340. 340. Arrependimento de Judas Iscariotese encontro com os rabis no sepulcro de Hilel.
24 de novembro de 1945.
340.1 Do povoado de Meron, Jesus com os seus apóstolos toma uma estrada na direção do nordeste, sempre pela montanha, por entre bosques e pastagens, e continua subindo. Talvez já tenham venerado os túmulos, porque eu percebo que, entre si, eles estão falando deles.
Agora é o próprio Iscariotes que está adiante com Jesus. Compreende-se que em Meron eles receberam e deram esmolas, e que Judas está fazendo a prestação de contas delas, dizendo quais as ofertas que foram recebidas e quais as esmolas que foram dadas. E ele terminou, dizendo:
– E agora aqui está a minha oferta. Eu jurei esta noite que ta daria para os pobres, por penitência. Não é muita. Pois eu não tenho muito dinheiro. Mas eu persuadi à minha mãe a mandar-me com freqüência algum dinheiro por meio de algum dos meus muitos amigos. Nas outras vezes, quando eu saía de casa, levava muito dinheiro. Mas desta vez, tendo que andar pelos montes sozinho ou somente com Tomé, apanhei o suficiente só para a duração da viagem. Prefiro assim. Somente… algumas vezes terei que te pedir licença para separar-me por algumas horas de vós para ir as casas dos meus amigos. Já combinei tudo. Mestre, sou eu que continuo a tomar conta do dinheiro? Sou eu ainda? Ainda confias em mim?
– Judas, tu dizes tudo por ti mesmo. E Eu não sei os motivos porque fazes assim. 340.2Fica sabendo que por Mim nada está mudado… porque Eu espero com isto que tu é que tenhas que mudar e voltar a ser o discípulo que eras antes e te tornares o justo, para cuja conversão Eu rezo e sofro.
– Tens razão, Mestre. Mas, com a tua ajuda, certamente assim me tornarei. Afinal… são imperfeições da juventude. Coisas sem importância. Elas até servem para poder compreender os semelhantes e cuidar deles.
– Em verdade, Judas, a tua moral é muito estranha! Eu deveria dizer alguma coisa mais. Nunca se viu um médico que procure ficar doente para poder depois dizer: “Agora sei curar melhor os doentes deste mal.” De modo que Eu sou, então, um incapaz?
– Quem disse isto, Mestre?
– Tu. Eu não cometo pecados e, por isso, não sei curar os pecadores.
– Tu és Tu. Mas nós não somos Tu, e precisamos de experiência para o sabermos…
– É uma tua velha idéia. O mesmo que dizias, há umas vinte Luas. Com a diferença de só agora estares julgando que Eu deveria pecar para poder ser capaz de redimir. Em verdade Eu estranho que tu não tenhas procurado corrigir este meu… defeito, conforme os teus modos de julgar e de me atribuir esta… capacidade de compreender os pecadores.
– Tu estás brincando, Mestre. E eu gosto disto. Tu estavas causando dó. Estavas muito triste. E que seja eu próprio a fazer-te brincar me dá duplo prazer. Mas eu nunca tive a idéia de constituir-me teu pedagogo. E afinal, Tu estás vendo. Eu corrigi o meu modo de pensar, a tal ponto que hoje digo ser esta experiência necessária somente para nós. Para nós, pobres homens. Tu és o Filho de Deus, não é? Por isso tens uma sabedoria que não tem necessidade de experiências, para ser como é.
– Pois bem. Agora, fica sabendo que a inocência também é mais sabedoria do que o baixo e perigoso conhecimento que tem o pecador. E, onde a santa ignorância do mal tornaria limitada a capacidade de alguém poder se guiar ou guiar os outros, aí é que a supre o ministério dos anjos, que nunca está ausente, mas sempre presente nos corações puros. E podes crer que os anjos, tão puros como eles são, sabem também distinguir o Bem do Mal e conduzir o puro, que eles guardam pelo caminho certo e lhes inspiram ações boas. O pecado não traz aumento de sabedoria. Não traz luz. Não guia ninguém. Nunca. É uma corrupção. Uma cegueira. Um caos. De modo que quem o fez conhecerá o seu sabor, mas, ao mesmo tempo, terá perdido a capacidade de saber muitas outras coisas espirituais, já não terá mais um dos anjos de Deus, um dos espíritos de ordem e de amor para guiá-lo, mas terá um dos anjos de Satanás para conduzi-lo a uma desordem sempre maior, por causa do ódio insaciável que devora esses espíritos diabólicos.
340.3 – E… escuta, Mestre. E, se alguém quisesse voltar a ter a guia angélica? Será que lhe basta o arrependimento, ou será que o veneno do pecado persiste, mesmo depois de nos termos arrependido e de termos sido perdoados?… Sabes? Por exemplo, alguém que se tenha entregado ao vinho, ainda que jure que não irá mais se embriagar, mesmo tendo jurado com verdadeira vontade de cumprir, contudo sempre sente aquele desejo de beber. E sofre…
– Certamente, ele sofre. Por isso é que ele não deveria nunca fazer-se escravo do que é mal. Mas sofrer não é pecado. Sofrer já é expiar. Assim como um beberrão arrependido não peca, mas até adquire merecimentos, quando resiste heroicamente ao desejo e já não bebe mais vinho, do mesmo modo, quem pecou e se arrepende, resistindo a todos os desejos, adquire um merecimento e não lhe faltará o auxílio sobrenatural por essa sua resistência. Sermos tentados, não é pecado. pelo contrario, é uma batalha em busca da vitória. E, podes acreditar também, em Deus só há o desejo de perdoar e de ajudar a quem errou, mas que depois se arrepende…
Judas fica em silêncio por algum tempo… Depois, pegando a mão de Jesus, ele a beija, dizendo e ficando inclinado sobre a mão que ele beija:
– Mas, eu ontem à tarde passei da medida. Eu Te insultei, Mestre… E Te disse que acabarei te odiando… Quantas blasfêmias eu disse! Será que elas me poderão ser perdoadas?
– O maior dos pecados é perder a esperança na misericórdia divina… Judas, Eu te disse1: “Todo pecado contra o Filho do homem será perdoado.” O Filho do homem veio para perdoar, para salvar, para curar, para levar para o Céu. Por que tu queres perder o Céu? 340.4Judas! Judas! Olha para Mim! Lava tua alma no amor que está saindo dos meus olhos…
– Mas, não te estarei causando repugnância?
– Sim… Mas o amor é maior do que a repugnância. Judas, pobre leproso, o maior dos grandes leprosos de Israel, vem pedir a saúde a Quem a pode dar…
– Dá-me, então, Mestre.
– Não. Assim, não. Não há em ti um verdadeiro arrependimento, nem uma vontade firme. Só tens ainda um pouco de amor por Mim por causa da tua vocação no passado. Tens uma agitação de arrependimento, mas simplesmente humana. Tudo isso ainda não é mau. É até um primeiro passo para o Bem. Cultiva-o, aumenta-o, enxerta-o no sobrenatural e transforma o que já tens em um verdadeiro amor por Mim, faze uma volta sincera a tudo aquilo que tu eras quando vieste a Mim, pelo menos àquilo. E daquilo faze, não uma agitação transitória, emotiva, de um sentimentalismo inativo, mas um sentimento verdadeiro, ativo, de quem se sente atraído pelo Bem. Judas, Eu te espero. Eu sei esperar. Eu rezo. Sou Eu que supro, durante toda esta espera, o teu anjo, descontente contigo. A minha piedade, a minha paciência, o meu amor, sendo perfeitos, são superiores aos dos anjos e podem continuar a teu lado, por entre os maus cheiros desagradáveis de tudo aquilo que es-tá fermentando em teu coração, para te ajudarmos…
340.5 Judas na verdade, está comovido, sem fingimento. Com os lábios trêmulos, e uma voz enfraquecida por aquilo que o está comovendo, e pálido, ele pergunta:
– Mas saberás Tu realmente o que foi que eu fiz?
– Tudo, Judas. Queres que Eu te diga, ou preferes que Eu te poupe esse aviltamento?
– Mas, eu não posso crer, esta é a questão…
– Voltemos, pois, atrás, e digamos a verdade ao incrédulo. Tu, durante esta manhã, já mentiste muitas vezes, tanto a respeito do dinheiro como sobre o modo como passaste a noite. Tu, ontem de tarde, foste procurar sufocar, com a luxúria, todos os teus outros sentimentos, os teus ódios, os teus remorsos. Tu…
– Basta! Basta! Por caridade, não vás a diante. Ou terei que fugir da tua presença.
– Deverias, ao contrário, agarrar-te aos meus joelhos, pedindo perdão.
– Sim, sim. Perdão. Perdão, Mestre meu! Perdão! Ajuda-me! Isto é mais forte do que eu! Tudo é mais forte do que eu.
– Menos o amor que deverias ter para com Jesus… Mas, vem cá, para que Eu vença a tua tentação e te livre dela.
E o toma em seus braços, chorando lágrimas silenciosas sobre a cabeça morena de Judas.
340.6 Os outros, que estão a alguns metros atrás, lá estão prudentemente parados, e comentam:
– Estais vendo? Talvez Judas esteja passando mesmo por seus desgostos.
– E nesta manhã ele se abriu sobre eles com o Mestre.
– Mas, que tolo! Eu o faria logo.
– Serão talvez coisas difíceis.
– Oh! Certamente não será por mau procedimento de sua mãe! Ela é uma santa mulher! Que dificuldades ele terá, então?
– Talvez os negócios lhe vão mal…
– Mas, não é isso. Ele gasta e dá esmola com o que é dele, e com generosidade.
– Bem. Os negócios dele! O importante é que ele esteja de acordo com o Mestre e parece que o esteja. Há tanto tempo que estão falando e pacificamente. Agora estão abraçados… Tudo vai bem.
– Sim, porque ele é inteligente e tem muitos conhecimentos. É bom que ele esteja de acordo e com boa vontade para conosco e especialmente para com o Mestre.
– Jesus disse em Hebron que as tumbas dos justos são lugares de milagres ou coisas semelhantes. E nestes lugares há muitas tumbas. Talvez elas tenham feito o milagre, as tumbas de Meron, sobre a perturbação de Judas.
– Oh! Então, ele vai acabar tornando-se santo agora, na tumba de Hilel. Aquilo lá já não é Gíscala?
– Sim, Bartolomeu.
– E, no entanto, no ano passado, não foi por aqui que passamos…
– Mas, pudera! Nós estávamos vindo de outro lugar!
Jesus se vira e os chama. Eles acorrem, alegres.
– Vinde… A cidade está perto. Temos de atravessá-la para podermos encontrar a tumba de Hilel. Vamos fazer isso em grupo –diz Jesus, sem explicar nada mais, enquanto os onze dão olhadelas curiosas sobre Ele e sobre Judas.
Mas este último tem o rosto de alguém tranqüilizado e perdoado. Jesus não está com um rosto muito alegre. Está majestoso, mas sério.
340.7 Entram em Gíscala, que é uma cidade muito extensa, bonita e bem cuidada. Aí deve haver algum florescente centro rabínico, pois vejo muitos doutores reunidos em grupos, aqui e ali, com seus alunos perto de si, ouvindo suas lições. A passagem dos apóstolos, e especialmente a do Mestre, está sendo muito notada, e muitas pessoas vão formando fila atrás deles. Alguns sorriem com escárnio… Outros chamam Judas de Keriot. Mas ele está ao lado do Mestre e nem se vira para olhar. Já estão saindo da cidade e vão indo para a casa, em cujas vizinhanças está a tumba de Hilel.
– Que descaramento!
– É imprudente e impudente!
– Ele nos está provocando.
– É um profanador!
– Vai dizer isto a Ele, Uziel.
– Eu não quero contaminar-me. Dize-o tu, Saul, que és apenas aluno.
– Não. Vamos dizê-lo a Judas. Eu vou chamá-lo.
E o jovem Saul, muito pálido, todo olhos e boca, vai até Judas, e lhe diz:
– Vem. Os rabis querem falar contigo.
– Não vou. Fico aqui onde estou. Deixai-me aqui.
O jovem volta, e conta aos seus chefes o que aconteceu.
Enquanto isso, Jesus, no meio dos seus, está rezando com veneração junto ao sepulcro, muito bem caiado, de Hilel.
Os rabinos vão-se aproximando aos poucos, como umas serpentes silenciosas, e observando, enquanto dois deles, barbudos e já anciãos, estão puxando pela veste Judas, que, ao por-se em oração, viu-se nas mãos deles, sem poder ser defendido por seus companheiros.
– Mas, que quereis, afinal –pergunta ele em voz baixa, mas aborrecido–. Não se pode mais nem rezar?
– Só uma palavra. Depois te deixaremos em paz.
Simão, Zelotes e Tadeu se viram e fazem que se calem os sussurradores.
Judas afasta-se uns dois ou três passos, e pergunta:
– Que quereis?
Não ouço o que o mais velho lhe murmura ao ouvido. Mas vejo bem o gesto de Judas, que se afasta dele de repente, dizendo:
– Não. Deixai-me em paz, ó almas venenosas. Eu não vos conheço, nem quero conhecer-vos.
Uma risada de escárnio é o que sai do pequeno grupo de rabis, junto com uma ameaça:
– Olha bem o que estás fazendo, ó rapaz estulto!
– Olhai bem, vós. Fora! Ide dizer isso aos outros. A todos os outros. Compreendestes? Ide para quem quiserdes. Mas não para mim, pois vós sois uns demônios –e os deixa no ar.
Ele falou tão alto que os apóstolos se viraram todos, espantados. Jesus não. Nem mesmo com aquela risada de escárnio e aquela ameaça: “Nós nos veremos de novo, Judas de Simão! Nós nos tornaremos a ver!” E esta ameaça ressoa através do silêncio daquele lugar. Judas volta ao lugar onde estava e até afasta André, que tinha ido ficar perto de Jesus. E, como se quisesse ser defendido e protegido, havia segurado uma parte do manto de Jesus nas mãos.
340.8 A ira se inflama, então, contra Jesus. Eles vão para frente, ameaçadores, e gritam:
– Que estás fazendo aqui, Tu, maldição de Israel? Fora! Não faças tremer os ossos do Justo, pois não és digno de aproximar-te dele. Nós iremos dizer a Gamaliel e te faremos castigar.
Jesus se vira, e olha para eles. Para cada um deles.
– Por que nos ficas olhando assim, endemoninhado?
– Para conhecer bem os vossos rostos e os vossos corações. Porque não é só o meu apóstolo que se encontrará convosco. Mas Eu também. E quereria ter-vos conhecido bem para poder reconhecer-vos bem depois.
– Está bem. Já nos viste? Então, vai-te. Gamaliel, se estivesse aqui, não o permitiria.
– No ano passado, Eu estive aqui com ele… .
– Não é verdade, mentiroso!
– Perguntai a ele e, visto que ele é um homem honesto, vos dirá que sim. Eu amo e venero Hilel, respeito e honro Gamaliel. São dois homens nos quais se manifesta a origem do homem, pela justiça e sabedoria deles, que nos fazem lembrar que o homem é feito à semelhança de Deus.
– E em nós não, hein? –interrompem-no os energúmenos.
– Em vós aquela semelhança é ofuscada pelos interesses e pelo ódio.
– Ouvi o que ele está dizendo. Em casa dos outros, Ele fala assim e ofende! Fora! Fora daqui, ó corruptor dos melhores de Israel! Ou, então, nós vamos fazer uso das pedras. Aqui não está Roma para proteger-te, a ti que traficas com o inimigo pagão…
– Por que me odiais? Por que me perseguis? Que vos fiz eu de mal? Alguns de vós receberam de Mim benefícios. E, então, por que sois cruéis comigo?
Jesus é humilde, manso, está aflito e amoroso. Ele lhes suplica que o amem.
Mas eles tomam isso como um sinal de fraqueza e de medo, e o perseguem. A primeira pedra passa voando, raspando por Tiago de Zebedeu. Este, com rapidez faz um gesto de reagir, jogando-a de volta nos assaltantes, enquanto todos se ajuntam, ao redor de Jesus. Mas eles são doze, contra mais ou menos uma centena. Outra pedra bate na mão de Jesus, que está dando ordem aos seus para que não reajam. A mão, ferida nas costas, está sangrando. Está parecendo como quando foi rasgada pelo cravo.
340.9 Então, Jesus não reza mais. Mas ergue-se, majestoso, olha para eles e os fulmina com o seu olhar. Mas uma outra pedra faz que Tiago de Alfeu fique sangrando nas têmporas. Jesus precisa, então, paralisar todos os outros ataques com o seu poder, para defender os seus apóstolos que, obedientes, sofrem as pedradas mas sem precisarem reagir.
E quando aqueles vilões são dominados pela vontade de Jesus, Ele — e o faz com uma majestade espantosa, — diz com uma voz de trovão:
– Eu vou-me embora. Mas lembrai-vos2 sobre a estrela e Isaías e todos os profetas. Mas Deus conhece os vossos, e deles se escarnece. Sempre deles se escarnece, do mesmo modo que sempre se alegrou com os justos, para os quais era justo que Ele me mandasse, e que, verdadeiramente, oh! sim, verdadeiramente aspiraram que Eu viesse das alturas do Céu, para trazer a água viva com que matar a sede dos homens. Eu sou a Fonte da Vida Eterna. Mas nela vós não quereis beber. E morrereis.
E Jesus vai passando lentamente pelo meio dos rabinos paralisados e de seus alunos, prosseguindo em seu caminho, lento e majestoso, em um silêncio que espantava os homens e as coisas.
1 Eu te disse, em 269.8.
4 lembrai-vos, o que mencionado em Êxodo 14,15-31.
5 foi cantado, in: Números 21,17-18.
2 profetizou em Números 24,15-19.
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