458. 458. Uma cura espiritual em Guerguesae lição sobre os dons de Deus. Volta a Cafarnaum.


16 de julho de 1946.

458.1 Chegam à margem do lago, nas imediações de Guerguesa, quando o pôr de sol de vermelho se muda para um crepúsculo arroxeado e tranquilo. A beira está cheia de gente que está preparando as barcas para a pesca noturna, ou tomando com prazer o seu banho nas águas do lago, um pouco agitado pelo vento que agora o está percorrendo.

Logo Jesus é visto e reconhecido, de tal modo que, antes que Ele possa entrar na cidade, a cidade já sabe que Ele chegou e começa o costumeiro afluxo dos que acorrem para ouvi-lo.

Por entre as pessoas, vem abrindo caminho um homem, dizendo que pela manhã tinham vindo de Cafarnaum procurá-lo, que deviam regressar logo.

– Nesta noite mesmo. Eu não paro aqui. Como as nossas barcas não estão aqui, eu vos peço que me empresteis as vossas.

– Como quiseres, Senhor. Mas, vais falar-nos antes da partida?

– Sim. E também para saudar-vos. Em breve deixaremos a Galileia…

458.2Uma mulher que está chorando, lá do meio da multidão, o chama e suplica que a deixem passar para ir até o Mestre.

– É a Arria, a gentia que se tornou hebreia por amor. Tu, em certa ocasião, lhe curaste o marido1, mas…

– Eu me lembro. Deixai-a passar!

A mulher vem para a frente. Joga-se aos pés de Jesus e chora.

– Que tens, mulher?

– Rabi! Rabi! Tem piedade de mim! Simeão…

Um dos de Guerguesa a ajuda a falar:

– Mestre, a saúde, que Tu lhe deste, ele a está usando mal. Tornou-se duro de coração e rapace, nem parece mais israelita. Na verdade, a mulher é muito melhor do que ele, ainda que tenha nascido em terras pagãs. Sua dureza e rapacidade atraem sobre ele os ódios e frequentes rixas. Por causa de uma dessas brigas, ele agora está muito abatido, tendo sido ferido na cabeça. O médico acha que quase com certeza ele ficará cego.

– E Eu, que é que posso, em tal caso?

– Tu… curas… Ela, Tu estás vendo, com isso fica desesperada… Ela tem muitos meninos, ainda pequenos… A cegueira do marido seria a miséria da casa toda… É verdade que é dinheiro mal ganho… Mas a morte seria uma desventura, porque um marido é sempre um marido, um pai é sempre um pai, ainda mesmo quando ele, em lugar de amor e pão, dá traições e surras…

– Eu o curei uma vez e lhe disse: “Não peques mais.” Ele pecou mais ainda. Não tinha ele prometido não pecar mais? Não tinha feito a promessa de não ser mais usurário e ladrão, se Eu o curasse, de entregar aos que ele pudesse aquilo que deles houvesse roubado, dos que não pudesse, usasse o dinheiro dando-o aos pobres?

– Mestre, é verdade. Eu estava presente. Mas… o homem nem sempre é firme nos seus propósitos.

– Disseste bem. E não é somente Simeão. Muitos são os que, como diz2 Salomão, fazem dois pesos e usam balança falsa, e isso não somente no sentido material, mas também em seus julgamentos, em suas ações e até no seu comportamento para com Deus. É ainda Salomão que diz: “É uma ruína para o homem fazer uma promessa aos santos e arrepender-se dela.” E são muitos, demais os que fazem tais coisas… 458.3Mulher, não chores… Mas escuta, sê justa, porque adotaste uma religião de justiça. Que preferirias, se Eu te propusesse uma destas duas coisas: curar o teu esposo e deixá-lo viver, para que ele continue a zombar de Deus e a acumular pecados sobre sua alma, ou convertê-lo, perdoá- lo e depois deixá-lo morrer? Escolhe. O que escolheres, Eu farei.

A pobre mulher se vê em uma bem áspera luta. O amor natural, a necessidade de um homem, que bem ou mal ganhe para os filhos, a impeliriam a pedir “vida”. Mas seu amor sobrenatural para com o esposo a impele a pedir “perdão e morte.” As pessoas se calam, atentas, comovidas, à espera da decisão.

Finalmente, a pobre mulher, jogando-se de novo no chão e agarrando-se às vestes de Jesus para adquirir forças, geme:

– A vida eterna… Mas, ajuda-me, Senhor…

E parece estar morrendo, pelo fato de ter inclinado muito o rosto para o chão.

– Tu escolheste a parte melhor. Que tu sejas abençoada. Poucos em Israel seriam iguais a ti em temor de Deus e em justiça. Vamos a ele.

– Mas Tu o farás morrer mesmo, Senhor? E como ficarei eu?

A criatura humana ressurge do fogo do espírito, como a fênix mitológica. Ela sofre e humanamente se atemoriza.

– Não tenhas medo, mulher. Eu, tu, todos confiamos ao Pai do Céu todas as coisas, e Ele agirá com o seu amor. És capaz de crer assim?

– Sim, meu Senhor.

– Então, vamos, rezando a oração que tem todos os pedidos e todos os confortos.

E, enquanto vai caminhando, rodeado por uma multidão de pessoas e acompanhado por um povo numeroso, diz lentamente o Pai-nosso. O grupo dos apóstolos o imita e, como um coro bem ordenado, as frases da oração se elevam acima do barulho da multidão que, levada pelo desejo de ouvir o Mestre pregar, vai-se calando pouco a pouco, de tal forma que as últimas petições são muito bem ouvidas, no meio de um silêncio impressionante.

– O pão de cada dia, o Pai te dará. Eu o garanto em seu Nome –diz Jesus à mulher, virado não só para ela, mas para todos:

– E serão perdoadas as vossas culpas, se vós perdoardes a este que vos ofendeu e prejudicou. Ele tem necessidade do vosso perdão para poder ter o de Deus. Todos têm necessidade da proteção de Deus, para não cairem em pecado, como Simeão. Lembrai-vos disso.

458.4 Chegaram à casa e Jesus entra nela com a mulher, com Pedro, Bartolomeu e Zelotes.

O homem, estendido na caminha, com o rosto coberto por bandagens e retalhos ou pano molhado, está inquieto e delirando. Mas a voz e a vontade de Jesus o fazem voltar a si, e ele grita:

– Perdão! Perdão! Eu não tornarei a cair no pecado. Quero o teu perdão, como da outra vez. Arria! Arria! Eu te juro. Serei bom. Não usarei mais de violência, nem de fraude, não…

O homem está pronto a prometer tudo pelo medo de morrer…

– Por que queres tudo isso? –pergunta Jesus–. Para expiar ou porque temes o julgamento de Deus?

– Isto, isto. Morrer agora, não! O inferno! Eu roubei, roubei o dinheiro dos pobres. Usei de mentira. Bati no próximo e fiz sofrer os familiares. Oh!

– O medo não é bom. O que se quer é o arrependimento verdadeiro, firme.

– Ou a morte, ou a cegueira! Oh! Que castigo! Não enxergar mais! Viver na escuridão! Nas trevas! Não!

– Se feias já são as trevas dos olhos, não te horroriza a do coração? E não temes a do Inferno, eterna e horrível? Estar continuamente privado de Deus? E com os remorsos também contínuos? O espasmo por teres matado a ti mesmo para sempre, em teu espírito? Não tens amor a esta mulher? E aos filhos, não os amas? E ao teu pai, à tua mãe, aos irmãos, não os amas? Pois bem. Não pensas que não os terás mais contigo, se morreres condenado?

– Não! Não! Perdão! Perdão. Expiar aqui, sim, aqui… Até com a cegueira, Senhor… Mas o inferno, não… Que Deus não me amaldiçoe. Senhor! Senhor! Tu expulsas os demônios e perdoas as culpas. Não levantes a mão para curar-me, mas para perdoar-me e livrar-me do demônio que me está segurando. Põe-me uma mão sobre o coração, sobre a cabeça… Livra-me, Senhor…

– Eu não posso fazer dois milagres. Pensa bem. Se Eu te livrar do demônio, deixar-te-ei na doença…

– Não importa! Que sejas o Salvador.

– Seja como tu queres. Procura aproveitar desta minha graça, que é a última que Eu te faço. Adeus.

– Tu não tocaste em mim! A tua mão! A tua mão!

Jesus o contenta, põe a mão sobre a cabeça e sobre o peito do homem que, enfaixado como está, e cegado pelas vendas e pela ferida, procura apalpar, convulsamente, agarrar a mão de Jesus. E, tendo-a encontrado, chora sobre ela, sem querer deixar que ela saia, até que, como um menino cansado, ele adormece, segurando ainda a mão de Jesus, que ele ainda aperta contra sua própria face febril.

Jesus vai soltando cuidadosamente a mão, sai daquele quarto sem fazer barulho, acompanhado pela mulher e peloos três apóstolos.

– Deus te recompense, Senhor! Ora pela tua serva.

– Continua a crescer na justiça, mulher, e Deus estará sempre contigo.

Levanta a mão para bendizer a casa e a mulher, e desce para a estrada.

458.5 O barulho se levanta por mil perguntas curiosas. Mas Jesus faz sinal para que se calem e o acompanhem. E volta para a estrada. A noite desce lentamente. Jesus sobe para uma barca, que está balançando perto da margem, e fala de lá.

– Não. Ele não está morto, nem está curado, quanto ao corpo. O seu espírito refletiu sobre suas culpas, deu uma justa direção ao seu pensamento. Foi perdoado, porque pediu expiação para ter o perdão. Vós todos ajudai-o no seu caminho para Deus.

Pensai que todos nós temos uma responsabilidade para com a alma do nosso próximo. Ai de quem der escândalo! Mas ai também de quem, com um tratamento intransigente, amedronta alguém que mal acabou de nascer para o Bem, repelindo-o com intransigência do caminho em que ele se colocou. Todos podem ser um pouco mestres, mestres bons de seu próximo, e sê-lo tanto mais, quanto mais o próximo for fraco e ignorante da sabedoria do Bem.

Eu vos exorto a serdes pacientes, longânimes com Simeão. Não mostreis ódio para com ele, nem rancor, nem desprezo, nem ironia. Não vos lembreis do passado, nem em vós nem nele. O homem, que surge depois de um perdão, depois de um arrependimento, depois de um propósito sincero, tem uma vontade, mas tem também um peso, como herança das paixões e hábitos do passado. É preciso saber ajudá-lo a livrar-se dela. E com muita discrição. Sem ficar fazendo alusões ao seu passado. Isto seria ser imprudentes na caridade para com a criatura humana. Recordar ao culpado a sua culpa é aviltá-lo. Basta a sua consciência, agora despertada, para fazer isso. Ficar fazendo que uma criatura se lembre do seu passado é suscitar lembranças de paixões e, as vezes, trazer de volta as paixões que já estavam superadas e o consentimento nelas. No melhor dos casos, sempre seria despertar tentações.

Não tenteis o vosso próximo. Sede prudentes e caridosos. Deus não terá querido que vós cometêsseis certos pecados? Dai graças a Ele. Mas não fiqueis fazendo ostentação de vossa santidade, para humilhar a quem não foi santo. Sabei compreender o olhar do arrependido que implora, que gostaria que vós esquecêsseis daquilo, e que, vendo que vós não vos esqueceis, pelo menos vos suplica que não o fiqueis humilhando ao lembrar-vos do seu passado. Não digais: “Ele foi leproso em seu espírito”, para vos justificardes, ao abandoná-lo. O leproso pela doença, depois das purificações pela cura obtida, é admitido de novo no meio do povo. Que a mesma coisa aconteça com quem foi curado do pecado. Não sejais como aqueles que se julgam perfeitos, mas que não o são, porque não têm caridade para com os seus irmãos. Rodeai, pelo contrário, com o vosso amor os irmãos que ressurgiram pela graça, a fim de que a boa companhia impeça novas caídas.

Não queirais ser mais do que Deus, que não repele o pecador que se arrepende, e o perdoa, o readmite em sua companhia. Mesmo que o pecador vos tenha feito algum mal, que não pode ser reparado, não vos vingueis dele, agora que ele não é mais um prepotente temido; mas perdoai, tende uma grande piedade, porque ele foi pobre daquele tesouro que todos os homens podem ter, contanto que o queiram: a bondade. Amai-o, porque, com a dor que vos deu, deu-vos também um meio de merecerdes um prêmio maior no Céu. E não desprezeis a ninguém, nem mesmo se ele for de outra raça. Vós vedes que, quando Deus atrai um espírito, ainda que ele seja de um pagão, transforma-o de tal modo, que ele supera a muitos do povo escolhido, na santidade.

Eu já me vou. Lembrai-vos sempre destas e das minhas outras palavras.

458.6Pedro, que já estava preparado, puxa o remo e a barca começa a afastar-se da margem, iniciando a navegação, acompanhada por outras duas. O lago, um pouco agitado, está produzindo um ruído, ao bater da água nas barcas, mas ninguém se atemoriza, porque o trajeto é breve. Os faróis fazem manchas cor de rubi sobre as águas escuras, ou tingem da cor do sangue as espumas brancas.

– Mestre, mas aquele homem ficará são, ou não? Eu não entendi nada –diz Pedro, depois de algum tempo, sem largar o timão.

Jesus não responde. Pedro faz, então, um sinal a João que está sentado no fundo da barca, aos pés do Mestre, com a cabeça apoiada nos joelhos de Jesus. E o João, em voz baixa, repete a pergunta.

– Não ficará são.

– Por quê, Senhor? Eu pensava, pelo que eu ouvi, que teria que ficar são, para poder expiar.

– Não, João. Ele pecaria novamente, pois é um espírito fraco.

João torna a apoiar a cabeça nos joelhos, dizendo:

– Mas Tu o podias tornar forte… –e parece estar fazendo uma leve censura.

Jesus sorri e enfia os dedos por entre os cabelos do seu João e, levantando a voz, para que todos o ouçam, dá a última lição do dia:

– Em verdade, Eu vos digo que até ao conceder uma graça é preciso levar em conta a oportunidade dela. Nem sempre a vida é um dom, nem sempre a prosperidade é um dom, nem sempre um filho é um dom, nem sempre, sim, nem mesmo ele, nem sempre uma escolha é um dom. As coisas se tornam um dom, e o ficam sendo, quando quem as recebe sabe fazer um bom uso delas e para fins sobrenaturais de santificação. Mas quando se trata da saúde, da prosperidade, dos afetos, da missão, se faz com isso a ruína do próprio espírito, seria melhor não tê-los tido nunca. E às vezes Deus dá um dom tão grande, que maior não poderia dar, deixando de dar aquilo que os homens quereriam, ou julgariam justo ter como coisa boa. O pai de família ou o médico sábio sabem quais são as coisas que devem dar aos filhos ou aos doentes, para não fazer que fiquem mais doentes ou para não deixar que adoeçam. Assim, igualmente, Deus sabe o que é bom dar para o bem de um espírito.

– Então, aquele homem vai morrer? Que casa infeliz!

– Seria ela feliz, se fosse habitada por um condenado? E ele seria mais feliz, se vivesse continuando a pecar? Em verdade Eu vos digo que a morte é um dom, quando ela serve para impedir novos pecados, e colhe o homem, enquanto ele está reconciliado com o seu Senhor.

458.7 A quilha já vai deslizando sobre as águas do ancoradouro de Cafarnaum.

– Em tempo. Esta noite temos borrasca. O lago está fervendo, no céu não há estrelas, pois ele está preto como breu. Mas já estais ouvindo lá atrás dos montes? Estais vendo aqueles clarões? Trovoadas e relâmpagos. Daqui a pouco vem a água. Vamos logo! Ponde a salvo as barcas que não são nossas! Saiam logo as mulheres e os meninos, antes que chova. Oh! Mãos à obra –grita Pedro aos outros pescadores, que estão retirando redes e cestos.

A força de braços, eles empurram a barca bem para cima da praia, e, enquanto isso, os primeiros vagalhões já estão chegando, dando chicotadas nos membros seminus e nos cascalhos da margem. Depois, todos vão correndo para casa, enquanto os grandes pingos já estão levantando a poeira da terra ressecada, fazendo exalar um cheiro forte. Os relâmpagos já estão sobre o lago e os trovões enchem com seu fragor a copa formada pelas colinas das margens.

1 lhe curaste o marido. Poderia se tratar do milagre que Jesus se refere em 159.1.
2 diz, em Provérbios 11,1; 20,10.23.25.


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