406. 406. Em Jope. Prédica inútil a Judas de Keriote diálogo sobre a alma com alguns Gentios.


20 de setembro de 1944.

406.1 Vejo Jesus sentado em um pátio interior de uma casa que, sem ser luxuosa, tem um aspecto agradável. Jesus parece estar muito cansado. Está sentado em um banquinho de pedra, colocado perto de um poço de beira baixa, sobre o qual, sob a forma de um arco, estende-se uma latada verde. Os cachos, por enquanto, são apenas uns esboços. As flores devem ter caído há pouco tempo, e os baguinhos ainda se parecem com sementes de painço, penduradas a um pedúnculo verde. Jesus está com o cotovelo direito apoiado sobre o joelho direito, e apoia o queixo no côncavo da mão. Está como se estivesse querendo dormir. Seus cabelos agora lhe descem sobre o rosto, como para servir de véu, protegendo o rosto cansado que, sem esse abrigo, apareceria pálido e sério, por entre as madeixas onduladas dos cachos louro-avermelhados.

Uma mulher vai e vem, com as mãos enfarinhadas, passando de um dos quartos da casa para um outro pequeno quarto escuro, colocado do lado oposto ao outro, e onde deve estar o forno. Ela olha para Jesus todas as vezes que passa. Mas não perturba o repouso dele. Já deve estar próxima a tarde, visto que o sol já mal está atravessando a extremidade do terraço, acima do teto, e o vai fazendo cada vez menos, para, afinal, abandoná-la.

406.2 Uma dezena de pombos, arrulhando, está procurando descer ao pátio para sua última refeição do dia. Eles dão voltas, ao redor de Jesus, como se estivessem procurando saber quem é esse desconhecido, e, desconfiados, não ousam pousar no chão. Jesus não presta atenção à desconfiança deles, mas estende uma mão com a palma virada para cima, e diz:

– Estais com fome? Vinde aqui –como se estivesse falando a uns seres humanos. O mais corajoso deles pousa sobre aquela mão e, depois dele, vem um outro, e mais outro. Jesus sorri.

– Eu não tenho nada –diz-lhes Ele, diante dos arrulhos de reclamação deles.

Depois, Ele chama em voz alta:

– Mulher, os teus pombos estão com fome. Tens grãos para eles?

– Sim, Mestre, estão no saco, debaixo do pórtico. Daqui a pouco eu vou.

– Deixa que eu o farei. Isso me agrada.

– Eles não virão. Pois não te conhecem.

– Oh! Eu os tenho nas minhas costas, e até sobre minha cabeça…

Jesus, de fato, vai caminhando com os seu estranho capacete formado por um pombo de chumbo, com o peito parecendo uma couraça preciosa, pois é muito cambiante em sua cor.

A mulher, incrédula, se aproxima, e diz:

– Oh!

– Estás vendo? Os pombos são melhores do que os homens, mulher. Eles perceberam quem é que os ama. Os homens… não.

– Não fiques pensando, Mestre, no que aconteceu. Poucos são os que te odeiam. Os outros, senão todos, te amam, te respeitam.

– Ah! Eu não fico abatido por isso. Eu o digo para fazer-te notar como muitas vezes os animais são melhores do que os homens.

Jesus abriu o saco, enfiou nele sua longa mão, e tirou de lá uns grãos louros que Ele põe na aba do manto. Depois Ele torna a fechá-la, e volta para o meio do pátio, procurando defender-se da invasão dos pombos, que querem servir-se a si mesmos. Jesus abre o seu pacotinho, e espalha os grãos no chão, rindo-se por causa da luta, da briga entre si dos vorazes penudos. O alimento jogado foi logo comido. Os pombos bebem em um prato fundo, e ficam ainda olhando para Jesus.

– Agora, ide. Não há mais nada.

Os animaizinhos esvoaçam ainda um pouco sobre as costas e os joelhos de Jesus, e depois vão para os seus ninhos. Jesus se concentra em sua meditação.

406.3 Estão dando umas batidas fortes na porta. A mulher vai correndo para abrir. São os discípulos.

– Vinde –diz Jesus–. Já distribuístes o dinheiro aos pobres?

– Sim, Mestre.

– Até o último centavo? Lembrai-vos de que tudo o que nos é dado não é para nós, mas para fazer caridade. Nós somos pobres, e da misericórdia é que vivemos. Infeliz do apóstolo que se aproveita para fins humanos!

– E, se um dia ficamos sem pão, e nos acusam de estarmos violando a Lei, porque ficamos como uns pardais debulhando espigas?

– Já te faltou alguma coisa, Judas? Alguma coisa necessária, desde que vieste ficar comigo? Terás caído de fraqueza alguma vez?

– Não, Mestre.

– Quando Eu te disse: “Vem,” por acaso te prometi comodidades e riquezas? E nas minhas palavras aos que me ouvem, terei Eu dito que vou dar “aos meus” alguma vantagem nesta Terra?

– Não, Mestre.

– E, então, Judas? Por que estás tão mudado? Não sabes, não percebes que o teu descontentamento e essa tua frieza me fazem sofrer? Por que, Judas, meu amigo, tu, chamado a tão grande sorte, tu que vieste com tanto entusiasmo ao encontro do meu amor e da minha Luz, por que agora queres me abandonar?

– Mestre, eu não te quero abandonar. Sou eu que mais cuido de Ti, dos teus interesses e do teu bom êxito. Eu quereria ver-te triunfando por toda parte, podes crer.

– Eu sei disso. Humanamente este é o teu desejo. E já é muita coisa. Mas não é isso que Eu quero, Judas. Judas, meu amigo… Eu vim para coisa bem diferente de um triunfo humano, de um reino humano… Eu vim, não para dar aos meus amigos umas migalhas de algum triunfo humano. Mas para dar-vos uma ampla recompensa, em uma medida bem cheia, calcada e farta, uma recompensa que não é somente a de uma medida cheia, mas que é a de compartilhar do meu Reino eterno, na união nos direitos de filhos de Deus… Oh! Judas! Por que não te entusiasmas por essa sublime herança, da qual nos aproximamos por meio da renúncia, mas que é uma herança que não tem fim?

406.4 Vem ainda mais para perto de Mim, Judas. Estás vendo? Aqui estamos sós. Os outros compreenderam que Eu queria falar contigo, a ti, que és o distribuidor das minhas… riquezas, das esmolas que o Filho do Homem, que o Filho de Deus recebe, para dá-las em nome de Deus e do homem, ao homem. Estamos sozinhos, Judas, nesta hora tão agradável da tarde, na qual o nosso coração voa até às nossas casas distantes daqui, às nossas mães certamente, que estão preparando sua ceia solitária, pensando em nós, e acariciando com a mão o lugar em que nos sentávamos, antes de chegar esta hora de Deus na qual a vontade santíssima nos tomou para fazer que Ele seja amado em espírito e verdade.

As nossas mães! A minha, tão santa e pura, que vos quer tanto bem e reza por vós, amigos do seu Jesus… A minha, que só tem uma paz, no meio da ansiedade da sua condição de Mãe do Cristo, e é a de saber que Eu estou rodeado pelo vosso afeto… Não decepcioneis, não firais este coração de mãe, meus amigos. Não o despedaceis com alguma vossa má ação! E a tua mãe, Judas. A tua mãe que, na última vez que passamos por Keriot, não cessava de abençoar-me, e queria beijar-me os pés, porque se sente feliz por estar o seu Judas na Luz de Deus, e me dizia: “Oh! Mestre! Faze-o santo ao meu Judas! Que mais quer meu coração de mãe senão o bem de seu filho?” E, de fato, que bem há maior, Judas do que aquele para o qual Eu quero levar-vos, e ao qual se chega, indo pelo meu Caminho? Santa mulher é a tua mãe, Judas. Uma verdadeira filha de Israel. Eu não quis que ela me beijasse os pés. Porque vós sois os meus amigos, e porque em cada uma de vossas mães, em cada mãe boa, Eu vejo a minha, Judas. E Eu quereria que vós na vossa vísseis a minha com o seu terrível destino de corredentora, e não quisésseis, não quisésseis matá-la porque… vos pareceria estar matando a vossa…

406.5 Judas, não chores. Para que chorar? Se nada tens no coração, que te cause remorso a respeito da tua mãe e da minha mãe, por que é que ficas derramando esse pranto? Vem cá, põe a cabeça sobre o meu ombro, e conta ao teu amigo a tua preocupação. Cometeste alguma falta? Ou estás em perigo de cometê-la?

Oh! Não fiques sozinho! Vence a Satanás com o auxílio de quem te ama. Eu sou Jesus, Judas. Sou o Jesus que cura as doenças e expulsa os demônios. Sou o Jesus que salva… e que te quer muito bem, e que sofre por ver-te tão enfraquecido. Eu sou o Jesus que ensina a perdoar setenta vezes sete. Mas Eu, por Mim, não setenta, mas setecentas, ou sete mil vezes vos perdoo… e não há culpa, Judas, que Eu não perdoe, que Eu não perdoe, que Eu não perdoe, se, arrependido, o culpado me diz “Jesus, eu pequei.” E até menos, se ele apenas olha para Mim suplicante. E as primeiras culpas que eu perdoo, sabes, meu amigo, a quem é que Eu perdoo? Aos mais culpados e aos mais arrependidos. E as primeiríssimas entre as primeiras que Eu vos perdoo, sabes quais são? São as feitas contra Mim.

Judas!… Não tens uma palavra, em resposta ao teu Mestre? Será tão forte a tua preocupação, que te embargue a voz? Tens medo de que Eu te denuncie? Não tenhas medo disso. E a prova é que Eu te quis falar assim, tendo-te sobre o meu coração, como dois irmãos nascidos em um berço, nascidos no mesmo parto, como se fossem uma só carne, dois que se revezaram, ao sugarem o bico de peito, e provaram o sabor da saliva fraterna, unida ao dulçor do leite materno. Agora Eu te tenho comigo, e não te soltarei, enquanto não me disseres que Eu te curei. Não tenhas medo, Judas. É uma confissão que Eu quero. Mas os teus companheiros ficarão pensando que é um colóquio de amor, porque os nossos rostos estarão irradiando uma recíproca paz, de um amor recíproco, ao fim deste colóquio. E Eu farei que eles continuem a acreditar, conservando-te sobre o meu peito hoje de tarde, à hora da ceia, dando-te ensopado o meu próprio pão, e te entregando com muita predileção, e depois te servirei o cálice em primeiro lugar, depois de termos dado graças a Deus por tudo. Tu serás o rei do banquete, Judas. E realmente o serás. Serás a esposa do esposo, ó alma por Mim amada, se te tornares limpa e livre, deixando cair a tua poeira no meu seio purificador. 406.6Ainda não falas para dizer por que choras?

– Tu me falaste com tanta mansidão… de minha mãe… da casa… do teu amor… Um momento de fraqueza… Eu estou muito cansado!… E parecia-me que há muito tempo Tu não me amavas assim…

– Não. Não é isto. Nas tuas palavras só há uma verdade. E é que estás cansado. Mas, não por causa da estrada, nem da poeira, do sol, da lama, da multidão. Estás cansado de ti mesmo. Tua alma está cansada de tua carne e de tua mente. Tão cansada ela está, que acabará por extinguir-se em uma canseira mortal. Pobre alma, que Eu chamei para os fulgores eternos. Pobre alma que sabe que Eu te amo, e te censura por a arrebatares ao meu amor! Pobre alma que te censura, inutilmente, como Eu inutilmente te acaricio com o meu amor, ao agires traiçoeiramente para com o teu Mestre. Mas, não és tu que ages. É aquele que te odeia, e me odeia. Por isso é que Eu te dizia: “Não fiques sozinho.” Pois bem. Escuta. Tu sabes que passo minhas noites quase todas em oração. Se um dia tiveres a coragem de ser homem e a vontade de seres meu, vem até Mim, enquanto teus companheiros estiverem dormindo. As estrelas, as flores, os passarinhos são umas testemunhas prudentes e boas. Sigilosas. Piedosas. Ficam horrorizadas pelo delito que acontece ao alcance delas, mas não usam de sua voz para dizerem aos homens: “Este é um Caim para com o seu irmão.” Entendeste, Judas?

– Sim, Mestre. Mas podes crer: eu nada mais tenho, senão cansaço e emoção. Eu te amo com todo o coração e…

– Está bem. Basta assim.

– Tu não me dás um beijo, Mestre?

– Sim, Judas. Este, e outros ainda Eu te darei…

Jesus suspira profundamente, com dó. Mas beija Judas na face. Depois, segura a cabeça dele entre as palmas de suas mãos, e, conservando-a bem apertada diante de Si, à distância de poucos decímetros, fixa nele os olhos, o estuda, e o atravessa com o seu olhar magnético. E Judas, este infeliz, nem estremece. Fica aparentemente impávido, ao passar por aquele exame. Só se torna um pouco pálido, e, por um instante, fecha os olhos.

E Jesus o beija sobre as pálpebras abaixadas, depois na boca, depois sobre o coração, inclinando a cabeça, como se estivesse procurando o coração do discípulo… e diz:

– Eis! É para expulsar as névoas, para fazer-te perceber a doçura de Jesus e para fortificar o teu coração.

Depois o deixa ir, e toma o caminho para casa, acompanhado por Judas.

406.7 – É bom que tenhas vindo, Mestre! Está tudo pronto. Só te estávamos esperando –diz Pedro.

– Está bem. Eu estava falando com o Judas sobre muitas coisas… Não é mesmo, Judas? Seria necessário tomar providências para que se cuide daquele pobre velho, do qual mataram o filho.

– Ah!

Judas quer aproveitar a boa oportunidade, agarrando-a no voo, para acabar de voltar a si e para desviar, se por acaso existissem, as suspeitas dos outros.

– Ah! Sabes, Mestre? Hoje nós fomos detidos por um grupo de gentios, misturados a uns judeus das colônias romanas da Grécia. Eles estavam querendo saber de muitas coisas. Nós lhes respondemos como nos foi possível. Mas, com certeza, não chegamos a persuadi-los. Contudo, eles foram muito bons, e nos deram muitas moedas. Ei-las aqui, Mestre. Poderemos fazer muito bem.

E Judas põe sobre a mesa uma grande sacola de pele macia que, ao bater na mesa, produz um som de dinheiro. A sacola tem a grossura da cabeça de um menino.

– Está bem, Judas. Distribuirás o dinheiro com equidade. O que queriam saber os gentios?

– Queriam saber coisas sobre a vida futura… se o homem tem alma, e se ela é imortal… Eles diziam os nomes de seus mestres. Mas nós… que é que podíamos dizer?

– Devíeis dizer-lhes que viessem.

– Nós o dissemos. Talvez eles virão.

A refeição continua. Jesus tem perto de Si Judas, e lhe dá o pão ensopado no caldo que está na travessa de carne assada.

Estão comendo umas pequenas azeitonas, quando se ouve bater na porta. E pouco depois entra a dona da casa, e diz:

– Mestre, o assunto é contigo.

– Quem são eles?

– Uns homens estrangeiros.

– Mas é impossível!

– O Mestre está cansado!

– Há um dia inteiro que Ele vem caminhando e falando!

– E, além disso. Gentios aqui em casa! Nunca!

Os doze devem estar todos alvoroçados, como uma colmeia que foi incomodada.

– Pssiu! Devagar. Não me cansa atender a quem me procura. Para Mim isso é um repouso…

– Poderia ser uma cilada! Numa hora destas!

– Não. Não é. Ficai quietos e reparai. Eu já descansei, enquanto vos estive atendendo. Eu vou. Não vos peço que venhais comigo… visto que Eu vos digo que, mesmo entre os gentios, devereis levar o vosso judaísmo, que não será outra coisa senão o cristianismo. Esperai-me aqui.

– Vais sozinho? Ah! Isso nunca! –diz Pedro, e põe-se de pé.

– Fica onde estás. Eu vou sozinho.

406.8 Jesus sai. Ele se deixa ver à porta, que é a da entrada. No crepúsculo são muitos os homens que o estão esperando.

– A paz esteja convosco. Que quereis de Mim?

– Salve, Mestre.

Quem fala é um velho imponente, envolvido em uma veste romana e traz colocada sobre a cabeça uma capinha redonda, perecendo um capuz.

– Hoje nós conversamos com os teus discípulos. Mas eles não nos souberam dizer muita coisa. Gostaríamos de falar contigo.

– Sois aqueles do rico óbolo? Obrigado, em nome dos pobres de Deus.

Jesus se vira para a dona da casa e diz:

– Mulher, Eu vou sair com estes. Dize aos meus que vão encontrar-se comigo perto da beira-mar, porque, pelo que vejo, estes são comerciantes dos empórios…

– E navegadores. Mestre, viste bem.

Saem todos juntos pela estrada, que está iluminada por um belo luar.

– Estais vindo de longe?

Jesus está no centro do grupo, tendo a seu lado o velho que falou por primeiro, um belo velho de genuíno perfil latino. Do outro lado, está outro idoso, de rosto nitidamente hebraico e, além destes, mais dois ou três delgados, de cor azeitonada, de olhos vivos e um pouco irônicos, e outros, mais robustos e de diversas idades. É uma dezena de pessoas.

– Nós somos das colônias romanas da Grécia e da Ásia. Uma parte é de Judeus, e a outra de gentios… Não tínhamos coragem de vir por isso… Mas nos garantiram que Tu não desprezas os gentios… Como fazem os outros… Os judeus observantes, eu queria dizer, os de Israel, porque em outros lugares também há judeus, mas menos rígidos. Tanto assim que eu, que sou romano, tenho por mulher uma judia de Licaônia, enquanto que este aqui tem por mulher uma romana, sendo ele um hebreu de Éfeso.

– Eu não desprezo a ninguém… mas é preciso compadecer-se daqueles que ainda não sabem pensar que, sendo um só o Criador de todos, todos os homens são de um só sangue.

– Já sabemos que Tu és grande entre os filósofos. E o que estás dizendo o confirma. És grande e bom.

– Bom é quem faz o bem. Não o que fala bem.

– Tu falas bem e fazes o bem, Portanto, és bom.

406.9 – Que quereis saber de Mim?

– Hoje, perdoa, Mestre, se te cansamos com as nossas curiosidades. Mas são curiosidades boas, porque procuram com amor a verdade. Hoje nós queríamos saber dos teus a verdade sobre uma doutrina que já foi ensinada pelos antigos filósofos da Grécia, e que Tu, como nos dizem, estás pregando de novo, de modo mais amplo e belo. Eunice, minha mulher, esteve falando com judeus que te ouviram, e me repetiu tuas palavras. Sabes, Eunice é grega, é culta e conhece as palavras dos sábios de sua pátria. Ela encontrou uma semelhança entre as tuas palavras e as de um grande filósofo grego. Aquelas tuas palavras chegaram até Éfeso. Pelo que, tendo vindo até aqui, uns por causa do comércio, e outros por motivo religioso, neste porto nos encontramos com amigos, e falamos sobre o assunto. As ocupações não nos afastam de pensar também sobre outras coisas mais altas. Tendo enchido os empórios e as estivas, achamos tempo para resolver uma dúvida. Tu dizes que a alma é eterna. Sócrates diz que ela é imortal. Conheces as palavras do mestre grego?

– Não. Eu não estudei nas escolas de Roma e de Atenas. Mas podes falar assim mesmo. Eu entendo do mesmo modo. Não desconheço o pensamento do filósofo grego.

– Sócrates, ao contrário do que cremos nós de Roma, e também ao contrário do que creem os vossos saduceus, admite e sustenta que o homem tem uma alma, e a passagem da alma de um cárcere para um lugar livre, no qual ela vai unir-se àqueles que ela amou, e lá fica conhecendo os sábios, de cujo bom senso ouviu falar, e os grandes, os heróis, os poetas, e não convive mais com a injustiça, com a dor. Mas terá uma felicidade eterna, em uma morada de paz, aberta para as almas imortais que viveram na justiça. E Tu, que dizes a isto, Mestre?

– Em verdade, Eu te digo que o mestre grego, ainda que estivesse no erro de uma religião não verdadeira, estava com a verdade, ao dizer que a alma é imortal. Pesquisador da verdade e cultor da virtude, ouvia no fundo do seu espírito murmurar a voz do Deus desconhecido, do verdadeiro Deus, do único Deus: o Pai Altíssimo, do qual Eu venho para levar os homens à verdade. 406.10O homem tem uma alma. Uma. Verdadeira. Eterna. Senhora. Merecedora de prêmio e de castigo. Toda dele. Criada por Deus. Destinada, no plano da criação, a voltar para Deus. Vós, gentios, vos dedicais demais ao culto da carne. Em verdade ela é uma obra admirável, sobre a qual está o sinal do Polegar eterno. Vós admirais demais a mente, que é como uma joia encerrada no escrínio de vossa cabeça, e que de lá emite os seus raios sublimes. Grande, excelso dom que Deus criou, e que nos fez, segundo o seu Pensamento, como formas, isto é, uma obra perfeita, composta de órgãos e de membros, e vos deu a sua semelhança com o pensamento e com o Espírito. Mas a perfeição chamada semelhança é pelo espírito. Pois Deus não tem membros, nem a opacidade como a carne, assim como também não tem a sensualidade nem os desejos da luxúria, mas é um Espírito puríssimo, eterno, perfeito, imutável, incansável em seu agir, continuamente renovando-se em suas obras, que paternalmente Ele proporciona para o trabalho de sua criatura que quiser aperfeiçoar-se. O espírito1, criado para todos os homens pela mesma Fonte de poder e de bondade, não conhece variações de perfeições em seu início. É um só o Espírito Incriado, perfeito, e que assim permanece. Três são os espíritos perfeitos por natureza…

– Um deles és Tu, Mestre.

– Eu, não. Eu, na minha carne, tenho o Espírito que não foi criado, mas que foi gerado pelo Pai, por uma exuberância de Amor.

– Quais, então?

– Os dois progenitores, dos quais vem a raça, que foram criados perfeitos, mas que depois caíram voluntariamente na imperfeição. O terceiro, criado para delícia de Deus e do universo, está acima demais da capacidade do pensamento e da fé do mundo, para que Eu vo-lo possa indicar. Os espíritos, Eu ia dizendo, criados por uma mesma Fonte, com igual mistura de perfeição, passam depois, conforme seu mérito e sua vontade, por uma dupla metamorfose.

– Então, Tu admites segundas vidas?

Não há mais do que uma vida. Nela a alma, que inicialmente teve a semelhança com Deus, passa, pela justiça fielmente praticada em todas as coisas, para uma mais perfeita semelhança com o seu Criador, tornando-se capaz de chegar a possuir a Santidade, a qual consiste na perfeição da justiça e semelhança de filhos com o Pai. Essa existe nos bem-aventurados, isto é, aqueles que o vosso Sócrates diz que moram no “Hades.” Enquanto Eu vos digo que, quando a Sabedoria tiver dito suas palavras, e as tiver consolidado pelo sangue, esses serão os bem-aventurados do Paraíso, serão do Reino, isto é, de Deus.

– E onde estão estes agora?

– À espera.

– Espera de quê?

– Do Sacrifício. Do perdão. Da libertação.

– Dizem que o Messias será o Redentor, e que Tu és o messias. É verdade?

– É verdade. Sou Eu, que vos estou falando.

406.11 – Então, Tu deverás morrer? Por que, Mestre? O mundo precisa tanto de Luz, e Tu queres deixá-lo?

– Tu, que és um grego, me fazes uma pergunta destas? Tu em quem as palavras de Sócrates têm um trono?

– Mestre, Sócrates foi um justo. Tu és um santo. Olha bem, que necessidade de santidade a Terra tem!

– Ela aumentará dez mil vezes por cada dor, por cada ferida, por cada gota do meu Sangue.

– Por Júpiter! Nunca houve um estoico maior do que Tu, que não te limitas a pregar o desprezo da vida, mas te apressas em jogá-la fora.

– Eu não desprezo a vida. Mas a amo como a coisa mais útil para comprar a salvação do mundo.

– Mas Tu és jovem, Mestre, para morreres!

– O teu filósofo diz que é querido pelos deuses o que é santo, e tu me chamaste de santo. Se Eu sou santo, devo sentir sede de voltar à Santidade, da qual Eu vim. Portanto, nunca se é muito jovem, para não ter esta sede. Diz ainda Sócrates que quem é santo gosta de fazer coisas agradáveis aos deuses. Que coisa pode haver mais agradável do que fazer voltarem ao abraço do Pai os filhos que a culpa afastou dele, e dar ao homem a paz com Deus, que é fonte de todo bem?

– Tu dizes que não conheces as palavras de Sócrates. Como é, então, que sabes estas que estás dizendo?

– Tudo Eu sei. O pensamento dos homens, quando é um pensamento bom, não é mais do que um reflexo de um pensamento meu. Quando ele não é bom, não é meu, mas Eu o li desde a eternidade, e soube, sei e saberei, quando ele foi, é e será dito. Eu sei.

406.12 – Senhor, vai a Roma, o farol do mundo. Aqui o ódio te rodeia. Lá a veneração te circundará.

– Ao homem, sim. Mas não ao Mestre do sobrenatural. Eu vim por causa do sobrenatural. E o devo trazer aos filhos do Povo de Deus, por mais que eles sejam tão duros para com o Verbo.

– Então, Roma e Atenas não te terão?

– Elas me terão. Não temais. Elas me terão. Aqueles que me quiserem me terão.

– Mas, e se te matarem…

– O espírito é imortal. O espírito de todos os homens. Não será o meu, Espírito do Filho de Deus? Virei com o meu Espírito atuante… Virei… Vejo as multidões inumeráveis, e as Casas erguidas em meu Nome… Estou por toda parte… Falarei nas catedrais e nos corações… A minha evangelização não terá parada… O Evangelho percorrerá a Terra… Todos os bons virão a Mim… e eis que… Eu passo à frente do meu exército de santos, e o conduzo para o Céu. Vinde à Verdade…

– Oh! Senhor! Nós temos nossas almas enfaixadas com fórmulas e erros. Como faremos para abrir-lhes as portas?

– Eu abrirei as portas do Inferno, abrirei as portas do vosso Hades e do meu Limbo. E não poderei abrir as vossas? Dizei “Eu quero” e, como um tapume feito de asas de borboletas, elas cairão pulverizadas, sob o passar do meu Raio.

– Quem virá em teu Nome?

– Estás vendo aquele homem que desta vez está vindo junto com outro pouco mais do que um adolescente? Aqueles irão a Roma e à Terra. E com eles muitos outros. Tão prontos estarão como agora, pelo amor a Mim, que os estimula, e que não os deixa tomar repouso, senão a meu lado, virão pelo amor dos redimidos pelo meu Sacrifício, para irem procurar-vos e levar-vos para a Luz. Pedro! João! Vinde aqui. Eu terminei, me parece, e estou convosco. Tendes ainda alguma outra coisa para me dizerdes?

– Outra coisa, sim, Mestre. Nós vamos, levando conosco as tuas palavras.

– Que elas germinem em vós com raízes eternas. Ide. A paz esteja convosco.

– Salve! A Ti. Mestre.

E a visão termina…

406.13Mas Jesus diz ainda:

– Estás extenuada? Um ditado pesado. É mais um ditado do que uma visão. Mas é o assunto desejado por alguns. Quem são? Tu o saberás no meu Dia. Agora, vai em paz tu também.

De meu, eu acrescento que a conversação entre Jesus e os gentios aconteceu ao longo do cais do porto de uma cidade marítima. Bem visíveis ao luar eram as plácidas ondas que iam morrer em redemoinhos sobre os escolhos do antemural de um porto bem amplo e cheio de navios. Eu nem pude dizer isso antes, porque o grupo falou o tempo todo e, se eu descrevesse o lugar, perderia o fio das palavras. Eles vão falando, e indo para lá e para cá, em um longo trecho do cais do porto. A rua está solitária, pois os passageiros não se veem mais e os marinheiros voltaram já todos para os seus navios, dos quais podem ver-se os faróis vermelhos, que brilham como umas estrelas de rubis durante a noite. Que cidade seja esta, eu não sei. Mas é muito bonita e importante.

1 O espírito… até … os espíritos perfeitos por natureza… foi escrito por MV, em uma cópia datilografada, do seguinte modo: O espírito, criado a todos os homens de uma mesma Fonte de potência e bondade, não conhece variação de perfeição “inicial”, mas conhece muitas quando é incutido na carne. Um só é o Espírito incriado e perfeitísismo, e sempre permanece como tal. Três são os espíritos criados perfeitos e… A resposta seguinte de Jesus, que inicia com Não eu, foi reescrita integralmente, em uma cópia datilografada do seguinte modo: Na minha Carne Eu sou o Espírito divino não criado, mas gerado pelo Pai por sua profusão de amor. E tenho a alma criada pelo Pai sendo Eu, agora, o Homem. Alma perfeita a qual convém ao homem Deus. Mas Eu falo dos outros espíritos. Ainda na mesma cópia datilografada, MV acrescentou a seguinte nota: Fala aqui como Deus-Verbo “pelo qual todas as coisas foram feitas”, também como a sua alma de Homem. Se falasse como Homem diria que Deus, ou seja, ainda Ele, criou “o único espírito perfeitíssimo” para uni-lo a sua Carne de Verbo encarnado no qual todas as perfeições se concentram. E fala aos Gentios, portanto de maneira adequada a sua ignorância pagã. Tenha-se presente a nossa nota em 17.2 pelo uso as vezes ambíguo dos termos “alma” e “espírito”. Ainda à luz do quanto Jesus diz de Si em 80.9 e 272.4, pode-se afirmar que o espírito (uma das três partes que fazem o homem: corpo, alma espírito), criado (e incutido) pelo Pai em cada homem, pelo Cristo é gerado (não criado) pelo Pai. Portanto, o Cristo tem a alma criada e o espírito incriado.


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