441. 441. Partida de Nazaré. Um milagresobre um incêndio de éricas durante a viagemtorna-se o tema de uma parábola.
22 de maio de 1946.
441.1 Já chegou a tarde do verdadeiro sábado e a vida vai recomeçar depois do repouso sabático. Aqui, na casinha de Nazaré, ela recomeça depois do repouso, com os preparativos para a partida: provisões que estão sendo embaladas, vestes que são postas nos alforjes, alforjes cujos nós são fortemente apertados, sandálias que são observadas para se ver se estão bem presas nas correias e nas fivelas, os burrinhos estão sendo levados a beber água e a pastar à margem da sebe da horta… e as saudações, e alguma lágrima por entre os sorrisos, e as bênçãos e a promessa de se verem dentro de pouco tempo… E, inesperadamente, a oferta feita por Tomé a Maria de uma fivela, nós diríamos de um broche, para conservar a roupa à altura do decote, feito com três finos, leves e perfeitos caules de lírio, reunidos em duas folhas, cujas semelhanças com as verdadeiras, conseguiu-se por meio do metal tratado por uma mão de mestre.
– Tu não a usarás, Maria, eu sei disso, mas aceita-a assim mesmo. Veio-me o desejo de oferecer-te isso, desde o dia em que o meu Senhor falou1 sobre ti, comparando-te aos lírios dos vales. Eu não fiz nada para a tua casa… mas fiz isto para ti, a fim de que o louvor de teu Filho ficasse representado em um símbolo, por ti, que o mereces mais do que qualquer outra mulher. E, se eu não fui capaz de dar ao metal a maciez de um caule vivo, nem a fragrância da flor, que o meu sincero e reverente amor por ti o amacie como uma carícia, e perfumem com a minha devoção por ti, ó mãe do meu senhor.
– Oh! Tomé! É verdade. Eu não uso jóias, pois me parecem coisas vãs. Mas o que me ofereces não é assim. Isto significa o amor do meu Jesus e do seu apóstolo, e uma coisa que por mim é estimada. Eu olharei para ela todos os dias e pensarei no bom Tomé, que ama a tal ponto o seu Mestre, que guarda, não somente a doutrina dele, mas também até as suas mais humildes palavras sobre as mais humildes e insignificantes pessoas. Obrigada, Tomé. Não pelo valor, mas pelo teu amor. Obrigada.
Todos ficam admirados com o trabalho perfeito, 441.2e Tomé, todo feliz, tira para fora da bolsa um trabalhinho ainda menor: três estrelinhas de jasmim com uma minúscula folha, ajuntadas por um leve círculo, e o dá à Áurea.
– Porque tu não foste coquete em desejá-lo e tens estado aqui enquanto o jasmim está florido, e para que estas estrelinhas te façam lembrar-te da nossa Estrela. Mas, toma cuidado! Tu, com as tuas virtudes, deves perfumar as flores e ser uma flor, tu também, uma flor cândida, bela, pura, que perfuma para o Céu. Se não fizeres assim, vou fazer que me entregues o broche. Vamos, não chores… porque tudo passa… e… logo voltaremos à casa de Maria ou Ela virá a nós… e…
Mas Tomé, ao ver as lágrimas a escorrer pelo rosto de Áurea, percebe que é melhor não continuar e sai envergonhado, dizendo a Pedro:
– Se eu tivesse pensado que… ela ia começar a chorar cada vez mais, não lhe teria dado nada. E eu tinha feito aquele broche justamente para consolá-la naquela hora… Mas eu não adivinhei…
441.3 E Pedro, na confusão daquele momento, perde o controle, e diz:
– Mas é sempre assim nas despedidas. Se tivesses visto Síntique, então –e então ele se dá conta do que falou e quer corrigir-se, fica muito vermelho… mas já aconteceu…
Tomé compreende, bondoso como é, passa-lhe um braço ao redor do pescoço e lhe diz:
– Não te aflijas, Simão. Eu sei calar-me. Eu, pelo Deus de nossos pais, te juro que isso que eu involuntariamente fiquei sabendo está esquecido. Não fiques sofrendo, Simão!
– É que o Mestre não queria…
– E certamente tinha todas as razões para fazê-lo. Eu não levo isso a mal.
– Eu sei. Mas que dirá Ele?
– Nada, porque nada ficará sabendo. Tem confiança em mim!
– Ah! Não! Usar de um subterfúgio com o Mestre é coisa que eu não faço. Eu errei. Mereço censura. E logo. Não terei paz, enquanto não confessar a Ele o meu erro. Tomé, sê bom. Vai chamá- lo… Eu vou para a oficina. Vai tu e volta com Ele. Eu estou muito perturbado para fazê-lo e os outros o perceberiam.
Tomé olha para ele com admiração e compaixão, entra de novo na casa para chamar Jesus:
– Mestre, vem cá um momento. Preciso dizer-te uma coisa.
Jesus, que estava saudando Maria de Alfeu, o acompanha logo.
– Que queres? –pergunta, enquanto vai indo ao lado dele.
– Eu, nada. É Simão que te quer falar. Ei-lo aí.
– Simão, que tens, para estares assim tão perturbado?
Pedro se joga aos pés de Jesus, gemendo:
– Eu pequei. Absolve-me!
– Fizeste pecado? Em quê? Estavas ali conosco, alegre e tranquilo…
– Ah! Mestre, eu te desobedeci. Falei com Tomé sobre Síntique. Eu estava perturbado por causa das lágrimas e ele o estava mais do que eu. Ele pensava que as tivesse aumentado e eu, para consolá-lo, disse: “É sempre assim nas despedidas. Se tivesses visto Síntique…” E ele compreendeu!
E Pedro levanta um rosto desfigurado, o seu olhar está de fato humilhado, desolado.
– Louvado seja Deus, meu Simão! Eu pensava que tivesses feito coisas bem mais graves do que esta. E a tua sinceridade anula esta também. Tu falaste sem malícia, falaste a um companheiro teu. Tomé é bom e não irá propalar.
– De fato, ele me jurou que não… mas, estás vendo? Agora eu fico com medo de ser bobo demais e de não saber guardar um segredo.
– Sim, mas pensa só: eu nunca disse uma palavra nem a Filipe, nem a Natanael! E agora…
– E agora, levanta-te! O homem é sempre imperfeito. Mas, quando ele é assim sem malícia, não faz pecado. Acautela-te. Mas não te aflijas mais. Teu Jesus tem até um beijo para ti. Tomé, vem cá.
Tomé se aproxima.
– Certamente tu compreendeste as razões do silêncio.
– Sim, Mestre. E jurei respeitá-lo, por minha parte, conforme minha capacidade. Eu já disse isso a Simão…
– Ao estulto Simão –suspira Pedro.
– Não, meu amigo.Tu até que me edificaste pela tua humildade e sinceridade perfeitas. Tu me deste uma grande lição e eu me lembrarei dela. Não poderei torná-la conhecida, por prudência, e isso me entristece, porque poucos entre nós têm, e teriam tido a justiça que tu tiveste. 441.4Mas nos estão chamando. Vamos.
De fato, muitos já estão na estrada As três mulheres, Noemi, Mirta e Áurea já estão montadas nos burrinhos. Maria está junto da cunhada e perto de Áurea e ainda a beijam, quando veemee que Jesus vem vindo, beijam as duas condiscípulas e, por último, saúdam a Jesus, que as abençoa, antes de pôr-se a caminho…
E Maria e Maria de Cléofas entram de novo em casa… Na casa onde permanecem, recordando o que acontecera pouco antes, cadeiras fora de lugar, louças ainda esparsas… a desordem que segue a uma partida.
Maria acaricia, pensativa, o pequeno tear, no qual ela ensinava Áurea a trabalhar… Ela está com os olhos já brilhando, por causa de um choro que está sendo por ela retido.
– Tu sofres, Maria! diz-lhe Maria de Cléofas, que está chorando, sem fazer esforço para reter o choro. Tu já estavas afeiçoada!… Para cá estão vindo… depois lá se vão… e nós ficamos sofrendo.
– É a nossa vida de discípulas. Ouviste hoje o que Jesus dizia: “Assim fareis no futuro: vendo em todas as criaturas almas fraternas, sereis hospitaleiros, sobrenaturalmente hospitaleiros, julgando-vos peregrinos. Dareis ajuda, comida, conselho, e depois deixareis que os irmãos vão para os seus destinos, sem os ficardes segurando com amores ciumentos, certos de que, após a morte, vos encontrareis de novo com eles. Virão as perseguições e muitos vos terão que deixar e ir para o martírio. Não sejais vós que aconselhareis a ninguem a vileza. Permanecei na oração em vossas casas, que se esvaziaram para ir garantir a coragem dos mártires, serenos para fortalecerem os mais fracos e fortes para estarem prontos a imitar aqueles heróis. Acostumai-vos com as separações, com os atos de heroísmo, com o apostolado da caridade fraterna, desde agora…” E nós o estamos fazendo. Estamos sofrendo… isto é certo! Nós somos de carne… Mas o espírito goza de uma alegria espiritual, que é a de fazer a vontade do Senhor e cooperar para a sua glória. Por outro lado… Eu sou a Mãe de todos… e não o devo ser de um só. Eu não o sou com exclusividade, nem mesmo de Jesus… Tu estás vendo como eu o deixo ir, sem ficar detendo-o… Eu gostaria de ficar aqui até que Ele dissesse: “Vem.” E eu fico. As permanências dele aqui? São as minhas alegrias de mãe. As minhas peregrinações com Ele? São as minhas alegrias de discípula. As minhas solidões aqui? São as minhas alegrias de fiel, que faz a vontade do seu Senhor.
– Aquele Senhor é teu Filho, Maria…
– Sim. Mas é sempre o meu Senhor… 441.5Ficas comigo, Maria?
– Sim, se tu o permites. Fica tão triste a minha casa nas primeiras horas, quando ela fica vazia, sem meus filhos! Amanhã a coisa já é diferente. E desta vez, então, é que eu chorarei mais ainda…
– Por que, Maria?
– Porque desde ontem já estou para chorar… Eu sou como uma cisterna… uma cisterna em tempo de chuva.
– Mas, por que, querida?
– Por causa de José… ontem… Oh! Eu não sei se devo ir repreendê-lo severamente, porque afinal ele é meu filho, pois foi este seio que o trouxe e estes os peitos que o amamentaram, não há nenhuma primogenitura que seja mais do que uma mãe… ou então, não falar-lhe mais, nunca mais, a este bastardo que me nasceu, que ofende a Jesus e a ti e…
– Não farás nada disso. Tu serás sempre para ele “mamãe.” A mamãe que tem compaixão do filho obstinado, doente, desviado, o vai amansando com sua bondade e o leva para Deus, por meio da oração e da paciência… Eia, vamos… Não chores! Deixa disso e vem comigo. Rezaremos lá no meu quarto por ele, por aqueles que lá se vão, pela menina, para que ela sofra pouco e cresça santa… Vem, vem, minha Maria –e a leva consigo…
441.6 Enquanto isso, os peregrinos vão indo pelo seu caminho, na direção do sudoeste. Na frente vão as mulheres, montadas nos burrinhos que, bem alimentados e repousados, vão trotando contentes, obrigando Marziam e Abel, que por prudência estão ao lado de Áurea, pois ela está montada pela primeira vez, a andar quase correndo. E, se a viagem é cansativa, contudo serve para distrair a menina do sofrimento por estar separada de Maria. De vez em quando, para dar um fôlego aos dois jovenzinhos, Mirta faz parar o seu burrinho, faz um alto e não volta a pôr-se em movimento, a não ser quando são alcançados pelo grupo dos apóstolos. E, nas paradas, não mais distraída pelas peripécias da equitação, Áurea fica triste…
Marziam, já tendo experiência das agruras em sua sorte de órfão, tendo sido recolhido pela caridade de uma mãe adotiva, depois de ter conhecido Maria, a consola, dizendo-lhe como foi que se afeiçoou com a mãe adotiva e “exatamente como se fosse a nossa mãe.” Narra-lhe as suas impressões e como Maria e Matias estão felizes na casa de Joana e Anastásica, na casa de Elisa.
Áurea fica escutando esas narrações e, quando Marziam as termina dizendo:
– Podes acreditar, as discípulas são todas boas, e Jesus sabe a quem vai entregar a nós pobrezinhos.
E Abel também a anima:
– E tu não precisas desconfiar de minha mãe, que está contente por ter-te recebido, e rezou muito nestes dias por ter-te recebido de Deus.
Áurea diz:
– Assim eu creio. E lhes quero bem… Mas Maria é Maria… e deveis ter compaixão…
– Sim. Mas não me agrada ver-te triste…
– Oh! Mas não estou mais triste como estava na casa do romano e nas primeiras horas depois de minha libertação… Eu estou apenas… como uma extraviada. Nunca tive mais carícias, há anos. Somente Maria tornou a fazee-las, depois de tantos anos com patrões…
– Querida minha! Mas eu estou aqui para isso. Serei uma segunda Maria para ti. Vem cá perto de mim. Se tu fosses pequenina, eu te tomaria comigo na sela, como eu fazia com o meu Abel, quando era menino… Mas tu já és uma mulher… –diz Mirta, aproximando-se dela e tomando-lhe a mão–. És a minha pequena mulher, vou te ensinar muitas coisas e, quando Abel for para longe evangelizar, eu e tu acolheremos os peregrinos, como manda o Senhor, e faremos muito bem em Nome dele. Tu és jovem, e me ajudarás…
441.7 – Mas olhai que luz é aquela, depois daquele pequeno monte?
–exclama Tiago de Zebedeu, que as alcançou. Um bosque está se queimando?
– Ou um povoado?
– Vamos correr para vermos…
Ninguém mais está cansado, porque a curiosidade anula todas as outras sensações. Jesus os acompanha, complacentemente, deixando a estrada e indo por uma senda, que sobe para uma pequena elevação do terreno. E logo atingem o cume.
Não é nenhum bosque nem povoado, que está pegando fogo, mas um vasto vale entre duas colinas, cheio de urzes. As éricas, que ficaram secas no verão, pegaram fogo, talvez por meio de alguma centelha, que tenha escapado das mãos dos lenhadores, que trabalhavam mais acima derrubando árvores, e agora virou um incêndio: é um tapete de chamas baixas, que procuram sempre levantar-se e avançar sobre o terreno, depois de terem queimado tudo lá por onde teve começo, e saírem procurando novas éricas para as queimar. Os mateiros tentam acabar com o fogo, batendo nas chamas. Mas é inútil. Eles são poucos e, quando batem de um lado, o fogo se estende pelo outro.
– Se o fogo chegar ao bosque, vai ser um desastre. Lá há muitas árvores resinosas –observa Filipe.
441.8 Jesus, com os braços cruzados, de pé sobre o alto da colina, fica olhando, e sorri, pensando…
O contraste entre a luz branca da lua, que vem do oriente, e a luz vermelha das chamas, do lado do ocidente, é vivo. Os que estão olhando estão brancos por causa da claridade da lua, que lhes bate nas costas, e vermelhos pelo reverberar das chamas que atinge os seus rostos. E as chamas avançam, voam, transbordam como a água que sobe, transborda e alaga tudo. Já está a poucos metros do bosque o incêndio, já está iluminando as pilhas de lenha colocadas no limite, enquanto o clarão sempre crescente já vai fazendo ver as casas de um pequeno povoado colocado no alto da colina sobre o qual o fogo agora se levanta.
– Pobre gente! Perderão tudo –dizem muitos. E olham para Jesus que nada fala, e sorri…
Mas depois… eis que ele abre os braços e grita:
– Pára aí! Morre! Assim eu quero.
E, como se um grande peso se abatesse para sufocar as chamas, eis que, prodigiosamente, o fogo deixa de soltar suas labaredas. A inquieta e ágil dança das línguas de fogo se transforma em vermelhos carvões acesos, mas já sem labaredas, porque o vermelho vai-se transformando em roxo, cinzento roxo, e algumas pequenas chamas ainda serpeiam por entre as cinzas… e depois só fica a luz da lua, toda prateada, iluminando as selvas. Ao clarão do luar, veeem-se os mateiros, que se ajuntam e estão gesticulando, olhando ao redor de si e para o alto, como quem estivesse procurando achar onde está o anjo do milagre.
– Vamos descer. Vou trabalhar aquelas almas, aproveitando o inesperado motivo que me deu. Passaremos pelo pequeno povoado e também pela cidade. Partiremos ao romper do dia. Um lugar para para as mulheres, eles terão. Para nós basta o bosque –diz Jesus e vai descendo apressado e acompanhado pelos outros.
– Mas, por que estavas sorrindo daquele modo? Parecias feliz!
–pergunta Pedro.
– Tu ficarás sabendo pelas minhas palavras.
441.9 Já chegaram ao lugar onde a charneca se transformou em cinzas, que ainda estão quentes e rangendo por baixo das sandálias. Eles a atravessam. Chegam ao centro, lá onde a lua brilha plenamente e são vistos pelos mateiros.
– Oh! Eu o disse. Só Ele podia ter feito isso! Corramos para irmos venerá-lo –grita um dos mateiros, e o faz jogando-se por entre as cinzas aos pés de Jesus.
– Como achas que Eu tenha podido fazer isso?
– Porque somente o Messias é capaz disso.
– E como sabes que Eu sou o Messias? Por acaso Me conheces?
– Não. Mas só o Bom, que ama os pobres, é que pode ter tido piedade, somente o Santo de Deus pode ter dado ordens ao fogo e ser obedecido. Bendito seja o Altíssimo, que nos mandou o seu Messias! O Messias que ainda chegou a tempo de salvar nossas casas!
– Deveríeis ter mais interesse em salvar vossa alma.
– Ela se salva crendo em Ti e procurando fazer o que Tu ensinas. Mas Tu compreendes, ó Senhor, que a desolação, por termos sido despojados de tudo, pode tornar mais enfraquecidas as nossas almas despojadas… e levá-las a duvidar da Providência.
– Quem foi que vos instruiu sobre Mim?
– Alguns dos teus discípulos. Eis as nossas famílias. Tínhamos mandado despertá-las, temendo que a colina toda pegasse fogo. Vinde para a frente… Depois mandamos um outro homem ir dizer que tinha acontecido um milagre e que viessem ver. Ei-las aqui: a minha, a de Jacó, e esta é a de Jônatas. Esta é de Marcos, esta a de meu irmão Tobias, esta a de meu cunhado Melquias, esta a de Filipe e esta a de Eleazar. Depois as outras dos que são pastores e que agora estão no alto dos morros, nas pastagens…
É um grupo de umas duzentos e cinquenta pessoas, no máximo, compreendendo neste número os bem pequeninos, que ainda estão mamando, os que acabaram de ser desmamados e estão choramingando, pouco despertos, ou que estão dormindo, sem nada saberem do perigo que correram.
– A paz esteja com todos vós. O anjo de Deus vos salvou. Louvemos juntos ao Senhor.
– Tu nos salvaste! Tu estás sempre presente, onde houver fiéis que creiam em Ti! –dizem muitas das mulheres…
E concordam, sisudos, os homens.
– Sim. 441.10Onde há fé em Mim, aí está presente a Providência. Mas, tanto nas coisas do espírito como nas da matéria, é necessário agir com uma contínua prudência. Quem foi que acendeu o fogo nas acendalhas? Provavelmente a centelha que escapou dos vossos fogos, ou então um raminho que algum dos meninos quis acender no fogo para divertir-se, agitando-o e jogando-o de cima para baixo, com a falta de juízo de sua idade. De fato, é bonito ver uma flecha de fogo, sulcando o ar, quando ele já vai ficando escuro. Mas vede só o que pode fazer uma imprudência! Pode causar grandes ruínas. Uma centelha ou um raminho caído sobre as éricas secas, bastou para incendiar todo o vale. Se o Eterno não me tivesse mandado, o bosque se teria transformado em um braseiro, que teria consumido, com o avançar do fogo, os vossos bens e as vossas vidas.
Assim acontece com as coisas do espírito. É preciso que seja contínua a prudente atenção para que uma faísca de fogo, uma centelha não se apegue à vossa fé e a destrua, depois de ter sido incubada, inadvertidamente, pelo coração, formando um incêndio querido por aqueles que me odeiam, e provocado para fazer-me ficar sem meus filhos. Aqui o fogo, apagado em tempo, mudou-se de maléfico em benéfico, destruindo a charneca inútil, que tínheis deixado crescer no vale, preparando-vos com a destruição e com a adubação pelas cinzas do terreno de que, se desejardes, poderíeis desfrutar com culturas úteis. Mas nos corações é bem diferente o que acontece! E, quando nele todo o Bem tiver sido destruído, nada mais, a não ser as sarças, por serem a palha do demônio, é o que pode nascer.
Lembrai-vos disso e vigiai contra as insinuações dos meus inimigos que, como umas centelhas infernais, serão jogadas em vossos corações. Estai, pois, preparados para a luta contra o fogo. E qual essa luta? É uma fé sempre mais forte, uma vontade inabalável de ser de Deus. É um pertencer ao Fogo Santo. Porque o fogo não come fogo. Portanto, se vós fordes um fogo de amor ao Verdadeiro Deus, o fogo do ódio a Deus não vos poderá fazer mal. O fogo do amor vence qualquer outro fogo. A minha Doutrina é maior e quem a aceita entra no Fogo da Caridade, não pode ser torturado pelo fogo do Demônio.
441.11 Do alto daquele outeiro, enquanto Eu olhava a queimada da charneca e ouvia as palavras de vossas almas ao Senhor Deus delas, mais ainda do que se estivesse vendo vossas atividades empenhadas em apagar as chamas, Eu estava sorrindo. E um apóstolo me perguntou: “Por que estás sorrindo?” E Eu lhe prometi: “Eu te direi, quando estiver falando aos que tiverem sido salvos.” E agora Eu o faço. Eu estava sorrindo ao pensar que assim como as chamas iam-se estendendo pelo meio das éricas do vale, iam sendo combatidas pelas vossas manobras, assim a minha doutrina se estenderá pelo mundo e será perseguida pelos que não querem a Luz. Mas haverá luz. E haverá purificação. E haverá um saneamento. Quantas pequenas serpentes morreram no meio destas cinzas e com elas outros seres nocivos! Vós tinheis medo deste vale, porque nele havia cobras demais. Pois bem! Nem uma só delas sobrevive mais. Igualmente o mundo vai ficar livre de muitas heresias, de muitos pecados, de muitas dores, quando ele me tiver conhecido, tiver sido limpo pelo fogo da minha Doutrina. Limpo e libertado das vegetações inúteis, tornado assim preparado para as semeaduras, e rico de santos frutos.
Aí está o porquê do meu sorriso… Eu via, no fogo que ameaçava, um símbolo da minha Doutrina inundando o mundo. Depois a Caridade para com o próximo, que nunca está separada daquela para com Deus, me levou a ficar pensando em vossas necessidades. E, então, eu baixei o olhar de minha mente da contemplação dos interesses de Deus para a dos interesses dos irmãos, e apaguei o fogo para que, em vossa alegria, louvásseis o Senhor. Vede, pois, que o meu pensamento subiu para Deus e de lá desceu, tendo-se tornado ainda mais poderoso, porque a identificação com Deus aumenta sempre as nossas faculdades, e depois tornou a subir junto com o vosso, para Deus. De tal modo que, pela caridade, Eu fiz, ao mesmo tempo, o que eram os interesses do Pai e o dos meus irmãos. Fazei, também vós, do mesmo modo em vossa vida futura.
441.12 E agora, para estas mulheres, Eu vos peço um abrigo para esta noite. A lua vai descendo e o incêndio atrasou nossa viagem. Não podemos, pois, ir para a frente, até a cidade vizinha.
– Vem, vinde. Há lugar para todos. Podíamos nós até ter ficado sem nossas casas. As nossas casas são vossas. São de pobres, mas são limpas. Vinde! Vinde, elas ficarão abençoadas –gritam todos.
E, pouco a pouco, vão subindo de novo pelo terreno um pouco a pique, até chegarem ao pequeno povoado, que miraculosamente escapou da destruição. Cada um vai saindo dali com quem lhe vai dar hospedagem.
1 falou sobre ti, em 412.2/3.
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