247. 247. Maria Santíssima ensinaa Madalena sobre a oração mental.
8 de agosto de 1945.
247.1– Onde vamos terminar a nossa etapa, meu Senhor? –pergunta Tiago de Zebedeu, enquanto vão caminhando por uma garganta entre duas colinas muito verdes, e cultivadas da base até o alto.
– Terminá-la-emos em Belém da Galileia. Mas, nas horas mais quentes, pararemos no monte que fica acima de Meraba1. Assim teu irmão ficará feliz, mais uma vez, ao ver o mar –e Jesus sorri.
Depois, Ele termina:
– Nós homens podíamos ter andado mais, mas temos atrás de nós as discípulas, que nunca se queixam, mas que nós não devemos deixar que fiquem cansadas demais.
– Elas nunca se queixam, é verdade. Nós nos queixamos mais facilmente –admite Bartolomeu.
– E, no entanto, talvez estejam até menos acostumadas do que nós a este tipo de vida… –diz Pedro.
– Talvez seja porque elas gostem deste tipo de vida –diz Tomé.
– Não, Tomé. Elas o fazem com gosto, por amor. Podes crer que nem minha Mãe, nem as outras donas de casa, como Maria de Alfeu, Salomé e Susana, deixem de boa vontade o seu gênero de vida para virem pelos caminhos do mundo e pelo meio do povo. E Marta e Joana, quando esta também vier, não acostumadas ao cansaço, não o fariam de boa vontade, se o amor não as estimulasse. 247.2E, quanto à Maria de Magdala, só um poderoso amor é que lhe pode dar a força para sofrer esta tortura –diz Jesus.
– Por que lha impuseste, então, se sabes que é uma tortura? –pergunta-lhe Iscariotes–. Não é coisa boa para ela e não o é para nós.
– Nada mais do que a demonstração evidente e indubitável de sua mudança é o que podia persuadir o mundo. Seu afastamento do passado foi completo. É completo.
– Isto é o que vamos ver. É cedo ainda para se dizer isso. Quando transformamos em hábito um certo gênero de vida, dificilmente poderemos afastar-nos completamente dele. Amizades e saudades nos fazem voltar a ele –diz Iscariotes.
– Tu tens saudades, então, de tua vida de antes? –pergunta-lhe Mateus.
– Eu… não. Mas digo por dizer. Eu sou eu, um homem, amigo do Mestre e… Afinal, eu tenho em mim meios que me servem para persistir em meus propósitos. Mas ela é uma mulher, e que mulher! E, além disso, ainda que ela fosse bem firme, sempre é um pouco desagradável tê-la conosco. Se tivéssemos que encontrar rabis, sacerdotes ou grandes fariseus, podeis crer que não seria agradável para nós o comentário deles. Eu, só de pensar nisso, já me sinto envergonhado.
– Não te contradigas, Judas. Se realmente cortaste os pontos que te ligavam ao passado, por que tanto te preocupas por causa de uma pobre alma que quer acompanhar-nos para completar a sua transformação para o Bem?
– Ora, por amor, Mestre. Porque eu faço tudo por amor. Para contigo.
– Então, aperfeiçoa-te neste teu amor. Um amor, para ser verdadeiro amor, nunca há de ser exclusivista. Quando alguém sabe amar somente um objeto que ele ama, mostra que não está no verdadeiro amor. O amor perfeito ama, com as devidas gradações, a todo o gênero humano, e até os animais e os vegetais, as estrelas e as águas, porque vê tudo em Deus. Ama a Deus, como é de dever, e ama tudo em Deus. Olha que o amor exclusivista muitas vezes é egoísmo. Fica, pois, sabendo chegar a amar também aos outros por amor.
– Sim, Mestre.
O objeto daquela discussão continua, contudo, com as outras mulheres que estão perto de Maria, sem que esta pense que está sendo causa de tão grande discussão.
247.3Chegam ao povoado de Jafa, e o atravessam até o outro lado, sem que nenhum cidadão mostre desejo de acompanhar o Mestre ou de detê-lo.
Continuam depois, e os apóstolos estão inquietos, por causa da indiferença do lugar. Jesus procura acalmá-los.
O vale continua na direção oeste, e mostra lá no fim um outro povoado, situado junto à base de um outro monte.
Também este povoado, que eu ouço ser chamado de Meraba, está indiferente. Só alguns meninos se aproximam dos apóstolos, enquanto estão apanhando a água, que jorra de uma fonte límpida, ao lado de uma casa. Jesus os acaricia, perguntando-lhes os seus nomes, e os meninos perguntam o dele e quem é Ele, para onde vai, e que faz. Aproxima-se também um mendigo meio cego, já velho, encurvado, e estende a mão para receber a esmola, que de fato recebe.
A marcha recomeça com a subida de uma colina, que interrompe o vale e no qual ela despeja as águas dos seus pequenos riachos, agora reduzidas a uns fios d’água, ou somente a umas pedras queimadas pelo sol. Mas a estrada é boa, aberta a princípio por entre bosques de oliveira, e depois de outras plantas, que entrecruzam os seus ramos, formando uma galeria verde sobre a estrada. Chegam ao alto da colina, que é coroada por um sussurrante bosque de freixos, se não me engano. E lá eles se assentam para descansar e tomar algum alimento. E, com o alimento e o descanso, também gozam do prazer para as suas vistas, porque o panorama é muito bonito, com a cordilheira do Carmelo à esquerda de quem olha para o oeste, e no lugar onde termina a mesma cordilheira do Carmelo, aparece uma cordilheira muito verde, onde podem ser vistos todos os tons mais belos do verde. Aí vê-se o cintilar do mar, um mar aberto, sem fim, que se estende como pano agitado por leves ondinhas, que se movem para o norte, indo lavar as praias da ponta do promontório formado pela última ramificação do Carmelo, e sobem no rumo de Ptolomaida e de outras cidades, até se perderem de vista, em uma fina neblina, para os lados da Siro Fenícia. Mas não se vê o mar do lado sul do promontório do Carmelo, porque a cordilheira, mais alta do que a colina que nela se encontra, nos esconde a vista dele daqui2.
Passam as horas à sombra e à beira roçagante do bosque bem arejado. Uns dormem, outros falam em voz baixa, outros estão olhando. João se afasta dos companheiros, indo para o ponto mais alto possível, a fim de poder enxergar mais. Jesus vai pôr-se sozinho em um ponto de vegetação mais densa, para lá orar e meditar. As mulheres, por sua vez, retiraram-se lá para trás da cortina de uma ondulante madressilva, toda florida, e lá elas estão se refrescando em uma pequenina nascente, reduzida agora a um fio d’água, e que forma na terra um pequenino charco, sem chegar a formar um rio. Depois, as de mais idade já adormeceram, cansadas, enquanto a Virgem Maria, com Marta e Susana, conversam sobre suas casas, que estão longe, e Maria diz que gostaria de ter aquela bela moita, toda florida, para servir de veste à sua pequena gruta.
247.4Maria Madalena, que havia soltado os cabelos, não podendo resistir ao peso deles, recompõe-se de novo, e diz:
– Vou a João, agora que ele está com Simão, para olhar o mar com eles.
– Eu vou também –responde Maria Santíssima.
Marta e Susana ficam com as companheiras adormecidas.
Para chegarem ao ponto onde estão os dois apóstolos, elas devem passar por perto da amoreira selvagem, onde Jesus foi colocar-se sozinho para orar.
– Meu Filho acha seu descanso na oração –diz Maria em voz baixa.
E Madalena lhe responde:
– Creio que isso lhe seja até indispensável, ir ficar sozinho, para poder conservar o maravilhoso domínio que Ele tem e que o mundo submete a duras provas. Sabes, Mãe? Eu fiz tudo o que me disseste. Todas as noites eu me ponho sozinha, por um tempo mais ou menos longo, para poder restabelecer em mim mesma a calma que muitas coisas perturbam. Sinto-me muito mais forte depois.
– Agora te sentes forte. Mais tarde te sentirás feliz. Podes crer, Maria, que, tanto na glória, como na dor, tanto na paz, como na luta, nosso espírito sente a necessidade de mergulhar-se todo inteiro no oceano da meditação para reconstruir o que o mundo e as vicissitudes abatem, e para criar novas forças, a fim de poder subir sempre. Em Israel, nós usamos e abusamos da oração vocal. Não quero dizer que esta seja inútil, ou que desagrade a Deus. Mas digo, sim, que é sempre mais útil para o espírito a elevação mental para Deus, a meditação, na qual, contemplando sua divina perfeição e a nossa miséria, ou a de tantas pobres almas, não para criticá-las, mas para compadecer-nos delas, e compreendê-las, e para termos um reconhecimento para com o Senhor, que nos amparou, a fim de não nos deixar caídas, e assim chegamos a orar realmente, isto é, a amar. Porque a oração, para ser mesmo oração, deve ser amor. Porque, sem isso, ela é apenas um abrir de lábios, do qual a alma está ausente.
247.5– Mas será lícito falar com Deus, quando temos os lábios ainda sujos por tantas palavras profanas? Eu, nas minhas horas de recolhimento, que eu faço como me ensinaste, tu, meu apóstolo dulcíssimo, faço violência ao meu coração que quereria dizer a Deus: “Eu te amo…”
– Não! Por quê?
– Porque me parece que eu faria uma oferta sacrílega, ao oferecer-lhe o meu coração…
– Não faças assim, minha filha. Não o faças. O teu coração está, antes de tudo, consagrado de novo pelo perdão do Filho, e o Pai só vê este perdão. Mas, mesmo que Jesus não tivesse ainda perdoado, e tu estivesses em um lugar ermo e desconhecido, e gritasses a Deus: “Eu te amo, Pai, perdoa as minhas misérias, porque eu sinto desgosto com elas pela dor que te causam”, podes crer, Maria, que Deus te absolveria por si mesmo, e que lhe seria querido o teu grito de amor. Abandona-te, abandona-te ao amor. Não faças violência a ele. Deixa, antes, que ele se torne violento como um incêndio abrasador. O incêndio consome tudo o que é material, mas não destrói nem uma molécula de ar. Porque o ar é incorpóreo. Pelo contrário, ele o purifica dos detritos minúsculos, que os ventos semeiam, e o torna mais leve. Assim faz o amor ao espírito. Consumirá mais depressa a parte material do homem, se Deus o permitir, mas não destrói o espírito. Pelo contrário, até lhe acrescenta vitalidade, torna-o puro e ágil para as ascensões até Deus. 247.6Estás vendo lá João? É mesmo um rapaz. Mas é também uma águia. É o mais forte de todos os apóstolos. Porque ele compreendeu o segredo da fortaleza, da formação espiritual: a meditação amorosa.
– Mas ele é puro. Eu… Ele é um rapaz. Eu…
– Olha, então, para Zelotes. Já não é um rapaz. Ele viveu, lutou, odiou. E ele o confessa sinceramente. Mas aprendeu a meditar… E ele também está bem no alto. Estás vendo? Os dois se procuram. Porque se sentem iguais. Eles chegaram à mesma idade perfeita do espírito, e com o mesmo meio: a oração mental. Por ela o menino se tornou viril em seu espírito, e por ela o que já está velho e cansado voltou a uma virilidade forte. E sabes de um outro que, sem ser apóstolo, será, e até já está muito adiantado, por sua tendência natural para a meditação que, desde que se tornou amigo de Jesus, tornou-se nele uma necessidade espiritual? O teu irmão.
– O meu Lázaro?… 247.7Oh! Mãe! Dize-me, tu, que sabes tantas coisas, porque Deus te mostra: como Lázaro me tratará na primeira vez que nos encontrarmos? Antes, ele se calava, desdenhoso. Mas assim fazia, porque eu não suportava observações. Eu fui muito cruel para com os meus irmãos. Agora eu compreendo. Agora, que ele sabe que pode falar o que me dirá? Eu temo sua repreensão aberta. Oh! Certamente ele me fará lembrar de todos os seus sofrimentos de que eu fui causadora. Eu queria ir voando até Lázaro. Mas tenho medo disso. Primeiro, eu ia lá. Mas nem mesmo as lembranças de minha mãe morta, as suas lágrimas, ainda vivas nos objetos por ela usados, lágrimas derramadas por mim, por minha culpa, me perturbavam. O meu coração era cínico, desavergonhado, fechado a todas as vozes, que não fossem as do mal. Mas agora, eu não tenho mais aquela malvada força do mal, e tremo… Que me fará Lázaro?
– Ele abrirá os braços, e te chamará, mais com o coração do que com os lábios, “irmã querida.” Ele está tão formado nas coisas de Deus, que não pode deixar de agir desse modo. Não tenhas medo. Ele não te dirá nem uma palavra sobre o passado. Ele, é como se eu o estivesse vendo, está lá em Betânia, e para ele já estão sendo muito longos os dias de espera. Ele te espera, para apertar-te ao coração. Para saciar o seu amor de irmão. Tu só tens que amá-lo, como ele te ama, para experimentares a doçura por terdes nascido do mesmo seio.
– Eu o amaria, ainda que ele me censurasse. Eu o mereço.
– Mas ele somente te amará. Somente isso.
247.8Acabam de chegar a João e Simão, que estão falando das futuras viagens, e que se levantam, reverentes, quando chega a Mãe do Senhor.
– Estamos vindo nós também para louvarmos o Senhor pelas belas obras de sua criação.
– Mãe, já viste o mar?
– Oh! Eu já o vi. E ele era então menos perturbado em sua tempestade do que meu coração, e menos salgado do que o meu pranto, quando eu ia fugindo, ao longo do litoral de Gaza, para o Mar Vermelho, como meu Menino entre os braços e o medo de Herodes nas costas. Eu o vi na volta. Mas aí já era a primavera, na terra e no meu coração. A primavera do retorno à pátria. E Jesus batia as mãozinhas, feliz por ver coisas novas. E eu e José também estávamos felizes. Porque a bondade do Senhor nos havia tornado menos duro o exílio em Matareia, e de mil modos.
A conversação deles continua, enquanto em mim cessa a capacidade de ver e de ouvir.
1 Meraba, aqui e mais embaixo (em 247.3), poderia se ler também Merala no manuscrito original.
2 dele daqui. Segue o desenho de MV sobre o qual se lê os nomes de Sicaminon e Meraba.
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