174. 174. Sexto sermão da Montanha:a escolha entre o bem e o mal, o adultério, o divórcio.Chegada inoportuna de Maria de Magdala.


25 de maio de 1943.

174.1 Em uma radiosa alvorada, com um ar mais límpido que de costume, através do qual parece que as distâncias se aproximam, ou que as coisas estejam sendo vistas através de uma lente, que torna nítidos os menores detalhes, o povo se prepara para ouvir o Mestre.

Dia a dia a natureza vai-se mostrando mais bela e se reveste da rica veste da primavera, que na Palestina me parece ser entre março e abril, porque, depois desse tempo, a natureza começa ter o aspecto do verão, com os grãos já maduros e as folhas já crescidas e formadas. Agora há flores por toda parte. Do alto do monte, que por sua vez, já se revestiu de flores, até nos pontos menos aptos para florescer, vê-se a planície, onde as ondas dos trigais ainda se dobram ao soprar do vento, o qual lhes dá o movimento de um vagalhão verde, tingido superficialmente por um ouro pálido nas pontas das espigas, produzindo seus grãos entre as arestas espinhosas. Acima deste ondular de messes ao vento suave as árvores frutíferas estão de pé, em sua veste de pétalas (mais se parecem com enormes pincéis de pó de arroz, ou então com bolinhas de gaze branca, de um róseo muito tênue, e um róseo mais carregado, vermelho vivo). Recolhidas em suas vestes de penitentes ascéticas, as oliveiras rezam, e sua oração vai transformando em um cair de neve, por enquanto ainda incerto, de umas florzinhas brancas.

O Hermon é um alabastro róseo em seu cume, que o Sol beija, e do alabastro descem dois fios de diamantes (daqui parecem fios) dos quais o Sol tira um cintilar quase irreal, indo depois enfurnar-se por baixo das galerias verdes dos bosques, não se vendo mais nada além dovale, onde formam cursos d’água que, certamente, irão ao lago Meron, daqui invisível, saindo dele com as belas águas do Jordão, para depois lançarem-se novamente no safira claro do Mar da Galileia, que é um contínuo tremular de escamas preciosas para as quais o Sol serve de engaste e de chama. Parece que os veleiros, que deslizam por este espelho tranquilo e magnífico, com sua moldura de jardins e campinas maravilhosas, estejam sendo guiados pelas nuvenzinhas leves, que navegam no outro mar do céu.

Verdadeiramente todo ser criado ri neste dia de primavera e a esta hora da manhã.

174.2O povo aflui sem parar. Sobem de todos os lados: velhos, sadios, doentes, crianças, esposos, que pensam em iniciar as suas vidas com as bênçãos da Palavra de Deus, mendigos, pessoas de bem, que chamam os apóstolos para dar-lhes suas ofertas para aqueles que nada têm e parece que se confessam, pois procuram um lugar escondido para isto. Tomé apanhou um dos sacos de viagem, despejando nele tranquilamente todo esse tesouro de moedas, como se fosse comida para os frangos e vai levar tudo para perto da pedra na qual Jesus está falando. Dá uma de suas alegres risadas, dizendo:

– Alegra-te, Mestre! Hoje há para todos!

Jesus sorri, e diz:

– Vamos começar logo, a fim de que os que estão tristes fiquem logo felizes. Tu e teus companheiros separai os doentes e os pobres e trazei-os aqui para a frente.

Isto acontece em um tempo relativamente curto, pois é preciso verificar os diversos casos, e duraria muito tempo, sem a ajuda de Tomé que, com a sua voz potente, de pé, de cima de uma pedra para poder ser visto, grita:

– Todos aqueles que têm sofrimento no corpo fiquem à minha direita, lá onde há sombra.

O Iscariotes o imita, também ele dotado de uma voz não comum em potência e beleza que, por sua vez, grita:

– E todos os que acham que têm direito à esmola, venham aqui, a minha volta. E cuidai bem de não mentir, porque os olhos do Mestre lêem nos corações.

A multidão põe-se em movimento, para dividir-se assim em três partes: os que estão doentes, os que são pobres e os que somente desejam a doutrina.

174.3 Mas, entre estes últimos, primeiro dois e depois três, parecem ter necessidade de alguma coisa, que não é a saúde nem o dinheiro, mas, é mais necessária do que estas coisas. Uma mulher e dois homens. Olham, olham para os apóstolos e não ousam falar. Passa Simão, o Zelotes, com seu aspecto severo; passa Pedro, muito atarefado e vai conversando com uns dez moleques, aos quais promete dar azeitonas, se eles se comportarem bem até o fim, ou então uma surra se ficarem fazendo barulho enquanto o Mestre estiver falando; passa Bartolomeu, já ancião e muito sério; passa Mateus e Filipe, que levam nos braços um aleijado que teria tido muito trabalho para atravessar a multidão compacta; passam os primos do Senhor amparando um mendigo quase cego e uma velha pobrezinha, que chora enquanto conta a Tiago os seus males; passa Tiago de Zebedeu com uma pobre menina nos braços, certamente doente que ele tomou da mãe, que o segue aflita, para impedir que a multidão faça algum mal a ela. Os últimos a passar são os que eu poderia chamar de “indivisíveis”, André e João, porque se João, em sua serena natureza de menino santo, estaria junto com os companheiros, André, pelo seu grande acanhamento, prefere estarr com seu antigo companheiro de pesca e de fé em João Batista. Estes dois ficam perto do começo das duas filas principais, para encaminharem a multidão a os seus lugares. Mas agora, no monte, não se veem mais peregrinos pelos caminhos cheios de pedras, e os dois se reúnem junto ao Mestre com as últimas ofertas recebidas.

Jesus está inclinado sobre os doentes, e os hosanas da multidão festejam cada milagre. Uma mulher, que parece estar sofrendo muito, ousa puxar João pela veste, enquanto ele está conversando alegremente com André. Ele se inclina e pergunta:

– Que queres, mulher?

– Desejaria falar com o Mestre…

– Tens alguma doença? Pobre não és…

– Não tenho doença e não sou pobre. Mas estou precisando dele… porque existem doenças sem febre e misérias sem pobreza. E a minha… a minha… –e chora.

– Escuta, André. Esta mulher tem um sofrimento em seu coração e desejaria ir dizê-lo ao Mestre. Como faremos?

André olha para a mulher, e diz:

– Certamente é alguma coisa que faz sofrer ao revelar-se…

A mulher faz com a cabeça o sinal que sim. Então, André continua:

– Não chores… João, procura levá-la atrás da nossa tenda. Eu levarei o Mestre até lá.

João, com seu sorriso, pede que abram caminho para ele poder passar, enquanto André vai na direção oposta, para Jesus. Aqueles movimentos deles são observados por dois homens aflitos, e um deles parou João e o outro André e, pouco depois, tanto um como o outro estão juntos com João e com a mulher detrás do tapume de ramos que serve de parede para a tenda.

174.4 André alcança Jesus, no momento em que este está curando um aleijado, que levanta as muletas como dois troféus, ágil como um bailarino, apregoando a sua bênção. André sussurra:

– Mestre, lá atrás do nossa tenda, há três que estão chorando. Mas o mal deles é do coração, e não pode ser conhecido por outros…

– Está bem. Tenho ainda esta menina e esta mulher. Depois irei. Vai dizer-lhes que tenham fé.

André vai, enquanto Jesus se inclina sobre a menina, que a mãe tomou de novo no colo.

– Como te chamas? –pergunta-lhe Jesus.

– Maria.

– E Eu, como me chamo?

– Jesus –responde a menina.

– Quem sou Eu?

– O Messias do Senhor, que veio para fazer o bem aos corpos e às almas.

– Quem te disse isto?

– A mamãe e o papai, que esperam em Ti pela minha vida.

– Vive e sê boa.

A menina, que acho ter sido doente da espinha, pois mesmo com sete anos ou mais, não se movia senão com as mãos, e toda apertada em grossas e duras faixas, das axilas até os quadris (podem-se ver as faixas, porque a mãe abriu o vestidinho da menina para mostrá-las), fica ainda assim como estava há alguns minutos. Depois tem um sobressalto, desliza do colo materno para o chão, e corre até Jesus, que está curando a mulher, cujo caso não compreendo.

Os doentes já foram todos atendidos, e são eles que gritam com mais força no meio daquela multidão que aplaude ao “Filho de Davi, glória de Deus e nossa.”

174.5 Jesus vai agora para a tenda.

Judas de Keriot grita:

– Mestre, e estes?

Jesus se vira, e diz:

– Esperem onde estão. Eles também serão consolados.

Com passos rápidos, se dirige para trás do tapume, ao lugar onde estão, André e João e os sofredores.

– Primeiro, a mulher. Vem comigo entre estas sebes. Fala sem medo.

– Senhor, meu marido me abandonou por uma prostituta. Eu tenho cinco filhos, e o último está com dois anos… Minha dor é grande… penso nos filhos… Não sei se ele os quererá, ou se os deixará comigo. Os filhos homens, pelo menos o primeiro, quererá que fique com ele… e eu, que o dei a luz, não poderei mais ter a alegria de vê-lo? E, que ficarão eles pensando do pai e de mim? De um dos dois eles hão de pensar mal. E eu não gostaria que eles ficassem julgando o seu pai…

– Não chores. Eu sou o Senhor da Vida e da Morte. Teu marido não se casará com aquela mulher. Vai em paz, e continua a ser boa.

– Mas… não o vais matar? Oh! Senhor, eu o amo!

Jesus sorri:

– Eu não matarei ninguém. Mas haverá quem faça o seu trabalho. Fica sabendo que o demônio não é mais que Deus. Retornando à tua cidade, saberás que alguém matou a criatura maldosa, de tal modo, que o teu marido compreenderá o que estava fazendo e te amará com um renovado amor.

A mulher beija-lhe a mão, que Jesus pôs sobre sua cabeça, e vai embora.

174.6 Vem um dos dois homens.

– Eu tenho uma filha, Senhor. Infelizmete, ela foi a Tiberíades com algumas amigas e foi como se ela houvesse aspirado um veneno. Voltou para casa como ébria. Agora quer ir embora com um grego… e depois… Mas, por que me nasceu esta filha? Sua mãe está com tamanha dor que talvez morrerá… Eu… somente as tuas palavras, que eu ouvi no inverno passado é que ainda me impedem de matá-la. Mas, eu te confesso, o meu coração já a amaldiçoou.

– Não. Deus, que é Pai, não amaldiçoa senão um pecado completo e obstinado. Que queres de Mim?

– Que tu a faças cair em si.

– Eu não a conheço, e ela certamente não vem até Mim.

– Mas Tu podes mudar o coração dela também de longe! Sabes quem me manda a Ti? Joana de Cusa. Estava partindo para Jerusalém, quando eu fui ao seu palácio para perguntar se conhecia esse grego infame. Eu pensava que ela não o conhecesse, porque é boa, ainda que more em Tiberiades, mas, como Cusa lida com os pagãos… Não o conhece. Mas me disse: “Vai até Jesus. Ele, estando bem longe de mim, fez voltar o meu espírito e me curou da minha tuberculose com aquele gesto. Ele curará também o coração da tua filha. Eu rezarei e tu, tem fé. Eu tenho fé.” Tu estás vendo. Tem piedade, Mestre.

– Tua filha, nesta tarde, irá chorar sobre os joelhos de sua mãe, pedindo perdão. E tu também, sê bom, como a mãe: perdoa. O passado morreu.

– Sim, Mestre. Seja como Tu queres, e que sejas bendito.

Ele se vira para ir embora… mas depois volta a trás:

– Perdoa, Mestre, mas estou com muito medo… A luxúria é um verdadeiro demônio! Dá-me um fio da tua veste. Eu o colocarei no travesseiro de minha filha. Enquanto ela estiver dormindo, o demônio não a tentará.

Jesus sorri, e sacode a cabeça… mas atende ao homem, dizendo-lhe:

– É para que fiques tranquilo. Mas podes crer que, quando Deus diz “Eu quero”, o diabo vai-se embora, sem que seja preciso mais nada. Quer dizer que terás isto como uma lembrança de Mim –e lhe dá um pequeno floco de suas franjas.

174.7 Vem o terceiro homem:

– Mestre, meu pai morreu. Mas nós pensávamos que ele possuísse riqueza em dinheiro. Mas nada disso encontramos. Isso ainda seria um mal menor, porque entre nós irmãos não nos falta o pão. Mas eu, sendo o primogênito, morava com meu pai. Agora os outros dois irmãos estão me acusando de ter feito desaparecer as moedas e querem mover uma ação contra mim, como se eu fosse ladrão. Tu estás vendo o meu coração. Eu não roubei nem um vintém. Meu pai guardava seu dinheiro em um cofre, dentro de uma caixinha de ferro. Quando ele morreu, abrimos a caixinha e nela nada havia. Então eles disseram: “Esta noite, enquanto estávamos dormindo, tu a apanhaste.” Não é verdade. Ajuda-me a manter a paz e a estima entre nós.

Jesus olha para ele, fitando-o bem, e sorri.

– Por que estás sorrindo, Mestre?

– Porque o culpado foi o teu pai, uma culpa de criança quando esconde o seu brinquedo, por medo de que o apanhem.

– Mas ele não era avarento. Podes crer. Ele fazia o bem.

– Eu sei… Mas já estava muito velho… São doenças de velhos. Ele queria conservar o dinheiro para vós e vos pôs em choque, por causa de um amor exagerado. Mas a caixinha está enterrada aos pés da escada da adega. Eu te digo isto, para que fiques sabendo que Eu sei. Enquanto Eu estou te falando, por um mero acaso, o teu irmão menor estava batendo no chão, com raiva, e fez que a caixa vibrasse e a descobriram, ficando eles confusos e arrependidos por te terem acusado. Volta para casa tranquilo e sê bom para com eles. Não lhes digas nada pela falta de estima deles para contigo.

– Não, Senhor. Eu nem irei agora. Eu ficarei aqui para te ouvir. Irei amanhã.

– E se ficarem com o teu dinheiro?

– Tu dizes que não devemos ser avarentos. Eu não quero ser. Basta-me que haja paz entre nós. Afinal, eu nem sabia quanto dinheiro havia na caixinha e não ficarei aflito com nenhuma notícia que me derem, mesmo que seja diferente da verdade. Penso até que aquele dinheiro podia estar perdido… Como eu teria vivido antes, viverei agora, se eles me negarem o que é meu. Basta que não me chamem de ladrão.

– Estás já bem adiantado no caminho de Deus. Segue assim, e a paz esteja contigo.

Ele também parte contente.

174.8 Jesus se volta para a multidão, para os pobrezinhos, e distribui as esmolas segundo as suas próprias medidas. Agora todos estão contentes, e Jesus pode falar.

– A paz esteja convosco.

Quando Eu vos explico os caminhos do Senhor é para que os sigais. Poderíeis vós, ao mesmo tempo, ir à direita e à esquerda? Não poderíeis. Porque, se tomais um, deveis abandonar o outro. Mesmo que se tratasse de dois caminhos próximos um do outro, poderíeis insistir em caminhar com um pé em um e o outro pé no outro, mas acabaríeis cansando-vos ou errando, ainda que se tratasse de uma aposta. Contudo, entre o caminho de Deus e o de satanás existe uma grande distância, que torna sempre maior, justamente como aqueles dois caminhos que desembocam aqui, mas que, a cada passo, ao descer para o vale, ficam sempre mais longe um do outro, porque um vai para Cafarnaum e o outro para Ptolomaida.

A vida é assim, desliza lá do alto, entre o passado e o futuro, entre o mal e o bem. No centro está o homem, com a sua vontade e o seu livre arbítrio. Nas extremidades, de um lado está Deus e o Céu; do outro, está satanás e o Inferno. O homem pode escolher. Ninguém o obriga. Não se diga “satanás tenta”, como desculpa para as descidas pelo caminho de baixo. Também Deus tenta, com o seu amor que é bem forte; com as suas palavras, que são bem santas; com as suas promessas, que são bem sedutoras! Por que, então, deixar-se tentar só por um dos dois e logo por aquele que nenhum merecimento tem para ser escutado? As palavras, as promessas, o amor de Deus não serão suficientes para neutralizar o veneno de satanás?

Olhai bem como isto depõe contra vós. Quando alguém é física e fortemente são, não é imune aos contágios, mas os supera com facilidade. Contudo, se alguém está doente e, portanto, enfraquecido, perecerá quase com certeza, se alguma nova infecção lhe sobrevier e, ainda que ele sobreviva a ela, estará mais doente do que antes, porque não tem, em seu sangue, a força para destruir os germes infecciosos, completamente. O mesmo se diga para a parte superior. Se alguém é moral e espiritualmente são e forte, sabe que não está isento da tentação, mas o mal não criará raízes nele. Quando ouço alguém dizer: “Eu me aproximei disto e daquilo, lendo algo ou procurando convencer alguém do bem que tinha o mal na mente e no coração, ou no livro lido, isso penetrou em mim.” Concluo: “Demonstra assim que já tinhas preparado o terreno favorável para aquela penetração. Isso demonstra que és um fraco, sem energia moral e espiritual. Porque até de nossos inimigos devemos tirar algum bem. Observando os erros deles, devemos aprender a não cair nos mesmos. O homem inteligente não se torna joguete da primeira doutrina que ouve. O homem saturado de uma doutrina encontrar em si mesmo lugar para outras. Isto explica a dificuldade para persuadir pessoas que estão convictas de outras doutrinas a seguirem a verdadeira Doutrina. Mas se tu me dizes que mudas de pensamento, ao menor sopro de vento, Eu vejo que estás cheio do vazio, tens a tua fortaleza espiritual cheia de fendas, os diques do teu pensamento estão furados em mil pontos e por eles estão saindo as águas boas e entrando as contaminadas, e tu ficas tão pasmado e apático, que nem te dás conta do que está acontecendo, nem tomas providências. És um infeliz.”

Por isso, sabei escolher o bom entre os dois caminhos e prosseguir, resistindo, resistindo, resistindo aos aliciamentos da sensualidade, do mundo, da ciência e do demônio. A meia fé, os comprometimentos, os pactos entre os opostos, deixai-os para os homens do mundo. Não deviam existir nem mesmo entre os homens honestos. Mas vós, pelo menos vós, ó homens de Deus, não os tenhais. Nem com Deus, nem com Mamon podeis fazer esses pecar, porém façam nem convosco mesmos, porque não teriam valor. As vossas ações mescladas do que é bom com o que não é bom, não teriam nenhum valor. As ações completamente boas viriam a ser depois anuladas pelas não boas. As más vos levariam diretamente aos braços do inimigo. Não as façais, pois. Mas, sede leais no vosso serviço.

Ninguém pode servir a dois senhores que pensem diferentemente. Ou amará a um para odiar o outro, ou vice-versa. Não podeis ser igualmente de Deus e de Mamon. O espírito de Deus não pode conciliar com o espírito do mundo. Um sobe, o outro desce. Um santifica, o outro corrompe. Se estais corrompidos, como podereis agir com pureza? A sensualidade se acende nos corrompidos e, atrás da sensualidade, as outras fomes.

174.9 Vós já sabeis como Eva se corrompeu, depois Adão, por meio dela. Satanás beijou1 os olhos da mulher e os seduziu assim, de modo que toda a aparência, até então pura, tornou-a impura, passando a despertar estranhas curiosidades. Em seguida, satanás beijou-lhe os ouvidos e os fez ficar abertos a palavras de uma ciência até então desconhecida: a dele. Também a mente de Eva quis conhecer o que não era necessário. Depois, satanás, aos olhos e à mente despertados para o Mal, mostrou o que antes não tinham visto nem compreendido, e tudo em Eva foi despertado e corrompido e a Mulher, indo ao Homem, revelou-lhe o seu segredo e persuadiu Adão a que provasse do novo belo fruto e que até agora era proibido. Beijou-o com a boca e as pupilas as quais havia então a desordem de satanás. A corrupção penetrou em Adão que viu, através dos olhos, desejando o que era proibido e o mordeu, com a companheira, caindo da grande altura em que estava, na lama.

Quando alguém está corrompido, arrasta o outro para a corrupção, a não ser que o outro seja um santo, no verdadeiro sentido da palavra.

Atentos com os vossos olhares, homens. Tanto com os olhares dos olhos como os da mente. Os olhos, uma vez corrompidos, não podem deixar de corromper o resto. Os olhos são a luz do corpo. Luz do coração é o teu pensamento. Mas, se os teus olhos não forem puros (pela sujeição dos órgãos ao pensamento, os sentidos se corrompem por um pensamento corrompido), tudo em ti ficará ofuscado, e névoas sedutoras criarão em ti fantasmas impuros. Tudo é puro naqueleque tem pensamentos e olhares puros. A luz de Deus desce como senhora onde não há obstáculos postos pelos sentidos. Mas se, por uma decisão, tu educaste os teus olhos a uma visão desordenada, tudo em ti se tornará trevas. Inutilmente olharás até para as coisas mais santas. No escuro, elas não serão mais do que trevas, e tu farás obras das trevas.

174.10 Por isso, filhos de Deus, guardai-vos contra vós mesmos. Vigiai-vos atentamente contra todas as tentações. Que sejamos tentados não é mal. O atleta se prepara para a vitória pela luta. Mal é ser vencidos por sermos despreparados e desatentos. Eu sei que tudo serve para tentar. Eu sei que a defesa enerva. Eu sei que a luta cansa. Mas coragem! Pensai no que podeis adquirir com estas coisas! Por uma hora de prazer, seja lá de que qualidade for, quereis perder uma eternidade de paz? Que é que vos deixa o prazer da carne, do ouro e do pensamento? Nada. Que é que adquiris, repudiando-os? Tudo. Eu falo a pecadores, porque o homem é pecador. Pois bem, dizei-me a verdade: depois de terdes satisfeito a sensualidade ou o orgulho, ou a avareza, vos sentistes mais viçosos, mais contentes, mais seguros? Na hora que vem depois daquela satisfação — e que é sempre uma hora de reflexão —, sereis mesmo, sinceramente, felizes? Eu não provei esse pão da sensualidade. Mas Eu respondo por vós: “Não! Paixão, descontentamento, incerteza, náusea, medo, inquietação. Eis o suco espremido da hora passada.” Mas Eu vos peço. Mesmo se digo “Nunca façais isto”, também vos digo: “Não sejais inexoráveis com os que erram.” Recordai-vos que sois todos irmãos, feitos de carne e de alma. Pensai que muitas são as causas pelas quais alguém é induzido a pecar. Sede misericordiosos para com os pecadores e com bondade levantai-os e conduzi-os a Deus, mostrando que o caminho por eles percorrido é cheio de perigos da carne, da mente e do espírito. Fazei isto, e recebereis um grande prêmio. Porque o Pai que está nos Céus é misericordioso com os bons, sabendo dar o cêntuplo por um. Por isso Eu vos digo…

(E aqui Jesus me diz que devo copiar a visão ditado, de 12 de agosto de 1944, B 961, da 35ª linha até o fim , isto é, até a partida de Madalena: “e ri de raiva e de escárnio.” Depois continuará o que vem em seguida, naturalmente omitindo2 este parêntesis).

(12 de agosto do 1944).

174.11 Diz Jesus:

– Olha e escreve. É o Evangelho da Misericórdia3 o que Eu dou a todos, especialmente àquelas que se reconhecerem na pecadora e que convido a segui-la, na redenção.

Jesus, de pé sobre uma pedra, fala a uma grande multidão. É um lugar alpestre: uma colina solitária, entre dois vales. A colina tem o cume em forma de jugo, ou melhor, para que fique mais claro: tem forma de uma corcova de camelo, de modo que, a poucos metros do cume, há um anfiteatro natural, no qual a voz ressoa clara como numa sala de concertos bem construída. A colina está toda coberta de flores. Deve ser agora uma estação boa. As plantações nas planícies começam a ficar louras e a chegar ao ponto da foice. Ao norte, um monte alto brilha, com a sua geleira exposta ao sol. Logo abaixo, a leste, está o Mar da Galileia, que daqui parece um espelho despedaçado em numerosas escamas, das quais cada uma é uma safira acesa pelo sol. Ofusca, com o seu tremular azul e ouro, sobre o qual não se reflete senão alguma nuvem cheia de flocos, velejando por um céu muito limpo e a sombra fugidia de algum barco a vela. Atrás do lago de Genezaré, uma série de planícies, a perder de vista que, por uma leve névoa baixa (talvez a evaporação do orvalho pois ainda deve ser manhã em suas primeiras horas), pois as ervas da montanha têm ainda um ou outro diamante de orvalho aqui e ali, nos seus caules. Parece uma continuação do lago, mas com tintas semelhantes a uma opala com veios verdes e, mais, mais atrás há uma cadeia de montanhas, com uma costa caprichosa, que lembra um desenho de nuvens no céu sereno.

A multidão está sentada, uns na relva, outros sobre grandes pedras ou estão em pé. O colégio Apostólico não está completo. Vejo Pedro e André, João e Tiago e escuto chamar os outros dois, Natanael e Filipe. Há também um outro, que não é do grupo. Talvez tenha chegado por último. Chamam-no Simão. os outros não estão aqui. A não ser que eu não os esteja enxergando por causa da grande multidão.

Faz pouco tempo que o Sermão começou. Compreendo que é o Sermão da Montanha. Mas as bem-aventuranças já foram enunciadas. Eu até diria que o sermão já está chegando ao fim, porque Jesus diz:

– Fazei isto e tereis um grande prêmio. Porque o Pai que está nos Céus é misericordioso para com os bons e sabe dar o cêntuplo por um. Por isso, Eu vos digo…

174.12 Acontece, então, um grande movimento no meio da multidão, que está apinhada no caminho para o planalto. As cabeças dos que estão mais perto de Jesus se viram, e a atenção se desvia dele. Jesus para de falar e dirige seu olhar ao mesmo lugar que os outros. Ele está belo e sério em sua veste de azul escuro, com os braços cruzados sobre o peito, e o Sol está roçando por sua cabeça, com o primeiro raio que ultrapassa o pico oriental da colina.

– Abri caminho, ó plebeus, grita uma voz irada de homem. Abri caminho para a beleza que vai passar… e então, vêm para a frente quatro janotas muito embelezados, dos quais um é certamente romano, porque está com uma toga romana, e trazem, como em triunfo, nas mãos cruzadas para formar um assento, Maria de Mágdala, que é ainda a grande pecadora.

Ela ri, com sua belíssima boca, jogando para trás a cabeça com uma cabeleira que parece de ouro, cheia de tranças e caracóis, seguros por grampos de alto preço e por uma lâmina de ouro coberta de pérolas, que lhe rodeia o alto da fronte como diadema, do qual descem cachinhos leves, para sombrear os olhos, esplendidos que se tornam ainda maiores e mais sedutores pelo engenhoso arranjo. O diadema desaparece atrás das orelhas, embaixo das tranças que descansam seu peso sobre um pescoço muito alvo e completamente descoberto. Aliás… o descoberto vai muito além do pescoço. Os ombros estão descobertos até as espáduas e o peito ainda muito mais. A veste está suspensa nos ombros por duas correntinhas de ouro. Não há mangas O conjunto está coberto, por assim dizer, por um véu cuja única função é proteger a pele do bronzeado do sol. A veste é muito leve e a mulher, atirando-se contra um ou outro dos seus adoradores, é como se se atirasse nua sobre eles. Tenho a impressão de que o romano seja o preferido, porque a ele, de preferência, é que se dirigem as risadinhas e os seus olhares, sendo quem recebe a cabeça dela no ombro.

– Já contentamos a deusa –diz o romano–. Roma serviu de cavalgadura para a nova Vênus. Lá está o Apolo que querias ver. Seduze-o, então… Mas deixa para nós também umas migalhas das tuas carícias.

Maria ri e, com um movimento rápido e provocador, pula no chão, descobrindo os pezinhos calçados de sandálias brancas com fivelas de ouro e um belo pedaço de perna. Sua veste é muito larga, feita de lã, mas leve como um véu, muito alva, presa a cintura mas muito embaixo, à altura dos quadris, com um cinturão todo feito com broches de ouro articulados. A veste cobre tudo. A mulher fica como se fosse uma flor de carne, uma flor impura que brotou, por uma obra de magia, no verde planalto, no qual há lírios e narcisos selvagens em grande quantidade.

Ela está mais bonita do que nunca. Sua boca, pequena e purpurina, parece um cravo brotando na brancura de dentes perfeitos. Seu rosto e seu corpo poderiam agradar ao mais incontentável pintor ou escultor, tanto por suas cores, como em suas formas. De peito amplo e de flancos na medida justa, com uma cintura flexível e equilibrada em relação aos flancos e ao peito, parece uma deusa, como disse o romano, uma deusa esculpida em um mármore levemente rosado, sobre o qual se estende o tecido leve sobre os flancos, para dali cair para frente em numerosas dobras. Tudo nela é estudado para agradar.

Jesus a olha elafixamente. Ela sustenta com arrogância aquele olhar enquanto ri e se contorce levemente pelas cócegas que lhe está fazendo o romano sobre os ombros e o seio, que estão descobertos, com um lírio apanhado entre as ervas. Maria, com uma irritação estudada, não verdadeira, torna a levantar o véu, dizendo: “Respeito ao meu candor”, o que faz que os quatro disparem em uma fragorosa risada.

Jesus continua a fixá-la. Mal o barulho das risadas termina, Jesus, como se a aparição daquela mulher tivesse reacendido as chamas do sermão, que antes já se ia acalmando para terminar, começa de novo, e não olha mais para ela. Ele olha agora para os seus ouvintes, que parecem embasbacados e escandalizados com o que aconteceu.

174.13 Jesus retoma:

– Eu disse que deveis ser fiéis à Lei, humildes, misericordiosos, que deveis amar não só os irmãos de sangue, mas também o irmão nascido do homem como vós. Eu vos disse que o perdão é mais útil do que o rancor, que a compaixão é melhor do que a inexorabilidade. Mas agora Eu vos digo que não se deve condenar se não somos isentos daquele pecado que estamos sendo levados a condenar. Não façais como os escribas e os fariseus, que são severos para com todos, mas não consigo mesmos, quando chamam de impuro o que é externo e só pode contaminar exteriormente, mas depois acolhem a impureza no mais profundo do coração.

Deus não está com os impuros. Porque a impureza corrompe o que é propriedade de Deus: a alma, e especialmente a alma dos pequenos, que são os anjos espalhados na terra. Ai daqueles que arrancam suas asas com a crueldade de feras demoníacas e derrubam estas flores do Céu na lama, fazendo-as conhecer o sabor da matéria! Ai deles!… Melhor seria que morressem queimados por um raio, do que cometerem um pecado destes!

Ai de vós, ricos e gozadores! Porque é justamente em vós que fermenta a maior impureza, para a qual o ócio e o dinheiro servem de cama e travesseiro! Agora vós estais fartos. O alimento das concupiscências vos chega até a garganta e vos sufoca. Mas havereis de ter fome. Uma fome tremenda, insaciável, sem atenuação e para sempre. Agora estais ricos. Quanto bem poderieis fazer com vossa riqueza! Mas, com ela, fazeis grande mal a vós mesmos e aos outros. Havereis de conhecer uma pobreza atroz, durante um dia que não terá fim. Agora estais rindo. Pensais que sois triunfadores. Mas as vossas lágrimas encherão os tanques da Geena para sempre.

Onde se aninha o adultério? Onde está a corrupção das jovens? Há quem tenha até duas ou três camas para o desregramento, além da sua própria de esposo. Sobre essas camas ele derrama o seu dinheiro e o vigor de um corpo dado por Deus, cheio de saúde, para trabalhar pela família e não se esgotar em sujas uniões, que o colocam abaixo de um animal imundo?

Já ouvistes o que foi dito: “Não cometas adultério.” Mas Eu vos digo que quem tiver olhado para uma mulher desejando-a, ou olhar para um homem desejando-o, ainda que fique só no desejo, já cometeu adultério em seu coração. Nenhuma razão justifica a fornicação. Nenhuma. Nem o abandono e o repúdio por parte do marido. Nem a compaixão para com a repudiada. Vós tendes uma só alma. Quando ela estava unida a uma outra por um pacto de fidelidade, seja-lhe fiel. Porque senão, o belo corpo pelo qual pecais irá convosco para as chamas intermináveis, ó almas impuras. Antes mutilar o corpo do que matá-lo para sempre, condenando-o. Voltai atrás, ó homens, ó ricos, ó latrinas dos vermes do vício! Voltai, homens, para que não causeis repugnância ao Céu…

174.14 Maria, que a princípio escutava, mostrando um rosto cheio de sedução e de ironia, de vez em quando até dando umas risadinhas de zombaria, ao fim do discurso, está com o rosto sombrio, de tanta raiva. Compreende que, sem olhar para ela, é a ela que Ele está falando. Sua ira se torna cada vez mais torva e rebelde e, por fim, ela não resiste. Envolve-se, despeitada, no seu véu e, acompanhada pelos olhares da multidão que zomba dela e pela voz de Jesus que a persegue, põe-se a correr pela encosta abaixo, deixando pedaços de suas vestes por entre os cardos e as moitas de roseiras caninas que estão à beira do caminho, e ri agora de raiva e de escárnio.

Não vejo nada mais. Mas Jesus diz:

Verás ainda.

[29 de maio de 1945]

174.15 Jesus recomeça:

– Vós estais irritados com o que aconteceu. Já há dois dias que o nosso refúgio, que está bem alto e acima da lama, está sendo perturbado pelo silvo de satanás. Aqui não é mais um refúgio e nós o vamos deixar. Mas Eu quero terminar este código do que é “mais perfeito”, aqui nesta amplidão cheia de luzes e horizontes. Aqui realmente Deus aparece em sua majestade de Criador e, vendo as suas maravilhas, podemos crer firmemente que Ele é o Senhor e não satanás. O Maligno não poderia criar nem mesmo um caule de erva. Mas Deus tudo pode. Que isso seja conforto para vós. Agora estais todos ao Sol. Isso vos faz mal. Espalhai-vos pelas encostas, onde há sombra e frescor. Tomai a vossa refeição, se o quiserdes. Eu vou falar-vos sobre o mesmo assunto. Muitos motivos fizeram que o tempo se prolongasse. Mas não vos aborreçais. Aqui estais com Deus.

A multidão grita: “Sim, sim. Contigo”, indo na direção da sombra das moitas espalhadas por todo o lado oriental, de tal modo que a parede e as ramagens formam também um abrigo contra o Sol, que já está muito quente.

Enquanto isso, Jesus fala a Pedro para desmontar sua tenda.

– Vamos embora mesmo?

– Sim.

– Vamos por que ela veio?

– Sim. Mas não o digas a ninguém, especialmente ao Zelote. Ele ficaria aflito por causa de Lázaro. Eu não posso permitir que a palavra de Deus seja feita objeto de escárnio dos pagãos…

– Entendo, entendo…

– Então entenderás também uma outra coisa.

– Qual é, Mestre?

– A necessidade de calar em certos casos. Eu confio em ti. Tu me és tão querido, mas és também tão impulsivo, que costumas sair com umas observações irritantes.

– Compreendo… Não queres isso por causa do Lázaro e de Simão.

– E por outros também.

– Pensas que estarão aqui hoje?

– Hoje, amanhã, depois de amanhã e sempre. Sempre será necessário vigiar a impulsividade do meu Simão de Jonas. Vai, vai fazer o que te mandei.

Pedro vai, chamando os companheiros para ajudá-lo.

174.16 Iscariotes ficou num canto pensativo. Jesus o chama. Chama três vezes, porque ele não ouvia. Finalmente, se vira:

– Precisas de mim, Mestre? –pergunta.

– Sim. Vai tu também tomar a tua refeição e ajudar os companheiros.

– Eu não estou com fome. Nem Tu estás.

– Nem Eu. Mas por motivos opostos. Estás perturbado, Judas?

– Não, Mestre. Estou cansado…

– Agora vamos para o lago e depois para a Judeia, Judas. E também à casa de tua mãe. Eu te prometi…

Judas se reanima.

– Irás mesmo comigo sozinho?

– É lógico. Procura querer-me bem, Judas. Eu desejaria que o meu amor estivesse em ti, a ponto de te preservar de todo mal.

– Mestre… eu sou um homem. Não sou um anjo. Tenho momentos de cansaço. Será pecado ter necessidade de dormir?

– Não, contanto que durmas sobre o meu peito. Olha o povo como está feliz, e como a paisagem aqui é alegre. A Judeia deve estar muito bonita tambémeia agora na primavera.

– Belíssima, Mestre, somente que lá, nas montanhas, que são mais altas que aqui, a primavera chega mais tarde. Há flores belíssimas. Os pomares são um esplendor. O meu, que é o cuidado especial da minha mãe, é um dos mais belos. Quando ela caminha nele, com os pombos correndo atrás para ganharem grãos, podes crer que, só o ver isto já nos faz ficar com o coração sereno.

– Eu creio. Se minha mãe não estiver cansada demais, Eu gostaria de levá-la à casa da tua. Elas iriam gostar uma da outra, porque as duas são boas.

Judas, seduzido por esta ideia , fica sereno e, esquecendo-se de “não estar com fome e de estar cansado”, corre até os companheiros, rindo de alegria e, como é alto, desata os nós mais altos sem se cansar, e comendo o seu pão com azeitonas, alegre como uma criança. Jesus o olha com compaixão e depois se encaminha onde estão os apóstolos.

174.17 – Aqui está o pão, Mestre. E um ovo. Eu o pedi àquele rico, vestido de vermelho. Eu lhe disse: “Tu estás ouvindo, e estás feliz. Ele está falando e está esgotado. Dá-me um dos teus ovinhos. Ele fará mais bem a Ele do que a ti.”

– Mas, Pedro!

– Não, Senhor! Estás pálido como um menino agarrado a um peito vazio e estás ficando magro como um peixe depois de seus amores. Deixa que eu o faça. Não quero me arrepender depois. Agora, eu coloco-o nesta cinza quente, feita com os gravetos que eu queimei e Tu, bebe-o. Sabes que são… quantos dias são? certamente são semanas que não se come senão pão e azeitonas e um pouco de leite de figo! Que regime alimentar é esse? E Tu comes menos que os outros e falas mais que todos. Aqui está o ovo. Bebe-o morno, que faz bem.

Jesus obedece, e vendo que Pedro está comendo só pão, pergunta-lhe:

– E tu? As azeitonas?

– Sss! Elas me vão servir depois. Eu as prometi.

– A quem?

– A uns meninos. Mas, se eles não ficarem em silêncio até o fim, eu como as azeitonas, e dou a eles os caroços, isto é, uns tapas.

– Mas, muito bonito!

– Eh! Eu não os daria nunca. Mas, se não fizer assim! Eu mesmo levei tantos deles, que, se tivessem que dar-me tantos, quantos eu merecia pelas minhas molecagens, eu mereceria dez vezes mais. Mas fazem bem. Eu sou assim, porque os levei.

Riem todos da sinceridade do apóstolo.

– Mestre, eu quero dizer-te que hoje é sexta-feira, e que esse povo… não sei se vai poder achar comida em tempo para amanhã, ou chegar em suas casas –diz Bartolomeu.

– É verdade. É sexta-feira –dizem muitos deles.

– Não importa. Deus proverá. Mas nós o diremos a eles.

Jesus se levanta, vai para o seu novo lugar, no meio da multidão espalhada entre as moitas.

– A primeira coisa que Eu vos lembro é que hoje é sexta-feira. Agora Eu vos digo que quem achar que não vai poder chegar a tempo em suas casas, e não for capaz de crer que Deus dará amanhã alimento aos seus filhos, esse poderá retirar-se já, de modo que o pôr do Sol não o apanhe no caminho.

Do meio da multidão levantam-se umas cinquenta pessoas. Todos os demais permanecem onde estão.

174.18 Jesus sorri, e começa a falar.

– Vós ouvistes que foi dito antigamente: “Não cometas adultério.” Quem já me ouviu em outros lugares, sabe que muitas vezes Eu tenho falado sobre este pecado. Porque, vejam bem, para Mim é um pecado feito não por um, mas por duas ou três pessoas. Eu me explico. O adúltero peca por si, peca pela cúmplice, peca levando a mulher a pecar ou o marido ser traído, o qual pode chegar ao desespero ou ao delito. Diga-se isso para o pecado consumado. Mas Eu digo mais: “Não só o pecado consumado, mas o desejo de consumá-lo, já é pecado.” Que é o adultério? Ele consiste em desejar febrilmente aquele ou aquela que não é nosso ou nossaa. Começa-se a pecar pelo desejo, continua-se pela sedução, completa-se pela persuasão, e coroa-se com o ato.

Como se começa? Geralmente por um olhar impuro. E isto se une a tudo o que Eu disse antes. Os olhos impuros veem o que está escondido aos puros. É pelos olhos que a sede entra nas gargantas, a fome no corpo e a febre no sangue. Sede, fome e febre carnais. Tem início o delírio. Se o outro, o que está sendo olhado é honesto, eis que o delirante fica sozinho, revolvendo-se nos seus carvões ardentes, ou então chega a denegrir por vingança. Se o olhado também é desonesto, então ele corresponde aos olhares e aí começa a descida para o pecado. Por isso, Eu vos digo: “Quem olhou para uma mulher com desejo, já cometeu o adultério com ela, porque em seu pensamento já cometeu o ato do seu desejo.” Em vez de fazer isso, se o teu olho direito for para ti ocasião de escândalo, arranca-o, e joga-o para longe de ti. É melhor para ti que fiques sem um olho, do que te precipitares nas trevas infernais para sempre. Se a tua mão direita pecou, corta-a e joga-a fora. Melhor para ti e estares sem um membro do que estar com todos os membros no inferno. É verdade que está dito4 que os aleijados não podem servir a Deus no Templo. Mas, na outra vida, os aleijados de nascença santos, ou os aleijados por virtude, se tornarão mais belos do que os anjos, e servirão a Deus, amando-O na alegria do Céu.

174.19 Também foi dito: “Quem mandou embora sua mulher dê-lhe o libelo do divórcio.” Mas isto está reprovado. Isto não vem de Deus. Deus disse a Adão: “Esta é a companheira que fiz para ti. Crescei e multiplicai-vos sobre a terra, enchei-a e tornai-a sujeita a vós.” Adão, cheio de uma inteligência superior, porque o pecado ainda não tinha ofuscado a sua razão, pois esta havia sido criada perfeita por Deus, exclamou: “Eis que finalmente aqui está o osso dos meus ossos e a carne de minha carne. Esta vai chamar-se Virago, isto é, outro eu, porque foi tirada do homem. Por isso o homem deixará pai e mãe, e os dois se tornarão uma só carne.” E, em um grande esplendor de luzes, a Eterna Luz aprovou com um sorriso a palavra de Adão, que se tornou a primeira e irrevogável lei. Agora, se pela dureza sempre crescente do homem, o homem legislador teve que estabelecer um novo código; se, pela volubilidade sempre crescente do homem, ele teve que pôr-lhe um freio, dizendo: “Se a repudiaste, não a podes mais tomar contigo”, isto não revoga a primeira e genuína lei, que nasceu no Paraíso Terrestre, e foi aprovada por Deus.

Eu vos digo: “Quem mandou embora a própria mulher, a não ser em caso de provada fornicação, a expõe ao adultério.” Porque, de fato, o que vai fazer, em noventa por cento dos casos, a mulher repudiada? Ela irá casar-se de novo. E quais as consequências disso? Oh! Sobre isso, quanto haveria para se dizer! Não sabeis que podeis provocar até incestos involuntários com este modo de proceder? Quantas lágrimas já se derramaram por causa de luxúria! Sim. Luxúria. Não tem outro nome. Sede sinceros. Tudo se pode superar, quando o espírito é reto. Tudo, porém serve de motivo para satisfazer-se a sensualidade, quando o espírito é luxurioso: a frigidez feminina, a lentidão dela, a incapacidade no que se refere aos serviços da casa, a língua desenfreada, o amor ao luxo, tudo isso se suporta, até as doenças, até a irascibilidade, quando os dois se amam santamente. Mas, visto que, depois de algum tempo já não se amam mais como no primeiro dia, então, começa-se a achar impossível o que é mais que possível, e se joga uma pobre mulher na rua, a caminho da perdição.

Comete adultério quem a rejeita. Comete adultério quem se casa com ela, depois do repúdio. Somente a morte pode dissolver o matrimônio. Recordai-vos disso. Se fizestes uma escolha infeliz, arcai com as consequências, como quem tem que levar uma cruz, sendo dois infelizes, mas santos, sem criar mais infelicidade nos filhos, pois eles, inocentes, são os que mais sofrem nessas tristes situações. O amor aos filhos deveria fazer-vos meditar cem vezes e até mais, mesmo no caso da morte de um dos cônjuges. Oh! Se soubésseis contentar-vos com tudo o que tendes tido, quando Deus vos disse: “Basta isto!” Se soubésseis vós, viúvos, e vós, viúvas, ver na morte não uma diminuição, mas uma elevação à perfeição de procriadores! Ser mãe até para a mãe falecida! Ser pai até para o pai falecido! Ser duas almas em uma só, recolher o amor pelos filhos sobre os lábios gelados de um moribundo, e dizer: “Vai em paz, sem preocupação por aqueles que de ti vieram. Eu continuarei a amá-los, por ti e por mim, a amá-los duas vezes, serei para eles pai e mãe.” E a infelicidade dos órfãos não pesará sobre eles. Nem mesmo sentirão o inato ciúme do filho do cônjuge que se casou de novo, por aquele ou por aquela que toma o lugar sagrado da mãe ou do pai, que por Deus foram chamados para outra morada.

174.20 Filhos, minhas palavras estão chegando ao fim, como está chegando ao fim este dia que já declina com Sol para o lado do ocidente. Desta reunião no monte quero que vos lembreis das palavras que aqui vos foram ditas. Esculpi-as em vossos corações. Tornai a lê-las seguidamente. Que elas vos sirvam sempre de guia. Sobretudo sede bons com quem é fraco. Não julgueis para não serdes julgados. Recordai-vos de que poderia chegar o momento no qual Deus vos lembrará: “Assim tu julgaste. Por isso sabias que era mal.Com conhecimento do que fazias, cometeste o pecado. Cumpre agora a tua pena.”

A caridade é uma absolvição. Tende a caridade em vós para com todos e com tudo. Se Deus vos dá tantos auxílios para que vos conserveis retos, não vos enchais de orgulho por isso. Procurai subir, porque longa é a escada da perfeição e estendei a mão aos cansados, aos ignorantes, aos que são presas de súbitas desilusões. Por que ficar observando com tanta atenção o cisco no olho do teu irmão, e não procuras antes tirar a trave que está no teu? Como podes dizer ao teu próximo: “Deixa que eu tire do teu olho esse cisco, enquanto a trave que está no teu te faz cego? Não sejas hipócrita, filho: tira primeiro a trave que está no teu olho e, depois, poderás tirar o cisco do olho do teu irmão, sem que o leses gravemente.

Assim como não deveis cometer faltas de caridade, não sejais também imprudentes. Eu vos disse: “Estendei vossas mãos aos cansados, aos ignorantes, àqueles que são presas de imprevistas desilusões.” Mas, se é caridade instruir os ignorantes, animar os cansados, dar novas asas àqueles que, por vários motivos, as quebraram, é imprudência revelar as verdades eternas aos que estão infeccionados pelo satanismo, os quais se apropriam das verdades para se fingirem de profetas, para se insinuarem entre os símples, e corromperem, falsificarem, sujando sacrilegamente as coisas de Deus. Respeito absoluto, saber falar e saber calar-se, saber refletir e saber agir, aí estão as virtudes do verdadeiro discípulo para fazer prosélitos e servir a Deus. Vós tendes uma razão e, se usais dela com justiça, Deus vos dará todas as luzes, para guiar ainda melhor a vossa razão. Pensai que as verdades eternas são semelhantes a pérolas e nunca se viu jogar pérolas aos porcos, que preferem as bolotas e a lavagem mal cheirosa às pérolas preciosas, e até as esmagariam sem dó com os seus pés, para depois, com a fúria de quem foi ludibriado, virarem-se contra vós para despedaçar-vos. Não deis coisas santas aos cães. Isto serve para agora e para depois.

174.21 Muitas coisas Eu vos disse, meus filhos. Escutai as minhas palavras; quem as escuta e as põe em prática é comparável a um homem que refletiu, quando queria construir uma casa e escolheu um lugar rochoso. Certamente ele se cansou para construir as bases. Teve que trabalhar com picareta e buril, teve que calejar as mãos e cansar os rins. Mas depois ele pôde passar argamassa de cal nas fendas da rocha e colocar os tijolos e fechar as paredes, formando uma fortaleza. A casa foi crescendo muito sólida como um monte. Vieram as intempéries, os aguaceiros. As chuvas fizeram transbordar os rios, assobiaram os ventos, as ondas bateram na casa, mas ela resistiu a tudo. Assim é aquele que tem uma fé bem fundada. Ao contrário, quem ouve com superficialidade e não se esforça para gravar em seu coração as minhas palavras, porque sabe que isso exige trabalho, que é preciso passar pela dor, extirpar muitas coisas, esse é semelhante a quem por preguiça e estultícia constrói sua casa sobre a areia. Nem bem chega a tempestade e a casa, rapidamente construída, rapidamente cai. O estulto fica olhando desolado para os escombros e para a ruína do seu capital. Mas aqui há mais do que uma ruína, porque esta ainda pode ser reparada com despesas e trabalho. Aqui, tendo vindo abaixo o edifício mal construído de um espírito, não se tem mais nada para reconstruí-lo. Na outra vida não se edifica. Ai de quem se apresentar lá com escombros!

174.22 Terminei. Agora, vou descer para o lago e vos abençôo em nome de Deus Uno e Trino. A minha paz esteja convosco.

Mas a multidão grita:

– Nós vamos contigo. Deixa-nos ir! Ninguém fala como Tu!

Põem-se a seguir a Jesus, que desce, não pelo lado por onde subiu, mas pelo lado oposto, que vai em direção de Cafarnaum. A descida é íngreme, mas feita com muito mais rapidez e logo chegam aos pés do monte, colocado acima de uma planície verde e florida.

(Jesus diz: “Por hoje basta5. Amanhã…”)



1 Santanás beijou… Em um longa nota que ocupa as quatro faces de um folheto dobrado e inserido em uma cópia datilografada, MV explica em que consiste a corrupção do olho e do ouvido de Eva. Se tratou de um beijo imaterial, ou seja, de uma lição de malícia intelectual para despertar uma curiosidade inicialmente espiritual, como espiritual era a prova de Deus para confirmar a graça em Adão e Eva: a obediência de uma única ordem de Deus. A curiosidade inicialmente espiritual degenerou em curiosidade substancial sempre mais pesada e animal.
2 omitindo... Ao invés, pelo critério de retomar integralmente e fielmente o manuscrito original, não omitindo nenhuma instrução entre parêntesis nem a primeira linha da visão a inserir (casos similares, por exemplo, em 349.14 - 352.4 - 586.17 - 590.3 - 596.5). A sigla B 961 (assim como o fascículo em 42.1, B 964 em 182.6, fascículo r pag. 20 em 548.21) reenvia ao produzido datilografado pelo Pe. Migliorini o qual escreve a máquina duas vezes o manuscrito valtortiano, fazendo mais cópias com papel carbono: a primeira vez diretamente dos cadernos manuscritos de MV e na ordem da elaboração; a segunda vez, do anterior datilografado e na ordem cronológica dos fatos, excluindo os textos não pertinentes a narração evangélica. Do segundo escrito datilografado, uma cópia serviu a MV para as intervenções manuscritas que ilustraremos em uma nota em 335.7 e uma outra cópia serviu ao editor Pisani para imprir a primeira edição da obra em 4 volumes. A segunda edição, em 10 volumes, reimpressa por cerca de trinta anos, e a terceira edição, revista para a presente quarta edição, foram compostas com adições do manuscrito original, respectivamente, da primeira e segunda edição.
3 Evangelho da Misericórdia traz um série de episódios e ensinamentos sobre a conversa de Maria de Magdala, escritos consecutivamente de 12 a 14 de agosto de 1944, mas colocados em várias partes da obra segundo as instruções escritas por MV. O primeiro episódio, que se inicia aqui, é inserido no presente capítulo 174. Outros dois episódios formarão os capítulos 183 e 233. Sobre os três episódios segue um “ditado” que formará o capítulo 234. O último episódio, com um breve comentário final, formará o capítulo 377.
4 está dito em Levítico 21,16-23.
5 basta, pois MV tinha começado a escrever aqui as primeiras palavras, depois não utilizadas da visão do dia seguinte.