222. 222. Um segredo do apóstolo João.


18 de julho de 1945.

222.1 As colinas, depois de Jábnia, em direção de oeste para leste com respeito à Estrela Polar, vão aumentando em sua altitude e atrás vêem-se surgindo sempre outras mais altas, cada vez mais altas. Lá ao longe, à derradeira luz da tarde, vão perfilando as lombadas verdes e arroxeadas das montanhas da Judeia. O dia já declinou rapidamente, como acontece nos lugares meridionais. Da exibição do vermelho do pôr do sol, passou o dia, em menos de uma hora, ao primeiro cintilar das estrelas, e parece impossível que aquele incêndio do sol tenha se apagado tão depressa, cobrindo a cor de sangue do céu com uma veladura que, a cada momento vai-se tornando mais espessa e da cor de uma ametista sanguínea e, pouco depois, de um malva desbotado, que vai-se tornando transparente, a ponto de fazer que apareça um céu irreal, já não mais azul e sim verde, um verde pálido, que vai-se fazendo fosco, da cor verde-azulada das aveias novas, prelúdio do anil, que perdurará durante a noite, com seu manto real bordado e recoberto de diamantes.

As primeiras estrelas já estão sorrindo, do lado do oriente, para a foicinha da lua, que está em seu primeiro quarto. A terra fica embelezada, exposta sempre mais à luz dos astros, e no silêncio dos homens. Agora cantam os seres que não pecam: os rouxinóis, as águas harpejantes, as copas que sussurram, os grilos com os seus violinos, os sapos que fazem a marcação com os seus oboés, cantando ao sereno. Talvez estejam cantando também às estrelas, que estão lá em cima… A elas que estão mais perto dos anjos do que nós.

O incêndio do calor se apaga sempre mais no ar da noite, que é úmido de orvalho tão doce às ervas, aos homens e aos animais!

222.2 Jesus, que ficou esperando ao pé de uma colina pelos apóstolos que saíam de Jábnia, para onde João tinha ido chamá-los, está falando agora bem de frente com Iscariotes, entregando-lhe umas sacolas com moedas e dando-lhe instruções sobre o modo de reparti-las. Atrás dele está João, que segura o bode e fica calado, entre Zelotes e Bartolomeu. Estes estão falando de Jábnia, onde fizeram proezas André e Filipe. Atrás ainda, vão todos os outros, num grupo barulhento, que vai fazendo comentários sobre as aventuras na terra dos filisteus, mostrando claramente a sua alegria pela volta para a Judeia, para Pentecostes.

– Mas, será que iremos logo mesmo? –pergunta Filipe, cansado de correr por cima de areias quentes como fogo.

– Assim disse o Mestre. E tu o ouviste –responde Tiago de Alfeu.

– Meu irmão certamente o sabe. Mas parece estar desvairado. O que terão andado fazendo nestes últimos cinco dias é um mistério

–disse Tiago de Zebedeu.

– É verdade. E eu não suporto mais o desejo de saber. Pelo menos, como recompensa por aquele… purgante lá em Jábnia. Cinco dias, atentos a cada palavra, a cada olhar ou a cada passo, para não ter que enfrentar adversidades imprevistas –diz Pedro.

– Mas, afinal, nos saímos bem. Começamos a saber agir –diz contente Mateus.

– Na verdade… eu tremi duas ou três vezes. Aquele bendito rapaz, que é Judas do Simão!… Será que não aprenderá nunca a controlar-se? –diz Filipe.

– Só quando ele ficar velho. Contudo, se o quisermos entender, ele faz suas coisas com boa intenção. Tu o ouviste? Até o Mestre já disse isto. Ele o faz por zelo… –diz, desculpando-o André.

– Vá, que seja! Mas o Mestre falou assim, porque Ele é a Bondade e a Prudência. Mas eu acho que Ele não o aprova –diz Pedro.

– O Mestre não mente –rebate Tadeu.

– Mentir, não. Mas sabe colocar em suas respostas toda a prudência que nós não sabemos colocar nas nossas, e diz a verdade, sem fazer sangrar o coração de ninguém, sem excitar irritações, sem suscitar reprovações. Ah! Ele é Ele! –suspira Pedro.

222.3 Faz-se silêncio, enquanto vão caminhando sob a claridade, sempre mais notável, da lua. Pedro diz a Tiago de Zebedeu:

– Procura chamar João. Não sei por que nos evita.

– Eu o direi logo: porque ele sabe que nós vamos atormentá-lo, por querermos saber –responde Tomé.

– Sim! E ele está com os dois mais prudentes e sábios –confirma Filipe.

– Pois bem, experimenta assim mesmo, Tiago, tu que és bom –insiste Pedro.

E Tiago, condescendendo, chama por três vezes João, que não ouve ou faz sinal de que não está ouvindo. Vira-se, ao invés, Bartolomeu, ao qual Tiago diz:

– Fala ao meu irmão que venha aqui.

E, em seguida, a Pedro:

– Mas eu não sei se ficaremos sabendo!

João, obediente, vai logo, e pergunta:

– Que quereis?

– Saber se daqui vamos diretamente para a Judeia –diz o seu irmão.

– Assim disse o Mestre. Quase não queria voltar atrás, a partir de Acron, mas queria que eu vos fosse chamar. Depois, porém, achou melhor ir até às ultimas encostas… Afinal, daqui também se pode ir à Judeia.

– Por Modin?

– Por Modin.

– É uma estrada sem segurança. Lá os malfeitores ficam esperando caravanas e dão golpes –objeta Tomé.

– Ah! Mas com Ele!… Nada resiste a Ele!…

João levanta para o céu o rosto arrebatado em possíveis recordações, e sorri.

Todos observam isso, e Pedro diz:

– Dize-me uma coisa: estarás lendo alguma bonita história no céu estrelado, quando ficas com essa cara?

– Eu? Não…

– Vá, que assim seja. Até as pedras estão vendo que ficas fora deste mundo. Dize-me: Que foi que aconteceu contigo em Acron?

– Ora, nada, Simão. Eu te garanto. Eu não estaria feliz se tivesse acontecido alguma coisa dolorosa.

– Dolorosa, não. Pelo contrário!… Vamos, fala!

– Mas eu não tenho nada para dizer, além do que o que Ele disse. Foram bons como pessoas assombradas pelos milagres. Aí está tudo, tal como Ele disse.

222.4 – Não.

E Pedro sacode a cabeça:

– Não, Tu não sabes mentir. És límpido como a água da fonte. Não. Estás mudando de cor. Eu te conheço desde quando eras menino. Nunca poderás mentir. Seja pela incapacidade do coração, do pensamento, da tua língua e até da pele, que muda de cor. Por isso é que eu te quero muito bem, e sempre te quis. Eia, vem cá, ao teu velho Simão de Jonas, ao teu amigo. Lembras-te de quando eras um rapazinho e eu já era homem? De como eu te acariciava? Querias as histórias e os barquinhos de cortiça “que nunca vão para o fundo”, como tu dizias, e que te serviam para ires longe… Também agora vais longe, e deixas na margem o pobre Simão. E a tua barquinha nunca irá para o fundo. Ela lá se vai, cheia de flores, como aquelas que lançavas ao mar, quando menino, em Betsaida, no rio, para que o rio as levasse para o lago e elas lá se fossem, se fossem… Lembras-te disso? Eu te quero bem, João. Todos te queremos bem. Tu és a nossa vela. Tu és a nossa barca que não vai ao fundo. Tu nos levas no teu rasto. Por que não nos contas o prodígio de Acron?

Pedro falou, segurando, com seu braço, João apertado pela cintura, mas ele procura evitar a pergunta, dizendo:

– E tu, que és o chefe, por que não falas às multidões com esta intensidade persuasiva de que fazes uso ao falares comigo? Elas é que precisam ficar convencidas. Eu, não.

– Porque contigo eu me sinto à vontade. Eu te amo. A elas eu não conheço –desculpa-se Pedro.

– E não as amas. Aí está o teu erro. Ama-as, ainda que não as conheças. Dize a ti mesmo: “Elas são do nosso Pai.” Verás que te parecerá conhecê-las e as amarás. Vê nelas outros tantos Joões…

– É fácil dizer. Como se as cobras e os ouriços pudessem ser trocados por ti, ó eterno menino.

– Oh! Não! Eu sou como os outros.

– Não, irmão. Não como os outros. Nós, se tirarmos talvez Bartolomeu, André e Zelotes, já teríamos contado até às ervas o que nos aconteceu e que nos faz felizes. Tu estás calado. Mas a mim, ao teu irmão mais velho o deves dizer. Eu sou para ti como um pai –diz Tiago de Zebedeu.

– O Pai é Deus, o Irmão é Jesus, e a mãe é Maria…

– De modo que o sangue para ti não vale mais nada? –grita inquieto Tiago.

– Não te inquietes. Eu bendigo o sangue e o seio que me formaram: o pai e a mãe. E bendigo a ti, meu irmão, igual no sangue. Os primeiros, porque me geraram e me educaram para que eu pudesse seguir o Mestre, e a ti, porque o segues. A mãe, desde quando se tornou discípula, eu a amo de dois modos: com a carne e o sangue, como filho; e com o espírito, como condiscípulo dela. Oh! Que alegria por estarmos unidos no amor dele!

222.5 Jesus voltou atrás ao ouvir a voz alterada de Tiago, e as últimas palavras o esclareceram sobre o assunto:

– Deixem em paz João. Inutilmente o atormentais. Ele tem muita semelhança com a minha mãe. E não vai falar.

– Dize-o Tu, então Mestre –suplicam-lhe todos.

– Está bem, é isto. Eu trouxe João comigo, porque é o mais apto para tudo o que Eu queria fazer. Por ele Eu tenho sido ajudado, e ele aperfeiçoado. É isto.

Pedro, Tiago, irmão de João, Tomé e Iscariotes, se olham, torcendo um pouco a boca, desiludidos.

E Judas Iscariotes não se limita a ficar desiludido. Ele diz:

– Para que aperfeiçoá-lo, se ele já é o melhor?

Jesus lhe responde:

– Tu disseste: “Cada um tem o seu modo e faz uso dele.” Eu tenho o meu. João tem o dele, muito semelhante ao meu. O meu não pode aperfeiçoar-se. Mas o dele, sim. E isto Eu quero que aconteça, pois é bom que assim seja. E por isso Eu o tomei comigo. Porque Eu tinha necessidade de alguém que tivesse aquele modo e aquele espírito. Por isso, não fiqueis de mau humor nem com curiosidade. Vamos a Modin. A noite está serena, fresca e clara. Vamos caminhar, enquanto houver luar, e depois dormiremos até a aurora. E levarei os dois Judas para venerar a tumba1 dos Macabeus, dos quais eles têm o nome glorioso.

– Nós sozinhos contigo! –diz, feliz, Iscariotes.

– Não. Com todos. Pois a visita à tumba dos Macabeus será feita por vós. Para que os saibais imitar sobrenaturalmente, lutando e vencendo em um campo todo espiritual.



1 tumba, dos quais se falam em 1 Macabeus 2,70; 9,19; 13,23-30.