536. 536. Cura de sete leprosos e chegadaa Betânia com os apóstolos reunidos. Marta e Mariasão preparadas por Jesus para a morte de Lázaro.
4 de dezembro de 1946.
536.1Jesus, com Pedro e Judas Tadeu vão caminhando depressa em um lugar triste e pedregoso ao lado da cidade. Ainda que eu não veja o olival verde, mas só o pequeno monte, ou melhor, os montezinhos que pouco a pouco começam a aparecer esverdeando suas encostas, e que ficam ao poente de Jerusalém, e entre os quais está o Gólgota, eu acho que estamos mesmo fora do lado ocidental da cidade.
– Poderemos dar alguma coisa com o que conseguimos amealhar. Deve ser uma coisa horrível viver entre os sepulcros durante o inverno –diz Tadeu, carregado de pacotes, como o está também Pedro.
– Eu fiquei contente por ter ido aos libertos, onde recebi este dinheiro para os leprosos. Pobres infelizes! Nestes dias de festa ninguém pensa neles. Todos se alegram, enquanto estes ficam pensando na casa que perderam. Mas se pelo menos eles cressem em Ti. Será que eles o farão, Mestre? –diz Pedro, em sua simplicidade, sempre apegado ao seu Jesus.
– Vamos esperar que assim seja, Simão. Vamos esperar. Enquanto isso, vamos rezar…
E continuam rezando.
536.2O triste vale do Hinon já se deixa ver com seus sepulcros de vivos.
– Ide à frente e distribuí –diz Jesus.
E os dois se vão, conversando em voz alta. Os rostos dos leprosos já são vistos pelas fendas das grutas e dos abrigos.
– Somos os discípulos do Rabi Jesus –diz Pedro–. Ele vem chegando e nos mandou entregar-vos uma ajuda. Quantos sois vós?
– Somos sete aqui. E três em outro lugar, para lá de En Rogel –fala um por todos.
Pedro abre o seu pacote. E Tadeu também o seu. Dividem cada um em dez partes que constam em uma de pão, outra de queijo, outra de manteiga e uma de azeitonas. E o óleo, onde colocar o óleo, que está posto em uma pequena jarra?
– Um de vós traga aqui uma vasilha. Vamos ali para cima do penhasco. Vós dividireis o óleo, como irmãos que sois e em nome do Mestre, que prega o amor ao próximo –diz Pedro.
Enquanto isso, um leproso, mancando, vai descendo até eles, que já estão perto de um grande penhasco, e põe sobre ela uma jarrinha desbeiçada. Olha para eles, enquanto estão despejando o óleo e, espantado, pergunta:
– Não tendes medo de ficardes assim perto de mim?
E de fato entre os dois apóstolos e o leproso está somente o penhasco.
– Nós só temos medo de ofender o amor. Ele nos mandou, dizendo-nos que viéssemos socorrer-vos, porque quem é de Cristo deve amar como Cristo ama. Que este óleo possa abrir vosso coração e dar-lhe luz, como se já estivesse aceso na lâmpada do vosso coração. O tempo da graça chegou para aqueles que esperam no Senhor Jesus. Tende fé nele. Ele é o Messias, e cura os corpos e as almas. Tudo Ele pode, porque é o Emanuel1 –diz Tadeu com aquela sua dignidade que sempre se impõe.
O leproso está com sua jarrinha nas mãos e olha para ele como se estivesse fascinado. Depois diz:
– Sei que Israel tem o seu Messias, porque os peregrinos falam dele quando chegam procurando-o pela cidade, e nós escutávamos as conversas deles. Mas eu nunca o vi, pois faz pouco tempo que vim para cá. E vós dizeis que Ele me curaria? Entre nós há quem blasfeme contra Ele e quem o bendiz, e eu não sei em quem crer.
– Os que o amaldiçoam são gente boa?
– Não. São gente cruel e nos ultrajam. Eles querem os melhores lugares e a parte maior. Nós nem sabemos se podemos ficar aqui, por causa disso.
– Então, tu vês que somente quem hospeda o Inferno, esse, sim, odeia o Messias. Porque o inferno já se sente vencido por Ele e por isso o odeia. Mas eu te digo que Ele deve ser amado e com fé, quando se quer receber do Altíssimo uma graça para esta vida e para a outra –diz ainda Tadeu.
– Se eu quereria receber a graça! Eu sou esposo, há dois anos, e tenho um filhinho que não me conhece. Estou leproso há poucos meses. Vós estais vendo.
De fato, ele tem poucos sinais.
– E, então, dirige-te ao Mestre com fé. 536.3Olha! Ele já vem vindo! Vai avisar os companheiros e volta cá. Ele irá passando e te curará.
O homem sai correndo pela encosta e chama:
– Urias! Joabi! Adiná! E também vós que não acreditais. O Senhor vem para salvar-nos.
Uma, duas, três. Três desventuras, cada uma pior do que a outra vêm para frente. A mulher, porém, apenas se mostra. É um horror vivo… Talvez ela esteja chorando, talvez falando, mas não é possível entender nada, porque sua voz é um chiado que sai daquilo que era a boca, mas que agora virou duas maxilas seminuas, de dentes descobertos, horrenda…
– Sim. Eu te digo que me disseram que fosse chamar-vos. Ele vem para curar-vos.
– Eu, não. Eu não acreditei nele nas outras vezes… E Ele não me atenderá mais… Além disso, eu não posso caminhar –fala com mais clareza a mulher, quem sabe com que dificuldade.
Mas ela procura valer-se até dos dedos, para segurar a beira dos lábios e poder fazer-se entender.
– Nós te levamos Adiná… –dizem os dois homens e o da jarrinha.
– Não… Não… Eu pequei demais…
E se acocora lá onde está… Outros três vão correndo como podem, arrogantes, e dizendo:
– Dai-nos o óleo, enquanto isso, e depois ide ao Belzebu, se o quiserdes.
– O óleo é para todos –diz o da jarrinha, procurando defender o seu tesouro.
Mas os três violentos e cruéis, o dominam e tomam dele a jarrinha.
– Eis aí! É sempre assim… Um pouco de óleo, depois de tanto tempo!… Mas o Mestre já vem chegando… Vamos até Ele. Tu não vens mesmo, Adiná?
– Não tenho coragem…
536.4Os três descem até o penhasco. E lá ficam parados para esperarem Jesus, ao encontro do qual foram os apóstolos. E, tendo Ele chegado, eles lhe gritam:
– Piedade de nós, Jesus de Israel! Nós esperamos em Ti, Senhor!
Jesus levanta o rosto e olha para eles com aquele seu olhar inimitável. E pergunta:
– Para que quereis a saúde?
– Para nossas famílias, para nós… É horrível viver aqui…
– Vós não sois somente carne, meus filhos. Tendes também uma alma, que vale mais do que a carne. E é com esta que vos deveis preocupar. Vós não pedis, portanto, somente a saúde para vós, para as vossas famílias, mas para terdes tempo a fim de conhecer a palavra de Deus e de viver merecendo o seu Reino. Vós sois justos? Tornai-vos mais justos. Sois uns pecadores? Pedi para viverdes, a fim de terdes tempo para reparar o mal cometido… Onde está a mulher? Por que é que ela não vem? Ela não tem coragem de enfrentar o rosto do Filho do homem, ela que não teve medo de encontrar-se com o rosto de Deus quando pecava? Ide dizer-lhe que muito lhe foi perdoado por seu arrependimento e sua resignação, e que o Eterno me mandou para absolver todos os pecados daqueles que se arrependem do seu passado.
– Mestre, Adiná não pode mais caminhar.
– Ide e ajudai-a a descer até aqui. E trazei outra vasilha. Nós vos daremos outro óleo…
– Senhor, só há óleo para os outros –diz-lhe Pedro em voz baixa, enquanto os leprosos vão buscar a mulher.
– Haverá óleo para todos. Tem fé. Porque é mais fácil para ti ter fé nisto do que para aqueles infelizes ter fé que o corpo deles volte a ser como era.
Enquanto isso, lá em cima, nas grutas, formou-se uma briga entre os três leprosos maus por causa da distribuição da comida…
536.5Levada nos braços, a mulher chega… e geme com todo o sentimento que pode, dizendo:
– Perdão! Pelo passado! E por não ter pedido perdão nas outras vezes!… Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!
Os homens a põem aos pés do penhasco. E sobre o penhasco põem uma espécie de panela, toda destroçada.
Jesus pergunta:
– Que é que vós achais que seja mais fácil: aumentar o óleo em uma vasilha ou fazer crescer a carne nos lugares em que a lepra a destruiu?
Fazem silêncio… Depois, é justamente a mulher quem diz:
– O óleo. Mas também a carne, porque Tu tudo podes. E também me podes dar a alma que eu tinha nos meus primeiros anos. Eu creio, Senhor.
Oh! Seria preciso ver o sorriso divino! É como uma luz que se espalha, amena, risonha, suave! Ela está nos olhos e sobre os lábios e na voz, enquanto Ele vai dizendo:
– Pela tua fé sejas curada e perdoada. E vós também. E recebei o óleo e a comida para vos fortificardes. E ide mostrar-vos aos sacerdotes, como está prescrito. Amanhã, ao romper da aurora, Eu voltarei com vestes e podereis ir, tendo sido posta a salvo a decência. Eia! Louvai o Senhor. Já não sois mais leprosos.
E é agora que os quatro, que até então estavam com os olhos fixos no Senhor, olham um para o outro, e gritam de espanto.
A mulher gostaria de pôr-se de pé, mas suas roupas são muito poucas, para que ela possa fazê-lo. Suas roupas estão penduradas em tiras e em seu corpo as partes nuas são mais do que as cobertas. Estando ela meio escondida pelo penhasco, com um pudor que não é somente por causa de Jesus, mas também de seus companheiros, com o rosto refeito em suas feições, que somente estão afiladas pelos sofrimentos, chora, dizendo sem parar: “Bendito! Bendito! Bendito!” e suas bênçãos se misturam com as horrendas blasfêmias dos três leprosos maus, que ficaram furiosos quando os outros ficaram curados. As sujeiras e as pedras passam voando.
536.6– Aqui não podeis ficar. Vinde comigo. Não vos acontecerá nada de mal. A estrada está vazia. A hora de sexta reúne os cidadãos em suas casas. Ireis para perto dos outros leprosos até amanhã. Não temais. Toma, mulher.
E lhe dá o manto para recobrir-se.
Os quatro, um pouco amedrontados, um pouco assustados, o acompanham como quatro cordeirinhos. Percorrem o que ainda falta do vale de Hinon. Atravessam a estrada e vão para Siloé, outro triste lugar de leprosos. Jesus para aos pés das ribanceiras e diz:
– Subi, e dizei a eles que amanhã, à primeira hora, Eu estarei aqui. Ide e alegrai-vos com eles pregando o Mestre da Boa Nova.
Ele faz que se lhes dê toda a comida que ainda têm, antes de despedir-se.
– Agora, vamos. Já está passando da hora sexta –diz Jesus, virando-se e pondo-se de volta pela estrada baixa que vai para Betânia.
Mas logo um grito lhe chama a atenção:
– Jesus, Filho de Davi, tem piedade de nós também.
– Estes não esperaram pela manhã –observa Pedro.
– Vamos a eles. São tão poucas as horas nas quais posso fazer o bem, sem que quem me odeia perturbe a paz dos agraciados –responde Jesus.
E volta sobre seus passos, conservando levantada a cabeça, virada para os três leprosos de Siloé, que se apresentaram no patamar sobre a pequena colina e repetem o grito, ajudados pelos já curados, que vão indo atrás deles.
Jesus não faz mais do que estender as mãos e dizer:
– Seja-vos feito como pedis. Ide e vivei nos caminhos do Senhor.
E os abençoa, enquanto a lepra vai desaparecendo de seus corpos, como uma leve camada de neve se derrete ao sol. E Jesus se apressa, indo para frente, acompanhado pelas bênçãos dos miraculados, que do alto de sua ribanceira estendem os braços em um abraço mais verdadeiro do que se deveras tivesse sido dado.
536.7Voltam pela estrada para Betânia, estrada que acompanha o curso do Cedron, que faz um cotovelo em ângulo agudo depois de uma centena de passos de Siloé. Mas depois de terem passado o ângulo, pode-se ver a outra parte da estrada que continua para Betânia, e ei-lo lá, sozinho, caminhando apressado, Judas de Keriot.
– Mas é Judas! –exclama Tadeu, que o vê por primeiro.
– Por que aqui? Sozinho? Ah! É Judas! –grita Pedro.
Judas se vira, de chofre. Está pálido, ou melhor, está esverdeado. E Pedro lhe diz:
– Terás visto o demônio para estares assim, da cor da alface?
– Que é que estás fazendo aqui, Judas? Por que deixaste os companheiros? –pergunta Jesus, ao mesmo tempo.
Judas já está senhor de si. E diz:
– Eu estava com eles. Encontrei alguém com notícias de minha mãe. Olha… –se remexe na cintura.
Bate a mão na testa dizendo:
– Deixei com aquele homem! Queria que lesses a carta… Ou perdi no caminho… Ela não está muito bem. Realmente está ruim… Mas eis ali os companheiros… Eles pararam. Eles te viram… Mestre, eu estou chateado…
– Eu vejo.
– Mestre… aqui estão as bolsas. De uma eu fiz duas para… para não darem na vista… Eu estava sozinho…
Os apóstolos Bartolomeu, Filipe, Mateus, Simão e Tiago de Zebedeu estão um pouco embaraçados. Eles se aproximam de Jesus com amor, mas como quem sabe que está em falta.
Jesus olha para eles e diz:
– Não o façais mais. Nunca é bom para vós separar-vos. Se Eu vos digo que não o façais é porque sei que tendes necessidade de auxiliar-vos um ao outro. Não sois tão fortes que possais agir por vós mesmos. Mas, unidos, um refreia e ajuda o outro. Separados…
– Fui eu, Mestre, quem deu o mau conselho, pois nos lembramos depois que Tu havias dito que não nos separássemos, que fôssemos todos juntos para Betânia, e Judas tinha ido viajar por um justo motivo, e nós não tínhamos pensado em ir com ele. Perdoa-me, Senhor
–diz, humilde e com sinceridade, Bartolomeu.
– Sim, Eu vos perdoo. Mas vos repito: não o façais mais. Pensai que obedecer salva sempre, pelo menos de um pecado: o de presumir que somos capazes de agir por nós mesmos. Vós não sabeis quanto o demônio gira ao redor de vós para lançar mão de todos os motivos para vos fazer pecar e fazer mal ao vosso Mestre, já tão perseguido. São tempos cada vez mais difíceis para Mim e para o organismo que Eu vim formar. Assim sendo, é necessário muito cuidado para que tal não aconteça, não digo que seja ferido e morto, porque não o será nunca mais, até o fim dos séculos, mas emporcalhado de lama. Os seus adversários olham atentamente para vós e não vos perdem nunca de vista, assim como estão sempre pesando todos os meus atos e palavras. E isto para terem motivos, a fim de poderem me acusar. Se vós vos mostrardes litigiosos, divididos, de qualquer maneira imperfeitos, mesmo em coisas de pouco valor, eles recolherão e manipularão o que vós fizestes, e o lançarão como uma lama e uma acusação contra Mim e minha Igreja, que vai se formando. Vós o estais vendo! Eu não vos repreendo, mas vos aconselho. Para o vosso bem. Ah! Não sabeis, meus amigos, que até as coisas melhores eles manipularão e apresentarão para poderem acusar-me com uma aparência de justiça? Eia, pois! Para o futuro, sede mais obedientes e prudentes.
Os apóstolos estão todos comovidos pela serenidade de Jesus.
Judas Iscariotes está continuamente mudando de cor. Está acanhado, um pouco atrás de todos, e até Pedro chega a lhe dizer:
– Que é que estás fazendo aí? Não estás mais errado do que os outros. Então, vem para frente com os outros –e ele vê que é necessário obedecer.
536.8Vão caminhando depressa, porque, apesar do sol, há um ventinho frio que os convida a se aquecerem. E já andaram um bom trecho, quando Natanael, que está com frio, e o diz, enrolando-se ainda mais no manto, nota que Jesus está somente com a veste:
– Mestre, que fizeste do teu manto?
– Eu o dei a uma leprosa. Nós curamos e consolamos sete leprosos.
– Mas estarás sentindo frio! Toma o meu manto!, diz Zelotes, e acrescenta: Eu me acostumei com os gélidos sepulcros e com o vento do inverno.
– Irmão, tu nos dás merecimentos que nós não temos. Foste tu, e não nós, quem curou e consolou… –diz Tadeu.
– Vós preparastes os corações para a fé no milagre. Por isso, comigo, e como Eu, ajudastes a curar e a consolar. Se soubésseis como Eu me alegro ao associar-vos a Mim em todas as obras! Não vos recordais das palavras de João de Zacarias, meu primo: “É preciso que Ele cresça e que eu diminua”? Ele, com justiça o dizia, porque todo homem, por maior que seja, ainda que ele fosse Moisés ou Elias, fica ofuscado como uma estrela, que desaparece diante do esplendor do sol, quando aparece Aquele que vem do Pai Santíssimo. Mas Eu também, fundador de um organismo que durará séculos, e que será santo como seu Fundador e Chefe, de um Organismo que assim durará para me representar, e será uma só coisa comigo, assim como os membros e o corpo do homem são uma só coisa com a cabeça, que está acima deles, Eu devo dizer: É necessário que esse corpo se ilumine e que Eu me ofusque. Vós devereis ser a continuação de Mim. Eu, dentro em breve, não estarei mais entre vós aqui na terra, aqui de um modo material, para dirigir os meus apóstolos, discípulos e seguidores. Eu estarei, porém, espiritualmente convosco sempre, e os vossos espíritos sentirão a presença do meu Espírito, receberão a minha Luz. Mas vós devereis aparecer na primeira linha, enquanto Eu já terei voltado para lá de onde Eu vim. Por isso é que Eu vou, pouco a pouco, preparando-vos para aparecerdes como os primeiros. Vós às vezes me observais: “Tu nos mandavas mais nos primeiros tempos.” É que vós precisáveis ser conhecidos. E agora, que já o sois, agora que para este pequeno lugar da terra já sois “os Apóstolos”, Eu vos trago sempre unidos a Mim, participantes de todas as minhas ações, de modo que o mundo diga: “Ele os faz seus companheiros nas obras que realiza porque eles continuarão depois dele, para continuarem sendo meus amigos.” Vós devereis sempre ir para frente, destacar-vos, continuar-me, serdes Eu, enquanto Eu, como uma mãe que pouco a pouco vai deixando de ajudar o filhinho que já aprendeu a caminhar. Eu vou retirar-me… Não há de ser violenta a separação entre mim e vós. Os pequeninos do rebanho, os humildes fiéis ficariam amedrontados com isso. Eu os passo suavemente de Mim para vós, a fim de que eles não se sintam sozinhos nem por um momento. E vós amai-vos, tanto como Eu vos amo. Amai-os em memória de Mim, como Eu os amei…
536.9Jesus se cala, ocupando-se com algum seu pensamento. E não diz mais nada até quando, ainda fora de Betânia, não encontra os outros apóstolos que vieram pelo outro caminho. E continuam indo juntos para a casa de Lázaro. João diz que já estão sendo esperados, pois os servos já os viram. E diz que Lázaro está muito mal.
– Eu sei. Por isso Eu vos disse que ficaremos na casa do Simão. Mas Eu não quis afastar-me sem ter ido saudá-lo de novo.
– Mas, por que não o fazes ficar são? Seria tão justo. Os teus melhores servos tu os deixas morrer. Eu não entendo isso… –diz Judas Iscariotes, sempre atrevido, até nos melhores momentos.
– Não há necessidade de que tu o compreendas com antecedência.
– Sim. Não há necessidade. Mas sabes o que estão dizendo os teus inimigos? Que Tu curas quando podes e não quando queres, que tu proteges quando podes… Não sabes que aquele velho de Técua já morreu? E que morreu assassinado?
– Morreu? Quem? Eliana? Como? –perguntam todos, agitados.
Somente Pedro é que lhe faz esta pergunta:
– E tu, como sabes disso?
– Eu o fiquei sabendo por acaso, há pouco, na casa em que estive, e Deus sabe se eu minto. Parece que foi um ladrão que chegou vestido de mercador, e que, em vez de pagar a hospedagem, o matou…
– Pobre velho! Que vida infeliz! Que triste morte! Nada dizes, Mestre? –muitos dizem.
– Não tenho nada a dizer, senão que o velho serviu a Cristo até à morte. Se todos fossem assim!
– Fala um pouco, filho de Alfeu, mas não será como tu dizias, hein? –pergunta Pedro a Tadeu.
– Pode ser. Um filho que, por ódio, expulsa o pai, por um ódio de tal natureza pode ser capaz de tudo. Meu irmão, são bem verdadeiras as tuas palavras2: “O irmão irá contra o seu irmão e o pai contra os filhos.”
– Sim. E o que fizer assim ainda achará que está servindo a Deus. Olhos obcecados, corações endurecidos, espíritos sem luz. Contudo, os devereis amar –diz Jesus.
– Mas como faremos para amar a quem nos tratar assim? Já é muito se não reagimos e se suportamos com resignação as suas ações…
–exclama Filipe.
– Eu vos darei um exemplo que vos ensinará. Quando chegar o tempo. E, se me amardes, fareis o que Eu farei.
536.10– Eis Maximino e Sara, Lázaro deve estar bem mal se suas irmãs não vêm ao teu encontro –observa Zelotes.
Os dois correm e se prostram. Até em seus rostos, em suas vestes está aquele ar descuidado que deixam a dor e o cansaço nos membros de uma família que está lutando contra a morte. Eles não dizem mais nada, a não ser isto; “Mestre, vai…”, mas de um modo tão aflito, que vale mais do que um longo discurso. E conduzem logo Jesus à porta do quartinho do Lázaro, enquanto os outros servos se ocupam com os apóstolos.
À leve batida na porta, aproxima-se dela Marta e a entreabre, fazendo ver pela abertura o seu rosto emagrecido e pálido:
– Mestre! Vem. Bendito és Tu!
Jesus entra, atravessa a sala que vem antes do quarto do doente, entra nele. Lázaro? É mais um esqueleto, uma múmia amarelada, que respira… O seu rosto já virou uma caveira e, durante o sono, ainda é mais visível a sua destruição, que já faz dele uma cabeça descarnada pela morte. Sua pele, cor de cera e espichada, brilha nos ângulos agudos dos zigomas, das maxilas, na fronte, nas órbitas, que ficaram tão fundas a ponto de parecerem estar sem os olhos, no nariz afilado, que parece ter crescido para fora da medida, pelo tanto que desapareceu o contorno das faces. Seus lábios estão pálidos a ponto de desaparecerem, e parece que já não podem fechar-se sobre as duas filas de dentes meio descobertos… É um rosto já morto.
536.11Jesus se inclina para olhar. Depois se ergue. Olha para as duas irmãs, que estão olhando para Ele, com toda a alma concentrada nos olhos, uma alma cheia de dor, mas cheia também de esperança. Ele lhes faz um sinal e, sem fazer barulho, vai lá para fora, para o pequeno pátio que fica à frente das duas salas. Marta e Maria o acompanham. E fecham a porta atrás de si. Sozinhos, os três, dentro das quatro paredes, em silêncio, com o céu azul sobre suas cabeças, olham um para o outro. As irmãs não sabem mais nem pedir, já não sabem falar.
Mas fala Jesus:
– Vós sabeis quem Eu sou. E Eu sei quem vós sois. Vós sabeis que Eu vos amo. E eu sei que me amais. Vós sabeis do meu poder. E Eu sei da vossa fé em Mim. Vós também sabeis, e especialmente tu, Maria, que quanto mais se ama, mais se consegue. E amar é saber esperar e crer, acima de toda medida e de toda realidade que queira desmentir essa crença e essa esperança. Pois bem. Por tudo isso Eu vos digo que saibais esperar e crer, apesar de todas as realidades contrárias! Eu não posso parar aqui mais do que poucas horas. Como homem, o Altíssimo sabe o quanto Eu gostaria de parar aqui para dar-lhe assistência e consolo e para dar também a vós assistência e consolo. Mas como Filho de Deus, Eu sei que é necessário que Eu me vá. Que Eu me afaste… Que Eu não esteja aqui, quando… vós me desejaríeis mais do que o ar que respirais. Um dia, daqui a pouco, compreendereis estas razões, que agora vos poderão parecer cruéis. Dolorosas para Mim, como Homem, assim como a vós. Dolorosas agora. Agora, porque vós não podeis abraçar e contemplar a beleza e a sabedoria. E nem Eu vo-lo posso revelar. Quando tudo se houver cumprido, então compreendereis e vos alegrareis… Escutai. Quando Lázaro tiver… morrido. Não fiqueis chorando assim! Mandai-me chamar logo. Enquanto isso, preparais os funerais, com grande assistência, como a Lázaro e a vossa família convém. Ele é um judeu ilustre. Poucos o apreciam pelo que ele vale. Mas ele supera a muitos aos olhos de Deus… Eu vos farei saber onde estou para que me possais encontrar.
– Mas por que não estar aqui, pelo menos naquele momento? Nós nos resignamos, sim, com a morte… Mas Tu… Mas Tu… Mas Tu…
Marta soluça, não podendo dizer mais nada, sufocando com suas vestes o pranto… Maria, porém, olha fixamente para Jesus, como se estivesse hipnotizada… e não chora.
– Sabei obedecer, sabei crer, esperar… sabei dizer sempre sim a Deus… Lázaro vos está chamando… Ide. Agora, Eu irei. E se não tiver mais modo de falar-vos em particular, lembrai-vos do que Eu vos disse.
E enquanto elas entram apressadas, Jesus se assenta em um banquinho de pedra e reza.
1 é o Emanuel, como em Isaías 7,14; 8,8; que significa “Deus está conosco”, como em Salmo 46,8.12; Isaías 8,10. Ainda em 76.7.9 e 478.9.
2 as tuas palavras, em 265.8.
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