333. 333. Com dez apóstolos, a caminho de Sicaminon.


18 de novembro de 1945.

333.1 – E agora, que já contentamos o pastor, que faremos? –pergunta Pedro, que está sozinho com Jesus, enquanto os outros estão formando um grupo, alguns metros atrás.

– Vamos voltar para a estrada da margem, e ir para Sicaminon.

– Sim? Eu pensava que iríamos para Cafarnaum!…

– Não é preciso, Simão de Jonas. Não é preciso. Notícias de tua mulher e do menino, tu já as tiveste, e por Judas… será mais simples ir ao encontro deles.

– É bem verdade, Senhor. Não vem ele pela estrada do interior, que passa pelo rio e pelo lago? É a mais curta e mais conservada…

– Mas ele não vem por ela. Lembra-te de que ele deve cuidar dos discípulos, e estes estão muito espalhados pelo lado do poente, durante esta estação que, além de tudo mais, está tão fria de novo.

– Está bem, está bem. Se Tu o dizes… Para mim, basta-me estar contigo, e ver-te menos triste. E… não estou com nenhuma pressa de encontrar Judas de Simão. Oxalá não o encontrássemos!… Estivemos tão bem só entre nós!…

– Simão! Simão! É esta a tua caridade fraterna?

– Senhor… esta é a minha verdade –diz Pedro, com sinceridade. E o diz com um ímpeto tal, e com tal expressão, que Jesus tem que fazer esforço para não rir. Mas, como é que se pode repreender a um homem assim tão sincero e fiel?

Jesus prefere calar-se, mostrando um muito grande interesse pelas encostas que ficam a sua esquerda, à medida que a planície vai aparecendo, cada vez mais plana, à direita. Atrás deles, no grupo dos nove também estão falando e João está parecendo um bom pastor, pois ele vai levando um cordeiro nas costas, talvez um presente do pastor Anás.

Depois de algum tempo, Pedro torna a perguntar:

– E não se vai a Nazaré?

– Certamente iremos até lá. Minha Mãe terá prazer em saber como foi a viagem de João e Síntique.

– E também por ver-te!

– E também por ver-me.

– Será que a terão deixado em paz?

– Logo o saberemos.

– Mas, por que será que depois eles ficaram tão obstinados? Há tantos como João também na Judéia e, no entanto… ou melhor, amuados por causa de Roma, tomam precauções e se escondem.

– Persuade-te de que não é por João que o fazem, mas porque ele é um libelo de acusação contra Mim.

– Mas eles não o encontrarão mais! Tu tens feito tudo bem… Tu nos mandaste sozinhos… e por mar… primeiro em uma pequena barca, por algumas milhas, e depois para além dos confins, em um navio… Oh! Foi tudo bem! Eu espero que tenham ficado desnorteados.

– E assim ficarão.

– Eu estou curioso é por ver Judas de Keriot para perguntar-lhe quais são as suas predições astrológicas, em que ele vê o céu cheio de ventos e signos, e ver se ele…

– Mas, afinal de contas…

– Tens razão. É como um prego fincado aqui dentro, e bate na testa.

333.2 Jesus, para distraí-lo, chama todos os outros e faz que eles notem a inexplicável destruição feita pela saraiva e pelo frio, quando já se pensava que este já não viria mais neste ano… Uns dizem uma coisa, outros dizem outra, todos querendo ver naquilo um sinal do castigo divino para a insolente Palestina, que não acolhe o Senhor. E os mais doutos citam fatos semelhantes, contados nas histórias antigas, enquanto os mais jovens e menos cultos ficam ouvindo, espantados e atentos.

Jesus sacode a cabeça:

– É o efeito da Lua e dos ventos, que vêm de longe. Eu já vo-lo disse. Nas regiões setentrionais produziu-se um fenômeno, cujas conseqüências estão atingindo outras grandes regiões.

– Mas, por que, então, alguns dos campos estão bonitos?

– A saraiva faz assim.

– Mas não poderia ser um castigo para os mais obstinados?

– Poderia. Mas não o é. Ai de nós, se o fosse…

– Ficaria árida e desolada toda a nossa Pátria, não é verdade, Senhor? –diz André.

– Mas, nas profecias está escrito, numa linguagem simbólica, que sairá mal quem não acolher o Messias. Poderiam mentir os profetas?

– Não, Bartolomeu. E o que foi escrito acontecerá. Mas o Altíssimo é tão infinitamente bom, que espera ainda mais do que o que está acontecendo agora, para punir. Sede bons, vós também, sem ficardes desejando sempre punições para os duros de coração e de entendimento. Desejai para eles a conversão, não a punição. 333.3João, entrega o cordeiro a um companheiro, e vem cá, vem olhar o teu mar, dali do alto daquelas dunas de areia. Eu também vou para lá.

E, de fato, eles estão agora em uma estrada bem perto do mar, separada deles apenas por uma larga faixa de dunas onduladas, sobre as quais se balançam umas palmeiras esguias, ou vegetam umas descabeladas tamareiras, lentiscos e outras árvores dos areais.

Jesus vai com João. Mas, quem o deixa? Ninguém. E logo estão todos lá em cima, ao sol que traz alegria, à vista do mar sereno e risonho…

A cidade de Ptolemaida está ali bem perto, como suas casas brancas.

– Vamos entrar nela? –pergunta Judas de Alfeu.

– Não é preciso. Permaneceremos nas primeiras casa para comer. Quero estar a tarde em Sicaminon. Talvez encontraremos Isaque.

– Quanto bem ele está fazendo, não? Ouviste o que disseram Abel, João e José?

– Sim. Pois todos os discípulos são muito habilidosos. Eu bendigo por isso ao meu Pai, noite e dia. Todos vós… As minhas alegrias, minhas horas de paz, as minhas seguranças…

E olha para eles com tanto amor, que aos dez vêm lágrimas aos olhos… E é diante deste olhar de amor, que cessa a minha possibilidade de ver.