
Pedro, que está na porta de saída, dá um grito e sai correndo ao encontro deles, precipitando-se para abraçar a Jesus, que está todo encapotado, e lhe diz:
– Oh! Mestre meu bendito! Que triste sábado me fizeste passar! Mas eu não era capaz de decidir-me a partir, com a incerteza no coração e sem a tua despedida!
Jesus o beija sem livrar-se do manto. Pedro está tão pasmado ao contemplar o Mestre que nem nota a presença de um estranho que está com Ele.
Mas, enquanto isso, também os outros já chegaram, e Judas de Keriot dá um grito:
– És tu, Samuel?
– Sou eu. O reino de Deus está aberto para todos em Israel. E eu entrei nele –responde-lhe o homem com firmeza.
Judas dá uma risadinha estranha, mas não lhe replica nada.
A atenção de todos converge sobre o novo discípulo que chegou, e Pedro pergunta:
– Quem é?
– Um novo discípulo. O acaso fez que nos encontrássemos. Ou melhor, Deus fez que nos encontrássemos e, como a um que foi mandado a Mim por meu Pai, Eu o acolhi, e vos digo que façais o mesmo. E, dado que é uma grande festa quando alguém passa a fazer parte do Reino dos Céus, deixai aí as sacolas e os mantos, vós que estáveis para partir, e fiquemos aqui unidos até amanhã. 561.17E agora deixa-me ir, Simão, porque Eu dei a minha veste a este homem e o ar da manhã está mordendo minhas carnes enquanto eu fico aqui parado.
– Ah! É o que me parecia! Mas ficarás doente, Mestre, fazendo assim!
– Não é que eu o quisesse. Mas foi Ele que quis, desculpa-se o homem.
– Sim. Ele havia sido arrastado por uma enchente e se salvou por sua vontade. E para que nada daquele penoso momento permanecesse nele, e pudesse vir para o meio de nós sem sujeira, Eu fiz que ele deixasse lá, onde nos encontramos, a sua veste já rasgada e suja, e fiz que ele vestisse a minha –diz Jesus, e fica olhando para Judas de Keriot, que repete a sua risadinha estranha, como no começo e como quando Jesus disse que se faz grande festa ao entrar alguém a tomar parte do Reino dos Céus.
Depois Jesus entra em casa, logo em seguida, para ir vestir-se.
Os outros se aproximam do novo que chegou e lhe dão a saudação de paz.
1 um dos saforins deveria ter o significado de escriba, ou seja, doutor da Lei, mas aqui poderia significar aluno que aspira a se tornar escriba. De fato, ele se declara “discípulo” de um rabi; e mais adiante diz que durante o ensinamento coloca-se “a seus pés”, justamente como os alunos costumavam fazer. Também em 202.1 e em 594.4 os saforins mostram-se diferentes dos doutores. – Os escribas, em geral, são associados aos fariseus, mesmo se são os primeiros da categoria dos israelitas e os segundos de um partido ou de uma seita. Origem, funções e desvios de uns e de outros são delineados por Jesus no discurso que inicia em 596.14, do qual há várias antecipações, como em 252.10.
2 Está escrito, não literalmente, em: Provérbios 3,29; Sirácida 7,12; e outras passagens semelhantes. Mas poderia se tratar de um aforismo rabínico, visto que Jesus o considera, em seguida, “palavra de um homem.”
3 o gesto de Jael (contra Sísara) em: Juízes 4,17-22, e de Judite (contra Holofernes) em: Judite 12,10-20; 13.
10 Eu te disse. Introduzindo, assim, a afirmação sobre o fim que justifica a ação e modifica a natureza, Jesus faz referência ao caso particular do seu interlocutor (que pensava de matar um falso Messias, instigado a fazê-lo por pessoas de prestígio e convicto de cumprir uma boa ação). Do mesmo modo Ele justifica os casos considerados em 159.5/6 e in 580.3. Não se trata, portanto, da afirmação de um princípio moral a ser considerado sempre válido.
11 Davi (em: Salmo 22) e Isaías (em: Isaías 52,13-15; 53,1-12) pré-anunciam Jesus no Homem das dores, como foi dito aqui e em outras passagens, por exemplo, em: 10.6 - 22.3 - 41.7 - 194.5 - 275.10 - 324.8.11 - 361.5 - 382.7 - 395.5 - 414.3 - 436.5 - 520.7 - 565.9 - 597.5.7/11 - 598.8 - 601.1/2 - 604.41 - 609.30 - 610.13 - 625.7/8.
4 antecipando… a mihna hora, por mérito da Mãe, como diz em 52.9 (“por causa do seu pedido antecipo também o tempo da Graça”), em 136.6 (“apressou a vinda de Cristo com a força do seu amor”), em 412.3 (“o seu perfume de santidade foi tão forte que me aspirou do Céu”) e em 620.1 (onde diz que as orações de Maria anteciparam inclusive a Ressurreição). A própria Maria Ss. afirma isso em 649.14.
5 Como diz Isaías, em: Isaías 53,12.
6 cantou, em: 1 Samuel 2,6.
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