295. 295. O discurso e os milagres em Arbela,já evangelizada por Filipe de Jacó.


4 de outubro de 1945.

295.1À primeira pessoa a quem perguntam por Filipe de Jacó, logo ficam sabendo quanto trabalhou aquele jovem discípulo. A pessoa que foi interrogada foi uma velhinha, já toda enrugada, que vai levando com dificuldade uma grande vasilha com água e que, fitando seus olhinhos, já encovados pela idade, no belo rosto de João que, sorrindo, lhe fez a pergunta, dizendo-lhe antes a saudação “a paz esteja contigo”, mas de um modo tão suave, que, por ele a velha se viu conquistada, e diz:

És tu o Messias?

Não. Mas apóstolo dele. Ele está lá, e vem vindo.

A velha põe no chão sua vasilha, e parte na direção que lhe foi mostrada, desejosa de ir ajoelhar-se diante de Jesus.

João, que ficou com Simão ao lado da vasilha, que quase virou de borco, tendo derramado a metade da água que ia sendo levada, sorri, dizendo ao companheiro:

Acho que é bom apanharmos esta vasilha e irmos até a velha.

E assim faz, pondo-se a caminho, enquanto o companheiro acrescenta:

E nos servirá para beber. Todos estamos com sede.

Quando estão se aproximando da velhinha, que não sabendo exatamente o que dizer, continua a repetir:

Belo, santo Filho da mais santa das Mães –e que continua de joelhos, e bebendo com seus olhos a figura de Jesus que, sorrindo, vai repetindo, por sua vez:

Levanta-te, mãe. Afinal, levanta-te.

Ao chegarem perto dela, João lhe diz:

Nós apanhamos a tua vasilha, mas ela quase se virou de boca para baixo. Ela está com pouca água. Mas, se tu nos dás licença, nós vamos beber esta água, e depois iremos encher de novo a tua vasilha.

Sim, meus filhos, sim. E não me agrada não ter mais do que água para vos oferecer. Leite é o que eu quereria ter em meus peitos, como quando eu alimentava meu Judas, para poder dar-vos a bebida mais doce que há sobre a terra, o leite de uma mãe. Eu quereria ter vinho, e do melhor, para dar-vos mais forças. Mas Mariana de Eliseu é velha e pobre…

A tua água para Mim é vinho e é leite, mãe, porque é dada com amor –responde Jesus, bebendo em primeiro lugar, da vasilha que João lhe apresenta. Depois os outros bebem.

A velha, que afinal se levantou, olha para eles, como se estivesse olhando para o Paraíso, e, quando vê que todos já beberam, e que estão para jogar fora a água que sobrou, e para se dirigirem à fonte, que lá está cantarolando no fim da rua, aí eis que a velha se joga diante deles, agarrando a vasilha dizendo:

Não, não. Mais do que a água lustral, é santa esta, da qual Ele bebeu. Eu a conservarei com cuidado, para ser com ela purificada, depois da minha morte.

E segura a vasilha, dizendo:

Vou levá-la para casa. Eu tenho outras como esta. E vou enchê-las. 295.2Mas antes vem, ó Santo, que eu vou te mostrar a casa de Filipe.

E caminha, ligeira, e dando pulinhos, toda encurvada, mas com o rosto rugoso sorrindo e reavivado pela alegria. Ela vai dando seus pulinhos e segurando a aba do manto de Jesus entre os dedos, como se tivesse medo de que Ele se lhe escapasse, e defendendo a sua vasilha das insistências dos apóstolos, que não quereriam que ela se fosse, transportando aquele peso. Mas ela lá se vai, feliz, dando os seus pulinhos, olhando para a rua e para as casas de Arbela, vazia a primeira e fechadas as outras, nesta tarde que já vem chegando. Ela vai indo com o olhar de um vencedor, que está feliz com sua vitória.

Finalmente, passando desta rua secundária para outra mais central, onde há pessoas que se apressam para chegarem a suas casas — e as pessoas, espantadas, a estão observando, apontando-a e a interpelando — ela, depois de ter esperado que se formasse em torno dela um círculo de pessoas, grita:

Está aqui comigo o Messias de Filipe. Cor-rei a levar esta notícia por toda parte e, em primeiro lugar, à casa do Jacó. Que eles estejam prontos para virem honrar o Santo!

Ela grita, a ponto de perder o fôlego. Sabe fazer-se obedecer. Agora é a sua hora de comando, para a pobre velhinha do meio do povo, sozinha, desconhecida. E vê uma cidade inteira mover-se sob o seu comando.

Jesus, muito mais alto do que ela, sorri, quando ela olha para Ele, de vez em quando, e lhe põe a mão sobre a cabeça já senil, como fazendo-lhe uma carícia de filho, o que a faz quase desfalecer de felicidade.

295.3A casa do Jacó está em uma das ruas do centro. Toda aberta e iluminada, ele mostra, desde o portão, uma larga entrada na qual muitas pessoas agitam suas luzes, pessoas que correm para fora, a fim de festejá-lo, logo que Ele aparecer na rua. Lá estão o jovem discípulo Filipe e, atrás dele, sua mãe e seu pai, os parentes, os servos, os amigos.

Jesus para, responde com benevolência à saudação respeitosa de Jacó, depois se inclina para a mãe de Filipe, que o venera ajoelhando-se, e a faz levantar-se, abençoando-a, e dizendo-lhe:

Sê sempre feliz pela tua fé.

Depois saúda o discípulo que veio com o outro, que já estava com ele, e que Jesus saúda também.

A velha Mariana, apesar de tudo, não solta a aba do manto, nem cede o seu lugar ao lado de Jesus, enquanto não estão ainda pondo o pé na entrada. É aí que ela geme:

Uma bênção para que eu seja feliz! Agora Tu estás aqui… eu vou para minha pobre casa e… e tudo o que é bonito se acabou!

Quanta saudade naquela voz senil!

Jacó, ao qual sua mulher falou em voz baixa, diz:

Não, Mariana de Eliseu. Fica tu também na minha casa, como se tu fosses uma discípula. Fica, enquanto o Mestre estiver conosco, e alegra-te com isso.

Deus te abençoe, homem. Tu compreendes a caridade.

Mestre… Ela te conduziu à minha casa. Tu me fizeste esta graça e caridade. Eu não estou fazendo nada mais do que retribuir, e sempre de uma maneira deficiente, ao muito que de Ti e dela eu recebi. Entra, entrai, e hospedai-vos em minha casa.

Lá fora, na rua, a multidão os vê entrar, e grita:

E nós? Nós queremos ouvir a palavra dele.

Jesus se vira para eles:

Já é noite. Vós estais cansados. Preparai vossa alma para um santo repouso, e amanhã ouvireis a palavra de Deus. Por enquanto, estejam convosco a paz e a bênção.

E o portão se fecha, com a bênção e paz que vêm daquela casa.

Tiago de Zebedeu faz uma observação ao Senhor, enquanto estão lavando as mãos, após a viagem:

Talvez fosse melhor falar logo, e partir amanhã cedo. Os fariseus estão na cidade. Filipe me disse. Eles te irão aborrecer.

Os que teriam ficado aborrecidos por causa deles estão longe. O aborrecimento que Me poderão dar não tem importância. O amor o anulará.

295.4Na manhã seguinte… A saída da casa está muito festiva, com a presença dos familiares de Filipe, e dos apóstolos. A velhinha vai atrás. Dá-se o encontro com os habitantes de Arbela que, pacientes, o estão esperando. Dirigem-se para a praça principal, onde Jesus já está começando a falar.

-se no capítulo oitavo do segundo livro de Esdras isto que agora vou repetir-vos: “Tendo chegado o sétimo mês…” –(Jesus me diz: “Não ponhas outra coisa. Estou repetindo integralmente as palavras do livro1”).

Quando é que um povo volta para sua pátria? Quando volta para as terras de seus pais. Eu venho para levar-vos de novo para as terras do vosso Pai, para o Reino do Pai. E Eu posso fazer isso, porque para isso é que Eu fui enviado. Eu venho, pois, para levar-vos para o Reino de Deus, e por isso é justo comparar-vos com os repatriados que chegaram com Zorobabel a Jerusalém, a cidade do Senhor, e é justo fazer convosco como o escriba Esdras fez com o povo reunido de novo do lado de dentro dos sagrados muros. Porque reconstruir uma cidade e dedicá-la ao Senhor, mas fazê-lo deixando de reconstruir as almas, que são como umas pequenas cidades de Deus, seria uma estultícia inominável.

Como reconstruir estas pequenas cidades espirituais, que tantas causas fizeram desmoronar? De que materiais iremos lançar mão para reconstruí-las sólidas, belas e duradouras? Os materiais estão nos preceitos do Senhor, os dez mandamentos, e vós os sabeis, porque Filipe, vosso filho e meu discípulo, vo-los fez recordar. Os dois santos, entre os santos preceitos, são: “Ama a Deus com todo o teu ser. E ao próximo como a ti mesmo.” Nestes dois está o compêndio da Lei. E estes são os que Eu prego, porque com eles está assegurada a conquista do Reino de Deus. No amor é que se encontra a força de conservar-se santos, de se tornar santos, a força do perdão, a força do heroísmo nas virtudes. Tudo se encontra no amor.

295.5Não é o medo o que salva. O medo do julgamento por Deus, o medo das sanções humanas, o medo das doenças. O medo nunca foi construtivo. Ele abala, tritura, desorganiza, arrebenta. O medo leva ao desespero, a buscar artifícios para esconder as malfeitorias, a temer, quando o temor é inútil, porque o mal já está em nós. Quem pensa, enquanto está são, em agir com prudência, por ter dó do seu corpo? Ninguém. Mas, logo que o primeiro arrepio da febre percorre as suas veias, ou uma mancha o faz pensar em doenças imundas, eis que, então, vem o medo, com um tormento aliado da doença, como mais uma força desagregadora, em um corpo que a doença já começou a desagregar. O amor, pelo contrário, é construtor. Ele edifica, solidifica, mantém a compacidade e preserva. O amor nos leva a ter esperança em Deus. Ele nos leva a evitar fazer o mal. O amor nos leva a ser prudentes para com a nossa própria pessoa, que não é o centro do universo, como pensam e como agem os egoístas e os falsos amorosos de si mesmos, porque amam de si mesmos só uma parte: a menos nobre, com prejuízo da parte imortal e santa, a que sempre nós temos o dever de conservar sã, enquanto Deus não desejar o contrário, para poderem ser úteis a si mesmos, aos pais, à própria cidade e a toda a nação.

É inevitável que venham as doenças. E não está dito que toda doença seja prova da existência de algum vício, ou uma punição. Há santas doenças, mandadas pelo Senhor aos seus justos, para que no mundo, que pensa que ele mesmo e tudo é um meio de prazer, haja santos, que são como uns reféns de guerra, para a salvação dos outros, e que pagam pessoalmente, a fim de que seja expiada, com o seu sofrimento, que o mundo diariamente vai acumulando, e que terminaria desmoronando sobre a Humanidade, sepultando-a sob a sua maldição. Estais lembrados2 do velho Moisés, orando, enquanto Josué combatia em nome do Senhor? Deveis pensar que, quem sofre com santidade, move a maior das ofensivas ao feroz guerreiro que está no mundo, escondido sob as aparências de homens e de povos, a satanás, e, naquela ofensiva, ele se bate também por todos os outros homens. Mas, que grande diferença destas santas doenças, que Deus envia, daquelas que são mandadas pelo vício, por algum pecaminoso amor para com a sensualidade! As primeiras são provas da vontade benéfica de Deus para conosco; as segundas são provas da corrupção, que vem de satanás.

Porém, é necessário amar para ser santos, porque o amor cria, preserva, santifica.

295.6Também Eu, anunciando-vos esta verdade, vos digo, como Neemias e Esdras: “Este dia é consagrado ao Senhor nosso Deus. Nele não ponhais luto, não choreis.” Porque todo luto há de cessar, quando se vive o dia do Senhor. Com a aspereza da morte, porque da perda de um filho, de um esposo, de um pai, de uma mãe ou irmãos, vem apenas uma separação temporária e limitada. Temporária, porque ela cessa com a nossa morte. Limitada, porque se limita ao corpo, aos sentidos. A alma nada perde com a morte do parente falecido, pelo contrário, com isso, não fica limitada a liberdade em que fica somente uma das partes: a de nós que ainda ficamos vivos com nossa almas encerradas na carne, enquanto que a outra parte, a que já passou para a segunda vida goza da liberdade e do poder de velar por nós, e de conseguir para nós muito, muito mais do que quando ela vos amava, ainda encerrada no cárcere do corpo.

Eu vos digo, como Neemias e Esdras: “Ide comer carnes gordas e beber vinho doce, e mandai porções disso aos que isso não têm, pois hoje é dia consagrado ao Senhor, e por isso nele ninguém deve sofrer. Não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor, que está entre vós, é a força de quem recebe a graça do Senhor Altíssimo dentro dos seus próprios muros, em seus próprios corações.”

Vós não podeis mais fazer os Tabernáculos. O tempo deles já passou. Mas erguei tabernáculos espirituais em vossos corações. Subi ao monte, isto e, crescei na Perfeição. Colhei ramos de oliveiras, de mirto, de palmeiras, de carvalho, de hissopo, de toda planta bela. Ramos das virtudes da paz, da pureza, do heroísmo, da mortificação, de todas, todas as virtudes. Ornai o vosso espírito, celebrando a festa do Senhor. Os seus Tabernáculos vos esperam. Os seus. E são belos, santos, eternos, abertos a todos aqueles que vivem no Senhor. E junto comigo, hoje, proponde fazer penitencia pelo passado, proponde começar uma vida nova.

Não tenhais medo do Senhor. Ele vos chama, porque vos ama. Não tenhais medo. Sois seus filhos, como cada um de Israel. Também para vós Ele fez todas as criaturas e o Céu. Para vós suscitou Abraão e Moisés, abriu pelo meio o mar, criou a nuvem que guiava o povo, desceu do Céu para dar a Lei e abriu as nuvens, para que chovesse o maná, tornou fecunda a rocha, para que ela desse água. E agora, ah! agora também para vós manda o vivo Pão do Céu para as vossas fomes, manda a Verdadeira Videira e a Fonte de Vida eterna para a vossa sede. E, por minha boca, Ele vos diz: “Entrai, e possuí a terra sobre a qual Eu ergui a mão, a fim de vo-la dar.” A minha terra espiritual: o Reino dos Céus.

295.7A multidão troca palavras cheias de entusiasmo… Depois é a vez dos doentes. São muitos. Jesus faz que eles se ponham em duas filas e, enquanto vão fazendo isso, Ele pergunta a Filipe de Arbela:

Por que não os curaste tu?

Para que eles possam ter o que eu tive: a graça de receber a cura por tuas mãos.

Jesus passa, abençoando um por um os doentes e é o prodígio de costume que se vai repetindo de cegos que passam a ver, de surdos que passam a ouvir, de mudos que começam a falar, de encolhidos que se endireitam, de febres que cessam, de fraquezas que desaparecem.

As curas terminaram. 295.8Por fim, tendo sido curado o último doente, chegam os dois fariseus, que haviam ido a Bozra, com mais dois.

A paz esteja contigo, Mestre. E a nós não dizes nada?

Eu falei para todos.

Mas nós, daquelas palavras não temos necessidade. Nós somos os santos de Israel.

A vós, que sois mestres, Eu digo: comentai entre vós o capítulo que vem em seguida, o nono3 do segundo livros de Esdras, lembrando-vos de quantas vezes até hoje Deus usou para convosco de misericórdia, batei no peito, e dizei, como se fosse uma oração, a conclusão do capítulo.

Muito bem, muito bem, Mestre. E os teus discípulos fazem isso?

Sim. É a primeira coisa que exijo deles.

Todos eles o fazem? Até os homicidas, que estão nas tuas fileiras?

Achais que o sangue cheira mal?

A voz dele brada ao Céu.

Nesse caso, fazei por onde não imitar aos que o derramam.

Nós não somos assassinos.

Jesus os fita, transpassando-os com seu olhar. Por algum tempo eles não ousam dizer nada. Mas vão colocar-se atrás do grupo, que vai indo de volta para a casa de Filipe, o qual se sente no dever de convidá-los a entrar e tomar parte no banquete.

Com muito gosto, muito! Estaremos por mais tempo com o Mestre –dizem eles com grandes inclinações.

Mas, tendo chegado à casa, parecem cães sabujos… Olham, especulam, fazem perguntas maldosas aos servos, e até à velhinha, que me parece atraída por Jesus como o ferro pelo imã. Mas ela prontamente lhes responde:

Ontem, eu vi estes sozinhos. Vós estais sonhando. Eu os acompanhei até aqui, e dos discípulos de João não estava aqui senão aquele rapaz louro e bom como um anjo.

Eles fulminam a vovozinha com um palavrão e saem dali para outro lado. Mas um dos servos, sem responder diretamente a eles, inclina-se para Jesus, que está sentado e conversando com o dono da casa, e lhe pergunta:

Onde está João de Endor? Este senhor o está procurando.

O fariseu olha, irado, para o servo, e lhe chama “estulto.”

Mas Jesus já está ciente das intenções deles, e é preciso tomar as medidas possíveis. O fariseu diz:

Era nossa intenção congratular-nos contigo por esse prodígio que é a tua doutrina, Mestre, e prestar-te uma homenagem por aquele que se converteu.

João está longe para sempre e sempre mais o estará.

Ele tornou a cair no pecado?

Não. Ele está subindo para o Céu. Imitai-o e o encontrareis na outra vida.

Os quatro não sabem mais o que dizer e, prudentemente, estão conversando sobre outro assunto.

Os servos anunciam que as mesas já estão prontas e todos passam para a sala do banquete.

[…]

1 as palavras do livro são aquelas de Neemias 8, segundo a neo-vulgata.
2 Estais lembrados, como se narra em Êxodo 17,8-16.
[capítulo] do segundo [livro] de Esdras corresponde, na neo-vulgata, a Neemias 9.


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