455. 455. Entrega da Igreja à maternidade de Maria.Discurso, perto de Gamala, em favor dos trabalhadores.
8 de julho de 1946.
455.1 Surge apenas a aurora, quando Jesus desperta, levanta-se e vai assentar-se sobre a sua rústica cama, que é a terra coberta de grama. Depois põe-se de pé, calça suas sandálias, põe o manto, que Ele havia estendido por cima de Si, para defender-se do sereno e do frio da noite, e, com muito cuidado, passa pelo meio de um trançado de pernas e de braços, de torsos e cabeças dos apóstolos que dormiram ao redor dele. Consegue andar por alguns metros, fixa bem a vista para ver onde põe os seus pés diante das possíveis surpresas da aurora que, por baixo das árvores frondosas, forma, por enquanto, apenas um esboço de luz que chega até um prado descoberto e, por um atalho entre árvores e rochas, mostra uma pequena faixa de um lago que também está despertando e uma vasta faixa de céu, que vai ficando claro, passando de cinzento para azulado, que é a cor própria do firmamento, que agora está saindo da noite, enquanto, ao oriente, já se deixa ver uma pincelada de amarelo que vai-se tornando cada vez mais firme e carregada até chegar a mudar-se do amarelo claro para o amarelo rosado, e depois, um coral pálido muito bonito.
Esta aurora está prometendo um belo dia, por mais que uma névoa, muito tênue, esteja custando a deixar que a luz chegue até a parte do céu que fica lá em baixo, do lado do oriente, e se mostra com véus de nuvens tão rápidas que o azul do céu nada sofre com elas, mas, pelo contrário, fica por elas embelezado como se fosse um ornamento de musselina muito branca, com franjas de ouro e de corais, sempre em mutação, cada vez mais bonita, como se estivesse fazendo esforço para atingir a perfeição de sua efêmera beleza, antes que o dia a destrua por meio do triunfo do sol. Ao lado do ocidente por, um ou outro dos astros ainda resiste, mesmo já estando privado do seu brilho noturno, à luz que vem crescendo, e à lua que já está quase desaparecendo atrás das cristas dos montes, vai navegando a vela, toda pálida, sem ter mais raios, mas como um planeta que está morrendo.
455.2 Jesus, posto de pé, de pés descalços sobre a grama coberta de orvalho, está com os braços cruzados sobre o peito, a cabeça levantada para olhar o dia que vem surgindo, pensando… ou falando com o Pai, em uma conversação entre espíritos. O silêncio é completo. É tão completo que se ouve cair no chão os grossos pingos da grande quantidade de orvalho.
Jesus inclina para baixo o seu rosto, continuando a permanecer de pé, e, de braços cruzados, se aprofunda ainda mais em sua intensa meditação. Ele está completamente concentrado em Si mesmo. Os seus tão belos olhos, bem abertos, estão fixando o chão como se quisessem arrancar da grama alguma resposta. Mas eu aposto que eles não veem o movimento lento dos caules que, ao vento fresco da aurora, têm como que um frêmito, um arrepio semelhante ao de quem sai de um sono e se espreguiça, vira-se, sacode-se para ficar bem acordado e ágil no uso de todos os seus nervos e músculos. Ele olha, mas não vê esse despertar do gramado e das flores selvagens que, dos ramos, das folhas, das corolas em forma de guarda-chuva ou em cachos, em espigas, em madeixas, ou quase solitárias nos cálices, ou em forma de auréola, ou como boca-de-leão, ou cornu cópia, ou como uma plumilha, ou em bagas, algumas vezes rigidas sobre pedúnculos, outras vezes moles e penduradas de um fuste que não é delas, mas sobre o qual elas se engavinharam, umas, abandonadas e arrastando-se pela terra, outra unidas em famílias de muitas plantinhas baixas e humildes, outras sozinhas, largas, violentas pela cor e pelo comportamento, todas ocupadas em sacudir de sobre si as gotinhas do orvalho, pois estas agora estão mais desejosas não do orvalho, mas de sol, cheias de caprichos em seus desejos e em suas disposições… São muito semelhantes neste ponto aos homens que nunca estão satisfeitos com o que têm.
Parece que Jesus está escutando. Mas com certeza não está ouvindo nem o frufru do vento que vai aumentando, e se diverte em sacudir o orvalho e fazê-lo cair, nem o piado sempre crescente dos passarinhos que despertam e ficam contando uns aos outros os sonhos que tiveram durante à noite, ou então trocam ideias sobre o berço morno e melodioso onde eles, por entre lanugens e fenos maciós, quando ainda estavam no ninho, e como até ontem estavam sem penas e estão mostrando hoje as primeiras penas, ou então, escancarando sem medida os seus bicos, deixando ver suas gargantas vermelhas, gritando em seus primeiros pedidos de comida. Parece que Ele está escutando. Mas certamente não está ouvindo o primeiro e zombeteiro chamado do melro, o primeiro e suave canto da toutinegra, nem a nota de ouro trilada pela cotovia que se levanta festiva para os primeiros raios do sol, nem o gorgeio, que rasga o ar tranquilo, por onde vão indo as numerosas andorinhas que abandonam os rochedos, onde haviam feito os seus ninhos, e começam a tecer o seu tecido com seus incansáveis voos da terra para o céu. Nem tampouco ouve o desconjuntado grito de uma pega, que está balanceando-se em um ramo de carvalho, junto ao qual está Jesus, e parece estar perguntando-lhe: “Quem és tu? Que estás pensando?”, e se ri dele. Nem mesmo isto foi capaz de interromper sua meditação.
Mas quem é que não sabe que as pegas são umas despeitadas? E esta, já cansada de ficar vendo um intruso no pequeno prado que talvez seja o seu lugar de delícias, arranca do carvalho duas bonitas bolotas, unidas pelo mesmo pecíolo e, com a precisão de um campeão de tiro, as faz cair sobre a cabeça de Jesus. Não é um projétil pesado, capaz de ferir, mas, por causa da altura de onde caiu, ganha sempre tanta força, a ponto de despertar o Meditador, que olha para cima, e vê o pássaro com as asas abertas e com cômicas reverências, pois ficou contente com o tiro que acertou. Jesus tem um leve sorriso, sacode a cabeça, dá um suspiro, como para terminar suas meditações, e sai dali, começando a caminhar para um lado e para outro. A pega dá uma risada e uns pios de zombaria, desce para espojar-se e procurar, ciscando pelo meio da grama, ao ver-se livre do intruso.
455.3 Jesus agora está procurando água, mas não acha. Resigna-se a voltar para junto dos apóstolos, mas os passarinhos o ensinam onde poderá encontrá-la. Aos bandos, eles descem por sobre umas flores muito grandes, que têm um cálice e elas próprias são como uns pequenos copos que contêm água, ou então, vão pousar sobre umas folhas grandes e peludas que em cada pelo retêm uma gota de orvalho. Lá eles matam sua sede, ou se lavam. Jesus faz como eles. Recolhe no côncavo das mãos a água dos cálices e com ela refresca o seu rosto, apanha as grandes folhas peludas, e com elas tira a poeira de seus pés descalços, limpa suas sandálias, amarra-as aos pés, com outras lava as mãos até vê-las limpas, e sorri, murmurando:
– As divinas perfeições do Criador!
Agora, Ele se refrescou, pôs-se em ordem, pois, com a mão úmida, penteou até os cabelos e a barba, enquanto o primeiro raio do sol faz do prado uma esteira de diamantes, Ele vai despertar os apóstolos e as mulheres.
455.4 Elas e eles custam a despertar, cansados como estão. Mas Maria já acordou e se conserva imóvel, por causa do menino, que está dormindo apegado ao seu peito, com sua cabecinha por baixo do queixo de Maria. E a Mãe, vendo aparecer na entrada da caverna o seu Jesus, lhe sorri com seus doces olhos celestes, enrubescendo pela alegria de vê-lo. E deixa livre o menino que choraminga um pouco, ao ver-se movido, e põe-se de pé, indo para Jesus, em silêncio, com o seu passinho ainda sem firmeza, como o de uma pomba recatada.
– Deus te abençoe, meu Filho, neste dia.
– Deus esteja contigo, minha mãe. Foi difícil a noite para ti?
– De fato. Mas também muito feliz. Parecia-me ter-te em meus braços, quando eras pequeno… E eu sonhei que algo como um nó de ouro saísse de tua boca, produzindo um som de uma doçura indizível, e que uma voz me estivesse dizendo… Oh! mas que voz: “Esta é a Palavra que enriquece o mundo e que dá felicidade a quem a ouve e lhe obedece. Ela não tem limite em seu poder, nem no tempo, nem no espaço. Ela salvará.” Oh! Meu Filho! E és Tu, o meu Filho, esta Palavra! Que farei para viver tanto e para fazer tanto quanto é necessário para poder agradecer ao Eterno por me ter feito tua Mãe?
– Não fiques pensando nisso, minha Mãe. Cada batida do teu coração já é um agradecimento a Deus. Tu és o louvor vivo a Deus e sempre o serás, minha Mãe. Tu lhe agradeces desde que existes…
– Não me parece que estou fazendo isso o tanto que é necessário, Jesus. É uma coisa tão grande a que Deus me fez! Afinal, que eu estou fazendo a mais do que o que fazem todas essas boas mulheres que, como eu, são tuas discípulas? Dize-lhe isto, meu Filho, dize ao nosso Pai que me dê um modo de agradecer-lhe, como o dom recebido por mim o merece.
– Minha Mãe! E achas que o Pai tenha necessidade que Eu lhe faça essa pergunta por ti? Ele já preparou o sacrifício que tu lhe deverás oferecer para este louvor perfeito. E perfeita o serás, quando o tiveres oferecido.
– Meu Jesus! Eu compreendo o que queres dizer… Mas, serei eu capaz de pensar naquela hora? A tua pobre Mãe…
– És a bem-aventurada Esposa do Amor Eterno! Minha Mãe, tu és isto. E o Amor pensará em ti.
– Tu o estás dizendo, meu Filho, eu vou descansar sobre a tua Palavra… Mas Tu… reza por mim, naquela hora, que nenhum desses entende e que já está para chegar… Não é verdade? Pois não é verdade mesmo?
Dizer qual a expressão do rosto de Maria, durante este diálogo, é impossível. Não há escritor que possa traduzi-la em palavras sem deixar de alterá-la com afetações, ou tintas imprecisas. Somente quem tem coração, um coração bom, mesmo sendo um coração viril, é que pode dar ao rosto de Maria, com o poder de sua mente, a expressão que ela tem neste momento.
Jesus olha para ela… E essa é outra impressão intraduzível em nossas pobres palavras. E lhe responde:
– E tu, reza por Mim, na hora de minha morte… 455.5Sim. Nenhum desses entende… Não é culpa deles. É Satanás que cria as fumaças para que eles não vejam e fiquem como uns ébrios sem entenderem, por isso, não estão preparados… e mais fáceis de ser derrubados… Mas Eu e tu os salvaremos das insídias de Satanás… Desde agora, Eu os confio a ti, minha Mãe. Lembra-te destas minhas palavras: Eu tos confio. Dou-te a minha herança. Sê para eles a Nutriz. Há pouco Eu estava pensando em quantos, através dos séculos, irá tornar a viver o homem de Keriot, com todas as suas taras. Estava pensando que alguém, que não fosse Jesus, haveria de repelir este ser tarado. Mas Eu não o repelirei. Eu sou Jesus. Tu, durante o tempo em que ainda ficares na terra, como segunda depois de Pedro, na hierarquia eclesiástica1, ele como cabeça e tu como fiel, a primeira de todos como mãe da Igreja, tendo dado à luz a Mim, que sou Cabeça deste Corpo místico, tu não repelirás os muitos Judas, mas socorre e ensina a Pedro, aos irmãos, a João, a Tiago, a Simão, a Filipe, a Bartolomeu, a André, a Tomé e a Mateus a não repelir, a socorrer. Defende-me em meus seguidores, defende-me contra aqueles que quererão dispersar e desmembrar a Igreja nascente. E, através dos séculos, sê tu sempre a que intercede e protege, a que defende e ajuda a minha Igreja, os meus sacerdotes, os meus fiéis do Mal e do Castigo, e também deles mesmos. Quantos Judas, ó Mãe, através dos séculos! E quantos, como uns deficientes que não sabem entender, ou uns cegos e surdos, que não sabem ver ou ouvir, ou estropiados e paralíticos, que não sabem vir… Mãe, todos sob o teu manto! Somente tu podes e poderás mudar os decretos de castigo do Eterno para um ou para muitos. Porque a Trindade nunca poderá negar nada à sua Flor.
– Assim farei, meu Filho. No que depende de mim, vai em paz, rumo à tua meta. A tua Mãe está aqui para te defender em tua Igreja sempre.
– Deus te abençoe, minha Mãe… 455.6Vem! Eu colherei para ti cálices de flores cheios de orvalho perfumado com ele refrescarás o teu rosto, como Eu fiz. Preparou-os para nós o nosso Pai Santíssimo e os passarinhos nos mostraram. Olha como tudo serve na ordenada criação de Deus! Esta esplanada, que está a boa altura, e perto do lago, tão fértil por causa das névoas que sobem do Mar da Galileia, por causa das altas árvores que atraem as orvalhadas, oferecem condições para este vicejar de ervas e de flores, até mesmo no mais forte calor do verão. Estas chuvas abundantes de orvalho servem para encher estes cálices, a fim de que seus filhos possam lavar seus rostos… Vede quantas coisas o Pai pôs à disposição dos que o amam. Toma. Água de Deus, servida em cálices de Deus, para que se refresque a Eva do novo Paraíso.
Jesus colhe estas flores tão grandes, que eu não sei como se chamam, e derrama nas mãos de Maria a água que escorreu para o fundo.
455.7 Enquanto isso, os outros saíram juntos e estão procurando a Jesus, que se afastou alguns metros do lugar onde haviam parado.
– Estamos prontos, Mestre.
– Está bem. Vamos para este lado.
– Mas ele é bom? Por aí não há mais bosque, nós estávamos indo por baixo de bosques na outra vez… –observa Tiago de Zebedeu.
– É porque estávamos subindo do lago. Mas agora podemos tomar o caminho certo. Estais vendo? Lá está Gamala entre o nascente e o sul, e o único caminho é este. Porque os outros três lados são intransitáveis, para quem não for como uma cabra selvagem.
– Tens razão. Vamos evitar o grande vale árido, do qual nós vimos que vinham para cá os endemoninhados –diz Filipe.
Eles vão em passos rápidos, deixando logo o bosque sob o qual dormiram, indo por um caminho pedregoso que fica do outro lado de um pequeno vale que vai-se alargando sempre mais, à medida que se aproxima do esquisito monte sobre o qual Gamala está pendurada, e que é a pique dos três lados, isto é, a leste, ao norte e a oeste, e fica ligado ao resto da região apenas por esta única estrada, que se dirige de norte a sul, construída no alto, entre dois vales pedrentos e selvagens que a separam dos campos do oriente e dos bosques de carvalho ado ocidente.
455.8Muitos porqueiros passam por entre suas grunhidoras manadas e se dirigem aos bosques de carvalho. Carros carregados de pedras esquadrejadas passam chiando, puxados por uns vagarosos bois encangados. Mas um ou outro cavaleiro passa, levantando nuvens de poeira. Grupos de cavadores, creio eu que uma parte deles são escravos, ou condenados a trabalhos forçados por algum motivo, vão passando, esfarrapados e magros, dirigindo-se para os seus trabalhos sob a vigilância dura dos capatazes.
À medida que o monte vai se avizinhando e a estrada começa a subir, veem-se fossos fortificados, como umas incisões feitas no monte, parecendo uns anéis apertados a seus lados. Fazer as covas para tais obras ali não deve ter sido fácil, especialmente em certos pontos, que estão quase fora do prumo. Mas assim mesmo aí estão homens trabalhando, uns consertando as fortificações já existentes, outros a fazerem outras, carregando para isso sobre os ombros nus grandes blocos de pedra, que fazem que aqueles infelizes se dobrem ao peso, e deixam sulcos sangrentos em seus ombros nus.
– Mas que é que estes cidadãos estão fazendo? Por acaso, é tempo de guerra para se ter que trabalhar assim? Eles estão doidos! –dizem uns aos outros os apóstolos, enquanto as mulheres se compadecem daqueles infelizes seminus e mal nutridos, que estão sendo obrigados a esforços superiores às suas forças.
– Mas, quem os faz trabalhar assim? É o Tetrarca, ou são os romanos? –perguntam ainda os apóstolos.
E discutem uns com o outros porque parece que Gamala seja, direi assim, independente da Tetrarquia de Filipe e da Tetrarquia de Herodes, porque a diversos apóstolos parece impossível que os romanos se ponham a construir em casa dos outros fortificações que amanhã poderiam ser usadas contra eles. E a eterna ideia, fixa como toda ideia maníaca, do Reino temporal do Messias, está sendo agitada como uma insígnia de uma vitória já certa, de glória e independência nacional.
455.9 Eles estão gritando tão alto, que alguns dos capatazes se aproximam e ficam escutando. São uns homens rudes, de raça visivelmente não hebraica, muitos deles já idosos, muitos com cicatrizes por sobre o corpo todo. Mas o que eles são, quem o diz é esta saída de um deles:
– “O nosso reino.” Ouviste, Tito? Ó narigudos! O vosso reino já está esmagado debaixo destas pedras. Quem se serve do inimigo para construir contra o inimigo, serve ao inimigo. Palavras de Públio Corfínio. E, se não as entendeis, tratai de fugir. E as pedras vos explicarão o enigma –e se ri, levantando o chicote, por ter visto que um dos trabalhadores, exausto, vacila e cai.
Iria golpeá-lo, se Jesus não o fizesse parar, pondo-se diante dele, dizendo:
– Isto não te é permitido. Ele é um homem como tu.
– Quem és tu que te metes no assunto, e defendes um escravo?
– Eu sou a Misericórdia. O meu nome humano, tu não o compreenderias. Mas o meu atributo te faz lembrar que Eu sou misericordioso. Tu disseste: “Quem se serve do Inimigo para construir contra o inimigo, serve ao inimigo.” Disseste uma dolorosa verdade. Mas Eu te digo uma outra que é luminosa: “Quem não usa de misericórdia, não achará misericórdia.”
– És tu um reitor?
– Eu sou a Misericórdia, como te disse.
Alguns de Gamala, que vão indo para lá, dizem:
– É o Rabi da Galileia. Aquele que lá deu ordem às doenças, aos ventos, às águas e aos demônios, que muda as pedras em pão, e nada lhe resiste. Vamos correr e ir dizê-lo na cidade. Que venham os doentes! Que tenhamos a sua palavra. Porque nós somos também Israelitas –e, enquanto uma parte deles sai correndo, outra se une ao Mestre.
O capataz, que estava falando antes, diz:
– É verdade o que estes estão dizendo de Ti?
– É verdade.
– Faze um milagre, que eu crerei.
– Para crer não se pedem milagres. O que se pede é fé para crer, e assim obter o milagre. Fé e piedade para com o próximo.
– Eu sou pagão…
– Esta não é uma razão válida. Tu vives em Israel que te dá dinheiro.
– Porque eu trabalho.
– Não. Porque tu fazes trabalhar.
– Eu sei fazer trabalhar.
– Sim, sem piedade. Mas nunca terás refletido que, se em vez de seres romano, tivesses sido de Israel e terias podido estar no lugar de um destes?
– Ora… Com certeza… Mas eu não o sou, por proteção dos deuses.
– Não poderiam defender-te os teus ídolos vãos, se o verdadeiro Deus quisesse ferir-te. Ainda não estás morto. Sê, pois, misericordioso, para alcançares misericórdia…
O homem quereria rebater, discutir, mas depois faz um encolher de ombros de desdém, e lá se vai para bater em um que parou de trabalhar com a picareta em um veio muito duro da rocha.
Jesus olha para o infeliz que foi chicoteado, dirige um olhar para o chicoteador. São dois olhares de uma igual, ainda que, ao mesmo tempo, diferente piedade, que são também de uma grande tristeza, que me lembra certos olhares de Cristo durante sua Paixão. Mas, que Ele pode fazer? E, tornado impotente para intervir, Ele retoma o seu caminho, com aquele peso das desventuras vistas a agravar-lhe o coração.
455.10 Mas de Gamala vem descendo, de carreira, alguns moradores, certamente alguns dos notáveis, que chegam até Jesus, e o saúdam, inclinando-se profundamente, convidando-o a entrar na cidade para falar aos moradores que, por sua conta, estão chegando em grandes grupos.
– Vós podeis ir por onde quereis. Estes (e mostra os trabalhadores) não podem.. A hora está ainda fresca e o lugar em que estamos ainda nos protege do sol. Vamos para perto daqueles infelizes para que eles também recebam a Palavra de Vida –responde-lhes Jesus.
E Ele se encaminha na frente deles, voltando sobre os próprios passos, depois, entrando por um caminho acidentado, que se dirige justamente para o pé do morro, precisamente para o ponto em que o trabalho é mais penoso. Ele diz:
– Se estiver em vosso poder fazer o que Eu digo, mandai que o trabalho seja suspenso.
– Certamente nós o podemos. Somos nós que pagamos e, se pagamos as horas em que eles não trabalham, ninguém poderá ficar se lamentando –dizem os de Gamala.
E vão conversar com os capatazes, que eu estou vendo como depois de alguns instantes, levantam os ombros, como para dizer: “Estais contentes, vós? Mas nós, que temos com isso?”
E depois dão uns assobios para as turmas, como sinal de que devem parar.
Jesus, enquanto isso, falou com outros de Gamala, que eu estou vendo como fazem sinais de consentimento e partem, em passos rápidos, voltando para a cidade.
Os trabalhadores se aproximam cheios de medo, indo ficar ao redor dos capatazes.
– Parai o trabalho. O barulho aborrece ao filósofo –ordena um deles, talvez o chefe de todos.
Os trabalhadores olham com seus olhos cansados para aquele que foi chamado de “filósofo”, e que lhes está dando o presente de uma parada. E esse “filósofo”, olhando para eles com piedade, corresponde ao olhar deles e às palavras do capataz, dizendo:
– Não é o barulho que me aborrece, mas o que me dá pena é a miséria deles. Vinde, meus filhos. Descansai vossos membros, e, ainda mais os vossos corações, ao lado do Cristo de Deus.
O povo, os escravos, os condenados, os apóstolos, os discípulos se aglomeram dentro do espaço livre, entre o monte e as trincheiras, e quem não acha lugar por ali, sobe para a fileira mais alta das trincheiras, ou se arruma sobre os blocos de pedra deixados pelo chão, e os menos sortudos se resignam a ir para a estrada, aonde já estão chegando os raios do sol. E sempre outras pessoas vão chegando, de Gamala, ou então vão ficando parados aqueles que estavam vindo de outros lugares para Gamala.
É grande a multidão. E no meio dela vão abrindo passagem os que haviam saído pouco antes. Eles trazem cestos e vasilhas pesadas. E conseguem abrir caminho até Jesus, que ordenou aos aos apóstolos que colocassem na primeira fila os trabalhadores. Eles põem os cestos e ânforas aos pés de Jesus.
– Dai a estes a oferta da caridade –ordena Jesus.
– Receberam seu alimento, e ainda há água e pão. Se comem muito, ficam pesados para o trabalho –grita um dos capatazes.
Jesus olha para ele e repete a ordem dada:
– Dai a estes um alimento de homens, e trazei para mim o alimento deles.
Os apóstolos, ajudados pelos que estão dispostos a isso, fazem o que foi mandado.
O alimento deles! É uma espécie de crosta escura, dura, que não servia nem para ser dada aos animais, pouca água, misturada com vinagre. Eis o alimento de uns pobres forçados! Jesus olha e manda colocar no chão aquela miserável comida. Depois olha para aqueles que deviam consumi-la, uns corpos desnutridos nos quais somente os músculos, excessivamente desenvolvidos por causa dos esforços acima dos comuns, resistem com feixes de fibras que parecem querer saltar para fora da pele frouxa, com olhos febris e amedrontados, com umas bocas ávidas e quase animalescas quando mordem a comida boa, abundante, inesperada, e quando bebem o vinho, o verdadeiro vinho fortificante e fresco…
Jesus espera com paciência que eles terminem a refeição. E não precisa esperar muito, porque a avidez é tão grande que logo tudo se acaba.
455.11 Jesus abre, então, os braços, no seu gesto habitual de quando está para falar, afim de chamar a atenção e impor silêncio. Ele diz:
– Neste lugar, o que veem os olhos do homem? Vales cavados mais profundamente do que a natureza os criou, colinas com montões de terra e aterrados feitos pelo homem, estradas sinuosas ou que avançam pela superfície do monte, formando como que umas tocas de animais. E tudo isso para quê? Para deter um perigo que não se sabe de onde vem, mas que se percebe que nos está ameaçando como uma chuva de pedras que vem e um céu tempestuoso.
Em verdade, aqui se procedeu humanamente, com forças humanas e meios humanos, até desumanos, a fim de se defender e preparar os meios de ofender, esquecidos a palavra2 do Profeta, o qual ensina ao seu povo como pode defender-se das desventuras humanas, com meios sobre-humanos, que são os mais válidos. Ele grita: Consolai-vos, tornai a consolar Jerusalém, porque a sua escravidão terminou, a sua iniquidade está expiada, tendo recebido da mão do Senhor o dobro do merecimento por seus pecados. E, depois da promessa, diz qual o modo a seguir-se para traduzi-la em realidade: “Preparai os caminhos do Senhor, endireitai na solidão os caminhos de Deus. Todo vale será terraplenado, toda montanha será arrasada, os caminhos curvos se tornarão retos e os acidentados, planos. Então, aparecerá a glória do Senhor, e todos os homens, sem exceção, a verão, porque a boca do Senhor falou.” Estas palavras foram tomadas do homem de Deus: João, o Batizador, e só por sua morte é que elas foram canceladas em seus lábios.
Eis ali, ó homens, a verdadeira defesa contra as desventuras do homem. Não arma contra arma, defesa contra defesa, não orgulho, não ferocidade. Mas armas sobrenaturais, virtudes conquistadas na solidão, isto é, no interior do indíviduo, sozinho consigo mesmo, que trabalha para santificar-se, elevando montes de caridade, abaixando cumes de soberba, endireitando os caminhos curvos da concupiscência, tirando de seu caminho os obstáculos da sensualidade. Então aparecerá a glória do Senhor e o Homem terá a defesa de Deus contra as insídias dos inimigos, espirituais e materiais. Que quereis que sejam umas poucas trincheiras, uns poucos bastiões, uns poucos fortes contra o castigo de Deus, atraído pelas iniquidades ou até pelas tibiezas do homem? Contra estes castigos, cujos nomes serão: os romanos, como, já os tiveram nos tempos antigos, os babilônios, os filisteus, os egípcios, mas que na realidade são uma punição divina, e somente esta, como punição atraída pelos demasiados orgulhos, pelas sensualidades, pelas cupidezes, as mentiras, os egoísmos, as desobediências a Lei Santa do Decálogo. O homem, por mais forte que seja, pode ser morto por uma mosca. A cidade, por mais fortificada que seja, pode ser expugnada, quando para ele ou para ela não houver mais proteção de Deus, proteção da qual fugiram, por causa dos pecados do homem ou da cidade.
455.12 Diz ainda o Profeta: “Todo homem é como a erva, toda sua glória é como a flor do campo. A erva seca, e a flor cai, logo que toca nela o sopro do Senhor.”
Vós, por minha vontade, olhai hoje com piedade para estes que até ontem havíeis olhado como para umas máquinas, obrigadas a trabalhar para vós. Hoje, porque Eu vo-los enviei, como irmãos entre irmãos, como pobres irmãos ao meio de vós ricos e felizes, hoje os estais vendo como o que eles são: homens. O desprezo ou a indiferença caíram de muitos corações, e entrou neles a piedade. Mas considerai-os mais em seu interior, além de sua carne oprimida. Dentro desta, dentro dele existe uma alma, há um pensamento, há sentimentos como em vós. Um dia eles foram como vós: sãos, livres, felizes. Depois não o foram mais. Porque somos como a erva que seca, e a vida do homem é ainda mais frágil em seu bem-estar. Aqueles que hoje estão sãos, amanhã podem estar doentes; os que hoje estão livres, amanhã podem ser escravos; os que hoje estão felizes, amanhã podem ser infelizes. Entre eles certamente há culpados. Mas não julgueis a culpa deles, nem vos regozijeis por sua expiação. Amanhã, por muitas causas, poderíeis vós também ser os culpados e obrigados a pesadas expiações. Portanto, sede misericordiosos, porque não sabeis como será o vosso amanhã, que poderia ser cheio da necessidade de toda misericórdia divina e humana, poderia ser muito diferente deste dia de hoje. Sede inclinados ao amor e ao perdão. Não há homem na Terra que não tenha necessidade do perdão de Deus e de qualquer dos seus semelhantes. Procurai, pois, o perdão, para poderdes ser perdoados.
455.13Diz ainda o Profeta: “A erva seca, a flor cai. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre.”
Aqui está a arma e a defesa: a Palavra eterna, tendo-se tornado a lei para todas as vossas ações. Levantai este baluarte verdadeiro contra o perigo que vos ameaça e sereis salvos. Portanto, acolhei a Palavra d’Este que vos está falando, mas não a acolhais materialmente, por a terdes durante uma hora dentro dos muros da cidade, mas principalmente em vosso coração, para sempre, porque Eu sou O que sabe, o que opera e rege com poder. Sou o Pastor bom, que apascenta o rebanho que se lhe confia, e de nenhum Eu deixo de cuidar, nem do que é pequeno, nem de quem está cansado, nem de quem está ferido, ou golpeado pela má sorte, nem de quem está chorando por seus erros, nem do que está rico e feliz, mas não deixa de dar atenção a tudo o que faz a verdadeira riqueza e felicidade, que é a de servir a Deus até à morte.
O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor me mandou anunciar a Boa Nova aos mansos, curar os de coração arrependido, pregar a liberdade aos escravos e a libertação aos prisioneiros. Não se pode dizer que Eu sou um sedicioso, porque Eu não instigo ninguém à revolta, nem aconselho a evasão aos escravos e prisioneiros, mas ao homem acorrentado, ao homem escravizado ensino a verdadeira liberdade, a verdadeira libertação, a que não lhe pode ser tirada, nem tampouco limitada, que cresce tanto mais, quanto mais a ela o homem se entrega: a liberdade espiritual, a libertação do pecado, a mansidão na dor, o saber ver a Deus acima daqueles homens que os acorrentam, saber crer que Deus ama a quem o ama, e perdoa as coisas que o homem não perdoa, o saber esperar um lugar eterno, que será o prêmio para quem sabe ser bom na desventura, arrependido dos seus pecados e fiel ao Senhor.
Não choreis, vós, a quem Eu especialmente estou falando. Eu vim para consolar, para acolher os rejeitados, para pôr luz em suas trevas e paz em suas almas, para prometer uma morada de alegria, tanto a quem se arrepende, como a quem não tem culpa. Nem há para vós um tempo passado que possa impedir a realidade deste tempo Presente, que está esperando no céu aqueles que agora sabem servir ao Senhor, na sorte em que agora se encontram.
455.14 Não é difícil, ó pobres filhos, servir ao Senhor. Ele vos deu um modo fácil de servi-lo, porque vos quer felizes no Céu. Servir ao Senhor é amor. Amar a vontade de Deus, porque amais a Deus. A vontade de Deus se esconde até nas coisas aparentemente mais humanas. Porque Eu falo a vós que talvez tenhais derramado o sangue de irmãos; porque, se certamente não era vontade de Deus que vós fôsseis violentos, agora é vontade dele que na expiação anuleis as vossas dívidas para com o Amor. Porque, se não era vontade de Deus que vos rebelásseis contra os inimigos, agora é vontade dele que vos torneis humildes, assim como num tempo passado vos tornastes orgulhosos, para prejuízo vosso. Porque, se não era vontade de Deus que com fraude, grande ou pequena, vós vos apropriásseis daquilo que não era vosso, agora A vontade de Deus que sejais punidos por não unir-vos a Deus, tendo o pecado em vosso coração.
E isso não deve ser esquecido pelos felizes de agora, os que se creem seguros, os que, por essa estulta segurança, não preparam em si o Reino de Deus, e serão, na hora da prova, como filhos afastados da casa do Pai, sob o domínio da tempestade, sob o açoite da dor.
455.15 Trabalhai todos com justiça e levantai os olhos para a Casa do Pai, para o Reino dos Céus, que, quando tiver escancarado as portas por Aquele que veio para abri-las, não se recusará a acolher a alguém que tenha praticado a justiça. Ó mutilados na carne, ó estropiados, ó eunucos, ó mutilados no espírito, estropiados e eunucos nas faculdades do espírito, excluídos em Israel3, não tenhais medo de não
encontrardes lugar no Reino dos Céus. As mutilações, os aleijões, os defeitos da carne terminam com a carne. Os defeitos morais, como a prisão e a escravidão, cessarão também um dia. Os do espírito, isto é, os frutos das culpas passadas se reparam com a boa vontade. E as mutilações materiais não têm importância aos olhos de Deus, ao passo que as espirituais se anulam, aos seus olhos, quando são cobertas por um arrependimento amoroso.
O fato de serem alguns estranhos ao Povo Santo não é mais impedimento para servir ao Senhor. Porque chegou o tempo no qual as fronteiras da terra cessam diante do Único Rei, do Rei de todos os reis e povos, que reúne todos os povos em um só, para fazer deles o seu novo Povo. Aquele povo do qual ficarão excluídos somente os que procuram enganar o Senhor com um mentiroso obséquio ao seu Decálogo que todos os homens de boa vontade podem seguir, sejam eles hebreus ou gentios, ou idólatras. Porque, onde houver boa vontade, há também a tendência natural para a justiça, e quem se inclina para a justiça não acha dificuldade em adorar o verdadeiro Deus, quando chegar a conhecê-lo, a respeitar o seu Nome, a santificar as suas festas, a honrar os seus pais, a não matar, não roubar, a não dar falso testemunho, a não ser adúltero e fornicador, a não ser ávido daquilo que não é seu. E, se até agora ainda não fez assim, que de agora em diante o faça, para que se salve a sua alma e seja conquistado um seu lugar no Céu. Está escrito: “Eu lhes darei um lugar na minha Casa, se cumprirem o seu Pacto comigo, e os tornarei alegres. E isso está dito aos homens de vontade santa, sendo o Santo dos Santos Pai comum de todos os homens.
455.16 Tenho dito. Eu não tenho dinheiro para esses. Nem ele seria útil a eles. Mas Eu digo a vós, de Gamala, vós que tanto progredistes no caminho do Senhor, desde a primeira vez que nos encontramos, que ergais a mais forte defesa de vossa cidade, a do amor entre vós, e por estes, socorrei-os em em meu Nome, enquanto eles se cansam por vós. Vós fareis isso?
– Sim, ó Senhor –grita a multidão.
– Então, vamos embora. Eu não teria entrado para dentro dos vossos muros, se a dureza dos corações tivesse respondido “não” à minha pregação. Vós que ficais, sede abençoados… Vamos…
E Jesus volta ao caminho, já todo ensolarado, sobe para a cidade construída quase na rocha, como uma cidade troglodita, mas dotada de casas bem feitas de um panorama muito bonito e variado, conforme o ponto de onde é olhado ou sobre os montes de Auranítide, ou por sobre o Mar da Galileia, ou por sobre o longínquo Grande Hermon, ou sobre o vale verde do Jordão. A cidade é fresca também por causa do modo como foi construída, num lugar alto e com ruas que estão protegidas contra o ardor máximo do sol. Ela parece mais um enorme castelo do que uma cidade, uma sucessão de fortalezas, tanto pelas casas como também por ter ela metade em muros e metade em escavações na montanha, o que lhe dá um aspecto de fortaleza.
Na praça maior, a mais alta de todas, o ponto mais alto da cidade, e por isso os olhos se deleitam com o vasto horizonte dos montes, das selvas, dos lagos, dos rios, que estão sob os seus olhares, estão os doentes. E, por entre eles, Jesus passa curando…
1 segunda depois de Pedro, na hierarquia eclesiástica deve-se entender: subordinada a Pedro por se ater à hierarquia eclesiástica, a qual Maria está já excluída: ele, responsável e tu, fiel. Jesus prediz, em 199.6, que a Igreja nascente será confiada como uma criança à autoridade paterna de Pedro e ao amor materno de Maria.
2 palavra, que estão no capítulo 40 do livro de Isaías, segundo a referência inserida por MV em um manuscrita original. As citações do discurso de Jesus estão emIsaías 40,1-8; 56,4-7; 61,1.
3 excluídos em Israel, que excluía deformados e eunucos do serviço do altar (como já lembrado em 96.6 e 419.7) e pelas assembleias de culto (como em 211.7).
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