159. 159. Discurso em Gergesa sobre a sinceridade na fé.A resposta sobre o jejum aos discípulos do Batista.


9 de maio de 1945.

159.1 Jesus fala em uma cidade que eu nunca vi. Assim ao menos me parece, porque são todas elas mais ou menos iguais no estilo e é difícil diferenciá-las à primeira vista. Também aqui uma estrada margeia o lago e os barcos estão aí arrastados para a margem. Casas e casinhas estão alinhadas para lá da estrada, mas aqui as colinas estão muito mais afastadas e, por isso, a pequena cidade está em uma sorridente planície, que se prolonga pelas margens orientais do lago, ficando protegida contra os ventos pelo baluarte dos outeiros, e por isso é toda tépida pelo sol que aqui, mais ainda do que em outros campos, aumenta a florescência das árvores.

Parece que o discurso já tenha começado, porque Jesus diz:

– … É verdade. Vós dizeis: “Não te abandonaremos nunca, porque abandonar-te seria abandonar a Deus.” Mas, ó povo de Gergesa, lembra-te de que nada é mais mutável do que o pensamento humano. Eu estou convicto que neste momento realmente vós estais tendo este pensamento. A minha palavra e o milagre que aconteceu vos entusiasmaram neste sentido e, neste momento, estais sendo sinceros em tudo o que estais dizendo. 159.2Mas Eu vos recordo um episódio1.

Poderia citar mil deles antigos e novos. Vou citar-vos somente este.

Josué, servo do Senhor, antes de morrer, reuniu ao seu redor todas as tribos com os seus chefes, príncipes, juízes e magistrados e lhes falou, na presença do Senhor, lembrando-lhes todos os benefícios e prodígios feitos pelo Senhor, através do seu servo. E depois de ter enumerado todas essas coisas, convidou-os a repudiarem todo deus que não fôsse o Senhor, ou pelo menos a serem sinceros em sua fé, escolhendo com sinceridade, ou o verdadeiro Deus, ou os deuses da Mesopotâmia e dos Amorreus, de modo que houvesse uma nítida separação entre os filhos de Abraão e os paganizantes.

Sempre é melhor um erro com convicção do que uma hipócrita profissão e misturas de fé, o que é uma afronta a Deus e uma morte aos espíritos. E nada é mais fácil e comum do que essa mistura. A aparência é boa; debaixo dela está a substância não boa. Ainda agora, filhos, ainda agora, aqueles fiéis que misturam a observância da Lei com o que a Lei proíbe, aqueles infelizes, que vacilam como bêbados entre a fidelidade à Lei e o interesse de negócios e compromissos com os que estão fora da Lei e dos quais esperam alguma vantagem, aqueles sacerdotes, ou escribas, ou fariseus. Eles não fazem mais do serviço de Deus a meta de suas vidas, mas sim, uma astuta política para triunfar sobre os outros e ter todo o poder, sobre os outros mais honestos; e isto, porque são servos não de Deus, mas de um poder que eles sabem que é forte e precioso aos seus propósitos, não são senão hipócritas, que misturam o nosso Deus com os deuses estrangeiros.

O povo respondeu a Josué: “Nunca aconteça que nós abandonemos o verdadeiro Deus para servir a deuses estrangeiros.” Josué disse a eles o que Eu acabei de vos dizer sobre o santo ciúme do Pai, em sua vontade de ser amado com exclusividade por nós com todo o nosso ser, e de sua justiça em punir os que são mentirosos.

Punir! Deus pode punir, como pode premiar. Não é preciso que se tenha morrido para se receber um prêmio ou um castigo. Olha, povo hebreu, se Deus, depois de haver-te dado tanto, livrando-te dos Faraós, levando-te a salvo através do deserto e das ciladas dos inimigos, permitindo que te tornasses uma grande e temida nação, rica de glórias não te puniu depois nem uma, nem duas, nem dez vezes pelas tuas culpas! E olha o que te tornaste agora! E Eu, que te vejo precipitar na mais sacrílega das idolatrias, vejo também em que abismo estás para precipitar-te, por este teu perseverar sempre nas mesmas culpas. E Eu te chamo a atenção por isso, ó povo, que és duas vezes meu, por ser Eu o Redentor e por ter nascido de ti. Não é ódio, não é rancor, não é intransigência. É de amor este meu chamado, ainda que seja severo.

159.3 Josué então disse: “Vós sois testemunhas disto: vós escolhestes o Senhor”, e todos responderam: “Sim”. E Josué, sábio, além de destemido, sabendo quanto é fraca a vontade do homem, escreveu no Livro todas as palavras da Lei e da aliança e as colocou no Templo e também neste santuário do Senhor, que está em Siquém, em que naquela ocasião se guardava o Tabernáculo, colocou uma grande pedra como testemunha, dizendo: “Esta pedra, que ouviu as vossas palavras ao Senhor, ficará aqui como testemunha, para que não possais negar e mentir ao Senhor vosso Deus.”

Uma pedra, por maior e mais dura que seja, sempre pode ser pulverizada pelo homem, por um raio ou pela erosão das águas e do tempo. Mas Eu sou a Pedra angular e eterna. E não posso sofrer destruição. Não mintais a esta Pedra viva. Não a ameis só porque faz prodígios. Amai-a porque por Ela chegareis ao Céu. Eu gostaria que fôsseis mais espirituais, mais fiéis ao Senhor. Não digo por Mim. Eu não sou outra coisa, senão a Voz do Pai. Se me espezinhardes, ferireis Aquele que me enviou. Eu sou o Meio. Ele é Tudo. Recolhei de Mim e conservai em vós tudo o que é santo, para que possais ir a este Deus. Não ameis o Homem, amai o Messias do Senhor, não pelos milagres que faz, mas porque quer fazer em vós o milagre íntimo e sublime da vossa santificação”.

159.4 Jesus abençoa e se encaminha em direção a uma casa.

Está quase na soleira quando é barrado por um grupo de homens anciãos, que o saúdam com respeito, dizendo:

– Podemos fazer-te uma pergunta, Senhor? Somos discípulos de João. Como ele sempre fala de Ti, e também chegou até nós a fama dos teus prodígios, tivemos vontade de conhecer-te Agora, depois de termos te ouvido, surgiu diante de nós uma pergunta que te queremos fazer.

– Dizei qual é. Se sois discípulos de João, já deveis estar no caminho da santidade.

– Tu disseste, quando estavas falando das idolatrias comuns entre os fiéis, que há pessoas entre nós que fazem comércio entre a Lei e os que estão fora da Lei. Porém, Tu também és amigo deles. Sabemos que não desprezas os romanos. E então?

– Não o nego. Mas podeis vós dizer que o faço para obter alguma vantagem? Podeis dizer que os acaricio, para conseguir deles, ainda que seja só uma proteção?

– Não, Mestre. E disso estamos mais do que certos. Mas o mundo não é composto só por nós, que só queremos crer no mal que vemos e não naquilo que nos é apontado como mal. Agora, diz-nos quais as razões que tornam plausível o aproximar-se aos gentios. Diz-nos, como norma para nós e para tua defesa, se alguém te caluniar em nossa presença.

– É um mal, que se façam contatos, com intenções humanas. Não é mal, quando nos aproximamos deles para levá-los ao Senhor nosso Deus. Eu faço assim. Se vós fôsseis pagãos, poderia demorar-me para explicar como todos os homens vêm de um único Deus. Mas vós sois hebreus e discípulos de João. Por isso, sois a flor dos hebreus, e não precisais de que Eu vos explique isso. Podeis, portanto, compreender e crer que é meu dever, sendo Eu o Verbo de Deus, levar a sua palavra a todos os homens, filhos do Pai universal.

– Mas eles não são filhos, porque são pagãos…

– Pela graça, eles não são. Pela fé errada, eles não o são. É verdade. Mas, enquanto Eu não vos tiver redimido, o homem, ainda que seja hebreu, terá perdido a graça, estará privado dela, porque a mancha de origem será um impedimento para que os raios inefáveis da graça desçam até os corações. Contudo, pela criação, o homem é sempre filho. De Adão, primeiro antepassado de toda a humanidade, vêm tanto os hebreus como os romanos, e Adão é filho do Pai que lhe deu sua semelhança espiritual.

– É verdade. 159.5Uma outra pergunta, Mestre. Por que os discípulos de João fazem grandes jejuns e os teus não? Não queremos dizer que Tu não devas comer. Também o profeta Daniel foi santo aos olhos de Deus, ainda que tenha sido um dos grandes na corte da Babilônia, e Tu és mais do ele. Mas eles…

– Muitas vezes uma coisa, que não se consegue com rigorismo, consegue-se com alguma cordialidade. Há pessoas que nunca viriam ao Mestre, e o Mestre deve ir a elas. Outros há, que viriam ao Mestre, mas se envergonham de ir no meio da multidão. Também a esses o Mestre deve ir. E, desde que eles me digam: “Vem ser meu hóspede, para que eu possa conhecer-te”, Eu vou, tendo em mente não o gozo da mesa opulenta e das conversas às vezes tão penosas para Mim, mas ainda e sempre, o interesse de Deus. Isto quanto a Mim. E, visto que frequentemente ao menos uma das almas, de que Eu me aproximo se converte, e cada conversão é como uma festa de núpcias para a minha alma, assim os meus discípulos, os amigos do Esposo — que sou Eu — jubilam-se com o Esposo e Amigo. É uma grande festa da qual tomam parte todos os anjos do Céu e que é abençoada pelo eterno Deus. Quereríeis ver os amigos de luto, enquanto Eu jubilo? Enquanto Eu estou com eles? Mas tempo virá em que não me terão mais. E então, farão um grande jejum. 159.6Para tempos novos, métodos novos. Até ontem, com o Batista eram as cinzas da Penitência. Hoje, é o doce maná da Redenção, da Misericórdia, do Amor. Não poderiam aqueles métodos estar enxertados no meu, como também o meu não poderia ter sido usado então; apenas ontem. Porque ainda a Misericórdia não existia na terra. Agora existe. Não mais o Profeta, mas o Messias está na terra, ao qual tudo foi deferido por Deus. A cada tempo as coisas que lhe sejam úteis. Ninguém cose um pedaço de pano novo em uma veste velha, porque de outro modo, especialmente ao lavá-la, o pano novo encolhe e arrebenta a veste velha e o rasgão se torna ainda maior. Igualmente ninguém põe vinho novo em odres velhos, porque, se assim fizer, o vinho arrebenta os odres, incapazes de suportar a efervescência do vinho novo, o qual se derrama fora dos odres que arrebentaram. Mas o vinho velho, que já passou por todas as suas mudanças, é colocado em odres velhos, e o novo em novos. Porque uma força há de ser enfrentada por outra igual. Assim é agora. A força da nova doutrina aconselha métodos novos para difundi-la. E Eu, que sei disso, faço uso deles.

159.7 – Obrigado, Senhor. Agora estamos contentes. Reza por nós. Nós somos uns odres velhos. Poderíamos resistir à tua força?

– Sim. Porque o Batista vos preparou e porque as orações dele, com as minhas, vos tornarão capazes de tudo. Ide com a minha paz, e dizei a João que Eu o abençoo.

– Mas… no teu parecer, é melhor para nós estarmos com o Batista ou Contigo?

– Enquanto ainda há vinho velho, bebam dele se agrada ao paladar acostumado ao seu sabor. Depois… como a água podre, que está por toda parte, vos dará nojo, então passareis a gostar do vinho novo.

– Achas que o Batista vai ser preso de novo?

– Com certeza. Eu já mandei a ele um aviso. Ide, ide. Alegrai-vos com o vosso João, enquanto podeis e fazei-o feliz. Depois, amareis a Mim. E isso também vos será penoso… porque ninguém, depois de acostumado com o vinho velho, vai querer logo o vinho novo. Ele diz: “O velho era melhor”. E, de fato, Eu terei sabores especiais, que vos parecerão ásperos. Mas apreciareis, dia por dia, o sabor vital. Adeus, amigos. Deus esteja convosco.



1 um episódio, o referido em: Josué 24,1-28.