618. 618. Jesus Ressuscitado aparece à Mãe.


[21 de fevereiro de 1944]

618.1Maria agora está prostrada com o rosto por terra. Parece um pobre ser destruído. Parece aquela flor morta de sede de que Ela falou.

A janela fechada se abre, com um impetuoso movimento das pesadas persianas e, com o raio do primeiro sol, entra Jesus.

Maria, que levou um susto com aquele barulho, levantou a cabeça para ver de que lado veio o vento que moveu as persianas e vê seu Filho irradiando luz: Ele está belo, infinitamente mais belo do que antes de ter padecido, sorridente, vivo, luminoso mais do que o sol, vestido de um branco que parece uma luz tecida, e que vem andando em direção a ela.

Ela se endireita de joelhos e, ajuntando as mãos cruzadas sobre o peito, diz com um soluço que é de sorriso e pranto:

– Senhor, meu Deus!

E fica assim arrebatada a contemplá-lo, com o rosto banhado em lágrimas, mas que ficou sereno, pacificado pelo sorriso e pelo êxtase.

618.2Mas Ele não quer ver sua Mãe ajoelhada como uma serva. E a chama, estendendo-lhe as Mãos de cujas feridas saem raios que tornam a sua Carne gloriosa ainda mais luminosa:

– Minha Mãe!

Mas não é palavra aflita das conversas e das despedidas antes da Paixão, nem o lamento lancinante do encontro no Calvário e da agonia. É um grito de triunfo, de alegria, de liberação, de festa, de amor, de gratidão. E Ele se curva para sua Mãe, que não ousa tocá-lo, e coloca suas Mãos embaixo dos cotovelos dobrados, e a põe de pé e a aperta no Coração e a beija.

Oh! É aí que Maria compreende não estar se tratando de uma visão, mas que é o Filho realmente ressuscitado, que é o seu Jesus, o Filho que ainda a ama como Filho. E, com um grito, Ela se joga ao seu pescoço e o abraça, o beija, rindo enquanto chora. Beija-o na Fronte onde não há mais feridas, na Cabeça não mais despenteada e ensanguentada, nos Olhos agora fúlgidos, nas Faces já curadas, na Boca não mais inchada. Depois, pega-lhe as mãos, beija-as nas costas e nas palmas, sobre as feridas que emitem raios e, de repente, se curva a seus pés e os descobre, tira-os de debaixo da veste brilhante e os beija.

618.3Depois se levanta, olha para Ele, não ousa. Mas Ele sorri e compreende. Entreabre a veste sobre o peito e diz:

– E esta, minha Mãe, que te causou tanto mal e que só tu és digna de beijar, não a beijas? Beija-me o Coração, Mãe. O teu beijo me tirará a última lembrança de tudo o que é dor e me dará aquela alegria que ainda falta à minha alegria de Ressuscitado.

E segura entre as suas Mãos o rosto da Mãe, e apoia os lábios dela nos da ferida do Lado, da qual saem fluxos de uma luz vivíssima. O rosto de Maria está aureolado por aquela luz, de tão mergulhado que está dentro dos raios.

Ela beija e torna a beijar, enquanto Jesus a acaricia. E não se cansa de beijar. Parece alguém morrendo de sede que grudou a boca na fonte e que dali bebe a vida que lhe ia escapando.

618.4Agora Jesus fala.

– Tudo terminou, minha Mãe. Agora não tens mais que chorar por teu Filho. A prova terminou. A Redenção se realizou.

Minha Mãe, obrigado por me teres concebido, criado, ajudado na vida e na morte.

Eu ouvi quando chegaram a Mim as tuas orações. Elas foram a minha força na dor, as minhas companheiras na minha viagem sobre a Terra e para lá da Terra. Elas me acompanharam na Cruz e no Limbo. Elas eram o incenso que ia à frente do Pontífice, que ia chamar os seus servos para levá-los ao Templo que não morre: ao meu Céu. Elas vieram comigo até o Paraíso, precedendo, como uma voz angelical, o cortejo dos redimidos guiados pelo Redentor, para que os anjos estivessem prontos para saudar o vencedor que voltava para o seu Reino. Elas foram ouvidas e vistas pelo Pai e pelo Espírito, que por isso sorriram, como o fariam vendo a mais bela das flores e o canto mais doce nascidos no Paraíso. Elas foram conhecidas pelos Patriarcas e pelos novos Santos, os primeiros cidadãos da minha Jerusalém, e Eu te trago o “muito obrigado” deles, minha Mãe, junto com o beijo dos teus pais e com sua bênção, e também a do teu esposo da alma, José.

Todo o Céu canta seu hosana a Ti, Minha Mãe, Minha Santa Mãe! É um hosana que não cessa, e que não é mentiroso como aquele que cantaram para Mim há poucos dias.

618.5Agora Eu vou para o Pai com a minha veste humana. O Paraíso precisa ver o Vencedor na sua veste de Homem, com a qual venceu o Pecado do Homem. Mas depois virei ainda. Preciso confirmar na Fé quem ainda não crê, preciso fortificar os fracos que terão necessidade de muita fortaleza para resistir ao mundo.

Depois Eu subirei ao Céu. Mas não te deixarei sozinha, Minha Mãe. Estás vendo aquele véu? Eu, no meu aniquilamento, usei ainda do poder de fazer um milagre para Ti1, a fim de dar-te um pouco de conforto. Mas para Ti Eu vou fazer um outro milagre. Tu me terás no Sacramento, tão real como quando Tu me levavas contigo.

Nunca estarás sozinha. Nestes dias passados, Tu ainda estiveste. Mas, para minha Redenção, era necessária também esta dor. Muitas coisas devem ser continuamente acrescentadas à Redenção, porque muitas coisas de pecado serão continuamente criadas. Eu chamarei todos os meus servos para esta coparticipação redentora. Tu és aquela que, sozinha, farás mais do que todos os santos juntos. Por isso é que era necessário também esse longo abandono.

Agora não é mais. Eu não estou mais separado do Pai. Tu não estarás mais separada do Filho. E, tendo o Filho, tens a nossa Trindade. Como um Céu vivo, Tu levarás por sobre a Terra a Trindade entre os homens e santificarás a Igreja, tu, a Rainha do Sacerdócio e Mãe dos Cristãos.

Depois Eu virei para levar-te. E não serei mais Eu em Ti, mas Tu em Mim, no meu Reino, a fim de tornar mais belo o Paraíso.

618.6Agora Eu vou, minha Mãe. Vou para fazer feliz a outra Maria. Depois subirei ao Pai. E de lá Eu virei aos que não creem.

Minha Mãe. Dá-me o teu beijo como bênção. E que a minha Paz seja a tua companheira. Adeus.

E Jesus desaparece no sol, cujos raios descem a jorro do céu nesta manhã serena.

1 milagre para Ti, isto é, a fim de dar-te um pouco de conforto. O sucessivo para Ti Eu vou fazer um outro milagre tem o mesmo significado e também o de: por meio de ti, graças a ti, como se poderá ver no capítulo 637 (especialmente 637.6/7), onde Jesus o explica amplamente e, além disso, especifica que a Eucaristia “é um milagre de amor que Eu faço por vós homens”.


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