482. 482. Em caminho com um pastor samaritano,cuja fé é premiada.
28 de agosto de 1946.
482.1 Não sei dizer em que lugar da Samaria nos encontramos. Certamente estamos num aprazível recanto, por entre os montes samaritanos, ainda que não sejam eles dos mais altos. Porque os mais altos estão mais para o lado do sul, com seus cumes bem erguidos para o céu, que agora está sereno.
Os apóstolos vão procurando andar, o mais que podem, ao redor de Jesus. Mas o caminho, que é um atalho, não deixa que eles o possam fazer continuamente e, por isso, o grupo ora se forma, ora se desfaz. Muitos pastores estão com suas manadas nos montes, e a eles os apóstolos se dirigem para perguntar-lhes se o caminho é sempre aquele, o que conduz para a estrada caravaneira, que vai do mar até Pela. Ainda que sejam samaritanos, eles respondem sempre sem grosserias as suas perguntas. 482.2E um deles até, ao chegarem a um cruzamento de pequenas estradas, que vão para todos os lados e que depois, lá adiante, se bifurcam em outros cruzamento, lhes diz:
– Daqui a pouco vou descer para o vale. Descansai um pouco, e iremos juntos. Se vos extraviásseis nestes montes, não seria boa coisa…
Depois ele abaixa a voz e acrescenta:
– Os ladrões –e olha ao redor de si, como se estivesse com medo de estarem eles por perto, ameaçadores.
Depois, tendo a certeza de que não, diz ainda:
– Das fraldas do Garizim e do Hebal, eles descem e se espalham nestes tempos de peregrinações. E encontram sempre o que fazer, mesmo que os romanos tenham reforçado a guarda nas estradas… porque sempre há pessoas que evitam as estradas… Pois sempre há pessoas que evitam as estradas batidas para chegarem mais depressa, ou por outros motivos.
– Tendes muitos assaltantes, não é? –diz com um sorrisinho malicioso, Filipe.
– Achas que eles sejam samaritanos, tu, que és um galileu? –diz imediatamente, ofendido, o pastor.
Então, intervém Iscariotes, o qual, tendo sido o causador daquela mudança de assunto, sente-se no dever de desfazer todo e qualquer incidente dasagradável:
– Não, não! Mas é que, sabendo que sois hospitaleiros, quem faz o mal em outros lugares vem refugiar-se aqui. É como se o vosso fosse um lugar de asilo. Os malfeitores sabem muito bem que ninguém, nem galileu, nem judeu, os viria perseguir aqui, e disso se aproveitam. Até a natureza aqui os ajuda. Estes montes…
– Ah! Eu achava que estáveis pensando… Mas os montes, sim, ajudam muito. Os dois mais altos, então… Sim… Mas… quantos nos traz o Adonim e o Efraim! De todas as raças, e os soldados de Roma são espertos. Ir tirá-los de seus ninhos, eles não vão. Pois somente as serpentes e as águias é que podem conhecer suas cavernas e penetrar nelas. Contam-se coisas tremendas. Mas sentai-vos. Vou dar-vos leite… Samaritano, sim, mas eu também conheço o Pentateuco. E a quem não ofende, eu não ofendo. Vós… não ofendeis, e sois galileus ejudeus. 482.3Ouvi dizer que surgiu um profeta, ensinando-nos a amar-nos. Se eu não pensasse que, segundo os escribas e fariseus, nós somos uns malditos, como dizem, eu diria que os grandes profetas, que nos amaram, ainda que sejamos samaritanos, tornaram a viver na pessoa dele. Mas nisso eu não acredito… Aqui está o leite. Eu gostaria de encontrar-me com esse profeta. Dizem que o outro profeta, aquele que se havia refugiado em nossos confins, e ao qual nós não traímos — aqueles que nos insultam deveriam lembrar-se disso — teria dito que esse profeta, que surgiu em Israel, é maior do que Elias. Ele o chamou de o cordeiro de Deus, o Cristo. Alguns samaritanos de Siquém falaram com Ele, e contam grandes coisas dele, muitos foram colocar-se nas grandes estradas, pois pensam que Ele vai passar. E até — é a primeira vez que isso, acontece — até judeus, fariseus e doutores nos fizeram perguntas em todas às cidades, dizendo que, se o virmos, devemos correr para a frente, a fim de ir dizendo que Ele vai chegar, porque eles lhe querem fazer uma grande festa.
Os apóstolos se olham de soslaio, mas, com prudência, nada falam. Judas, com os seus brilhantes olhos negros, cheios de um ar de triunfo, parece estar dizendo: “Ouvistes bem? Estais agora persuadidos de que eu tenho razão?”
O pastor continua a falar:
– Certamente vós o conheceis. De onde estais vindo?
– Da alta Galileia –responde logo Judas.
– Ah! sois… Não. Tu não és galileu.
– Nós somos de todos os lugares. Fomos em peregrinação aos túmulos dos doutores.
– Ah! Talvez sejais discípulos… Mas este homem não é também um rabi? –diz ele apontando para Jesus.
– Nós somos discípulos. Disseste bem. Sim, este homem é um rabi. Mas tu sabes que de um rabi para outro há diferenças…
– Eu sei. Certamente este homem é ainda jovem, terá ainda que aprender com os grandes doutores do vosso Templo.
E uma evidente pitada de desprezo está neste adjetivo possessivo. Mas Judas, sempre pronto para rebater, agora está com uma inação estranha.
Os outros não falam. Jesus está como que absorto, por isso a flechada ficou sem resposta. Judas chega até a dizer, sorrindo:
– De fato, Ele é muitojovem. Mas é o mais sábio de nós.
482.4 E, para pôr um fim àquela conversação, que podia tornar-se perigosa, ele diz:
– Temos que ficar aqui ainda muito tempo? Porque de noite gostaríamos de já estar lá embaixo.
– Não. Eu já vou. Vou reunir as ovelhas, e vou.
– Está bem. Enquanto isso, nós iremos à frente… –e se levanta com os outros, tomando logo o caminho.
Quando um pequeno e viçoso bosque se interpõe entre ele e o pastor, ele se ri, ri-se bastante, e diz:
– Mas como é fácil levar as pessoas na conversa! E estais vós agora persuadidos de que eu não estava mentindo, nem era um bobo?
– Não. Tu não estavas mentindo… se mentiste foi agora.
– Eu menti? Não. Como podes dizer isso, Filipe? Eu soube dizer a verdade, sem que ela se transforme em uma coisa nociva. Nós não estamos vindo da alta Galileia? Não é verdade que somos de todos os lugares? Não fomos um dia levar pedradas, a fim de podermos venerar os túmulos dos doutores? E não passamos por perto deles também na última viagem que fizemos para Gíscala? Por acaso terei eu negado que Jesus seja um rabi? Por acaso eu disse que Ele não é mais sábio do que todos nós? Ao dizer isso, eu estava pensando, e meu coração estava rindo, porque, ao dizer “nós”, eu ofendia aos rabis, todos eles inferiores ao Mestre, ainda que eles achem que não o sejam, levava na conversa o pastor… Ah! Ah! Ah! É preciso saber dizer as coisas… e tudo se diz sem pecar, nem prejudicar a ninguém.
Judas de Alfeu faz uma cara de quem não está gostando, e diz:
– Para mim tudo é mentira.
– Ora, mais está! Fui eu quem o fez! Mas tu o ouviste, não? Derrubaram por terra as prevenções, as repugnâncias, a vaidade de dizer a uns samaritanos que tornassem marcante a passagem do Mestre, e lhe fizessem uma festa nos confins. Ah! Que festa!
– A festa! Eles também souberam falar e pensar, falando uma mentira para dizerem uma verdade… Judas de Keriot tem razão
–diz Tomé.
Jesus se volta, e diz:
– Sim. O desejo de enganar é deles. Isto é uma coisa odiosa. Mas também o dizer uma coisa, querendo dizer outra, mesmo que faça isso por um bom fim, é sempre reprovável. Crês tu que o Senhor tenha necessidade disso para proteger o seu Messias? Não mintas nunca, nem que seja por um bom fim. O ânimo se habitua a viver pensando em mentira e os lábios a proferí-la. Não, Judas. Evita a falta de sinceridade.
– Eu o farei, Mestre. 482.5Mas calemos agora. O pastor vem correndo para alcançar-nos.
De fato, deixando para trás suas ovelhas, e acelerando os passos para a frente, suas ovelhas, percebendo que já está perto o covil, põem-se a correr, com aquela sua corrida balanceada, balindo, empurrando-se umas às outras, passando por entre os apóstolos, quase derrubando-os. Aí o pastor chega, acompanhado pelo pastorzinho e pelo cão, não pára, senão quando consegue, com a ajuda do menino e do cão, deter as ovelhas e reuni-las para que não se espalhem, nem desçam sozinhas para o vale.
– São os animais mais estúpidos que há sobre a terra. Mas também são muito úteis –diz ele, enxugando o suor, e suspirando–: Oh! Se o Rubens estivesse aqui. Mas, com este menino só!
Ele sacode a cabeça e vai descendo, indo atrás de suas ovelhas, que o menino e o cão, à frente do rebanho, mantêm reunidas. E fica falando sozinho:
– Se eu soubesse onde me encontrar com aquele profeta, samaritano como eu sou, eu lhe falaria…
– E o que dirias a ele –pergunta Jesus.
– Eu diria: “Eu tinha uma mulher boa como água do monte para alguém que está com sede, e o Altíssimo ma levou. Eu tinha uma filha, boa como a mãe, mas um romano a viu e a quis para sua mulher, levando-a para longe. Eu tinha um filho homem, o primogênito, que era tudo para mim. Um dia ele escorregou pelo monte abaixo, quando estava chovendo, quebrou a espinha, está imóvel. Agora está mal, porque a doença o invadiu por dentro, e os médicos dizem que ele vai morrer. Eu não te pergunto porque será que o Eterno me castigou. Mas eu te peço que cures o meu filho.”
– Crês que Ele poderia curá-lo?
– Certamente que eu creio! Mas não o verei nunca…
– Por que estás certo disso? Ele não é samaritano.
– É um justo. É o Filho de Deus, como dizem.
– Vós, e vossos pais, ofendestes a Deus.
– É verdade. Mas também foi dito que Deus perdoará a Culpa do homem, enviando o Redentor. No Pentateuco, junto com a condenação de Adão e Eva, lê-se esta promessa1. E o livro a conserva ainda hoje. Se Ele perdoa aquela culpa, poderá deixar de ter misericórdia de mim, que não tenho culpa de ter nascido samaritano? Eu creio que, se o messias soubesse qual o meu sofrimento, teria piedade de mim.
Jesus sorri, mas não diz nada. Também os apóstolos esboçam um sorriso, por terem entendido que o pastor nem de longe suspeita.
482.6 – Aquele menino, então, não é teu filho? –pergunta-lhe Jesus.
– Não. É filho de uma viúva que tem oito filhos homens, e que passam fome. Eu o tomei para ajudar… e como filho… para não ficar sozinho depois… quando o Rubens estiver no sepulcro… –e suspira.
– Mas, se teu filho ficasse são, que farias dele?
– Eu o conservaria. Ele é bom, eu tenho piedade dele…
E ele abaixa a voz, dizendo:
– Ele não sabe… Mas o pai dele morreu nas galeras.
– Que foi que ele fez para merecer isso?
– Nada por querer. Mas o seu carro atropelou um soldado embriagado, e ele foi acusado de fazer aquilo por querer…
– E como sabes que ele morreu?
– Oh! Ninguém fica vivo por muito tempo, trabalhando com o remo na galera! Mas uma notícia certa nos chegou por meio de um mercador da Samaria, que viu quando ele foi tirado morto do cepo e jogado ao mar, para lá das Colunas.
– E tu o terias contigo?
– Estou pronto para jurá-lo. Ele infeliz, eu infeliz. mas eu não estou sozinho. Outros tomaram os filhos da viúva, e ela ficou com as três mocinhas. Sempre continuam a ser muitas. Contudo, é melhor serem quatro, do que doze. Mas, não é preciso que eu jure. O Rubens morrerá…
482.7 Já se vê a estrada, ela está cheia de peregrinos, que se apressam em ir para os lugares de pousada. A tarde já vem perto.
– Tens onde dormir? –pergunta o pastor.
– Na verdade, não.
– Eu te diria: “vem”, mas minha casa é pequena para todos. O redil, porém, é grande..
– Deus te recompense, como se me tivesses hospedado. Eu, porém, continuarei ainda a viagem, enquanto a lua não chegar ao ocaso.
– Como quiseres. Não tens medo de perder o caminho? E de teres encontros maus?
– Contra os ladrões o que me protege é a minha pobreza e a dos meus companheiros. Pelo caminho, eu me encomendo ao anjo dos peregrinos.
– Eu devo ir à frente do rebanho. O menino ainda não sabe… A estrada está cheia de carros… –e vai correndo para a frente, a fim de guiar com segurança as ovelhas.
– Mestre, agora vem o pior. É preciso percorrer um trecho da estrada, indo pelo meio das pessoas… –sussurram os apóstolos.
Ei-los na estrada, atrás das ovelinhas que marcham em fila, apertadas entre o monte, a vara do pastor e a vigilância do cão. O menino agora está perto de Jesus, que o acaricia.
Chegaram a uma encruzilhada. O pastor fez parar o rebanho, dizendo:
– Eis aí. Esta é a estrada para Ti.. E esta é a minha. Mas, se fores até o povoado, lá encontrarás uma terceira, para chegares até o povoado vizinho. Olha: estás vendo aquele sicômoro bem alto? Vai até lá e depois dobra para a direita. Verás uma pequena praça com uma fonte e, depois dela, uma casa enegrecida pela fumaça. Lá mora o carpinteiro. Para lá da casa dele, passa a estrada. Não há erro. Adeus.
– Adeus. Foste bom, e Deus te consolará.
O pastor vai indo por seu caminho, e Jesus perto dele. Aos lados do primeiro vão as ovelhas, e ao lado do segundo vão os apóstolos. São dois pastores, cada um no meio do seu rebanho.
482.8 Já vão indo separados, escondidos um do outro, por um grupo de casas que avança sobre a estrada mestra, por onde vai o pastor, e esta estradinha, que vai entrando em um pequeno bairro do povoado, o mais pobre de todos, a meu ver… silencioso e solitário… As pessoas são pobres e já estão em suas casas, e as portas semi-abertas estão deixando ver o fogo das cozinhas… A tarde vem chegando com as sombras do crepúsculo.
– Pararemos somente fora do povoado –diz Judas–. Estou vendo lá longe casas nos campos.
– Não. É melhor andar para a frente.
Os pareceres são diferentes.
Chegaram à fonte. Todos se dirigem para ela, a fim de se lavarem e encher seus frasquinhos. Também o carpinteiro está lá. Ele está acabando de fechar sua oficina preta. Aí está a estrada que vai para os campos… E por ela eles entram.
Mas ouve-se um grito que vem de longe, lá do povoado:
– Rabi! Rabi! Meu filho! Moradores! Vinde! Onde está o Peregrino?
– Mas estão nos procurando, Senhor! Que foi que fizeste?
– Vamos correr. Se chegarmos àquele bosque, ninguém nos verá mais.
Põem-se a correr através de um prado, que está coberto pelo último feno que foi ceifado, chegam a uma pequena elevação do terreno, sobem por ela, desaparecem do outro lado, mas acompanhados pelas vozes, que agora são mais numerosas e pelas pessoas, que agora se espalharam por fora do povoado, mais chamando do que olhando, porque as sombras do crepúsculo já fazem desaparecer muitas coisas. E elas já estão chegando aos pés da elevação.
– Era o Rabi que esteve em Siquém2, eu vo-lo digo. Não podia ser outro, senão Ele. Ele curou o meu Rubens. E eu não o reconheci. Rabi! Rabi! Deixa que eu te venere. Dize-me onde é que estás escondido!
Somente o eco é que responde: “Abi! Abi! Abi!” e muda a última palavra em “céus”.
– Mas Ele não pode estar longe –diz o ferreiro–. Ele passou pela minha frente, pouco antes que tu viesses…
– No entanto, Ele não está. Estás vendo como na estrada agora não há ninguém. Ele devia vir por esta.
– Não estará Ele no bosque?
– Não, Ele estava com pressa…
Depois ele procura a ajuda de seu cão, e o excita: “Busca! Busca!”, e, por um momento parece que o cão está podendo achar o esconderijo, porque ele se dirige para o bosque, depois de ter farejado bem o prado. Mas depois o animal para, como que impedido, com uma pata levantada, o focinho virado para cima… e depois atraído, não sei por que coisa, sai dali uivando em direção oposta, e as pessoas vão atrás dele, correndo.
482.9 – Oh! Louvado seja o Senhor! –exclamam os apóstolos, dando um suspiro de alívio, e não podem conter-se, que não digam ao Mestre:
– Mas, que foi que fizeste, Senhor!
E quase o censuram pelo que Ele fez:
– Tu sabes que não é bom que sejas notado, e Tu…
– Não devia Eu premiar uma fé? E não é bom que creiam estar Eu na estrada que vai de Dotaim para Pela? Não quereis talvez que eles não compreendam mais nada?
– É verdade. Tens razão. Mas, e se o animal te descobrisse?
– Oh! Simão! Pensas tu que quem impõe a sua vontade, mesmo à distância, às doenças e aos elementos, e expulsa os demônios, não possa impô-la a um animal? Agora procuremos chegar ao caminho, para lá da curva. Não nos verão mais. Vamos.
Quase tateando, vão indo pelo bosque da colina, até chegarem à estrada pequena, branca ao luar, que está começando, e longe do povoado que a colina esconde completamente.
1 promessa, que está em Gênesis 3,15 e que, antecipando a salvação, será chamada de “proto-evangelho” pela Igreja. Na promessa do Redentor (evidenciada aqui) é incluída a de sua Mãe (como se evidencia em 74.7 - 207.10 - 420.11 - 511.3 - 525.8 - 596.19).
2 o Rabi que esteve em Siquém, e para Sicar, que talvez fosse o subúrbio, em 142.4, 143-146 e 193.3/5.
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