71. 71. Judas Iscariotes apresentado a João e a Simão Zelote.
6 de janeiro de 1945.
71.1 Vejo Jesus com Judas Iscariotes, dando uns passos, para cima e para baixo, junto a uma das portas do recinto do Templo.
– Estás certo de que ele virá? –pergunta Judas.
– Estou certo. Ele ia partir ao amanhecer de Betânia e no Get-Sammi ia encontrar-se com o meu primeiro discípulo…
Uma pausa, depois Jesus se detém e olha fixamente para Judas. Coloca-se em sua frente. Perscruta-o. Em seguida põe-lhe uma mão sobre o ombro e lhe pergunta:
– Por que é Judas, que não me dizes o teu pensamento?
– Que pensamento? Não tenho um pensamento especial neste momento, Mestre. Perguntas eu te faço até demais. E certamente não te podes queixar do meu mutismo.
– Faz-me muitas perguntas e me dás muitas informações sobre a cidade e seus habitantes. Mas não me abres a tua alma. Que importância queres que tenham para Mim informações sobre o seu patrimônio e a estrutura desta ou daquela família? Eu não sou um mandrião que tenha vindo aqui por passatempo. Tu sabes porque é que Eu vim. E bem podes compreender que me importa antes de tudo, ser o Mestre dos meus discípulos. Por isso quero da parte deles sinceridade e confiança. 71.2Teu pai te amava, Judas?
– Sim, me amava muito. Eu era o seu orgulho. Quando eu voltava da escola, e também mais tarde, quando eu voltava de Jerusalém para Keriot, ele queria que eu lhe contasse tudo. Interessava-se por tudo o que eu fazia e se eram coisas boas, se alegrava, se eram coisas menos boas, me animava. Se — alguma vez, como sabes, todos erram — eu tinha cometido algum erro e recebido alguma repreensão, ele me fazia ver toda a justiça da repreensão recebida e quanto eu havia errado. Mas o fazia tão docemente… parecia um irmão maior. E terminava sempre assim: “Isto eu te digo, porque quero que o meu Judas seja um justo. Quero ser abençoado através do meu filho…” Meu pai…
Jesus que ficou o tempo todo fitando atentamente o discípulo, sinceramente emocionado com a evocação da memória de seu pai, lhe diz:
– Aí está, Judas, fica certo de tudo o que te digo. Nenhuma obra fará mais feliz o teu pai do que a de seres meu fiel discípulo. O espírito de teu pai exultará, lá onde estáesperando a Luz — porque, se assim ele te educou, justo deve ter sido — vendo-te meu discípulo. Mas, para o seres, deves dizer-te a ti mesmo: “Reencontrei o meu pai que eu tinha perdido, um pai que parecia um irmão mais velho, eu o encontrei no meu Jesus e a Ele, como ao meu pai amado que eu ainda choro, direi tudo, para ter dele guia, bênção ou mansa repreensão.” Queira o Eterno e tu, sobretudo tu, queiras agir de tal modo, que Jesus só possa te dizer: “És bom, Eu te abençôo.”
– Oh! Sim Jesus, sim. Se Tu me amares muito, eu saberei tornar-me bom, como Tu queres, e como meu pai queria. E minha mãe não terá mais aquele espinho no coração. Ela dizia sempre: “Estás agora sem guia, meu filho, e ainda tens tanta necessidade!” Quando ela souber que tenho a Ti!
– Eu te amarei, como nenhum outro homem poderia, Eu te amarei muito, te amo muito. Não me decepciones.
– Não, Mestre, não. Eu era cheio de contrastes: invejas, ciúmes, manias de querer ser o primeiro, a sensualidade, tudo se chocava em mim contra os sentimentos bons. Queres ver? Agora há pouco, Tu me causaste uma dor. Ou seja, Tu, não. O que a causou foi a minha natureza má… Eu pensava que era o teu primeiro discípulo… e Tu me disseste que já tens um outro.
– Tu mesmo o viste. Não te lembras de que no Templo, pela Páscoa, Eu estava com muitos galileus?
– Pensava que fossem amigos… Eu pensava que eu fosse o primeiro escolhido para tal condição e por isso, o predileto.
– Não há distinções em meu coração entre os últimos e os primeiros. Se o primeiro cometesse falta, e o último fosse um santo, aí então, aos olhos de Deus é que se faria uma distinção. Mas Eu, Eu amarei da mesma forma, com um amor feliz ao santo e com um amor sofredor ao pecador. 71.3Mas eis João que chega com Simão. João, o meu primeiro. Simão, aquele do qual te falei dois dias atrás. Simão e João, tu já os viste. Um era doente…
– Ah! O leproso! Eu me lembro. Já é o teu discípulo?
– Desde o dia seguinte.
– E comigo, por que tanta espera?
– Judas?!
– É verdade. Perdão.
João viu o Mestre e o mostra a Simão. Apressam o passo. A saudação de João é um beijo trocado com o Mestre. Simão, ao invés, prostra-se ao pés de Jesus e os beija, exclamando:
– Glória ao meu Salvador! Abençoa o teu servo para que as suas ações sejam santas aos olhos de Deus, e eu lhe possa dar glória para bendizê-lo por ter-me dado a Ti!
Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça:
– Claro que Eu te abençôo para agradecer-te por teu trabalho. Levanta-te, Simão. Eis, João; eis, Simão: este é o último discípulo. Ele também quer seguir a Verdade. Por isso, é irmão de todos vós.
Saúdam-se, os dois judeus com uma indagação recíproca e João com sua expansão.
– Estás cansado, Simão? –pergunta Jesus.
– Não, Mestre. Junto com a saúde, veio-me um vigor que eu ainda não conhecia.
– E sei que o estás empregando bem. Tenho falado com muitos e todos me falaram de ti como daquele que já os instruiu sobre o Messias.
Simão sorri contente:
– Ontem mesmo, à tarde, falei de Ti com uma pessoa que é um israelita honesto. Espero que um dia o conheças. Gostaria que fosse eu quem Te conduzisse a ele.
– Isto não é impossível.
Judas intervém:
– Mestre, Tu me prometeste ir comigo à Judéia.
– E irei. Simão continuará a instruir as pessoas sobre a minha vinda. O tempo é breve, amigos, e o povo é numeroso. 71.4Agora Eu vou com Simão. A tarde, vós dois ireis ao meu encontro pela estrada do Monte das Oliveiras e distribuiremos dinheiro aos pobres. Ide.
Jesus, sozinho com Simão, lhe pergunta:
– Aquela pessoa de Betânia é um verdadeiro israelita?
– Um verdadeiro israelita. Há nele todas as idéias predominantes, mas ele tem também uma verdadeira ânsia pelo Messias. E quando eu lhe disse: “Ele já está entre nós”, ele respondeu imediatamente: “Feliz de mim, que vivo nesta hora!”
– Iremos a ele um dia para levar a bênção à sua casa. Viste o novo discípulo?
– Eu vi. É jovem e parece inteligente.
– Sim. Ele é. Tu, que és judeu, mais do que os outros será compatível de suas idéias.
– É um desejo, ou uma ordem?
– É uma ordem serena. Tu, que sofreste, és capaz de ter mais indulgência. A dor ensina tantas coisas!
– Se me mandas, eu serei todo indulgência para com ele.
– Sim, isto mesmo. Talvez o meu Pedro, e não só ele, fique um pouco escandalizado, ao ver como trato e me preocupo com este discípulo. Mas um dia eles entenderão… quanto mais alguém é mal formado, mais precisa de cuidados. Os outros… oh! os outros vão-se formando também por si, somente por contato. Eu não quero fazer tudo por Mim. Peço a vontade do homem e a ajuda dos outros para formar um homem. Eu vos chamo para que me ajudeis… e vos fico agradecido pela ajuda.
– Mestre, estás supondo que dele te venham decepções?
– Não. Mas ele é jovem e cresceu em Jerusalém…
– Oh! Perto de Ti ele se corrigirá de todos os vícios desta cidade… Estou certo disso. Eu, já velho e tornado insensível pelo fastio da vida, tornei-me completamente novo, desde o dia em que Te vi…
Jesus murmura:
– E assim seja.
E depois, em voz alta:
– Vem Comigo ao Templo. Vou evangelizar o povo.
E a visão termina.