520. 520. Discursos sobre Iscariotese chegada a Técua com o velho Eliana.
29 de outubro de 1946.
520.1Por enquanto, são só onze os que retomam o caminho. Onze semblantes pensativos e sem alegria ao redor do rosto triste de Jesus, que se despede das irmãs, e que, depois de um momento de reflexão, antes de passar pela cancela, dá esta ordem a Simão, o Zelotes, e ao Bartolomeu:
– Vós permanecei aqui. E me alcançareis em Técua, na casa de Simão, ou então na casa de Nique, perto de Jericó, ou em Betábara, isto se ele vier. E… tratai-o com caridade. Entendestes?
– Vai tranquilo, Mestre. Não ofenderemos o amor ao próximo de modo algum –garante Bartolomeu.
– Seja qual for a hora em que ele vos alcançar, parti imediatamente.
– Imediatamente, Mestre. E… agradecidos lhe ficamos pela confiança que depositas em nós –diz Zelotes.
Beijam-se e, enquanto um dos servos fecha a cancela e Jesus já vai-se afastando, os dois que ficaram voltam para a casa juntos com as irmãs.
Jesus vai na frente, sozinho. Atrás vai Pedro, entre Mateus e Tiago de Alfeu. Mais atrás vão Filipe com André, Tiago e João de Zebedeu. Por último, em silêncio como os outros, vão Tomé e Judas Tadeu. Mas eu disse mal. Pedro também não está falando. Os dois companheiros dele trocam poucas palavras. Mas ele, que está entre um e o outro, não fala nada. Ele vai taciturno e de cabeça baixa. Parece estar mantendo um mudo diálogo com as pedras do chão e com as ervas em que vai pisando.
520.2Também os últimos dois mantêm um igual comportamento. Somente Tomé é que parece estar em contemplação, ao ter entre as mãos um raminho de salgueiro, que ele vai desfolhando folha por folha, e fica olhando cada uma das folhas depois de tê-las arrancado, como se estivesse observando a cor esverdeada de um lado e a cor de prata do outro, ou, então, as nervuras da trama. Judas Tadeu está de pé diante dele, olhando fixamente. Não sei se ele está olhando para o horizonte que, depois de terem passado por um outeiro, se abre numa claridade vaporosa, que da planície se levanta para a aurora; ou se está olhando apenas a cabeça loura de Jesus, que acabou de jogar para trás a aba do manto, como que desejando sentir sobre a cabeça o saudável sol de dezembro.
Ao mesmo tempo, chega ao fim a ocupação de Tomé e a contemplação do horizonte, ou do Mestre, por parte de Judas Tadeu. Este último abaixa os olhos e vira a cabeça, olhando para o companheiro, enquanto Tomé, tendo reduzido o seu raminho a exígua varinha, levanta os olhos a fim de olhar para Tadeu. Um olhar agudo e, ao mesmo tempo, bom e triste, que vai ao encontro de outro olhar igual.
– Assim é, meu amigo. É assim mesmo! –diz Tomé, como concluindo um discurso.
– Sim. É assim. E o meu sofrimento é bem grande… Para mim é também o meu amor de parente…
– Compreendo. Mas… tu tens um tormento de afeto em teu coração. Mas e eu? Eu tenho um remorso que me atormenta, o que e pior ainda.
– Tu, um remorso? Tu não tens motivos para remorsos. Tu tens sido bom e fiel. Jesus está contente contigo, e nós de ti nunca tivemos motivos de escândalo. Como é que pode vir agora esse sentimento de remorso?
– Vem de uma lembrança. A lembrança daquele dia no qual eu decidi seguir o novo Rabi, quando Ele apareceu no Templo… 520.3Eu e Judas estávamos perto um do outro e ficamos admirados do que Ele fazia e de suas palavras. Eu estava decidido a ir procurá-lo de novo… Eu estava ainda mais decidido do que Judas, e o ia arrastando para Jesus. Ele diz que é o contrário. Mas é o que eu digo. O meu remorso é este. De ter insistido para que ele viesse… Por isso, eu trouxe um contínuo sofrimento a Jesus. Mas Judas, eu o sabia, era benquisto por… muitos, e eu pensava em poder ser-lhe útil… Estulto, como todos os que só sabem pensar em um rei de Israel maior do que Davi e Salomão, mas sempre um rei… como Ele diz, um rei que não haverá nunca mais, havia desejado ardentemente que entre os discípulos estivesse este, que podia ser útil… Eu assim esperava. E somente agora é que chego a compreender, sempre mais vou compreendendo a justiça de Jesus, que não quis acolhê-lo logo, e que proibia ir procurá-lo… É um remorso, eu te digo! Um remorso! Aquele homem não é bom.
– Não é bom. Mas não tenhas remorsos. Tu não o fizeste com malícia e, portanto, não tendes culpa. Eu o digo.
– Tens certeza disso ou o dizes para consolar-me?
– Eu o digo porque é verdade. Não penses mais no passado, Tomé. Não podes apagá-lo….
– Tu dizes bem. Mas pensa só! Se por minha causa o Mestre tivesse que passar por algo funesto… Eu estou com o coração cheio de aflição e de suspeitas. Sou um pecador, porque estou julgando o companheiro e com um juízo sem piedade. E sou pecador, porque deveria crer nas palavras do Mestre… Ele desculpa Judas… Tu acreditas no teu irmão?
– Em tudo, menos nisto. Mas não fiques desconsolado. Todos nós temos o mesmo pensamento. Até Pedro, que está para morrer de dor, se esforça para pensar sempre bem daquele homem; e também André, que é mais manso do que um cordeirinho; e até Mateus, o único entre nós que não tem repugnância por nenhum, pecador ou pecadora. E o tão amoroso, o tão puro João, que tem esta feliz sorte de não temer o mal nem o vício, porque está tão cheio de caridade e de pureza, que nem tem lugar para acolher outras coisas. E o tem o meu irmão. Estou falando de Jesus. Certamente Ele tem também outros pensamentos além deste, pensamentos pelos quais Ele vê a necessidade de conservar Judas… enquanto não se esgotar a possibilidade de alguma tentativa para torná-lo bom.
– Sim. Mas… Como acabará isso? Ele tem muitas… Ele não tem… Afinal, tu compreendes, sem que eu precise dizer. Até que ponto ele irá chegar?
– Não sei… Talvez se separará de nós… Talvez ficará esperando ver quem é o mais forte nesta luta entre Jesus e o mundo hebraico…
– E não estará pensando em outra coisa? Não achas que ele, desde agora, já está trabalhando para dois patrões?
– Isto é mais do que certo.
– E tu não temes que possa trabalhar para muitos outros, de modo a prejudicar totalmente ao Mestre?
– Não. Eu não o amo, mas não posso nem pensar que ele… Pelo menos por enquanto, não. Certamente, porém, terei medo disso, se algum dia acontecer que o favor da multidão abandonasse o Mestre. Porque, se uma aclamação do povo o consagrasse rei, estou certo de que Judas abandonaria a todos para acompanhá-lo. Ele é um oportunista… Que Deus o detenha, e proteja a Jesus e a todos nós…
520.4Os dois percebem que estavam andando muito devagar e que ficaram muito distanciados dos companheiros; e, cessando de falar, põem-se a caminhar mais depressa para alcançá-los.
– Mas que é que estáveis fazendo? –pergunta Mateus–. O Mestre queria falar convosco…
Tomé e Tadeu andam depressa para irem a Jesus.
– De que estáveis falando um ao outro? –diz Jesus, fitando-os nos rostos.
Os dois olham um para o outro. Dizer? Não dizer? Mas a sinceridade vence.
– De Judas –dizem ao mesmo tempo.
– Eu já sabia. Mas Eu quis fazer passar por uma prova a vossa sinceridade. Ter-me-íeis entristecido, se tivésseis mentido… Mas não faleis mais disso, e especialmente daquele modo. Há tantas coisas boas das quais podemos falar. Por que descer sempre a considerações do que é muito, muito material? Isaías diz1: “Deixai o homem que tem o espírito nas narinas.” E Eu vos digo: Deixai de ficar analisando esse homem e preocupai-vos com o espírito dele. O animal que há nele, o seu monstro, não deve atrair os vossos olhares e juízos. Mas tende amor, um amor doloroso e operoso para com o seu espírito. Livrai-o do monstro que o possui. Vós não sabeis.
Ele se volta para chamar os outros sete:
– Vinde cá todos, porque para todos serve o que Eu digo, visto que vós todos tendes os mesmos pensamentos no coração… Não sabeis que vós aprendeis mais por meio de Judas Iscariotes do que por meio de qualquer outra pessoa? Muitos Judas vós encontrareis e pouquíssimos Jesus no vosso ministério apostólico. Os Jesus serão doces, bons, fiéis, obedientes, prudentes, sem avidez. Serão muito poucos… Mas quantos, quantos Judas de Keriot encontrareis vós, e vossos seguidores e sucessores, pelas estradas do mundo! E para serdes mestres e saberdes, deveis passar por esta escola… Ele, com os seus defeitos, vos mostra como é o homem. Eu vos mostro o homem como ele deveria ser. São dois exemplos igualmente necessários. Vós, se conhecerdes bem um e outro, devereis procurar transformar o primeiro no segundo… E que a minha paciência seja a vossa norma.
520.5– Senhor, eu fui um grande pecador e certamente eu também serei um exemplo. Mas eu gostaria que Judas, que não é pecador como eu fui, se tornasse o convertido que hoje eu sou. Será soberba dizer isso?
– Não, Mateus, não é soberba. Estás prestando honra a duas verdades ao dizeres isso. A primeira é que é veraz aquela sentença que diz: “A boa vontade do homem opera milagres divinos.” A segunda é que Deus te amou infinitamente desde quando tu nem pensavas nisso, e assim o fazia porque não deixava de conhecer a tua capacidade de heroísmo. Tu és o fruto de duas forças: a tua vontade e o amor de Deus. E coloco em primeiro lugar a tua vontade, porque, sem ela, não teria havido o amor de Deus. Não podem atuar…
– Mas sem a nossa vontade Deus não poderia converter? –indaga o Tiago do Alfeu.
– Certamente que sim. Mas depois se exigiria sempre a vontade do homem para persistir na conversão, obtida miraculosamente.
– Então, em Judas essa vontade não houve nem há, nem antes de conhecer-te nem agora… –diz impetuosamente Filipe.
Alguns se riem, outros suspiram. Jesus é o único que defende o apóstolo ausente:
– Não digais isso! Ele a teve e a tem. Mas a má lei da carne a domina de vez em quando. Ele é um doente. Em toda família há um mais fraco, doente, um que é a tristeza, a aflição, o peso da família. E, no entanto, o filhinho mais franzino não é o mais amado pela mãe? Um pobre irmão doente. Em toda família, não é do irmãozinho infeliz que cuidam mais os seus irmãos? Não é a ele que o pai dá do bocado melhor, tirando-o do seu próprio prato, para dar-lhe uma alegria, para que ele não pense que está sendo um peso e para não deixar que se lhe torne pesada a enfermidade?
– É verdade. É assim mesmo. A minha gêmea era franzina em sua primeira idade. Toda a robustez fui eu que recebi. Mas o amor de toda a família a socorreu tanto, que ela agora é uma vigorosa esposa e mãe –diz Tomé.
– Eis. Fazei, vós, com o vosso irmão espiritual, que é fraco, o que faríeis com um irmão carnal fraco. E Eu não terei uma palavra de reprovação. Vós não queirais ser mais do que Eu. O vosso amor paciente é a reprovação mais forte e contra a qual não se pode reagir. Em Técua Eu deixarei Mateus e Filipe para esperarem Judas… O primeiro se lembre de que foi pecador, e o segundo, de que é pai…
– Sim, Mestre, nós nos recordaremos.
– Em Jericó, se ele ainda não estiver conosco, eu deixarei André e João, e que eles se lembrem de que nem todos receberam na mesma medida os dons gratuitos de Deus… 520.6Mas ide àquele velho mendigo, que lá vai cambaleando pela estrada. A cidade já está à vista. Com a esmola, ele poderá comprar pão.
– Senhor, nada nos foi entregue. Judas lá se foi com a bolsa… –diz Pedro–. E as irmãs não nos deram nada.
– Tens razão, Simão. Elas estão como que atordoadas pela dor, e nós com elas. Nós temos um pouco de pão. Somos ainda jovens e fortes. Demo-lo ao velho antes que ele caia pela estrada.
Eles rebuscam nas bolsas, recolhem pedaços de pão e os dão ao velho, que fica olhando espantado para eles.
– Come! Come! –Jesus o encoraja.
E o faz beber do seu odre, enquanto lhe pergunta para onde vai.
– Para Técua. Lá há uma grande feira amanhã. Mas eu, desde ontem, não comia.
– Estás sozinho?
– Mais do que sozinho. Meu filho me expulsou.
A voz do velho fere-nos o coração, ao ouvi-la.
– Deus te abrirá as portas do seu Reino se souberes crer em sua misericórdia.
– E na do Messias. Mas meu filho não terá Messias, porque ele não pode ter messias, ele que o odeia a ponto de odiar seu pai, porque o ama.
– Por isso é que ele te expulsou?
– Foi por isso. E para não perder as amizades de alguns que perseguem o Messias. Ele quis mostrar-lhes que o seu ódio é maior do que o deles, a ponto de ser até mais alto do que a voz do sangue.
– Que horror! –dizem todos.
– Seria mais horror se eu tivesse os mesmos pensamentos que meu filho –diz, com veemência, o velhinho.
– Mas quem é esse homem? Se compreendi bem, deve ser um que tem poder e mando… –diz Tomé.
– Homem, não serei eu um pai que irá dizer o nome do filho culpado para que ele seja desprezado. Só sei dizer que passo fome e frio, eu, que com muito trabalho tinha melhorado o bem-estar da casa para fazer feliz o meu filho homem. Mas não mais do que isso. Imagina que eu sou um da Judéia e que ele é um da Judéia, e que, assim sendo, somos iguais pela raça, mas diferentes pelo pensamento. Tudo o mais para nada serve.
520.7– E tu, não pedes nada a Deus, tu que és um justo? –pergunta-lhe docemente Jesus.
– Que Ele toque o coração de meu filho e o leve a crer no que eu creio.
– Mas para ti não pedes nada, particularmente para ti, não pedes nada?
– Peço que eu possa encontrar Aquele que é para mim o Filho de Deus. E de poder venerá-lo e depois morrer.
– Mas se tu morreres não o verás mais. Estarás no Limbo…
– Por pouco tempo. Tu és um rabi, não é mesmo? Eu vejo muito pouco… A idade… as muitas lágrimas e também a fome… Mas eu estou vendo as franjas de tua cintura… Se és um bom rabi, e assim me parece, deves perceber, tu também, que o tempo é chegado, o tempo predito2 por Isaías, quero dizer. E está para chegar a hora na qual o Cordeiro tomará sobre si todos os pecados do mundo, suportará o peso de todos os nossos males e dores e por isso será trespassado e imolado, para que nós fiquemos curados e em paz com o Eterno. E, então, também para os espíritos haverá paz. Isto é o que espero, confiando na misericórdia de Deus.
– Nunca viste o Mestre?
– Não. Já o ouvi falar no Templo, pelas festas. Mas eu sou de pouca altura, e ainda com menos vou ficando por causa da idade, e enxergo pouco, como já disse. Por isso, se vou para o meio da multidão, não vejo por causa do que está na minha frente; e se fico longe, não vejo por estar longe. Oh! Mas eu quereria vê-lo! Pelo menos uma vez!
– Tu o verás, pai. Deus vai te contentar. E em Técua, tens para onde ir?
– Não. Eu ficarei sob algum pórtico ou junto a algum portão. Já estou acostumado.
– Vem comigo. Conheço um bom israelita. Ele te acolherá em nome de Jesus, o mestre galileu.
– Mas tu também és galileu. Conhece-se pelo teu modo de falar.
– Sim… Estás cansado? Mas já estamos chegando às primeiras casas. Logo descansarás e tomarás alguma coisa.
520.8Jesus se inclina, e diz alguma coisa a Pedro, e Pedro sai de seu lugar para ir dizer aos outros o que Jesus disse, e que eu não entendi. Depois, com os filhos de Alfeu e João, ele acelera o passo ao entrar na cidade. Jesus o acompanha com os outros, emparelhando seu passo ao do pobre velhinho, que já não fala mais por estar muito cansado, e que acaba indo ficar lá atrás, com André e Mateus.
A cidade parece estar vazia. É meio dia e muitas pessoas estão em suas casas para as refeições. Depois de poucos metros, Pedro já está de volta e diz:
– Já fui, Senhor. Simão o acolhe, porque ele vem contigo, e te agradece por teres pensado nele.
– Bendigamos ao Senhor. Ainda há justos em Israel. Este velho é um deles, e Simão é outro. Sim, ainda há gente boa, misericordiosa e fiel ao Senhor. E isto é uma compensação por muitas amarguras. E faz-nos esperar que a justiça divina se abrandará por causa desses justos.
– Mas!… Um filho expulsar o pai, certamente para não perder a amizade de algum poderoso fariseu!
– A tal ponto chegou o ódio para contigo! Eu fico indignado! –diz Filipe.
– Oh! Vereis muito mais do que isso! –responde Jesus.
– Mais do que isso? E que é que pode haver de mais afrontoso do que um pai ser expulso porque não te odeia? É enorme o pecado daquele homem!…
– Enorme mesmo vai ser o pecado de um povo contra o seu Deus… Mas vamos esperar o velho…
– Quem será o filho dele?
– Algum fariseu!
– Algum sinedrista!
– Algum rabi.
Os pareceres são diversos.
– Algum desgraçado. Não fiqueis indagando. Hoje ele atacou o seu pai. Amanhã me atacará. Vede, pois, que o pecado de Judas por ter-se afastado assim, como um filho rebelde, não é nada em comparação com este. No entanto, Eu rezarei por esse filho ingrato, por esse hebreu que assim ofende a Deus. Para que se arrependa. Fazei vós o mesmo… 520.9Vem, pai. Como te chamas?
– Eliana. Eu nunca fui feliz. Meu pai morreu antes que eu nascesse, e minha mãe, ao dar-me à luz. A mãe de minha mãe, que me criou, me deu por nome os dois nomes do pai e da mãe unidos.
– Verdadeiramente tu és um Eli3, homem, e o teu filho é igual ao Fineias –diz Filipe, que não pode ficar sossegado com um pecado desses.
– Queira Deus que não, homem. Fineias morreu como pecador, e morto quando a arca foi tomada. Desventura seriam estas coisas para a alma dele e para todo Israel –responde o velhinho.
– Escuta: esta casa é minha amiga e o que eu peço a ela, obtenho. Ela é de um certo Simão, homem justo aos olhos de Deus e dos homens. Ele te acolhe por amor de Mim, se Tu aceitares o alojamento
–diz Jesus antes de bater à porta.
– E eu poderei ter escolhas? Eu invocarei as bênçãos do Céu sobre quem me der o pão e o abrigo da caridade. Mas eu quero trabalhar. Não é vergonha ser servo. O que é vergonha é cometer o pecado…
– Vamos dizer isso ao Simão –diz Jesus, com um sorriso de compaixão, olhando para o velhinho, que está reduzido a quase nada pelas privações passadas e pela dor moral.
520.10Abre-se a porta:
– Entra, Mestre. A paz esteja contigo e com quem estiver contigo. Onde está esse meu irmão que Tu trazes? Que eu possa dar-lhe o beijo da paz e de boas-vindas –diz um homem de uns cinquenta anos.
– É este aqui. E o Senhor te recompense.
– Já estou recompensado. Eu te tenho como meu hóspede. Quem Te tem, tem Deus. Eu não te estava esperando e não te posso honrar como gostaria. Mas acho que irás passar por aqui daqui a alguns dias e estarei pronto para acolher-te como convém.
Já estão em um quarto onde estão preparadas as bacias com água morna para as abluções. O velhinho está amedrontado perto da porta, mas o dono da casa o pega pela mão, leva-o para sentar- se, quer tirar-lhe as sandálias com suas próprias mãos, quer servi-lo como se ele fosse um rei e depois quer fazê-lo calçar sandálias novas, enquanto o velhinho fica dizendo:
– Para quê? Mas para quê? Eu vim para servir e tu me serves? Não é justo.
– Justo é, homem. Eu não posso acompanhar o Rabi, porque minha casa exige minha assistência. Mas como o último dos discípulos do Mestre santo, eu me esforço para pôr em prática as palavras dele.
– Tu o conheces bem. Muitos há que o conhecem em Israel, mas com quê? Com os olhos e com o ódio. Por isso, não o conhecem. Uma mulher se conhece só quando não se deixa de saber nada a respeito dela e se tem dela um conhecimento completo. Assim sucede com Jesus de Nazaré, que eu com os olhos não conheço, mas que eu conheço mais do que muitos, pois eu creio que nele está a Sabedoria. Mas tu o conheces mesmo, tanto de vista, como em sua doutrina.
O homem olha para Jesus, mas não diz nada.
O velhinho continua:
– Eu disse a este rabi que quero trabalhar.
– Sim, sim. Acharemos um trabalho para ti. Por enquanto, vem para a mesa. Mestre, os teus discípulos virão daqui a pouco. Podemos sentar-nos às mesas assim mesmo ou preferes esperá-los?
– Eu gostaria de esperá-los. Mas se tens algum trabalho a fazer…
– Oh! Mestre, Tu sabes que, para mim, obedecer ao menor dos teus desejos é uma alegria.
O velhinho tem nesse momento uma primeira suspeita sobre a identidade do homem que o socorreu na estrada e fica olhando para Ele, olhando, e depois olha para os companheiros dele… examinando-os atentamente… andando ao redor deles… 520.11Vão entrando os filhos de Alfeu, com João. Jesus os chama pelo nome.
– Oh! Deus Altíssimo! Mas, então… És Tu! Tu! –exclama o velhinho, e se joga no chão reverenciando-o.
O seu espanto não é inferior ao dos outros. É tão estranho aquele modo de reconhecer o Mestre! E a tal ponto que Pedro lhe pergunta:
– Que há de especial nestes nomes tão comuns em Israel para te fazerem compreender que estás na frente do Messias?
– Porque eu conheço Judas… Ele vem sempre à casa do meu filho e…
O velhinho para, embaraçado, por ter falado no filho…
– Mas eu nunca te vi, homem –diz Tadeu, indo colocar-se bem adiante, inclinado, para ficarem cara a cara.
– Eu também não te conheço. Mas um Judas, discípulo do Cristo vem muitas vezes à casa do meu filho e o ouvi falar de um João, de um Tiago, de um Simão, amigo de Lázaro de Betânia e de muitas outras coisas. Ouvir três nomes conhecidos como os dos dois discípulos mais íntimos do Mestre! E Ele, tão bom!… Agora compreendi, eis! Mas onde está o outro Judas?
– Ele não está. Mas é verdade. Sou eu. O Senhor é bom, pai. Desejavas ver-me e me viste. Bendigamos as misericórdias de Deus… Não te afastes, Eliana. Tu estavas perto de Mim quando para ti Eu era um simples viandante e nada mais. Por que queres afastar-te de mim logo agora que tu sabes que Eu sou a Meta? Tu não sabes quanto o teu coração me consolou! Nem o podes saber. Eu, e não tu, sou de nós dois o que mais sai lucrando… Quando três quartos de Israel, e mais ainda, me odeiam até o delito, quando os fracos se afastam do meu caminho, quando os abrolhos da ingratidão, do ódio, da calúnia me ferem de todos os lados, quando não posso achar um refrigério no pensamento de que o meu sacrifício será salvação para Israel, encontrar um como tu, ó pai, e ter uma compensação para a minha dor… Tu não sabes… Ninguém de vós sabe das tristezas cada vez mais profundas do Filho do homem. Eu tenho sede de amor… e muitos corações são fontes ressecadas às quais inutilmente Eu me uno… Mas, vamos…
E conservando perto de Si o velhinho, entra na sala, onde as mesas já estão prontas.
1 diz, em Isaías 2,22.
2 predito, em Isaías 52,7-15; 53,1-12 (especialmente no verso 6).
3 Eli,… Fineias, dos quais se fala em 1 Samuel 1,3; 2,12-17.22-34; 3,1-18; 4,4-18. Percebe-se que o nome Finnes (melhor: Finees) tornou-se Pincas, ou Pinhas, nas versões modernas da Bíblia.
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