105. 105. Em Nazaré, durante a morte de Alfeu.Lenta conversão do primo Simão.


12 de fevereiro de 1945.

105.1 A tarde desce em um grande vermelho do por-do-sol, que, como um fogo que se apaga, torna-se cada vez mais escuro, até assumir uma cor mesclada de rubi e violeta. Uma cor esplêndida e rara, que pincela, sombreando-se lentamente, o ocidente, até desaparecer no cobalto escuro do céu, lá onde o oriente avança sempre mais com as suas estrelas e o seu arco de lua crescente, já voltado à segunda fase. Os agricultores apressam o passo para chegarem às suas casas, que já mostram os fogos acesos, pelas espirais de fumaça que saem das baixas casinhas de Nazaré.

Jesus está para voltar à cidade e, ao contrário do que os outros desejam, não quer que ninguém vá avisar a sua Mãe.

– Não acontecerá nada. Para que inquietá-la antes? –diz.

Ei-lo já entre as casas. Alguma saudação, algum cochicho por detrás Dele, alguma pessoa grosseira que lhe vira as costas, e batidas de portas, quando passa o grupo dos apóstolos.

A gesticulação de Pedro é um verdadeiro poema. Mas também os outros estão um pouco inquietos. Os filhos de Alfeu parecem dois condenados. Prosseguem de cabeça baixa, ao lado de Jesus, mas assim mesmo, observam tudo e, de vez em quando, olham assustados entre si e com apreensão para Jesus. Mas Ele, como se não fôsse nada, responde às saudações com sua costumeira afabilidade e se curva para acariciar as crianças que, em sua simplicidade, não tomam partido deste ou daquele, e são sempre amigas do seu Jesus, que é sempre tão afetuoso com elas.

Uma das crianças — um gorducho que tem no máximo, quatro anos — desprendendo-se da veste da mãe, corre ao encontro de Jesus e estende-lhe os bracinhos, dizendo: “Pega-me!”, e depois que Jesus o contenta e o pega, ele o beija com sua boquinha toda lambuzada pelo figo que ele estava chupando, e leva o seu amor até a… oferecer um pedacinho do figo a Jesus, dizendo:

– Pega! É gostoso!

Jesus aceita a oferta e ri por ver aquele homenzinho dando-lhe de comer.

105.2 Isaque, carregado de ânforas, está voltando da fonte. Ele vê Jesus, pousa as ânforas no chão, e grita:

– Oh! O meu Senhor! –e corre ao encontro Dele–. Tua Mãe voltou agora para casa. Ela estava na casa da cunhada. Mas… recebeste a carta? –pergunta.

– Eu estou aqui por causa disso. Não digas nada à minha Mãe, por enquanto. Antes, Eu vou à casa de Alfeu.

Isaque, prudente, não diz outra coisa senão: “Eu te obedecerei”, e pega as suas ânforas, indo diretamente para a casa.

– Agora iremos nós. Vós, amigos, nos esperarão aqui. Eu ficarei pouco.

– Não realmente! Não entraremos na casa do luto, mas estaremos ali fora. Não é verdade? –diz Pedro.

– Pedro tem razão. Ficaremos na rua. Mas perto de Ti.

Jesus cede à vontade de todos. Mas sorri e diz:

– Não me farão nada. Podeis crer. Eles não são maus. Estão apenas humanamente apaixonados. Vamos.

Ei-los na rua da casa, ei-los à entrada da horta. Jesus vai à frente. Atrás, Judas e Tiago.

105.3 Eis Jesus na soleira da cozinha. Nesta, junto ao fogão, está Maria de Alfeu, cozinhando e chorando. Em um canto Simão e José, com outros homens, estão sentados em círculo. Entre os homens está o Alfeu de Sara. Estão ali, silenciosos como umas estátuas. Será este o costume? Não sei.

– Paz a esta casa, e paz ao espírito que a deixou.

A viúva dá um grito, e faz um movimento instintivo para afastar Jesus, procurando colocar-se entre Ele e os outros. Simão e José se levantam, sombrios e atônitos. Mas Jesus não demonstra ter percebido a atitude hostil deles. Dirige-se aos dois homens — Simão já tem os seus cinquenta anos, ou talvez mais, a julgar pelo aspecto — e lhes estende as mãos em um ato de amoroso convite. Os dois estão mais atônitos do que nunca. Mas não ousam agir com grosseria. Alfeu de Sara treme e sofre visivelmente. Os outros homens estão taciturnos, à espera de algum sinal.

– Simão, tu que és agora o chefe da família, por que não me recebes? Eu venho para chorar contigo. Quanto queria ter estado convosco, na hora da dor! Mas, não por minha culpa, tive que estar longe. És justo, Simão. Tu o deves reconhecer.

O homem continua sério.

– E tu, José, que tens um nome que para Mim é querido, por que não recebes o meu beijo? Não quereis me permitir que chore convosco? A morte é um laço para os verdadeiros afetos. E nós nos amamos. Por que agora deve haver desunião?

– Por causa de Ti é que nosso pai morreu desgostoso –diz José com dureza.

E Simão:

– Devias ter ficado. Sabias que ele estava morrendo. Por que não ficaste? Ele te queria…

– Não teria podido fazer por ele mais do que havia feito. E vós o sabeis…

Simão, mais justo, diz:

– É verdade. Eu sei que Tu vieste, e ele te expulsou. Mas era um doente e um atormentado.

– Eu sei, e disse à tua mãe e aos teus irmãos: “Eu não guardo rancor, porque compreendo o coração dele.” Mas acima de todos está Deus. E Deus queria esta dor para todos. Para Mim que, podeis crer, sofri com ela como um rasgão na carne viva; para o vosso pai que, naquele sofrimento, compreendeu uma grande verdade, que durante toda a vida lhe tinha ficado desconhecida; para vós que, por esta dor, tendes o modo de fazer um sacrifício mais salutar do que o de um novilho imolado; e para Tiago e Judas, que agora não estão menos formados do que tu, ó meu Simão, porque tanta dor (para eles é a carga maior e os oprime como uma pedra de moinho) os tornou adultos e de uma idade perfeita aos olhos de Deus.

– Que verdade nosso pai viu? Somente uma: que o seu sangue, na última hora, lhe foi inimigo –rebate duramente José.

– Não. Pois mais que o sangue é o espírito. Ele compreendeu a dor de Abraão e por isso teve Abraão como sua ajuda –responde Jesus.

– Se fôsse verdade! Mas quem garante isso?

– Eu, Simão. E, mais do que Eu, a morte do teu pai. Ele não me procurou? Tu o disseste.

– Eu o disse. É verdade. Ele queria Jesus. E dizia: “Pelo menos que o espírito não fique morto! Ele pode fazer isso. Eu o rejeitei, e Ele não virá mais. Oh! A morte sem Jesus! Que horror que é! Por que eu o expulsei?” Sim, ele dizia isto. E dizia ainda: “Ele me perguntou tantas vezes: ‘Devo ir embora?’ e eu o mandei ir… Agora Ele não vem mais.” Ele te queria. Ele te queria. Tua Mãe mandou que te procurassem, mas não te encontraram em Cafarnaum, e ele chorou tanto e, com suas últimas forças, pegou a mão de tua Mãe, e a quis perto dele. Já estava falando com dificuldade. Mas dizia: “A Mãe é um pouco o Filho. Eu tenho a Mãe para ter alguma coisa Dele, porque tenho medo da morte.” Pobre de meu pai!

105.4 Acontece aí, então, uma cena oriental de gritos e gestos de dor, na qual todos tomam parte. Até Tiago e Judas, que ousaram entrar. O mais calmo é Jesus, que somente chora.

– Tu estás chorando? Então o amavas? –pergunta Simão.

– Oh! Simão. Ainda o perguntas? Mas, se Eu tivesse podido, achas que Eu teria permitido aquela dor dele? Eu estou com o Pai1, mas não sou mais que o Pai.

– Tu curas aos que estão morrendo, mas a ele não o curaste –diz José com aspereza.

– Ele não acreditava em Mim.

– Isto é verdade, José –observa o irmão Simão.

– Não acreditava e não abandonava o rancor. Eu não posso fazer nada, onde houver incredulidade e ódio. Por isso, Eu vos digo: Não odieis mais os vossos irmãos. Ei-los. Que o tormento deles não tenha gravame pelo vosso rancor. Vossa mãe está mais aflita por causa deste ódio, que ainda está vivo, do que pela morte que, por si mesma, acaba, e, em vosso pai terminou na paz, porque o desejo que ele teve de Mim trouxe-lhe o perdão de Deus. De Mim e por Mim, Eu não vos falo, nem peço. Eu estou no mundo, mas não sou do mundo. Aquele que vive dentro de Mim me compensa por aquilo que o mundo me nega. Sofro em minha humanidade, mas elevo o meu espírito além da terra e jubilo com as coisas celestes. Mas eles!! Não falteis para com a lei do amor e do sangue. Amai-vos. Em Tiago e Judas não há ofensa para com o vosso sangue. Mas se também houvesse, perdoai. Olhai com olhos justos as coisas e vereis que os mais ofendidos foram eles, que não foram compreendidos nas necessidades de suas almas arrebatadas por Deus. Contudo neles não há rancor. Mas só desejo de amor. Não é verdade, primos?

Judas e Tiago, que a mãe os estreita contra si, anuem em meio ao choro.

– Simão, és o maior. Dá o exemplo…

– Eu… por mim… Mas o mundo… mas Tu…

– Oh! O mundo! Ele se esquece e muda a cada aurora que surge… E Eu! Vem, dá-me o teu beijo de irmão. Eu te amo. Tu sabes disso. Despoja-te destas escamas, que te fazem duro, e que não são tuas, mas que são impostas por alguém que te é estranho e menos justo do que tu. Julga tu sempre com o coração reto.

Simão, ainda um pouco esquivo, abre os braços. Jesus o beija, e depois o leva aos irmãos. Beijam-se entre choros e lamentos.

– Agora tu, José.

– Não. Não insistas. Eu lembro a dor do pai.

– Em verdade, tu a perpetuas com este teu rancor.

– Não importa. Eu sou fiel.

Jesus não insiste. 105.5Vira-se para Simão:

– Já está ficando tarde. Mas se tu quiseres… O nosso coração arde de desejo de ir venerar os seus restos mortais. Onde está o Alfeu? Onde o pusestes?

– Atrás da casa. Onde o olival termina, perto do barranco. É um sepulcro digno.

– Eu te peço. Leva-me a ele. Maria, coragem! O esposo jubila porque está vendo os filhos em teu seio. Ficai. Eu vou com o Simão. Ficai em paz! Ficai em paz! José, a ti digo tudo o que Eu disse ao teu pai: “Não guardo rancor. Eu te amo. Quando me quiseres, chama-me. Virei chorar contigo.” Adeus.

E Jesus sai com o Simão…

Os apóstolos, curiosos, olham de soslaio, mas veem que os dois estão de bom acordo e ficam contentes.

– Vinde, vós também –diz Jesus–. São os meus discípulos, Simão. Eles também desejam honrar a teu pai. Vamos.

Vão pelo olival e tudo termina.

105.6Jesus diz:

– Aqui colocareis a terceira visão e a quarta, tidas no dia 13 de fevereiro de 1944.

Como estás vendo, o Simão, menos obstinado, deixou-se persuadir, senão completamente, ao menos em parte, à justiça com santa prontidão. E não foi logo meu discípulo, e muito menos meu apóstolo, como tu, há um ano o chamaste em tua ignorância, mas pelo menos tornou-se um expectador não inimigo, depois deste encontro pela morte de Alfeu. Fez-se também o defensor de sua mãe e da minha, quando foi preciso que um homem as acompanhasse e defendesse das sátiras do povo. Não foi forte a ponto de impor-se contra quem me chamava de “doido”; era ainda bastante humano para envergonhar-se um pouco de Mim, e para ter suas preocupações com os perigos da família toda, por causa do meu apostolado contrário às seitas. Mas ele já está no caminho do Bem. Sobre o qual, mais tarde, depois do Sacrifício, ele soube proceder sempre mais firme, até confessar-me com o sangue. A Graça, às vezes opera de modo fulminante, e, outras vezes, lentamente. Mas sempre opera onde há a vontade de ser justos.

Vai em paz. Fica em paz no meio das tuas dores. O tempo preparatório para a Páscoa está começando, e tu leva a cruz por Mim. Eu te abençoo, Maria da Cruz de Jesus.



1 Eu estou com o Pai, mas não sou mais o Pai, o qual criou o homem livre de querer o próprio bem; e Jesus, que não é mais do que o Pai, respeitou o a livre vontade de Alfeu.