462. 462. Discurso e cura nas nascentes termaisde Emaús de Tiberíades.
26 de julho de 1946.
462.1 O lago parece muito com uma pedra sardônica, encastoada por entre as colinas, pouco visível sob a claridade das estrelas, após o ocaso da lua. Jesus está sozinho no quiosque verde com a cabeça reclinada sobre os antebraços pousados sobre a mesa, perto da lâmpada, que está dando suas últimas palpitações. Mas Ele não está dormindo. De vez em quando, levanta a cabeça, olha de novo as folhas que estão desdobradas sobre a mesa, conservadas estendidas pelo peso da lâmpada posta por sobre elas e pelos antebraços postos por baixo, reclinando depois de novo a cabeça.
O silêncio é completo. Também o lago parece estar dormindo, em uma calmaria sufocante. Depois, ao mesmo tempo, um sussurro de vento começa por entre as copas, um bofetão é dado pela onda contra a praia. Há uma mudança na natureza, eu diria, um ranger de elementos que se despertam uns aos outros. O que ainda não era luz, antes do romper da aurora, já se revela agora como uma luz, ainda que os olhos não a percebam por enquanto, ao lançarem seus olhares por sobre o jardim deserto. É o espelho do lago que dá início a esse renascer da luz, por que sua cor sardônica negra, plúmbea, torna-se mais clara e, lentamente, começa a refletir o céu, que já vai clareando, que do plúmbeo vai passando para um cinzento-ardósia e em seguida para um opala e, por fim, ei-lo todo azulado, formando com suas águas um espetáculo de Paraíso.
462.2 Jesus põe-se de pé, apanha as folhas, pega a lâmpada, que se apagou ao primeiro sopro da brisa, e se dirige para casa. Encontra uma das servas, que se inclina. Depois um jardineiro, que ia se dirigindo para os canteiros, e com o qual troca saudações, entra no átrio onde os outros servos estão fazendo suas tarefas.
– A paz esteja convosco. Poderíeis chamar os meus?
– Eles já se levantaram, Senhor. E o carro para as mulhertes já está pronto. Joana também já se levantou. Ela está no átrio interno.
Jesus vai, atravessando a casa, ao átrio que fica ao lado da estrada. E, de fato, lá estão todos reunidos.
– Vamos. Minha Mãe, o Senhor esteja contigo. Maria, também contigo, e a minha paz vos acompanhe. Adeus, Simão. Leva a minha paz a Salomé e aos meninos.
Jônatas abre o pesado portão. Na estrada está o carro coberto. A rua, por entre as casas, ainda não está bem exposta à luz, e não há ninguém nela. As mulheres sobem com o seu parente e o carro se põe a caminho.
– Vamos logo, nós também. André, vai correndo tu na frente até o lugar onde estão as barcas, dize aos empregados que vão encontrar-se conosco em Tariqueia.
– Como? E nós vamos a pé? Chegaremos tarde…
– Não importa. Ide à minha frente, enquanto Eu vou despedir-me de Joana.
Os apóstolos se põem a caminho…
– Eu te acompanho, Senhor. Ou melhor: eu irei à tua frente, porque terei que vir com a barca.
– Terás que esperar muito tempo…
– Não tem importância. Deixa-me ir.
– Seja como queres. Cusa não está?
– Ele não voltou para casa, Senhor.
– Tu lhe dirás que Eu o saúdo e exorto para que seja justo. Acaricia os meninos por Mim. E… tu, que compreendeste bem o teu Mestre, procura convencer Cusa de que ele está errado, e, com ele, todos os que querem fazer do Cristo um rei temporal.
Também Jesus sai para a estrada e logo alcança os apóstolos.
– Vamos pela estrada de Emaús. Muitos infelizes vão às fontes, uns para procurar cura, outros para conseguir socorro.
– Mas nós não temos nem um trocado… –observa Tiago de Zebedeu.
Jesus não responde.
462.3 As ruas vão-se enchendo de gente, de um minuto para o outro, com duas classes de pessoas muito diferentes. Isto é, de hortelãos, vendedores, escravos, populares, que se apressam para chegar à feira, por um lado, e, por outro, os ricos gozadores que, em liteiras, ou montados a cavalo, que vão indo, também. Eles, para as fontes, que eu suponho serem de águas termais, à procura da cura.
Tiberíades deve mesmo ser um pouco cosmopolita, porque entre os turistas, veem-se pessoas de diversas nacionalidades. Há romanos, gordos e pesados, por causa de sua vida ociosa e viciada, os gregos embelezados, e certamente não menos licenciosos do que os romanos, mas com uma máscara deixada neles pelo vício, diferente na expressão da dos latinos, das pessoas da costa fenícia, dos hebreus em sua maior parte anciãos, as modulações das vozes, as línguas, as vestes diferentes e um ou outro rosto de homem ou de mulher doentes, ou as feições cansadas das patrícias… e até rostos de gozadores dos dois sexos, que vão à frente em grupos, uns a cavalo, perto das liteiras, outros nas liteiras, gracejando, discutindo sobre assuntos fúteis, fazendo apostas…
A estrada é bonita. Uma avenida sombreada que une os entremeios dos fustes das colunas, deixa ver o lago, de um lado, e os campos, do outro. O sol que já surgiu, reaviva as cores das águas e das árvores.
Muitos se viram, a fim de olhar para Jesus, e um sussurro o acompanha. Há palavras de admiração por parte das mulheres, sátiras da parte dos homens, algumas vezes até escárnios, outras vezes resmungos, e, outras ainda, a súplica de algum sofredor a quem Jesus acolhe, as únicas acolhidas entre as muitas, às quais concede graças.
Quando Ele torna ágeis de novo os membros anquilosados pela artrite de alguém de Tiro, a indiferença irônica de muitos gentios fica estremecida.
– Eh! –exclama um velho romano, que tem um rosto e uma papada de frequentador de orgias–. Eh! Curar assim é bom. Eu vou chamá-lo.
– Para ti, Ele não faz, velho Sileno. Que irias fazer, se ficasses curado?
– Iria gozar de novo.
– Então, será inútil ir procurar o Nazareno.
– Eu vou e aposto o que tenho que…
– Não apostes. Tu perdes.
– Deixa-o apostar. Ainda está bêbado. Vamos gozar com o seu dinheiro.
462.4 O velho cambaleante desce da liteira e alcança Jesus que está atendendo a uma mãe hebreia, que lhe fala de sua filha, uma menina muito enfraquecida, por ela levada pela mão.
– Não tenhas medo, mulher. Tua filha não morrerá. Volta para tua casa. Não a leves às termas. Lá ela não adquiriria a saúde do corpo e perderia a pureza da alma. São lugares licenciosos e degradantes.
E diz isso bem alto, de tal modo que todos o ouçam.
– Eu tenho fé, Rabi. Vou voltar para minha casa. Abençoa às tuas servas, Mestre.
Jesus as abençoa e vai tomar seu caminho. Mas o romano o puxa pela veste:
– Cura-me –ordena ele.
Jesus olha para o homem e pergunta:
– Onde?
Os romanos, e com eles uns gregos e fenícios se reuniram, sorriem escarninhamente, e estão apostando. Uns israelitas se afastam de lá, murmurando: “Profanação! Anátema!”, e outras palavras desse gênero, mas pararam, cheios de curiosidade…
– Onde? –pergunta Jesus.
– Por toda parte. Estou doente… Ih! Ih! Ih!
Não sei se ele está rindo ou chorando, de tão estranho que é o ruído que lhe sai da boca. Parece que aquela gordura balofa que se foi acumulando nele, depois de anos de vício, lhe esteja oprimindo até as cordas vocais. O homem vai contando as suas doenças e diz qual o seu medo de morrer.
Jesus olha para ele com severidade e responde:
– Tens razão de ter medo da morte, porque mataste a ti mesmo.
E lhe vira as costas. O homem procura segurá-lo de novo pelas vestes, enquanto os presentes escarnecem dele. Mas Jesus se livra daquele embaraço, e vai-se embora.
– Polegar virado, Apio Fábio! Polegar virado! O chamado rei dos hebreus não te agraciou. Dá-nos tua bolsa. Perdeste a aposta.
Gregos e romanos fazem um grande barulho, rodeando o burlado que, com um empurrão, os afasta, se põe a correr quanto pode, pois, obeso como ele está, e tendo sungado as vestes, vai cambaleando sob o peso de toda aquela sua carga de gordura. Mas ele tropeça e cai na poeira, no meio das gargalhadas dos seus amigos, que o arrastam para perto de uma árvore, contra cujo tronco o bêbado se agarra, chorando, com aquele choro galhofeiro, próprio dos bêbados.
462.5 Com certeza as fontes já estão próximas, porque a multidão vai aumentando cada vez mais, dirigindo-se de diversas estradas para um mesmo lugar. O cheiro das águas sulfurosas já está pesando no ar.
– Vamos descer para a margem a fim de evitar esses imundos?
–pergunta Pedro.
– Nem todos são imundos, Simão. Muitos de Israel também estão no meio deles –diz Jesus.
Chegaram às termas. Uma série de edifícios brancos de mármore, separados por avenidas e virados para o lago, mas separados dele por uma espécie de vasta esplanada arborizada e, sob a sombra das árvores passeiam, os que esperam sua vez para o banho, ou para a reação depois dele. Algumas cabeças de medusa feitas de bronze, salientes sobre o muro de um edifício, lançam água quente em um tanque de mármore, que é branco por fora, mas avermelhado no interior, como se estivesse recoberto de ferrugem. Muitos hebreus vão às fontes e, com uns cálices, bebem a água mineral. Eu vejo somente os hebreus fazendo isso, e só neste pavilhão. Penso estar adivinhando que os israelitas observantes terão querido um lugar próprio para evitar contatos com os gentios.
Muitos doentes estão sobre padiolas à espera da cura, muitos, vendo Jesus, gritam:
– Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim.
Jesus se dirige a eles. Paralíticos, artriticos, anquilosados, fraturados, cujos ossos não se soldam, doentes de anemias, das glândulas, mulheres envelhecidas antes do tempo, meninos tornados adultos antes do tempo. E depois, por baixo das árvores, mendigos que se lamentam, pedindo esmola.
Jesus para perto dos doentes. Espalha-se a notícia de que o Rabi vai falar e curar. As pessoas, mesmo as de outras raças, se aproximam para ver.
Jesus olha ao redor de Si. Sorri, ao ver sair, ainda com os cabelos úmidos pelo banho de ducha, o grego que lhe foi mandado por Síntique. O Mestre eleva a voz para fazer-se ouvir:
– A misericórdia abre as portas para a graça. Sede misericordiosos e obtereis misericórdia. Todos os homens são pobres em alguma coisa: uns em moedas, outros em afetos, outros na liberdade, outros na saúde. E todos os homens têm necessidade da ajuda de Deus, que criou o universo, que pode, como único Rei, socorrer aos seus filhos.
Ele faz uma pausa, como para dar tempo aos ouvintes de escolherem se vão querer ouvir, ou se querem ir aos banhos. Mas os banhos são deixados de lado pela maior parte. Israelitas ou gentios se aglomeram para ouvir, e alguns romanos escondem sua curiosidade com uma brincadeira, dizendo:
– Hoje não falta nem um reitor para fazer deste lugar umas termas romanas.
O grego Zenon abre ala no meio da multidão, gritando:
– Por Zeus! Eu estava para ir a Tariqueia, e te encontro aqui!
462.6 Jesus continua:
– Ontem me foi dito: “É difícil fazer isso que Tu fazes.” Não. Não é difícil. A minha doutrina se fundamenta no amor, e o amor não é dificil se ter. Que é que prega a minha doutrina? O culto de um verdadeiro Deus, o amor ao nosso próximo. O homem, esse eterno menino, tem medo das sombras, segue as quimeras, porque não conhece o amor. O amor é sabedoria e luz. É sabedoria, porque desce para instruir. É luz porque vem para iluminar. Lá onde há luz, cessam as sombras, onde há sabedoria, morrem as quimeras. Entre os que escutam há gentios. Esses dizem: “Onde está Deus?” Dizem: “Tu me garantes que o teu Deus seja o verdadeiro?” Dizem: “Com que nos garantes que és verdadeiro em tuas palavras?” Não são somente os gentios que dizem isso. Outros também me perguntam: “Como podes fazer estas coisas?” Com o poder que me vem do Pai, que colocou todas as coisas a serviço do homem, sua criatura predileta, e que me manda instruir os homens, meus irmãos. Pode o Pai, que deu às visceras deste solo o poder de tornar medicinais as águas das fontes, ter delimitado o poder do seu Cristo? E quem como Deus, a não ser o Deus verdadeiro, pode conceder ao Filho do homem, que faça os prodígios que recriam os membros destruídos? Em que templo de ídolos já se viu cegos recuperando a vista, paralíticos em movimento, em qual deles já foram vistos moribundos que, diante do “eu quero” de um homem, surgem mais sãos do que os sãos? Pois bem. Eu, para dar louvor ao Deus verdadeiro, para fazer que Ele por vós seja conhecido e louvado, digo a estes aqui reunidos, seja qual for a sua raça e religião, que terão a saúde que vieram pedir às águas, mas a obterão de Mim, que sou a Água viva, que dou a vida do corpo e do espírito a quem crê em Mim e pratica a misericórdia com reto coração. Eu não peço coisas difíceis. Peço um movimento de fé e um de amor. Abri o coração para a fé. Abri o coração para o amor. Dai para terdes. Dai aos pobres moedas para terdes a ajuda de Deus. Começai a amar os irmãos. Sabei ter misericórdia. Dois terços de dentre vós estão doentes por causa do egoísmo e da concupiscência. Acabai com o egoísmo, refreai a concupiscência. Ganhareis em saúde física e em sabedoria. Abatei a soberba. E sereis beneficiados pelo verdadeiro Deus. Eu vos peço a esmola para os pobres, depois vos farei o presente da saúde.
462.7 Jesus levanta uma aba do manto e a estende para receber as esmolas. São muitas as moedas que os pagãos e os israelitas se apressam em jogar-lhe. E não são somente moedas é que lhe são dadas, mas também anéis e outras jóias jogadas despreocupadamente pelas mulheres romanas que, ao chegarem perto de Jesus, ficam olhando para Ele, e algumas murmuram certas palavras, que Jesus aprova ou responde brevemente.
A oferta terminou. Jesus chama os apóstolos para que conduzam até Ele os mendigos e, com a mesma rapidez com que aquele pecúlio se havia formado, eis que ele desaparece até à última moeda. Sobram as jóias, que Ele devolve às doadoras, porque no lugar não há quem as adquira, trocando-as por moedas. E, para consolar as doadoras, Ele lhes diz:
– O desejo tem o mesmo valor que o ato. A oferta feita é preciosa, como se tivesse sido distribuída, porque Deus vê o pensamento do homem.
Depois, Ele se põe de pé, e grita:
– De quem me vem o poder? Do verdadeiro Deus. Pai, faze que resplendas no teu Filho. Em teu Nome, Eu ordeno às doenças: ide-vos embora!
Já são muitas as vozes dos doentes que se levantam sãos, dos aleijados que se põem de pé, dos paralíticos que se movem, dos que enchem-se de vida e cor os rostos, dos olhos que agora brilham, dos gritos de hosana, das felicitações entre os romanos, entre os quais há duas mulheres e um homem que ficaram sãos e querem imitar os curados de Israel, não conseguindo ainda humilhar-se como os hebreus, beijando os pés do Cristo, se inclinam, pegam uma das abas do manto e a beijam.
Depois, Jesus se afasta dali, vai saindo do meio do povo. Mas não consegue sair, porque, ao menos um ou outro gentio, ou algum hebreu ainda culpavelmente obstinado, todos o vão acompanhando pela estrada que vai para Tariqueia.