652. 652. Despedida da Obra.


[28 de abril de 1947]

Diz Jesus:

– As razões1 que me moveram a iluminar e a ditar episódios e palavras minhas ao pequeno João, além da alegria de comunicar um exato conhecimento de Mim a esta alma-vítima e amorosa são multíplices.

Mas em todas elas, a alma o meu amor para com a Igreja, tanto a purgante como a militante, e o desejo de ajudar as almas em sua subida para a perfeição. O conhecimento de Mim é uma ajuda para a subida. A minha Palavra é Vida.

E Eu elenco as principais:

I. As razões ditas no ditado de 18 de janeiro de 19472, que o pequeno João colocará aqui integralmente. Esta é a razão maior, porque vós estais perecendo e Eu vos quero salvar.

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3 de fevereiro de 1947.

Diz Jesus:

– A razão mais profunda do presente que Eu faço com esta obra, entre as muitas outras que o meu porta-voz conhece, é que nestes tempos — nos quais o modernismo, condenado pelo meu Santo Vigário Pio X, se deteriora cada vez mais, apresentando doutrinas humanas sempre mais perniciosas — a Santa Igreja, representada pelo meu Vigário, tenha matéria a mais para combater aqueles que negam:

– a sobrenaturalidade dos dogmas;

– a divindade de Jesus Cristo;

– a verdade de Cristo Deus e Homem, real e perfeito, tanto na fé como na história que sobre Ele nos foi transmitida (pelo Evangelho, pelo livro Atos dos Apóstolos, pelas Epístolas apostólicas e pela tradição);

– a doutrina de Paulo e de João e a dos Concílios de Nicéia, Éfeso, Calcedônia, e outros mais recentes, como minha verdadeira doutrina, ensinada por Mim verbalmente ou inspirada;

– minha sabedoria ilimitada, por ser divina;

– a origem divina dos dogmas, dos sacramentos e da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica;

– a universalidade e continuidade, até o fim dos séculos, do Evangelho por Mim ensinado a todos os homens;

– a natureza, perfeita desde o começo, da minha doutrina, que não se formou até ser o que é, através de sucessivas transformações, mas foi dada assim: doutrina de Cristo, do tempo de Graça, do Reino dos Céus e do Reino de Deus em vós, divina, perfeita, imutável, Boa Nova para todos os que tem sede de Deus.

Ao dragão vermelho3 com sete cabeças, dez chifres e sete diademas na cabeça, que com a cauda arrasta atrás de si a um terço das estrelas do céu e as faz precipitar — e em verdade Eu vos digo que elas se precipitam ainda mais baixo do que sobre a terra — e que ele persegue a Mulher. Às feras do mar e da terra, que muitos, demais adoram, seduzidos como são pelo aspecto deles e por seus prodígios, oponde o meu Anjo, que voa pelo meio do Céu, segurando o Evangelho Eterno bem aberto, também nas páginas até agora fechadas, para que, por sua luz, os homens possam salvar-se das espiras da grande Serpente das sete fauces, que os quer sufocar em suas trevas; e ao meu retorno eu reencontre ainda a fé e a caridade no coração dos que perseverarem, e sejam eles mais numerosos do que faz esperar e nos dão uma ideia a obra de Satanás e dos homens.

II. Despertar nos Sacerdotes e nos leigos um vivo amor ao Evangelho e a tudo o que se refere a Cristo. A primeira entre todas as coisas, há de ser uma renovada caridade para com minha Mãe, nas orações, nas quais está o segredo da salvação do mundo. Ela, a minha Mãe, é a vencedora do dragão maldito. Ajudai o poder dela, dedicando-Lhe um renovado amor e com uma fé também renovada, e procurando conhecer tudo o que a Ela se refere. Foi Maria que deu ao mundo o Salvador. E o mundo ainda terá por meio Dela a Salvação.

III. Dar aos mestres do espírito e diretores de almas uma ajuda ao seu ministério, estudando o mundo dos diversos espíritos que se agitam ao redor de Mim, e dos diversos modos por Mim usados para salvá-los. Porque seria uma tolice querer-se ter um método único para todas as almas. Diferente é o modo de atrair à Perfeição um justo que espontaneamente já se inclina para ela, do modo que se haverá de usar com um que tem fé mas é pecador, e o que se haverá de usar com um pagão. Vós tendes muitos até entre vós, se chegardes a julgar, como o vosso Mestre, serem gentios aqueles que apenas são uns pobres seres que substituíram o ídolo do poder e da prepotência, ou do ouro, ou da luxúria, ou soberba ou seu saber, ao verdadeiro Deus. E diferente é o método que se haverá de usar para salvar os modernos prosélitos, isto é, aqueles que aceitarão a ideia cristã, mas não junto com uma cidadania cristã, pertencendo a Igrejas separadas. Ninguém seja desprezado, e essas ovelhas dispersas, menos ainda. Amai-as, e procurai reconduzi-las ao Ovil Único para que o desejo do Pastor Jesus se cumpra.

Alguns objetarão, ao lerem esta Obra: “Não se lê no Evangelho que Jesus tenha tido contatos com os romanos ou gregos, e por isso rejeitamos aquelas páginas”. Quantas coisas não constam no Evangelho, ou transparecem apenas por detrás de espessas cortinas de silêncio, deixadas cair pelos evangelistas sobre episódios que, pela inquebrantável mentalidade dos hebreus, eles não aprovavam! Credes vós que conheceis tudo o que Eu fiz?

Em verdade Eu vos digo que nem mesmo depois de terdes lido e aceitado esta ilustração sobre minha vida pública, ficais conhecendo tudo a respeito de Mim. Por causa do cansaço de ser cronista de todos os dias do meu ministério e de todas as ações realizadas em cada um daqueles dias, Eu teria apressado a morte do meu pequeno João, se Eu o tivesse feito conhecer tudo, a fim de vos transmitir tudo! “Há outras coisas feitas por Jesus que, se tivessem que ser escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se haveria de escrever”, diz4 João. Deixando de lado a hipérbole, na verdade Eu vos digo que, se devessem ser escritas todas as minhas ações, todas as minhas lições particulares, as minhas penitências e orações para salvar uma alma, seriam necessárias as salas de uma de vossas bibliotecas, e uma das maiores, para conterem os livros que falam de Mim. E também em verdade Eu vos digo que seria muito mais útil para vós jogar no fogo tanta ciência inútil, poeirenta e venenosa, a fim de dar lugar aos meus livros, do que ficar sabendo tão pouco sobre Mim e ficar adorando tanto aquela imprensa, quase sempre suja de sensualidade ou de heresia.

IV. Restituir à sua verdade as figuras do Filho do Homem e de Maria, verdadeiros filhos de Adão, pela carne e pelo sangue, mas um Adão inocente. Como nós devíamos ser os filhos do Homem, se o Progenitor e a Progenitora não se tivessem rebaixado de sua perfeita humanidade — isto é, de ser homem, ou seja, de ser uma criatura, na qual está a dupla natureza espiritual, feita à imagem e semelhança de Deus, e a material — como vós sabeis que eles procederam. Eles tinham sentidos perfeitos, isto é, submissos à razão, pois por ela se revelava neles uma grande acuidade. Quanto aos sentidos, Eu incluo também os morais, junto com os corporais. Portanto, um amor completo e perfeito, amor ao esposo, ao qual não era a sensualidade que a unia, mas somente o vínculo de um amor espiritual; e para com o Filho. Muito amado. Amado com toda a perfeição de uma mulher perfeita para com a criatura nascida dela. Assim é que Eva devia ter amado: como Maria, isto é, não por aquele que era seu filho por gozo carnal, mas porque aquele filho era filho do Criador e da obediência cumprida à sua ordem de multiplicar a espécie humana. E amado com todo o ardor de uma perfeita fiel, sabendo que ele é seu Filho, não de um modo figurado, mas realmente: Filho de Deus.

Àqueles que julgam amoroso demais o amor de Maria por Jesus, Eu digo que considerem bem quem era Maria, a Mulher sem pecado e, por isso, sem defeitos em sua caridade para com Deus, para com seus pais, para com o esposo, para com o Filho, para com o próximo; que considerem bem o que é que a Mãe via em Mim, além de ver o Filho de seu seio; e finalmente que considerem bem qual a nacionalidade de Maria. Ela era de raça hebreia, de raça oriental e de tempos muito anteriores aos atuais. Por isso, desses elementos é que brota a explicação de certas amplificações verbais de amor, que a vós podem parecer exageradas. Um estilo florido e pomposo até em conversações comuns, é o estilo oriental e hebraico. Todos os escritos daquele tempo e daquela raça são uma prova disso, e nem o correr dos séculos conseguiu mudar muito o estilo do oriente.

Pretenderíeis, vinte séculos depois, quando a perversidade da vida matou o grande amor, ao examinar estas páginas, que Eu vos desse uma Maria de Nazaré igual à mulher árida e superficial como é a do vosso tempo? Maria é o que é, e não se troca a doce, pura, amorosa Menina de Israel, Esposa de Deus, Mãe virginal de Deus, por outra excessivamente, doentiamente exaltada, ou por uma mulher glacialmente egoísta do vosso século.

Àqueles que julgam amoroso demais o amor de Jesus por Maria, digo que Eu, Jesus, era Deus, e que Deus Uno e Trino gozava de todo o conforto amando Maria, Aquela que lhe dava uma reparação pela dor de toda a raça humana, o meio pelo qual Deus pudesse tornar a gloriar-se de sua Criação que forma os cidadãos para os seus Céus. E finalmente considerem que todo amor se torna culpável quando, e somente quando, cria uma desordem, isto é, quando vai contra a vontade de Deus e deixa de cumprir o seu dever.

Agora considerai bem: o amor de Maria fez isso? O meu amor fez isso? Será que Ela, com um amor egoísta, Me impediu de cumprir toda a vontade de Deus? Por uma amor desordenado por minha Mãe, reneguei talvez a minha missão? Não. Um e outro amor tiveram o mesmo desejo: que se cumprisse a vontade de Deus para a salvação do mundo. E a Mãe disse todos os adeuses ao Filho, e o Filho disse todos os adeuses à Mãe, para entregar o Filho à cruz do magistério público e à cruz do Calvário, entregando a Mãe à solidão e à angústia, para que Ela fosse a Corredentora, sem levar em conta a nossa humanidade, que se sentia dilacerada, nem o nosso coração que se despedaçava pela dor. Será isso fraqueza? Sentimentalismo? É um amor perfeito, ó homens que não sabeis amar e não compreendeis mais o amor e as suas vozes!

E esta Obra tem por escopo iluminar uns pontos que um complexo de circunstâncias cobriu de trevas e que são faixas escuras dentro da luminosidade do quadro evangélico e pontos que parecem fraturas, e não são mais do que pontos escuros, entre um episódio e outro, são pontos indecifráveis e que no poder de decifrá-los é que está a chave para se compreender exatamente certas situações que se haviam formado e certas atitudes fortes, que Eu tive de tomar, em contraste com as minhas exortações contínuas ao perdão, à mansidão e à humildade, certos enrijecimentos para com os teimosos e os adversários inconvertíveis. Lembrai-vos de que Deus, depois de ter usado toda a sua misericórdia, para honra de Si mesmo, sabe também dizer “Basta!” àqueles que, porque Ele é bom, creem ser lícito abusar de sua longanimidade e tentá-lo. Com Deus não se brinca. É uma palavra antiga e sábia esta.

V. Conhecer exatamente a complexidade e duração da minha longa Paixão, a qual culmina na Paixão cruenta completada em poucas horas, mas que me havia consumado em um tormento quotidiano, que durou lustros e lustros, e que foi sempre aumentando, e, com a minha, a paixão da Mãe, à qual a espada da dor transpassou o coração, durante um tempo igual. E levar-vos, pelo conhecimento disso, a amar-nos mais.

VI. Demonstrar o poder de minha Palavra e seus efeitos diversos, sob a condição de que quem a recebesse pertencesse à fileira dos homens de boa vontade, ou à fileira daqueles que tinham uma vontade sensual, que nunca é reta.

Os Apóstolos e Judas. Aí estão dois exemplos opostos. Os primeiros, imperfeitíssimos, rústicos, ignorantes, violentos, mas tinham boa vontade. Judas, douto mais do que a maioria deles, refinado pela sua vida na capital e no Templo, mas de má vontade. Observai a evolução dos primeiros no Bem, e sua subida. Observai a evolução do segundo no Mal e a sua descida.

Observai essa evolução na perfeição dos onze bons, sobretudo a daqueles que, por um visível defeito mental, estão acostumados a desnaturar a realidade dos santos, fazendo do homem que atinge a santidade com uma dura, duríssima luta contra as forças poderosas e tenebrosas, um ser desnaturado, sem concupiscência e sem arrepios, e, portanto, sem méritos. Porque o mérito vem justamente da vitória sobre as paixões desordenadas e as tentações, vitória conseguida por amor a Deus, e para conseguir o último fim: gozar de Deus para sempre.

Que observem isto aqueles que pretendem que o milagre da conversão deva vir só de Deus. Deus dá os meios para converter-se, mas Ele não violenta a vontade do homem, e se o homem não quer converter-se, inutilmente terá o que ao outro serve para a conversão.

Considerem, aqueles que examinam, os múltiplos efeitos da minha Palavra, não somente sobre o homem humano, mas também sobre o homem espiritual. E não só sobre o homem espiritual, mas também sobre o homem humano. A minha Palavra, recebida com boa vontade, transforma um e o outro, conduzindo-os à perfeição externa e à interna.

Os apóstolos, que por sua ignorância e por minha humildade tratavam o Filho do Homem com uma confiança excessiva — um bom mestre entre eles, e nada mais, um mestre humilde e paciente, com o qual era lícito tomar liberdades, às vezes excessivas; mas isso, feito por eles, não era uma falta de respeito, era ignorância, e por isso está desculpada — os apóstolos, briguentos entre si, egoístas, ciumentos no seu amor e do meu amor, impacientes com o povo, um pouco orgulhosos de serem “os apóstolos”, ansiosos por verem tudo o que causa admiração ao povo, que os fazem ser vistos pela multidão como dotados de um poder extraordinário, devagar mas continuamente se vão transformando em homens novos, que primeiramente dominam as suas paixões a fim de Me imitarem e Me deixar contente, depois, conhecendo sempre mais o meu verdadeiro Eu, mudam os modos e o amor, até Me verem, Me amarem e Me tratarem como Senhor divino. Eles são, talvez, no final desta minha vida sobre a terra, ainda aqueles companheiros superficiais e alegres dos primeiros tempos? Eles são, sobretudo depois da Ressurreição, os amigos que tratam o Filho do Homem como Amigo? Não. Primeiro, eles são ministros do Rei. Depois são os sacerdotes de Deus. Todos diferentes, completamente transformados.

Considerem isto aqueles que julgarem muito forte e desnaturada a natureza dos apóstolos, que era como está descrita. Eu não era um doutor difícil nem um rei soberbo, não era um mestre que julga indignos dele os outros homens. Eu soube compadecer-me. Eu quis formar usando materiais brutos, encher de perfeições de toda espécie uns vasos vazios, e mostrar que Deus pode tudo, e que de uma pedra Ele tira um filho de Abraão, um filho de Deus, e de nada um mestre, a fim de confundir os mestres jactanciosos de sua ciência, que, muitas vezes, perdeu o perfume da minha.

VII. Enfim, fazer-vos conhecer o mistério de Judas, aquele mistério da queda de um espírito que Deus tinha beneficiado extraordinariamente. Um mistério, que em verdade se repete por demais frequentemente, e que é a ferida que dói no Coração do vosso Jesus.

Fazer-vos conhecer como se cai, transformando-se de servos e filhos de Deus em demônios e deicidas, que matam Deus neles ao matar a Graça, para impedir-vos de pôr o pé sobre os caminhos pelos quais se cai no Abismo, e para ensinar-vos o que fazer para ver como se há de impedir os cordeiros imprudentes que se atiram no abismo. Aplicai a vossa inteligência em estudar a horrenda e, no entanto, comum figura de Judas, complexo este no qual se agitam como uma serpente todos os vícios capitais, que vós achais e tendes de combater nisto ou naquilo. E a lição que deveis especialmente aprender, pois ela será a mais útil no vosso magistério de mestres do espírito e de diretores de almas. Infelizmente quantos há que, em todos os estados da vida, imitam Judas, entregando-se a Satanás e encontrando a morte eterna!

Sete razões, como sete são as partes:

I. Pré-Evangelho (da Concepção Imaculada de Maria sempre Virgem até a morte de São José).

II. Primeiro ano da vida pública.

III. Segundo ano da vida pública.

IV. Terceiro ano da vida pública.

V. Pré-Paixão (do Tebet até o Nisã, ou seja, da agonia de Lázaro até a ceia de Betânia).

VI. Paixão (do adeus a Lázaro até a minha Sepultura e os dias seguintes até a aurora da Páscoa).

VII. Da Ressurreição até Pentecostes.

Seja conservada esta divisão das partes como Eu aqui indico, pois esta é a justa.

E agora? Que é que dizeis ao vosso Mestre? Não faleis a Mim. Mas falai em vosso coração. E, se tiverdes possibilidade de fazê-lo, falai ao pequeno João. Mas em nenhum dos dois casos falai com aquela justiça que Eu gostaria de ver em vós. Porque ao pequeno João vós falais para fazê-lo sofrer, faltando de caridade para com a cristã, a coirmã, o instrumento de Deus. Em verdade Eu vos digo, ainda mais uma vez, que não é uma tranquila alegria ser instrumento meu: é cansaço e esforço contínuos, em tudo há dor, porque aos discípulos do Mestre o mundo dá aquilo que deu ao Mestre: dor; e seria necessário que pelo menos os sacerdotes, e especialmente os coirmãos, ajudassem a esses pequenos mártires que vão para a frente debaixo de uma cruz… E porque no vosso coração, falando a vós mesmos, tendes um lamento de soberba, de inveja, de incredulidade, e outras coisas. Mas Eu vos darei resposta às vossas lamentações e aos vossos espantos de escandalizados.

Na tarde da Última Ceia, aos onze que me amavam Eu disse: “Quando o Espírito Consolador tiver vindo, Ele vos fará lembrar de tudo o que Eu vos disse.” Quando Eu falava, tinha sempre presente, além dos presentes, todos aqueles que teriam sido meus discípulos no espírito e de verdade, e com vontade de querer. O Espírito Santo, que com sua graça infunde em vós a faculdade de querer lembrar-vos de Deus, afastando as almas do desvario da Culpa original e livrando-as dos ofuscamentos que, pela triste herança de Adão, envolvem a luminosidade dos espíritos criados por Deus para que gozassem de sua visão e do conhecimento espiritual, completa a sua obra de Mestre “recordando”, no coração daqueles que são conduzidos por Ele e que são os filhos de Deus, tudo aquilo que Eu disse e que constitui o Evangelho.

Recordar, aqui, significa iluminar o espírito com ele. Pois nada vale recordar as palavras do Evangelho, se não se compreende o espírito delas. E o espírito do Evangelho, que é amor, pode tornar-se compreensível pelo Amor, isto é, pelo Espírito Santo, o Qual, assim como foi o verdadeiro Escritor do Evangelho, é também o único Comentador, pois só o autor de uma obra sabe o espírito dela e o compreende, ainda que não consiga fazê-lo compreender aos leitores da mesma. Mas onde não consegue um autor humano, porque toda feição humana é rica em defeitos, aí chega o Espírito Santo, perfeitíssimo e sapientíssimo. Portanto, somente o Espírito Santo, Autor do Evangelho, é também Aquele que o recorda, comenta e completa profundamente para as almas dos filhos de Deus.

“Mas o Advogado, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu Nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que Eu lhes disse” (João 14,26).

“Quando vier o Espírito da Verdade, Ele vos encaminhará para toda a Verdade, porque o Espírito não falará em seu próprio nome, mas dirá tudo aquilo que escutou e vos anunciará as coisas que vão acontecer. O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vós” (João 16,13-15).

Porque se vós objetais que, sendo o Espírito Santo o Autor verdadeiro do Evangelho, não se compreende que Ele não tenha lembrado aquilo que nesta obra foi dito e aquilo que João diz que aconteceu, naquelas palavras com que Ele termina o seu Evangelho, Eu vos respondo que os pensamentos de Deus são diferentes dos homens, mas são sempre justos e incontestáveis.

E ainda: se objetais que a Revelação terminou com o último dos Apóstolos e que não havia nada mais a acrescentar, porque o próprio apóstolo diz no Apocalipse: “Se alguém acrescentar qualquer coisa a este livro, Deus vai acrescentar a essa pessoa as pragas que aqui estão escritas” (João 22,18), e isso pode ser entendido em toda a Revelação, da qual o Apocalipse de João é o último coroamento, Eu vos respondo que nada foi acrescentado à Revelação com esta obra, mas que foram preenchidas as lacunas produzidas por causas naturais e desejos sobrenaturais. E se Eu quis comprazer-me em reconstruir o quadro da minha divina Caridade, assim como faz um restaurador de mosaicos, que quer recolocar as peças estragadas ou que faltavam, restituindo assim ao mosaico sua completa beleza, assim Eu me reservei o trabalho de fazer isso neste século no qual a Humanidade se precipita no rumo do Abismo das trevas e do horror, e vós podeis impedir que Eu o faça? Podeis, por acaso, dizer que não há necessidade disso, vós que tendes um espírito tão nublado, tão surdo, enlanguescido, diante das luzes, das vozes e dos convites do Alto?

Em verdade, vós deveríeis falar bem de Mim, pois Eu, com novas luzes, aumentei as luzes que já tínheis, e que não vos é mais suficiente para “ver” o vosso Salvador. Ver o Caminho, a Verdade e a Vida, e sentir ressurgir em vós aquela comoção espiritual dos justos do meu tempo, chegando através deste conhecimento a uma renovação dos vossos espíritos no amor, que seria para vós salvação, visto que eleva para a perfeição.

Eu não digo que sois uns “mortos”, mas adormecidos, dormentes, dominados pelo sono. Semelhantes às plantas durante o sono do inverno. O Sol divino vos está mandando os seus fulgores. Despertai! E bendizei a este Sol que se doa, acolhei-o com alegria a fim de que vos aqueça, desde a superfície até à profundidade, e vos acorde, vos cubra de flores e de frutos.

Levantai-vos, vinde ao meu presente.

“Tomai e comei. Tomai e bebei”, Eu disse aos apóstolos.

“Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te está dizendo: ‘Dá-me de beber’, tu mesma terias pedido água a Ele, e Ele te teria dado a água viva,” Eu disse à Samaritana.

Eu o digo ainda agora: tanto aos doutores como aos samaritanos. Porque essas classes extremas têm necessidade, e têm necessidade aqueles que estão entre os dois extremos. Os primeiros, para não ficarem desnutridos e despojados de forças até para si mesmos, e de uma nutrição sobrenatural para os que estão sofrendo pela falta do conhecimento de Deus, do Homem-Deus, do Mestre e Salvador. Os segundos, porque suas almas têm necessidade de água viva quando estão perecendo longe das fontes. Aqueles que estão no meio, entre os primeiros e os segundos, a grande massa dos que não têm pecados graves, mas também dos que estão estáticos e não progridem, por preguiça, por tibieza, por algum conceito errado sobre o que é a santidade, aqueles que são escrupulosos em seu medo de se condenarem, de serem observantes, de se enredarem em um labirinto de práticas superficiais, mas que não ousam dar um passo sobre o caminho íngreme, muito íngreme da heroicidade, para que com esta obra recebam o empurrão inicial a fim de saírem de sua letargia e começarem pelo caminho heroico.

Eu vos digo estas palavras. E vos ofereço este alimento e esta bebida que é água viva. A minha Palavra é Vida. E Eu vos quero na Vida, comigo. E multiplico a minha palavra a fim de contrabalançar os miasmas de Satanás, que destroem em vós as forças vitais do espírito.

Não Me rejeiteis. Eu tenho sede de dar-me a vós. Porque Eu vos amo. Esta é a minha inextinguível sede. Tenho o ardente desejo de comunicar-me convosco a fim de tornar-vos prontos para o banquete das núpcias celestes. E vós tendes necessidade de Mim para não enfraquecerdes, para poderdes vestir-vos com uma veste ornada para as núpcias do Cordeiro, para a grande festa de Deus, depois de terdes superado a tribulação neste deserto cheio de insídias, espinheiros e serpentes, que é esta terra, a fim de passar por entre as chamas e não sofrer danos, pisar nos répteis e ter que beber venenos sem morrer, tendo Eu em vós.

E ainda vos digo: “Tomai, tomai esta obra, mas não a seleis.” E, sim, lede-a e fazei que seja lida, “pois o tempo está próximo” (João, Apocalipse 22,10) e “o santo continue a se santificar.”

A Graça do Senhor vosso Jesus Cristo esteja com todos aqueles que neste livro veem um aproximar-se de Mim e solicitam que se cumpra para sua defesa, com este grito de amor: “Vem, Senhor Jesus!”

A mim em particular Jesus disse depois:

– Como prêmio da Obra colocarás5 o primeiro capítulo do Evangelho de João, do versículo 1 até o versículo 18 inclusive. Assim, integralmente como está escrito. João escreveu estas palavras, como tu escreveste todas aquelas reportadas na Obra, sob o ditado do Espírito de Deus. Não há nada a acrescentar nem o que tirar, como não houve nada a acrescentar ou tirar na oração do Pai-Nosso nem na minha oração depois da Última Ceia. Cada palavra nesses pontos é uma joia divina e não deve ser alterada. Para esses pontos não há nada a fazer senão uma coisa: rezar ardentemente ao Espírito Santo que vo-las ilumine em toda a sua beleza e Sabedoria.

Quando, pois, chegares ao ponto em que começa a minha vida pública, copiarás também inteiramente o primeiro capítulo de João, do versículo 1 ao 18 inclusive, e o capítulo terceiro de Lucas, do versículo 3 ao 18 inclusive, um atrás do outro, como se formassem um só capítulo. Nesta passagem está todo o Precursor, asceta de poucas palavras e de dura disciplina, e não há mais nada a dizer. Depois colocarás o meu Batismo e irás adiante, como Eu disse para cada vez.

E o teu cansaço terminou. Agora o que permanece é o amor e a recompensa que se há de gozar.

Alma minha, que é que Eu te deveria dizer? Tu me perguntas, com este teu espírito perdido em Mim:

“E agora, que é que irás fazer, Senhor, com esta tua serva?”

Eu poderia dizer-te:

“Eu vou quebrar o vaso de argila para tirar dele a essência, e levá-la para onde Eu estou.”

E seria uma alegria para nós dois. Mas ainda me és necessária por um pouco de tempo, e por outro pouco ainda, aqui, para fazer que emanem os teus perfumes que ainda são odor de Cristo que habita em ti. E, então, eu te direi, como a João:

“Se quero que tu fiques até que Eu venha para levar-te, o que te importa ficares?”

Paz a ti, minha pequena, incansável voz. Paz a ti. Paz e bênção.

O Mestre te diz: “Obrigado.” O Senhor te diz: “Sê bendita.” Jesus, o teu Jesus, te diz: “Eu sempre estarei contigo, porque para Mim é doce estar com aqueles que me amam.”

A minha paz, pequeno João. Vem e repousa sobre o meu Peito.

E com estas palavras, terminaram todas as sugestões para a redação da Obra e foram dadas as últimas explicações.

firma%20finale

Viareggio, 28 de abril de 1947
Maria Valtorta.
1 razões, em parte já ditas, como em 45.9. A atual “Despedida” foi escrita na conclusão do ciclo messiânico, como explicamos na nota de 640.7.
2 18-1-47, data que parece ter sido inserida sucessivamente por MV, num espaço deixado vazio, não é exatamente a data do “ditado” que inserimos abaixo.
3 Ao dragão vermelho… é o início de alusões a: Daniel 7; Apocalipse 12-20.
4 diz, em: João 21,25.
5 colocarás… Semelhantes ordens apresentam-se atuadas não nos cadernos autógrafos de MV, mas nas cópias datilografadas de Padre Migliorini. O Editor considera tê-las seguido e completado com as referências ao Evangelho no índice dos capítulos no início de cada volume e, principalmente, com um “Evangelho unificado na linha da Obra de Maria Valtorta”, publicado à parte como suplemento.


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