574. 574. Indo de Enon a Tersa, Jesus resgata e acolheum pastorzinho, depois de ter dado a cegueira a uma pessoa cruel e a vista a um cego.
4 de março de 1947.
574.1Enon é um punhado de casas, fica mais acima para o lado do norte. Aqui é o lugar onde vivia o Batista: uma gruta, no meio de uma densa vegetação. Pouco distante das nascentes, ouve-se o borbulhar das águas, que já formam um riacho e vão descendo para o Jordão. Jesus está sentado perto da gruta, no lugar em que estava quando veio visitar o seu primo1. Ele está sozinho. A aurora mal começa a tingir de cor de rosa o oriente e as matas já estão despertando com os pios dos passarinhos que acordam. Ouvem-se os balidos que vêm de lá dos apriscos de Enon. Ouve-se também um zurro, que rasga o céu sereno.
E há um ressoar de cascos pela estrada. É que vai passando um rebanho de cabras, guiadas por um rapaz que para por um instante e fica olhando para Jesus. Depois ele recomeça a andar. Mas pouco depois ele volta, porque uma cabrita resolveu ficar lá atrás observando o homem que ela nunca tinha visto naquele lugar, que está estendendo-lhe sua longa mão para oferecer-lhe um raminho de manjerona e que a acaricia sobre a cabeça inteligente. O pastorzinho fica estupefato. Não sabe se deve ir afastar o animal do homem ou deixar que Jesus a acaricie, sorrindo como se estivesse contente, por ter ela vindo sem medo agachar-se a seus pés, pousando a cabeça sobre seus joelhos. Enquanto isso, as outras cabras foram voltando para trás, pastando a erva cheia de florinhas.
O pastorzinho lhe pergunta:
– Queres leite? Eu ainda não tirei o leite de duas cabras que, enquanto não estão saciadas, chifram a quem lhes aperta o peito. Elas são como o dono que, se não ficar satisfeito com o que ganha, nos dá pauladas.
– És tu um servo pastor?
– Eu sou órfão. Sou sozinho. E sou servo. Ele é meu parente, porque é marido da irmã da mãe de minha mãe. E enquanto Raquel vivia… Mas ela morreu há muitos meses… E eu sou muito infeliz… Toma-me contigo! Eu estou acostumado a viver de nada… E serei teu servo… Um pouco de pão me basta em pagamento. Afinal, aqui não tenho nada… Se ele me desses esse pagamento, eu me iria daqui. Mas ele diz: “O dinheiro que vais ganhar é este? Vou ficar com ele, porque eu te dou roupa e mato tua fome.” Diz ele que me veste!… Estás vendo? E diz que me mata a fome! Olha para mim… Estes sinais são de pauladas… E o pão de ontem foi este…
E mostra os vergões nos braços e nos ombros magérrimos.
– E que foi que tu havias feito?
– Nada. Os teus companheiros, quero dizer, os discípulos, estavam falando do Reino dos Céus e eu os estava escutando. Era um sábado. Ainda que eu não estivesse trabalhando, eu não estava ocioso, pois era um sábado. Ele me bateu muito, a tal ponto que eu não quero mais ficar com ele. Aceita-me contigo. Senão, eu fugirei… Eu vim de propósito para aqui esta manhã. E estava com medo de falar. Mas Tu és bom. Eu falo.
– E o rebanho? Certamente não vais querer fugir com ele…
– … Eu o levarei para o aprisco… Daqui a pouco, o homem irá ao bosque apanhar lenha… Eu levarei o rebanho e fugirei. Oh! Aceita-me!
574.2– Mas tu sabes quem Eu sou?
– Tu és o Cristo! O Rei do Reino dos Céus. Quem te segue é feliz na outra vida. Eu nunca tive alegria aqui… mas não me rejeites… contanto que eu a tenho do lado de lá…
E ele chora, tendo-se jogado aos pés de Jesus, perto da cabrita.
– Como tu me conheces tão bem? Talvez já me tenhas ouvido falar?
– Não. Estou sabendo desde ontem que aqui, onde esteve o Batista, estás Tu. Mas por Enon passavam os teus discípulos de vez em quando. Eu os ouvi falar. Eles se chamam Matias, João, Simeão, e estavam muitas vezes aqui, porque o Batista era o mestre deles, antes de Ti. Depois Isaque… Em Isaque eu entrevia de novo meu pai e minha mãe. Isaque me queria até tirar do patrão e deu-lhe dinheiro por mim. Mas ele! Pegou, sim, o dinheiro, mas depois não me entregou, e ainda zombou do teu discípulo.
– Tu sabes muito. Mas sabes para onde é que Eu vou?
– Para Jerusalém. Mas eu não tenho escrito em meu rosto que sou de Enon2.
– Eu vou para longe. E irei logo. Não posso te levar.
– Toma-me por este pouco tempo que ainda podes.
– E depois?
– E depois… Eu chorarei, mas irei ficar com aqueles de João, que foram os primeiros a dizer ao pobre menino que a alegria que os homens não dão na terra, Deus a dá no Céu a quem teve boa vontade. Eu, para tê-la, tive que tomar muitas surras e passar muita fome, pedindo a Deus que me desse essa paz. Vê que eu tive boa vontade… Mas se agora me rejeitas, eu… não poderei mais esperar…
E chora silenciosamente, suplicando a Jesus, com seus olhos chorosos, mais do que com os lábios.
574.3– Eu não tenho dinheiro para o teu resgate. Nem sei se o teu patrão consentiria também nisso.
– Mas eu já estou pago. E tenho testemunhas. Eli, Levi e Jonas viram e censuraram o homem. E eles, como sabes, são os maiorais de Enon!
– Se é assim, vamos. Levanta-te e vem.
– Para onde?
– Para a casa do teu patrão.
– Eu tenho medo. Vai Tu, sozinho. É lá sobre aquele monte. A casa dele está no meio das plantas que ele está segando. Eu fico esperando aqui.
– Não tenhas medo. Olha: estão vindo para cá os meus discípulos. Seremos muitos contra ele. Ele não te fará mal. Levanta-te! Iremos a Enon para procurar três testemunhas e iremos ao teu patrão. Dá-me a tua mão. Depois te entregarei aos discípulos que tu conheces. Como é que te chamas?
– Benjamim.
– Eu tenho dois outros pequenos amigos com este nome. Tu serás o terceiro.
– Amigo? Amigo é demais! Eu sou servo.
– Servo do Senhor Altíssimo, sim. De Jesus de Nazaré tu és amigo. Vem. Recolhe o rebanho e vamos.
574.4Jesus se levanta e, enquanto o pastorzinho reúne e toca as cabras teimosas para o caminho de volta, Ele faz sinal para os apóstolos, que já vêm vindo pelo caminho e olhando para Jesus, a fim de que venham logo. Então, eles apressam o passo. O rebanho já está a caminho e Jesus com o pastorzinho, levado pela mão, vai ao encontro deles…
– Senhor! Agora te tornaste pastor de cabritos? Na verdade, a Samaria pode ser chamada “a cabra”… Mas Tu…
– Mas Eu sou o Bom Pastor e transformo até os cabritos em cordeiros. E os meninos são todos uns cordeiros, e este aqui é pouco mais que um menino.
– Não é este, porventura, o menino que ontem aquele homem levou embora, com maus modos? –diz Mateus, observando-o.
– Eu creio que seja ele. És tu?
– Sou eu.
– Ah! Pobre rapaz! O teu pai certamente não te ama! –diz Pedro.
– É o meu patrão. Não tenho outro pai senão Deus.
– Sim. Os discípulos do João instruíram sua ignorância e confortaram seu coração e, na hora justa, o Pai de todos fez com que nos encontrássemos. Vamos a Enon tomar conosco três testemunhas e depois iremos ao seu patrão… –diz Jesus.
– Para fazer que ele dê o menino? onde está o dinheiro? Maria distribuiu os últimos trocados que tinha… –observa Pedro.
– Não há necessidade de dinheiro. Ele não é escravo e já foi pago o dinheiro para recebê-lo do patrão. E quem deu o dinheiro foi Isaque, que ficou com pena do rapazinho.
– E por que foi que não o recebeu?
– Porque muitos são os zombadores de Deus e do próximo. Lá vem vindo a minha Mãe com as mulheres. Ide dizer a elas que não venham para cá.
Tiago de Zebedeu e André correm, rápidos como gazelas. Jesus se apressa, indo ao encontro de sua Mãe e das discípulas, e as alcança quando elas já ficaram sabendo e, compadecidas, estão olhando o rapazinho.
574.5Eles voltam logo ao caminho de Enon. E entram por ele. Vão indo, guiados pelo rapaz, até a casa de Eli, um velhote de olhos embaçados pelos anos, mas ainda cheio de vigor. Como jovem, ele deve ter sido robusto como um dos carvalhos destes lugares.
– Eli, o Rabi de Nazaré me leva, se…
– Ele te leva? Ato de bondade maior Ele não poderia fazer. Ficando aqui tu acabarias tornando-te um mau. O coração endurece quando a injustiça é muito dura. E é dura demais. Tu o encontraste? O Altíssimo escutou então o teu pranto, mesmo que sejas um menino samaritano. Feliz de ti, então, que, pela idade, estás livre de toda prisão e podes acompanhar a verdade sem que nada te impeça de segui-la, nem mesmo a vontade de um pai ou de uma mãe. Providência é o que se deixa ver agora, onde durante muitos anos parecia bem um castigo. Deus é bom. Mas que queres de mim, tu que vieste até aqui? A minha benção? Eu te dou como o Ancião do lugar.
– A tua bênção eu quero, porque tu és bom. Mas, além disso, eu vim para que tu, com Levi e Jonas, fosses juntos com o Rabi até o meu patrão, para que ele não exija outro dinheiro.
– Mas onde está o Rabi? Eu estou velho e enxergo pouco, reconheço somente os que conheço bem. Eu não conheço o Rabi.
– Ele está aqui. Está diante de Ti.
– Aqui? Poder de Deus!
O velho se levanta e se inclina para Jesus, dizendo:
– Perdoa esse velho de olhos embaçados. Eu te saúdo, porque em todo Israel só um é justo. E esse és Tu. 574.6Vamos. Levi está em sua horta perto de uma tina e Jonas está trabalhando com os seus queijos.
O velho se põe de pé — é alto como Jesus, apesar de estar encurvado pela idade — e começa a caminhar beirando o muro. E, com a ajuda de um bastão, vai evitando os tropeços que há no caminho.
Jesus, que o saudou com a sua paz, o socorre em um ponto no qual três degraus estragados tornam perigosa a passagem para quem for meio cego. Antes de pôr-se a caminho, Jesus havia dito às discípulas que o esperassem naquele lugar. Enquanto isso, Benjamim se encaminha para o seu aprisco.
O velho diz:
– Tu és bom. Mas Alexandre é uma fera. É um lobo. Não sei se… Mas eu sou rico o suficiente para dar-te dinheiro por Benjamim, se Alexandre ainda o quiser. Os meus filhos não têm necessidade do meu dinheiro. Eu estou perto do fim, e o dinheiro não me serve para a outra vida. Uma ação de humanidade, sim, é que tem valor…
– Por que não o fizeste antes?
– Não me censures, Rabi. Eu matava a fome do menino e cuidava dele para que não se tornasse um malfeitor. Alexandre é capaz de fazer ficar feroz até uma pombinha. Mas eu não podia, ninguém podia tirar dele o menino. Tu… vais daqui para longe. Mas nós… ficamos por aqui, e as vinganças dele são temidas. Um dia, um de Inon se pôs no meio, porque ele batia no menino quase a ponto de matá-lo, e ele, não sei como, conseguiu envenenar-lhe todo o rebanho.
– Não será isso um mau pensamento?
– Não. Ele esperou muitos meses. Chegou o inverno. As ovelhas estavam no aprisco, fechadas, e ele envenenou a água do tanque. Elas beberam. Ficaram inchadas. E morreram. Todas. Aqui somos todos pastores e compreendemos… Por segurança, fizemos que um cão comesse daquelas carnes e ele morreu. E houve alguém que viu Alexandre entrar, às escondidas, no aprisco fechado. Oh! Ele é um malfeitor! Nós o tememos… É cruel, e de tarde está sempre embriagado. Desapiedado com todos os seus. Agora que todos morreram, ele tortura o menino.
– E, então, não vá lá, se…
– Oh! Não. Eu vou. Verdade seja dita. 574.7Eis. Já estou ouvindo o bater do martelo. É Levi.
E ele, ao lado de uma sebe, chama em voz alta:
– Levi! Levi!
Vem para fora um velho, menos velho do que o primeiro, com as vestes arregaçadas e com um macete na mão. Ele saúda Eli e lhe pergunta:
– Que queres, amigo?
– Ao meu lado está o Rabi da Galileia. Ele veio para levar Benjamim. Vem, que lá no bosque está Alexandre. Para testemunhar que por meio dele, daquele discípulo, ele já recebeu o dinheiro.
– Eu vou. Sempre me disseram que o Rabi era bom. E agora eu creio. A paz esteja contigo!
Ele põe no chão o macete, grita não sei para quem a fim de que o espere e vai com Eli até Jesus.
Logo eles chegam ao aprisco de Jonas. E o chamam, explicam…
– Eu já vou. Tu… –e ele dá ordem a um empregado–, vai para frente com o trabalho.
Ele enxuga as mãos em um pano, que joga depois sobre uma estaca, e acompanha Jesus, depois de tê-lo saudado, bem como a Levi e a Eli.
Jesus fala ao velho e lhe diz:
– Tu és um justo. Deus te dará a paz.
– Assim espero. O Senhor é justo! Eu não tenho culpa de ter nascido na Samaria…
– Disso não tens culpa. Na outra vida não há confins para os justos. Somente a culpa é que se ergue para separar o Céu do Abismo.
– É verdade. Como Eu gostaria de te ver! A tua voz é doce, e doce é a tua mão ao guiares o velho cego. Doce e forte. Lembra-me a do meu neto predileto, que se chama Eli, como eu, filho de José, meu filho. Se a tua aparência for como a de tua mão, feliz de quem te vir.
– É melhor ouvir-me do que ver-me. Torna mais santo o espírito.
– É verdade. Eu ouvi aqueles que falam de Ti. Mas eles passam raramente… 574.8Mas não é este um barulho de machado batido sobre um tronco?
– Sim.
– Então, aqui perto está Alexandre. Vai chamá-lo.
– Sim. E vós ficareis aqui. Se eu puder resolver sozinho, não vos chamarei. E vós não apareçais lá sem que eu vos chame.
E ele vai indo para frente e chama em voz alta.
– Quem é que me está chamando? Quem és tu? –diz um homem velho, robustíssimo, com perfil rígido, tórax e membros de lutador. Um golpe daquelas mãos deve ser como um golpe de clava: brutal.
– Sou um desconhecido teu e que te conhece. Vim para apanhar o que é meu.
– O que é teu? Ah! Ah! Que é que é teu neste bosque meu?
– No bosque, nada. Mas em tua casa está Benjamim, que é meu.
– Tu estás louco. Benjamim é meu servo.
– E parente. E tu és o verdugo dele. E um meu enviado, homem de paz, te entregou o dinheiro que querias pelo menino. E tu recebeste o dinheiro, mas não entregaste o menino. O meu enviado, homem de paz, não reagiu. E Eu vim para fazer justiça.
– O teu enviado deverá ter bebido o dinheiro. Eu não recebi nada e fico com Benjamim. Eu lhe quero bem.
– Não. Tu o odeias. Tu queres bem é ao dinheiro, que não lhe dás. Não mintas. Deus castiga os mentirosos.
– Eu não recebi dinheiro. Se Tu falaste com o meu servo, fica sabendo que ele é um astuto mentiroso. E eu vou bater nele, porque me calunia. Adeus! –e lhe volta as costas, movendo-se para ir embora.
– Olha, Alexandre, que Deus está presente. Não queiras desafiar a vontade dele.
– Deus! Por acaso Deus tem que cuidar dos meus interesses? Eu sozinho tenho que cuidar deles, e deles eu cuido.
– Cuidado!
574.9– Mas, quem és tu, miserável galileu? Como te atreves a censurar-me? Eu não te conheço.
– Tu me conheces. Eu sou o Rabi da Galileia e…
– Ah Sim! E achas que me fazes medo? Eu não temo nem a Deus nem a Belzebu, eu não. E queres que eu tenha medo de ti? Um louco? Vai, vai! Deixa-me trabalhar. Vai, eu te digo. Não fiques olhando para mim. Achas que os teus olhos me possam fazer medo? Que queres ver?
– Os teus delitos não, porque os conheço todos. Todos. Até aqueles que ninguém conhece. Mas Eu quero ver se não és capaz de compreender que esta é a última hora de misericórdia que Deus te concede para te arrependeres. Eu quero ver se o remorso não vem abrir-te esse coração de pedra, se…
O homem, que está com o machado na mão, o joga contra Jesus, que rapidamente se inclina. O machado dá uma volta por cima da cabeça de Jesus e vai atingir uma azinheira nova, que é cortada e cai, fazendo um grande barulho com sua folhagem e com o voo dos passarinhos, que saem dela espantados.
574.10Os três, escondidos pouco longe de lá, saem para fora, com medo de que Jesus tenha sido ferido, e o que não enxerga diz:
– Oh! Eu quereria ver! Ver se Ele realmente não está ferido! Para isso, dá-me a vista, ó Deus Eterno!
E surdo a tudo o que dizem os outros, tateando, porque perdeu o bastão e quer tocar em Jesus para perceber se Ele não está sangrando em alguma parte do corpo, diz gemendo:
– Um raio de luz clara e depois as trevas. Mas quero ver, quero ver sem este véu que só me deixa adivinhar onde estão os obstáculos…
– Não tenho nada, pai, escuta-me –diz Jesus tocando nele e por ele deixando-se tocar.
Enquanto isso, os outros dois dizem palavras duras ao violento e lhe lançam no rosto suas culpas e suas mentiras; e ele, estando sem o seu machado, puxa de uma faca e se arroja para ferir, blasfemando contra Deus, zombando do cego, ameaçando os outros, verdadeiramente parecido com uma fera enfurecida. Mas ele está cambaleando e se detém, deixa cair o punhal, esfrega os olhos e os abre, depois os fecha, e depois dá um urro assustador e diz:
– Não estou vendo mais! Socorro! Os meus olhos… As trevas… Quem me salvará?
Também os outros estão gritando. De espanto. E eles também zombam dele, dizendo:
– Deus te atendeu!
De fato, entre as suas blasfêmias havia esta:
– Que Deus me cegue se eu estiver mentindo e se pequei. E que eu fique cego, antes de ir adorar um nazareno doido! Quanto a vós, de vós tirarei vingança e despedaçarei Benjamim, como aquela árvore…
E zombam dele de novo:
– Agora, faze as tuas vinganças.
– Não sejais como ele. Não odieis –aconselha-os Jesus.
E acaricia o velho, que não se preocupa com nada que não seja a incolumidade de Jesus e, para dar-lhe certeza disso, lhe diz:
– Levanta o rosto! Olha!
O milagre se completa. Como para o violento estão reservadas as trevas, assim aqui, para o justo, a luz. E agora o que se ouve é um grito diferente, feliz, que está saindo de lá debaixo das árvores robustas:
– Eu estou vendo! Com os meus olhos! Vendo a luz! Bendito sejas Tu!
E o velho fita Jesus com uns olhos bem luzentes, com uma vida nova, e se prostra para beijar-lhe os pés.
– Vamos nós dois. Vós levareis de volta para Enon aquele infeliz. E tratai-o bem, pois Deus já o castigou. E basta o que Deus faz. Que o homem seja bom com toda essa desventura.
– Leva-me o menino, as ovelhas, o bosque, a casa, o dinheiro. Mas dá-me a vista. Não posso ficar assim.
– Não posso. Eu te deixo todas as coisas pelas quais te tornaste um pecador. Levo comigo o inocente, porque ele já padeceu o seu martírio. E nas trevas, que possa a tua alma abrir-se para a Luz.
574.11Jesus saúda Levi e Jonas, e desce depressa com o velho, que parece ter rejuvenescido, e que, tendo chegado às primeiras casas, grita em sua alegria. E toda Enon se comove…
Jesus se afasta, vai procurar o pastorzinho, que está com os apóstolos, e diz:
– Vem! Vamos, que em Tersa nos estão esperando.
– Livre? Estou livre? E contigo? Oh! Eu não acreditava! Saúdo Eli. E os outros?
O rapazinho está agitado…
Eli o beija e abençoa, e lhe diz:
– E perdoa ao infeliz.
– Porque? Perdoar, sim. Mas por que infeliz?
– Porque ele blasfemou contra o Senhor e a luz se apagou em seus olhos. Nenhum de nós precisará mais temê-lo. Ele está nas trevas e na enfermidade. Terrível é o poder de Deus!…
O velho parece um profeta inspirado, assim com os braços ao alto, o rosto virado para o céu, meditando sobre tudo o que viu.
Jesus o saúda e vai passando pelo meio da multidão agitada. Ele lá se vai, e atrás dele vão os apóstolos e as discípulas, vai Benjamim, saudado pelas mulheres, as quais querem dar um presente ao predileto do Senhor: uma fruta, uma bolsa, um pão, uma roupa, o que elas possam encontrar por ali. E ele, feliz, as saúda e lhes agradece, dizendo:
– Sois sempre boas para comigo. Eu me lembrarei disso. Rezarei por vós. Mandai os vossos filhos para o Senhor. É belo estar com Ele. É a vida. Adeus! Adeus!…
574.12Enon já ficou atrás. Vão descendo para o Jordão, para a planície do vale do Jordão, para os novos acontecimentos ainda desconhecidos…
Mas o rapazinho não se vira para olhar. E não diz nada. Não fica pensando. Não suspira. Sorri. Olha para Jesus lá diante de todos, o verdadeiro pastor acompanhado por seu rebanho, pelo rebanho no qual agora ele também está, ele, o pobre menino… e de repente começa a cantar. Com voz clara…
Sorriem os apóstolos, dizendo:
– O menino está feliz.
As mulheres sorriem, dizendo:
– O passarinho prisioneiro achou de novo a liberdade e um ninho.
Jesus sorri, virando-se a fim de olhar para ele, e o seu sorriso, como sempre, parece fazer que tudo fique luminoso, e o chama, dizendo:
– Vem cá, cordeirinho de Deus. Eu te quero ensinar um belo canto.
E entou, acompanhado pelas mulheres, o salmo3: “O Senhor é meu pastor. Nada me faltará. Ele me pôs num lugar de abundantes pastagens” etc. E a belíssima voz de Jesus ecoa pelos campos férteis, com a primazia entre as outras vozes, mesmo entre as melhores, de tão poderosa que ela é em sua alegria.
574.13– Está feliz o teu Filho, Maria –diz Maria de Alfeu.
– Sim. Está feliz. Tem ainda um pouco de alegria.
– Nenhuma viagem fica sem fruto. Ele passa espalhando as graças e sempre há alguém que verdadeiramente encontra o Salvador. Tu te lembras daquela tarde4 em Belém da Galileia? –pergunta Maria de Magdala.
– Sim. Mas Eu não gostaria de relembrar-me daqueles leprosos e deste cego…
– Tu perdoarias sempre. És muito boa! Mas a justiça também é necessária –observa Maria Salomé.
– É necessária. Mas o bom para nós é que maior é a sua misericórdia –diz ainda Maria Madalena.
– Tu podes dizer isso. Mas Maria… –responde Joana.
– Maria não quer perdão, porque ela de perdão não tem necessidade. Não é verdade, Maria? –diz Susana.
– Eu não quereria senão o perdão. Sim. Somente ele. Ser maus já deve ser um terrível sofrimento… –suspira ela, ao dizer isso.
– Tu perdoarias a todos, todos mesmo? E seria justo fazer isso? Há pessoas obstinadas no mal, que desperdiçam sempre o perdão, todo perdão, zombando dele como de uma fraqueza –diz Marta.
– Eu perdoaria. Por mim, eu perdoaria. Não por tolice. Mas porque eu vejo cada alma como um pequenino mais ou menos bom. Como um filho… Uma mãe perdoa sempre… mesmo quando ela diz: “A justiça exige um justo castigo.” Oh! Se uma mãe pudesse morrer para gerar um coração novo, bom, para o filho malvado, credes vós que ela não faria? Mas isso não é possível. Ha corações que rejeitam toda ajuda… E eu penso que até para esses a piedade deve perdoar. Porque já é tão grande o peso que eles tem nos corações. O de suas culpas, o do rigor de Deus… Oh! Perdoemos, perdoemos os culpados. E assim quisesse Deus acolher nosso perdão absoluto para diminuir as dívidas deles…
– Mas por que estás sempre chorando, Maria? Até mesmo agora que o teu Filho teve uma hora de alegria! –lamenta-se Maria de Alfeu.
– Não foi completa a alegria porque o culpado não se arrependeu. Jesus fica em completa alegria quando pode redimir.
Não se sabe por que Nique, que não falou até agora, de repente diz:
– Daqui a pouco estaremos de novo com Judas de Keriot.
As mulheres olham umas para as outras como se aquela simples frase fosse uma coisa extraordinária, como se atrás dela se ocultasse talvez alguma grande coisa. Mas ninguém respondeu nada.
574.14Jesus parou em um olival muito bonito. Todos pararam. Jesus abençoa, reparte os alimentos e os distribui.
Benjamim fica olhando e vai pondo em ordem as coisas que lhe entregaram: vestes compridas ou largas demais, sandálias que não servem nos pés, amêndoas ainda com o folhelho, as últimas nozes, um queijo, uma ou outra maçã engelhada e um canivete. Ele está feliz com os seus tesouros. E dobra as vestes, dizendo:
– Vou colocar a mais bela pela Páscoa.
Maria de Alfeu promete:
– Em Betânia porei tudo em ordem para ti. Mas deixa esta fora. Em Tersa haverá água para refrescá-la e também haverá fio para ajustá-la. Agora, com as sandálias, não sei como fazer.
– Nós as daremos ao primeiro pobre que encontrarmos e que tenha o pé na medida, e em Tersa se compra um par de novas –diz Maria de Magdala tranquilamente.
– Com que dinheiro, irmã? –pergunta-lhe Marta.
– Ah! É verdade. Não temos mais nem uma moedinha… Mas Judas tem dinheiro. Do jeito que está, Benjamim não poderá fazer longa viagem. E depois, pobre menino! Sua alma teve uma grande alegria, mas também a sua humanidade deve ter um sorriso. Certas coisas dão prazer.
Susana, jovem e alegre, se ri, dizendo:
– Falas como se tu conhecesses por experiência que um par de sandálias novas faz a alegria de quem nunca as teve!
– É verdade. Mas é porque de fato eu sei como pode dar prazer uma veste enxuta depois de termos tomado um banho, e uma veste fresca quando não se tem mais do que uma. Recordo5…
E curva sua cabeça sobre o ombro de Maria de Nazaré, dizendo:
– Tu te lembras, ó Mãe? –e a beija com ternura.
574.15Jesus dá a ordem de se porem a caminho para estarem em Tersa antes da tarde:
– Que estarão pensando aqueles dois que não sabem…
– Queres que eu vá na frente a fim de dizer a eles que tu estás para chegar? –propõe Tiago de Alfeu.
– Sim. Ide todos, menos João e Tiago, e o meu irmão Judas. Tersa já não está longe… E, então, ide. Procurai saber notícias de Judas e de Elisa e, ao mesmo tempo, ide preparando os lugares para nós, porque, tendo tardado tanto e tendo conosco as mulheres, é bom fazer uma parada de noite… Nós vos acompanharemos… Fazei o possível para encontrar lugares nas primeiras casas…
Os oito apóstolos se vão apressados e Jesus os acompanha mais lentamente.
1 quando veio visitar o seu primo, come se narra no capítulo 148.
2 que sou de Enon, isto é, samaritano.
3 salmo 23.
4 daquela tarde, em 248.5/10.
5 Recordo… a chegada a Cafarnaum debaixo de temporal, em 238.3/6.
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